Na manhã seguinte foi o primeiro dia de aula na escola que tia Justina havia arrumado para ela. Telma teve que concordar, era uma escola melhor do que aquela que ela frequentava em sua cidade. Ao se aproximar caminhando pela rua larga, não viu nenhum risco no muro. Lá dentro as salas eram amplas e não havia nenhuma carteira quebrada. Olhou os colegas e não ficou certa de cara quanto à impressão que havia tido. As meninas pareciam metidas. Em compensação os garotos eram bonitos, mas não olhavam para ela. Telma não teve muito tempo para apresentações, pois a sineta tocou e todos correram para as salas.

Lá pelo meio da segunda aula, Telma começou a sentir um grande cansaço. Compreendia o porque: fazia muitos dias que não ia à escola! Estava desacostumada. Contemplou com desalento os colegas ao lado, todos bem dispostos, e por um instante a imagem de sua mãe surgiu-lhe na memória, dizendo: que vergonha! Mas Telma estava disposta a superar. Agora que, bem ou mal, tinha vida nova, ia saber se virar e não ia se deixar ser passada para trás. E depois, a escola era boa e até os professores eram bonitos. Quando enfim houve um intervalo, olhou ao redor, disposta a desbravar aquele novo ambiente.

— Oi, eu sou a Telma!

— Nooossa onde é que você estava, menina, que eu nunca te vi!

— Eu cheguei anteontem, esse é meu primeiro dia.

— Ah, então você se mudou.

— Foi.

Ficou dizendo uma abobrinhas. As meninas pareciam boazinhas, mas Telma não sabia se podia confiar nelas. Quando uma delas falou não sei o que de igreja, Telma se afastou, não estava gostando do papo. Olhou os garotos: lá no fundo havia um que era do tipo que ela gostava, jeito de quem frequentava baile funk, mas ele estava cercado de meninas que falavam feito matracas. Telma já estava sentindo saudades dos bailes funk, de se sentir poderosa e cobiçada pelos garotos. É verdade que sua decisão de ir morar com a amiga na favela fora uma monumental besteira, mas ela agora estava vacinada. Tomou uma resolução: ia dar a volta por cima, mostrar quem era.

Acabou fazendo amizade com duas ou três que pareciam-lhe valer a pena. No caminho de volta para casa já se sentia bem mais poderosa e confiante, e traçava mil planos que não tinha a menor ideia de como poderia concretizar. Mas o frio do ladrilho em seus pés fez ela voltar à realidade: as roupas da escola retornaram ao armário da tia, e agora ela estava de vestidinho e descalça, como era norma para quem ia de castigo para a casa de tia, ocupada em passar uma pilha de roupas. Eduardo passava lá de vez em quando e conversava com ela, sempre curioso e querendo saber o que acontecera para ela vir parar ali.

— Fiz muita bobagem. Um dia eu te conto.

— Ahh eu já sei de tudo!

Telma tinha dúvidas de que ele sabia mesmo de tudo, o primo era muito malicioso. Mas no fundo gostava de ter alguém para conversar. Depois de dar conta à tia de seu serviço, escutou dela:

— Chega de trabalho agora, vai para o seu quarto estudar!

Telma achou estranho que alguém a mandasse estudar quando ela não estava na escola. Foi para o quarto pensando o que ia fazer, e estudar não estava entre as opções. Ainda estava pensando quando a tia abriu a porta sem avisar.

— Conta o que você deu na escola hoje!

Surpresa, Telma contou quais aulas tivera e o que o professor estava dando. A tia sorriu e puxou um livro dela.

— Então tem esses exercícios para fazer!

Telma concluiu que definitivamente não era mais dona de seu tempo. Tinha alguém que mandava nela. Mas vida nova é vida nova, pensou, agora é seguir em frente. Depois de ver que acertava a maioria dos exercícios, acabou concluindo que estudar não era tão mal assim. Depois de terminar, deixou-se ficar na cama até a hora do jantar e pôs-se a enviar mensagens no celular para as novas amigas.