Funk-se Telma!
8 Disciplinada
— Sua mãe mandou você para cá para ser disciplinada! Eu não vou desapontar sua mãe, e você também não vai, não é mesmo?
O jeito ponderado de tia Justina falar sempre deixara Telma encafifada, desde quando ela era criança e vinha ali a passeio brincar com os primos. Não tinha como não concordar com a tia, ainda que lhe faltassem palavras. Abrindo um largo sorriso que bem sinalizava como ela interpretava o silêncio de Telma, tia Justina pegou o celular dela, que estava sobre a mesinha. Examinou-o um instante e devolveu-o.
— Não vou ficar com o seu celular, eu confio em você. Mas se você não vai fazer coisa errada, então você não vai ter receio de me mostrar, não é mesmo?
Mais uma vez Telma ficou desarmada e sem palavras. A tia sorriu de novo e replicou:
— Agora eu vou deixar você um pouco sozinha para pensar!
Saiu levando a valise com as roupas. Telma ficou sentada na cama, escutando o cantar dos pássaros no quintal. Sentia uma calma muito grande. Era estranho não ter acesso a suas próprias roupas, mas ao menos o celular fora deixado com ela. Olhou para o celular, mas não sentiu vontade de mandar mensagem para ninguém, só queria ficar ali pensando. Queria deixar o passado para trás, como um traste velho que se joga fora. Depois de algum tempo a tia veio chama-la.
— Rosalva, essa é a Telma, filha da Nilce — disse tia Justina apresentando-a à empregada da casa — Ela vai ficar aqui e ajudar você no serviço, já está tudo combinado. Amanhã você explica para ela o que tem que fazer, e qualquer dúvida fala comigo.
Dona Rosalva olhou-a com a indiferença de quem já vira aquilo antes, mas pareceu satisfeita por ter alguém para ajuda-la. Pela idade que tinha, era de todo justo. Em seguida a tia chamou o filho mais novo, e disse-lhe bem séria:
— Essa é a Telma, sua prima, você se lembra dela, né? Ela vai ficar morando aqui um tempo. Mas presta atenção, ela está aqui por um motivo muito sério! Não é brincadeira não! Eu assumi uma responsabilidade muito grande com a sua tia Nilce, e estou contando com você para me ajudar. Você vai ajudar a vigiar a sua prima quando eu estiver fora, vai ver se ela está fazendo direito o que tem que fazer, e não quero presepada, você já está um rapaz!
Eduardo respondeu com um olhar inescrutável, que podia ser sim ou não. Parecia não estar muito satisfeito com a presença dela ali, nem com as responsabilidades de que fora incumbido. Telma teve a impressão de que ele era um garoto bem sonso. Depois da apresentação voltou a seu quarto e ficou ali até a tia chama-la para o jantar. Sem TV e sem computador, foi dormir cedo e dormiu muito bem, surpreendendo-se de acordar bem cedo na manhã seguinte sem ninguém precisar chama-la. Na volta do banheiro cruzou com a tia, que veio entrega-la um vestido velho e bem curto para vestir.
— Depois do café vai procurar a dona Rosalva!
Lavou as louças do café sentindo o frio do ladrilho da cozinha em seus pés descalços. No corredor Eduardo passou rapidinho e cumprimentou-a com o olhar. Enxugou as mãos e foi procurar dona Rosalva, que lhe passou a primeira tarefa do dia: varrer a sala e passar pano nos móveis.
Telma procurou fazer direito, mas sentia-se sem jeito. Achava estranho estar ali trabalhando, e começou a incomoda-la aquele vestido tão curto que lhe deixava as pernas de fora, embora não houvesse ninguém ali para vê-la. Achava estranho também estar descalça, e volta e meia virava-se para contemplar as solas dos pés enegrecidas pela poeira do chão que ela varria mal. Tinha ímpetos de ir lá dentro calçar-se, mas sabia que a sua bagagem estava sob a guarda da tia, e sabia também que era regra que todas as primas que eram mandadas de castigo para a casa das tias tinham que ficar descalças quando faziam a faxina, era assim que Telma sempre as via.
Depois do almoço pôde descansar um pouco, e sentia vergonha por estar tão cansada com tão pouco trabalho. À tarde, a tia chegou da rua e deu-lhe uma roupa para vestir.
— Você vai conhecer a igreja!
Saíram e foram a um encontro na igreja que a tia frequentava. Nunca antes gostara de frequentar igrejas, mas sentia-se agradecida por poder vestir alguma coisa decente e não sentir mais o suor na testa faxinando. O pessoal lá era simpático e havia até uns garotos bonitos, e mesmo o pastor pareceu-lhe muito gentil enquanto desfiava o sermão em tom bem humorado.
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