Os dias se passavam e Telma não conseguia disfarçar aquela sensação de desconforto, de quem sente falta de alguma coisa de que está acostumada, de quem deveria ter feito alguma coisa mas não fez. A mãe não estava mais lá para dar-lhe ordens, nem os irmãos para encher o saco, no entanto, Telma não queria admitir para si mesma mas já começava a sentir saudades deles. Não ia mais à escola, não arrumava mais a casa nem lavava a louça — o problema era que que ninguém mais arrumava nada nem lavava louça, de modo que a casa estava sempre uma bagunça. Edilene e Valter volta e meia saíam sem avisar aonde iam nem quando voltariam, e Telma passava até fome esperando eles voltarem, pois comida ali só havia quando eles traziam alguma coisa da rua.

Telma suspirou e pensou em dar uma volta para distrair, mas logo desistiu. Não gostava de caminhar por aquelas vielas malcheirosas onde as pessoas olhavam esquisito para ela, uns com ar hostil de quem vê uma invasora em seu território, outros com ar malicioso de quem vê carne nova no pedaço. Além do que seu dinheiro tinha acabado e ela não podia comprar sequer um saco de biscoito na birosca.

— Hoje vai ter pancadão, o dono do morro mandou avisar! — Anunciou Edilene, chegando de repente. Telma sabia que o dono do morro era um traficante cujo nome volta e meia saía nos jornais, e que volta e meia promovia bailes funk regados a muita droga. Fez força para rir e respondeu:

— Êh vida loka!

Mas a verdade era que já não estava mais gostando tanto daqueles bailes. Não conseguia consumir drogas, quando tentara foi um vexame e tanto. Agora ficava só na cerveja. Não conseguia disfarçar mais o medo ao ver aqueles garotos imberbes empunhando armas pesadas, nem se sentia mais tão poderosa quando os garotos vinham passar a mão nela — ao contrário, sentia-se frágil e à mercê deles. Engraçado era que com Edilene ninguém mexia. A amiga cochichava coisas com os garotos, e Telma tinha certeza de que falavam dela. Tinha a impressão de que negociavam sabe lá o que. Procurou sacudir o traseiro com mais força e entrar no ritmo do funk, mas estava ficando tonta e enjoada. Do fundo da memória veio a imagem da irmã zombando dela:

— Funk-se, Telma!

Teve que parar de dançar e ir descansar a um canto, ofegante. Parecia que a irmã estava lá, rindo dela. Ficou agradecida quando Edilene e Valter voltaram para casa. No caminho Edilene disse-lhe:

— Amanhã você vai começar na boca!

Telma sorriu, como se já esperasse aquilo. Acompanhou silenciosa o casal até o alto do morro onde moravam, desejando que aquilo fosse um pesadelo. Mas tinha a impressão de naquele momento estava entrando em um filme.

Na manhã seguinte a cabeça não parava de girar, e o filme prosseguia sem que Telma pudesse escapar do script. Fingindo estar feliz, ela acompanhou Edilene e Valter até um barraco cercado de guardas armadas, dentro do qual várias pessoas, a maioria jovens como ela, preparavam trouxinhas de maconha e cocaína. Edilene ensinou-lhe como fazer, e logo ela estava ali também preparando as trouxinhas como um autômato. De tanto em tanto olhava ao redor, todos ali lhe davam medo. Notou que alguém olhava insistentemente para ela, era um rapaz magro, rosto chupado onde tufos de barba mal feita se misturavam à acne, cabelo em desalinho e arma na cintura. Seu hálito fedia tanto que mesmo à distância Telma podia sentir.

— O Volnei gostou de você! — Disse Edilene quando caminhavam de volta à casa — Deu sorte garota, ele e legal, tem um barraco bem grande lá pertinho do dono do morro! Ele diz que quer você hoje mesmo, quando a gente chegar você arruma as suas coisas!

Telma não conseguiu responder nada. Só queria que o filme parasse de repente, mas o filme continuava, e ela assistia a si própria como se estivesse em um cinema. Edilene e Valter falavam sobre mil coisas, assuntos da boca de fumo, fofocas dos vizinhos, e às vezes era como se ela não estivesse ali. Em um instante em que ambos foram para o quarto, deixando Telma sozinha na sala, ela sentiu que seria agora ou nunca.

Seu corpo deslizou pela porta aberta, e ela ganhou a viela.