As palavras de Josias ainda ecoavam nos ouvidos de Telma quando ela chegou na escola aquela manhã: poderosa! Poderosa! Será que a tia e o pessoa da casa haviam notado o sorriso que brincava em seus lábios? Eduardo com certeza notara alguma coisa, do jeito que o garoto era observador. Logo na entrada Elaine conversava com um grupo de colegas, e olhou para ela meio de esguelha quando ela passou.

— A Telma dançou pra caramba ontem!

Telma não estava com vontade de conversar, e queria que as aulas passassem logo. Assim que pôde encontrou Josias no pátio. Não se intimidou por ele estar cercado de garotas como de costume, e foi direto ao encontro.

— O-o-oiii!

O brinco que o rapaz trazia na orelha brilhou no sol quando ele se virou para ela. Saiu do grupo e foram conversar a um canto, dizendo coisas safadas em voz baixa.

— Vai ter festa na casa da Marli sábado que vem. Você vai?

Telma disse depressa que sim. Olhando ao redor rapidamente no intervalo entre um beijinho e outro, Telma tinha a impressão de que algumas garotas a miravam com inveja. Sentiu-se mais e mais poderosa. No caminho de volta à classe cruzou com Suzana, que estava acompanhada de um garoto alto de olhos verdes. Não estava muito a fim de conversar com Suzana, mas achou o rapaz bonito.

— Esse é o Beto, meu irmão!

Abriu o sorriso para cumprimenta-lo, mas ele não pareceu muito impressionado. Aquilo incomodou Telma, mas só por um instante. Estava com Josias agora, que era bem mais interessante. Tudo a seu tempo, quem sabe não ficava com os dois?

Telma passou a semana meio aérea, até cantarolando enquanto dedicava-se à faina diária de varrer o chão, tirar pó dos móveis e passar roupas sob o olhar maroto do primo Eduardo. Bem, pelo menos não era dia de lavar banheiro, que ela detestava. Era dia de lavar vidraças. Subiu na escada, sentindo os olhos do primo percorrendo seu corpo. Também, com aquelas roupinhas que a tia lhe dava para vestir dentro de casa, era para o moleque de 12 estar bem interessado. Virou-se de costas para a parede, preocupada coma possibilidade do primo estar vendo sua calcinha.

— Está com cara de quem está pensando em besteira! Conta para mim, conta...

— Descobre se você é esperto!

— Se a mamãe descobrir você vai para o tronco, hein! HAHA

— Se você souber você conta para ela?

— Depende...

Telma riu. No fundo achava o primo engraçado com aquele jeito safado dele. Além disso era o único naquela casa que conversava com ela.

As horas demoravam mais para passar quando se está ansioso. Tia Justina tinha dito que "ia pensar" quando Telma pediu para ir à festa da Marli. Por que a tia tinha que fazer aquele suspense todo?

— Onze e meia em casa, viu, moça?

Telma sorriu aliviada. Ia à festa enfim. Recebeu para vestir a mesma calça jeans e uma blusa simples, mas não se importou, só pensava em Josias. Ele estava lá esperando por ela com brilho nos olhos e já calibrado da bebida. O pessoal de Marli era diferente, mais legal, e lá tocava funk direto. Elaine não estava lá, nem Suzana e sua turma. Telma ressentiu-se por não estar com seu uniforme de funkeira para dançar, mas caiu na dança com tudo. Rebolou, bateu o traseiro no chão, fez quadradinho de quatro vendo Josias fazer volteios à sua frente. Tomaram uns tragos e depois foram para um canto escuro do quintal trocar beijos. Os gemidos que vinham de um pequeno barracão e de uma casa de bomba sugeriam que alguém lá estava fazendo mais do que trocar beijinhos. Telma arfou enquanto sentia as mãos de Josias entrando por seu sutiã, e as mãos dela procuraram o zíper dele.

— Meia-noite, moça! Não cumpriu o horário! Semana que vem você não sai!

Telma sorriu sem jeito sem nada dizer enquanto rumava para o banheiro, preocupada com a possibilidade da tia perceber que ela havia bebido. Já no quarto, cabeça no travesseiro, sentiu a realidade do mundo desabar sobre ela. Poderosa? Cadê meu poder?