— Ihh essas mina fica atiçando e depois pula fora!

Junto com as palavras, Telma sentiu o bafo de bebida no cangote. Sem pensar, deu um empurrão com força no rapaz. Lá do outro lado, viu Suzana dando um tapa no outro que estava assediando-a. Por um instante, fez silêncio e os dois rapazes pareceram um pouco surpresos. Veio chegando mais gente para ver, uns com expressão impassível, outros com olhar guloso.

— Qualé gata, tu vai mamar meu pau hoje!

— Ai me larga, me larga!

Telma sentiu a mão forte segurando-a pelo braço. Mais atrás, escutou risadas e um burburinho indistinto. Sabia que havia se metido em uma muito séria, e não era mais senhora de seu destino.

— Vamos levar essas minas lá para a favela? Quer ver como lá elas dão?

As risadas soaram mais fortes, e mais dois rapazes chegaram perto. Telma sentiu-se agarrada, e pôs-se a se debater sem conseguir se soltar. Um empurrão fez ela quase cair. Tentou arranhar o rosto do garoto que a segurava, e não conseguiu. Gritou. Ninguém veio ajuda-la. Já não sabia se aquilo era um sonho ou real, quando escutou uma voz familiar:

— LARGA AS MENINAS!

Ofegante, viu Ronaldo parado no portão de entrada. Os rapazes olharam-no, desafiante.

— Ihh qual é cara, vai procurar sua turma, a gente é do comando!

Mas quando viram que atrás de Ronaldo havia mais rapazes vindos do churrasco, ficaram hesitantes. O burburinho no fundo ficou mais intenso, e foram chegando os seguranças. Telma nem notou quando seu braço foi solto, quando viu já estava sendo puxada pelo pulso por Ronaldo. Junto com Suzana, foi metida no banco de trás de um automóvel lotado, que saiu em disparada rumo ao country clube. Ao saltar, Telma já viu o pessoal se aglomerando no portão, preocupado.

— O que foi? O que foi?

— Elas estão bem?

— Pode deixar, pode deixar! — Explicou Ronaldo — Foi só um susto! Agora deixa elas descansar!

Telma e Suzana foram colocadas sentadas em um banco comprido, sentindo os olhares curiosos de todos sobre elas. Telma estava ofegante como se ainda estivesse lutando. Foi providenciado um comprimido de calmante, que ela tratou de engolir. Agora sentia-se mais calma, mas ainda não conseguia dizer nada. Só conseguia pensar em Ronaldo. Agora tinha certeza: se havia uma pessoa no mundo que a estimava e respeitava, essa pessoa era Ronaldo. Impressionava ver a serenidade e a coragem dele. Sentada no banco, Telma via-o lá adiante, conversando com um convidado e outro como se nada houvesse acontecido. Queria que ele ficasse só com ela, mas sabia que não era digna de tanto favoritismo. De repente, como se seus desejos fossem atendidos, o olhar dele cruzou com o dela, e ele foi se aproximando. Sentou-se ao lado dela e disse-lhe palavras gentis. Telma sentiu a garganta destravar, mas só conseguiu chorar. Chorou bastante até aliviar-se agarrada com Ronaldo, sentindo o cheiro do peito dele, mistura de suor másculo com couro novo do colete de motoqueiro.

Das carícias passaram aos beijos. A tarde ia caindo, e Telma já conseguia dizer algumas palavras, embora se comunicassem mais por telepatia. Sentia-se de posse de um tesouro valioso, e levou tempo até que interrompesse os devaneios e lembrasse da vida.

— Ai, não sei como eu vou contar essa para a tia...

— Pode deixar, eu já conversei com ela! — Respondeu Ronaldo.

Telma sorriu agradecida, mas por dentro tinha um turbilhão se sensações. Esperava que Ronaldo não contasse o ocorrido para tia Justina, mas ao mesmo tempo sentia-se confortada por ele havê-lo feito. Sabia que Ronaldo não fugiria a seu dever, e tudo o que ele fazia era para o bem dela.

Chegada a hora da despedida, Telma sentiu um aperto no coração. Não sabia quanto poderia ver Ronaldo novamente, pois por certo ficaria de castigo, mas o longo beijo dele passou-lhe a segurança de que ele estaria a sua espera. Embarcou na carona, e fez o possível para mostrar-se tranquila e agradecida. Mas o frio na barriga aumentava à medida em que se aproximava da casa. Tia Justina já a esperava no portão com o sorriso de sempre, com seu jeito inabalável que sinalizava a Telma que nada a desviaria do destino que lhe estava reservado. A sensação era uma mistura de medo com segurança.

— Então, moça, quero saber tudinho com as suas palavras!

Telma contou tudo, sem vacilar, mas baixando a cabeça a cada frase. Quando terminou, não conseguiu conter as lágrimas.

— Que tristeza é essa, moça? Está arrependida ou é medo mesmo?

— É que... eu sei que a senhora vai me botar de castigo... então... eu não vou poder ver o Ronaldo...

— Está enganada, moça, vai ver ele antes do que imagina!

Ao olhar de surpresa de Telma, a tia respondeu:

— Eu quero saber dessa história direitinho como foi, então chamei ele para vir aqui amanhã!