Funk-se Telma!

21 O tudo é vizinho do nada


Ofegante depois de muito dançar, Telma deu um beijo bem comprido em Luciano, sentindo sua língua enrolar na dele. À sua volta, podia perceber o olhar de inveja das colegas, e curtia muito aquilo. A poderosa aqui sou eu, pensou. Lá adiante viu Suzana chegando om uma minissaia bem curtinha, e lamentou que a tia só liberasse calça comprida quando deixava ela sair, mas que droga, tudo a seu tempo, estava conseguindo aos poucos dobrar a tia. Se ela soubesse o que acontecia naquelas festinhas do colégio que ela achava que eram inocentes...

Foi falar um instante com Suzana e riram bastante. Quando voltou, encontrou Luciano conversando com Alícia. Ficou visivelmente irritada de ver os modos oferecidos dela, e mais ainda ao ver que Luciano lhe dava bola. Botou tromba, foi chegando até quase esbarrar em Alícia, e resmungou qualquer coisa. Alícia riu bem alto e despediu-se. Luciano nem ligou e já tomou Telma nos braços, disposto a dar mais beijos prologados. Notando a frieza dela, reclamou.

— Desarma a tromba, gata!

— Não gostei do jeito como você falava com aquela piriguete!

— Ih... olha quem fala!

Telma ficou sem palavras. Sabia muito bem: quem era ela para chamar a outra de piriguete? Como se quisesse provoca-la, Luciano a toda hora cumprimentava uma menina que ia passando, e fazia questão de ser bem efusivo. Telma afastou-se e foi tomar umas cervejinhas no quiosque. Não ligavam muito para servir menores de idade. Assim calibrada, Telma foi para a pista e dançou sozinha do jeito mais debochado que conseguiu. Puxou o cós da calça para baixo, e sacudiu o traseiro. A seu lado, Suzana também dançava, competindo para ver quem atraía mais os olhares dos garotos.

Em determinado momento, viu o Nique passando ali rumo ao quiosque. O Nique era um garoto novo na escola, lourinho e com cara de safado. Não perdeu tempo: quase agarrou-o, e logo estavam dançando juntos e se esfregando. Deu uma mordidinha no pescoço dele, e aproveitou para esticar o olhar em busca de Luciano. Não o viu em lugar nenhum, parece que tinha ido embora. E minutos depois tampouco via mais o Nique, que depois de uma ida ao banheiro parou para conversar com outra menina.

Telma foi se sentar em um banco vazio, sentindo a cabeça girar: seria a bebida ou o baixo astral? Ficou pensando, pouco atrás sentia ter todo o poder do mundo sobre todos os garotos ali, e agora não tinha mais poder nenhum. Havia pouco, percebia o olhar invejoso de todas as meninas da festa, e agora parecia que era invisível. Do fundo da memória brotou um ditado que escutara não se lembrava aonde: o tudo é vizinho do nada. Via agora como era a pura verdade: ela tinha todos os garotos do pedaço, mas ao mesmo tempo não tinha nenhum. Por que motivo eles iam ficar só com ela, se ela não ficava só com eles? Se fosse realmente poderosa como imaginava ser, os meninos iam estar a seus pés implorando que ela os elegesse como favorito, mas não era bem assim...

Ficou zanzando de um lado para o outro, tentando afastar aqueles pensamentos. Deu azar de cruzar com Alícia, que ainda estava muito risonha.

— Êhh caaalma Telma...

— Por que é que está me olhando? Está preocupada?

— É que você passou com um olhar de tanta raiva que eu até pensei que era comigo!

— Ih mas que metidinha!

— Pode deixar que eu não vou mais olhar para o seu homem!

— Qual deles? Pode olhar, tenho uma porção de homem! Se quiser eu empresto um para você!

— Não precisa não, a piriguete aqui não sou eu!

— Você fala direito comigo!!

Telma já estava chegando perto de Alícia quando a turma em volta interviu. Levaram-na para o banheiro, onde ela vomitou. Ficou um bom tempo lá se recompondo até se sentir disposta para ir para casa. Fez uma cara bem cínica para enganar a tia dizendo que a festa estava boa, e foi cozinhar seu mau humor no travesseiro, imaginando mil vinganças contra Alícia.

O dia seguinte começou tão parado que Telma até torcia para acontecer alguma coisa. Arrumou os quartos, varreu a sala, tirou pó dos móveis, depois foi passar roupas. Tia Justina chegou de repente, e avisou:

— Depois que terminar, vem conversar comigo!

A calma da tia não enganou Telma, pois ela sabia que a tia nunca perdia a linha. O que será que vinha por aí? A maré não andava boa. Prolongou o quanto pôde o ferro quente nos colarinhos, volta e meia virando-se para inspecionar a sola dos pés marcadas com a poeira do chão.