Funk-se Telma!
10 Sentindo o terreno
Telma desligou o telefone depois de responder às mesmas perguntas de sempre da mãe. Sim, estava indo bem na escola. Sim, estava obedecendo a tia. Não, não estava pensando em besteira. Não se sentiu estressada, estava mais segura agora que estava sentindo o terreno e reconhecendo onde pisava. Estranhara muito de início ter que obedecer a uma agenda estrita, hora para estudar, hora para fazer tarefas domésticas, mas uma vez que cumpria com o que tia Justina mandava, era deixada livre. Podia ver TV e utilizar o computador tal como os demais moradores da casa, só que ao contrário destes, tinha que pedir licença antes. Estava também acostumada com o pessoal da casa, o ir e vir de tios, primos e noras, de alguns ela se lembrava da infância, outros eram desconhecidos. Eles mal falavam com ela, que quase sempre estava ocupada com alguma tarefa; além da tia o único que conversava regularmente com ela era o primo Eduardo, sempre malicioso, mas às vezes conseguia fazer Telma rir.
O que ainda incomodava Telma era não poder sair quando quisesse. De fato, não podia nem vestir o que quisesse, pois suas roupas estavam no armário da tia. Mas aquela semana a tia elogiara o seu comportamento, e prometera deixa-la sair no sábado. Ela já havia dito sim ao convite de Suzana para a festa no clube, mesmo sem saber se poderia ir, e agora esperava ansiosamente que a tia retomasse o assunto.
— Então, você quer ir nessa festa. Que clube é esse?
Telma disse o nome. Ela mesma não o conhecia, mas a tia pareceu satisfeita. Fez mais umas perguntas sobre com quem iria, quem iria trazê-la de volta, e depois de alguns segundos de suspense respondeu:
— Eu vou começar a te soltar a rédea. Mas você vai ter que fazer a sua parte, viu? Eu estou confiando em você! Onze e meia quero você em casa!
Telma foi contente falar no telefone com Suzana a fim de acertar os detalhes. Lembrou-se das vezes em que saíra sem nem dizer aonde ia e só voltava quando queria para a fúria da mãe, mas agora recebia aquela licença da tia como uma benção. Quando chegou a hora, a tia lhe deu para vestir uma calça jeans e uma camisa colante de manga comprida, não era exatamente aquela a roupa que Telma esperava, mas não estava em posição de discutir. De qualquer modo, suas roupas preferidas haviam ficado na casa da mãe. No carro, Telma estava contente em respirar o ar da noite, e falava sem parar com uns garotos que estava conhecendo naquele momento. Uma das colegas comentou:
— Você fica muito enfurnada na casa da sua tia, menina...
Telma sorriu sem jeito. Tinha procurado manter segredo sobre a finalidade de sua presença ali, mas tinha a impressão de que o pessoal já estava sabendo.
O clube era um lugar bem arejado, e Telma olhou ao redor à procura de gente interessante. Estava em uma rodinha com Suzana e outras colegas, mas achava aquele pessoal meio chato. Ao passar rumo a cantina para pegar bebida, sentiu alguém tocar seu ombro.
— Essa é a Telma, garota nova! Vem falar com a gente!
Era Elaine, uma colega muito popular que falava com todo o mundo, mas Telma tinha um certo pé atrás com ela. No mesmo grupinho estava Geovani, um garoto com colar, pulseira e boné incrementado que Telma achava que tinha a ver, por isso parou para conversar. O problema era que Elaine falava sem parar e não dava uma brecha. Será que Josias tinha mesmo olhado para ela com o rabo do olho, ou havia sido impressão. Súbito, começou a tocar um funk que Telma gostava na quadra. Não tinha gostado nem um pouco do estilo de música daquele clube, mas pelo visto havia entrado um novo DJ.
Estremece quando ela desce
Batendo a bunda no chão
Depois tocou outro ainda mais pancadão, e Telma sentiu ressurgir dentro dela aquele frenesi que a acompanhava quando ia aos bailes funk. Achava-se bastante ridícula naquelas roupas, mas não resistiu: foi para a quadra, e não demorou, estava tocando a calça jeans no cimento. Sentiu os olhos do pessoal sobre ela.
Cheguei chegando bagunçando a zorra toda
E que se dane eu quero mais é que se exploda
Poderosa! Podia ver as colegas olhando-a admiradas, algumas até tentaram acompanha-la, mas muito sem jeito. E de repente, lá estava Josias de frente para ela, entrando no ritmo. Vitoriosa, Telma levou-o para um canto e começaram a conversar. Mas uma olhada no relógio fez ela cair na real: não podia perder a carona! Disse uma desculpa furada, a primeira que lhe ocorreu, mas tacou-lhe um belo beijo na boca e saiu com o número de seu celular.
— Sete minutos atrasada, menina! — Disse tia Justina — Eu vou deixar dessa vez. Mas é só dessa vez, hein?
Telma não ligou. Tinha a cabeça nas nuvens.
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