— Isso aí mulé, agora eu estou na vida loka!

Telma não deixou de notar a expressão de surpresa da amiga, que por certo não acreditara em sua intenção de topar a proposta que fizera. Quando conheceu Edilene em outro baile funk e mais uma vez se queixara da mãe, ouviu dela a proposta de irem morar juntas. Edilene era pouco mais velha que ela, mas já vivia com um rapaz ali mesmo na favela, e dizia que tinha uma vaga para Telma também, se ela quisesse. Telma desejava ardentemente ter a independência da amiga, e agora tinha criado coragem, subira sozinha as vielas e estava ali para o que desse e viesse.

— Agora eu quero dançar!

Telma colocou o short e a miniblusa mais provocantes que tinha na valise, e logo estava na quadra, esforçando-se para sacudir os quadris o máximo que podia.

E a bunda tem vida própria olha o que eu vou fazer

Vou sentar, e vou quicar para você

Estremece quando ela desce

batendo a bunda no chão

Tocou o traseiro no cimento da quadra várias vezes, e sentiu-se poderosa sendo apalpada por aqueles garotos desconhecidos. Dançou até botar para fora todas as frustrações do dia, não pensando em mais nada, nem na mãe, nem na irmã e nem no irmão. Edilene e Valter, o parceiro, olhavam rindo ela dançar até cair no chão, literalmente. Depois a levaram para casa e a acomodaram em um colchonete a um canto.

Quando Telma acordou no dia seguinte, o sol já ia alto e não havia ninguém na casinha precária, parecendo já estar caindo de velha antes de ficar pronta, que fazia esquina em uma viela. Por uma janela se via uma bela paisagem, por outra o bloco compacto dos barracos. Procurou uma bica de água para lavar o rosto quando Valter e Edilene chegaram trazendo pão. Estavam tão bem humorados quanto no dia anterior. Esquentaram um café e logo estavam conversando animadamente. Telma admirava-se da total ausência de compromisso naquele meio. Não havia horários, ninguém tinha que ir à escola, ninguém tinha que ir ao trabalho. E não havia ninguém para manda-la arrumar o quarto, varrer o chão ou lavar louça.

— Então eu posso ficar aqui. Não vou incomodar não?

— Daqui a pouco você vai arrumar alguém, o que não falta aqui na favela é homem HAHA

Depois Edilene e Valter saíram sem dizer aonde iam, e Telma deleitou-se de ler as mensagens desesperadas em seu celular, a mãe, os irmãos e a família inteira doidos atrás dela.