O pensamento de Telma vagava de um ponto a outro, mas volta e meia voltavam para Ronaldo. Sabia que ele estava para aparecer, chamado que fora por tia Justina, a fim de dar seu depoimento sobre o que acontecera no dia anterior. A tia era assim, perfeccionista, não tomava nenhuma atitude antes de haver levantado toda a verdade. Os sentimentos de Telma eram contraditórios. De um lado afligia-a saber que Ronaldo ia participar do castigo que a tia ia lhe dar, mas por outro lado a presença de Ronaldo transmitia-lhe conforto. Sabia o que estava merecendo, e volta e meia o frio na barriga se espalhava como um formigamento pelos quadris.

A campainha da sala pôs fim ao suspense. Escutou a voz de Ronaldo, e logo em seguida Eduardo apareceu para chama-la. Enxugou a mão molhada no vestido e puxou-o para baixo, desejando que ele fosse mais longo e lhe cobrisse as pernas. Na sala, Ronaldo e tia Justina aguardavam com ar solene. Telma sentou-se na poltrona e suspirou muito séria, sabendo que estava lá para ser julgada.

— Você fala primeiro, Telma. Quero que você me diga, desde o começo, o que foi que aconteceu!

O frio na barriga desta vez subiu pela garganta. Gaguejou um pouco, mas conseguiu destravar a língua.

— Eu tava com a Suzana no churrasco... mas uma hora a gente ficou sozinha... e a Suzana começou a falar de um lugar lá perto para a gente ir, que tava melhor... era um clube mais embaixo na estrada, onde tava rolando um baile funk. Aí nós fomos... Mas era frequentado por uns garotos de favela, e eu não pensei que fosse acontecer... ai, tia...

— Você estava sozinha? Mas você não estava em companhia deste rapaz aqui? — Indagou a tia, apontando para Ronaldo.

— É, mas... ele tava com muita gente... eu queria ficar com ele só para mim...

As lágrimas afluíram aos olhos de Telma quando ela disse aquelas palavras. A tia cruzou os braços, e replicou:

— Hum... então você queria ter esse rapaz só para você. Mas como não pôde, então trocou ele pelo baile funk...

— Foi, tia... mas olha... eu juro... não foi a mesma coisa de antes! Eu dancei e tal... mas quando os garotos vieram por a mão em mim, eu senti nojo... mas eu já estava lá e não dava para voltar...

Telma experimentou um grande alívio ao fazer aquela revelação. Não ousava estar certa de que a tia fosse acreditar nela, mas sentia-se em paz com a sua consciência por saber que falara a verdade. A tia ficou por um instante em silêncio, com a expressão inescrutável, e em seguida dirigiu-se para Ronaldo:

— Agora me conta o que foi que você presenciou!

Telma viu os olhos de Ronaldo se levantarem e o queixo se erguer, em uma expressão de segurança, antes dele começar a falar em tom bem pausado:

— Eu estava com a Telma, mas toda hora chegava gente e eu tinha que cumprimentar e jogar uma conversa, mas eu queria mesmo era ficar com a Telma. Então uma hora eu procurei ela e não encontrei. Um porteiro me disse que tinha visto ela e a Suzana indo para o clube lá em baixo, e eu já fiquei preocupado, porque sabia que aquele clube era mal frequentado. Tanto que eu chamei um pessoal para vir comigo. Quando eu cheguei lá, eu já encontrei a Telma e a Suzana querendo fugir, mas tinha uns garotos mal encarados segurando elas pelo braço, e uma turminha atrás. Se eu não chegasse aquela hora, eu não sei o que ia acontecer! Mas nós enfrentamos, veio mais gente, e no fim eu consegui pegar as duas e tirar de lá!

— Você salvou ela! E olha que ela nem estava fazendo por merecer. Agora, me diz o que achou da atitude dela.

— Uma besteira! Não foi maldade, foi uma bobagem...

A expressão como sempre inescrutável de tia Justina não deixava entrever se ela havia gostado ou não daquela resposta. Mas Telma sentiu uma gratidão muito grande naquele instante.

— E você, Telma, me defina a sua atitude com as suas palavras!

— Foi um vacilo... eu fiz errado mesmo...

Telma não ousou dizer que não fora uma maldade, pois no íntimo sabia que havia feito mesmo uma bela desfeita com Ronaldo, e o que ele fizera fora mais do que ela merecia. A tia prosseguiu:

— Se reconhece que estava errada, então tem que reconhecer que merece um castigo. Que castigo você acha que eu devo te dar?

Telma sabia que a tia ia fazer aquela pergunta, só estava esperando. Baixou a cabeça com vergonha, e procurou aflitamente alguma coisa para dizer.

— Tipo me deixar... dois finais de semana sem sair!

— Hum... muito bem! Está sendo lógica. Eu tinha te concedido o direito de sair, e você abusou deste direito, então deve ser privada dele. Mas você também disponibilizou seu corpo para aqueles rapazes, não foi? Então o corpo também entra na jogada. Se o seu corpo é mais forte que a cabeça, então é aí que você deve se castigada, não acha?

Telma baixou mais a cabeça, e voltou a sentir o frio na barriga se espraiando em um formigamento pelos quadris. Sabia muito bem o que merecia, mas sentia-se mortificada pela possibilidade de Ronaldo assistir. Não conseguiu dar uma resposta, e a tia voltou-se para Ronaldo:

— E você, como você acha que eu devo castigar a Telma?

O rapaz respondeu sem hesitar:

— Quando eu cheguei lá, ela não estava se agarrando com ninguém, ela estava era tentando escapar, mas sem conseguir. Então eu acho que isso do corpo falar mais que a cabeça já é uma coisa que ela superou. Foi um vacilo, mas o susto que ela levou já serviu de lição. Eu acho que dois finais de semana sem sair é suficiente.

— Então você me confirma que ela mudou! Muito bem, fico contente de saber disso! O castigo vai ser só ficar sem sair, como você sugeriu.

O alívio de Telma só foi menor que o amor que ela sentiu por Ronaldo naquele instante. Tinha vontade de correr para ele e beija-lo, mas sabia que ia ter que esperar. Escutou calada a tia agradecer e se despedir de Ronaldo, e depois que ele saiu permaneceu calada enquanto a tia lhe passava um sermão entremeado de elogios ao rapaz. Tinha os pés no chão e a cabeça nas nuvens.

Dia seguinte, no colégio, Telma estava tranquila. Cruzou com Suzana, que contou:

— Fiquei de castigo!

— Eu também!

— Não apanhou também não?

— Dessa vez não, mas olha, foi por pouco...

— Ahhh...

Telma tinha certeza de que ela não acreditara. Mas não se importava, era verdade. No sábado, passava uma pilha de roupas, conformada por não poder sair, quando a companhia tocou. Eduardo veio informar:

— O Ronaldo está aí!