Notando o silêncio de Telma, dona Elizete procurou tranquiliza-la.

— Mas não fique assustada, eu estou responsável por acompanhar seu caso aqui do conselho! Eu vou fazer vistorias de tanto em tanto, e qualquer coisa você pode entrar em contato comigo! Anota aí menina, aqui está o meu email e o meu whatsapp!

Telma anotou e conseguiu sorrir, agradecida. No íntimo desejou que nunca tivesse necessidade de contatar dona Elizete, pois ela havia sido tão gentil que não queria aborrece-la.

— Agora vai com a sua mãe! Juízo, hein? Aproveita tudo isso que está te acontecendo, porque faz parte do seu crescimento!

Telma achou estranho estar acompanhando a mãe com aquele ar tão formal, como se não fossem mais mãe e filha. A mãe estava diferente. Séria e resoluta, não lembrava aquela criatura que estava sempre nervosa e gritando com ela. Telma achou estranho também entrar na casa como se não fosse mais sua casa, era como se não se lembrasse mais, embora houvesse passado não mais que duas semanas fora. Os irmãos não estavam lá. Foram direto para o quarto arrumar a mala.

— Essas daqui não, você não vai precisar! — Disse a mãe vetando algumas das roupas de que Telma mais gostava, e terminaram levando apenas uma bagagem mínima.

— A sua tia Justina foi muito boa aceitando te receber! — Disse a mãe, rompendo o silêncio enquanto manobrava o carro na garagem — E ela ainda arrumou um colégio muito bom para você lá! Eu quero que você obedeça a sua tia e faça tudo muito direitinho! Você sabe como vai ser, não é? Que nem a Késia, a Solange e a Carla!

A mãe estava citando os nomes de primas do interior que tinham mudado de casa naquele esquema de pagar a estadia fazendo a faxina. Era o costume da família. Também, quem mandou fazer coisa errada? Telma respondeu com monossílabos, procurando não confrontar a mãe. À medida em que o automóvel pegava a estrada, experimentava de novo aquela sensação de ser uma folha seca levada pelo vento. Se havia palavras para descrever como se sentia naquele momento, seria: estou sem chão. Depois de tantas reviravoltas na vida em tão pouco tempo, queria que chegassem logo para ter novamente um chão para pisar. Não conseguia sentir muita saudade dos amigos que ia deixando para trás, agora tinha ciência de quão fúteis eles eram. Só sentia falta de dona Elizete, mas confortava-a saber que ela era responsável por acompanhar seu caso. Uma decisão já havia tomado: ia entrar com tudo naquela nova vida.

Chegaram após algumas horas. Telma lembrava-se pouco daquela tia de segundo grau, só se recordava que era alta, muito elegante e tinha um jeito pausado de falar que a deixava impressionada. A casa era bem grande, e estava mais ou menos como da última vez que Telma ali estivera quando criança, só estava mais vazia agora que a tia estava viúva e a maioria dos filhos já casados. Moravam ali apenas a tia, o filho mais novo e uma empregada já idosa.

— Ai, essa menina me deixou maluca esses dias!- Disse a mãe.

— Descansa, Nilce, descansa! Deixa comigo que eu sei lidar com o assunto!

Telma lembrou-se que tia Justina já havia antes recebido outras adolescentes da família. Ficou sentada a um canto, olhando curiosa ao redor enquanto a mãe e a tia punham a conversa em dia, agora falando de assuntos mais amenos. Em determinado momento viu Eduardo, o primo, passando rapidamente pelo corredor. Agora já tinha 12 anos estava ficando bonito, mas mal olhou para ela. Escutou a mãe chama-la:

— Pois está combinado: todo o dia fazer a arrumação da casa, tem que varrer e passar pano nos móveis. Dia sim dia não varrer o quintal e a varanda. Uma vez por semana lavar banheiro e cozinha. Uma vez por semana também lavar as vidraças. Faltou alguma coisa, Justina?

— Também passar roupa.

— Ah, isso mesmo!

Telma sentiu um arrepio na espinha. Odiava passar roupas. Mas das outra tarefas citadas, havia várias que ela nunca havia feito em casa.

— É toda sua, Justina!

A mãe despediu-se com mais recomendações para que ela se comportasse, e quando ficaram sós, a tia cruzou os braços e olhou demoradamente para ela, sorriu e ordenou:

— Vamos lá dentro ter uma conversa!

Telma acompanhou-a até um quarto nos fundos, era pequeno porém limpo e arejado. Na cama, um colchão e roupa de cama dobrada. À frente, uma mesinha e uma cadeira. Telma sentou-se na cama, e a tia na cadeira.

— Me conta tudinho que você fazia nos lugares aonde você ia escondido da sua mãe!

Telma contou tudo o que via e fazia nos bailes funk, sem vontade de esconder nada, até se sentindo aliviada por ter com quem conversar. Contou também as desventuras por que passara na favela. A tia apenas escutava sem fazer nenhuma repreensão, mas fazendo questão de saber cada detalhe.

— Esse é seu quarto agora! Descansa que amanhã a gente fala mais!

A tia saiu levando a mala dela, que ficaria sob sua guarda, deixou somente as calcinhas e as camisolas.