Funk-se Telma!
22 Disponibilizando o corpo
Telma seguiu tia Justina até o escritório, e sentou-se em um divã bem em frente da cadeira giratória da escrivaninha, onde a tia sentou-se. Estava pronta para o que desse e viesse. A tia fitou-a por uns segundos, da cabeça aos pés dela sem tirar o sorriso dos lábios, e iniciou a conversa.
— Foi boa a festa ontem, não foi?
— Foi sim...
A tia pelo visto estava sabendo de alguma coisa, mas ela já tinha dito ontem ao chegar que a festa tinha sido boa, e agora não podia desdizer-se. A pergunta seguinte veio antes que Telma tivesse tempo de pensar.
— Mas você não tem nada, nada para contar?
— Não... é... estava o pessoal lá, eu dancei pra caramba, e fiquei com uns meninos...
Telma estava na dúvida sobre se devia ter contado mais. A tia parecia estar lhe dando uma chance, e ficou ainda alguns segundos em silêncio esperando que ela falasse. A hesitação de Telma durou só um instante, e ela decidiu-se a sustentar sua versão. Mas já sentia um frio no estômago.
— Você não está se esquecendo de me contar isso?
Telma reconheceu nas mãos da tia o celular de Eduardo, a capa enfeitada com a bandeira de seu time preferido, e foi exibido um vídeo enviado por alguém, mostrando a briga que tivera no clube. Como não pudera prever que aquilo fosse acontecer? Agora era aguentar. Procurou firmar o tom de voz, e respondeu com altivez.
— Foi... não quis contar porque foi uma merda que aconteceu lá. Mas olha, não foi sem motivo não! Aquelas meninas me provocaram, deram em cima do garoto que eu estava ficando e tudo o mais!
— Do garoto com quem você estava ficando? Qual deles?
Telma notou o tom irônico na voz da tia, e sentiu de novo o frio no estômago. De que mais a tia estaria sabendo? As palavras agora saíam rápidas, cuspidas de sua boca.
— Ah foram vários! Mas qual o problema? Nenhum deles me agarrou à força, eu fiquei porque eu quis, o corpo é meu...
— Com certeza, o corpo é seu, então você disponibiliza o seu corpo para os garotos. Mas já notou que quanto mais você disponibiliza uma coisa, mais essa coisa perde o valor?
— Ué, não estou me vendendo...
— Pois é, faz de graça. Quer mais desvalorização do que essa?
Telma não encontrou de imediato o que dizer, e desviou o olhar. Achava agora que devia ter escolhido melhor as respostas. A tia prosseguiu.
— Olha para mim! Agora me diga, que idade você tem?
— Dezessete... dezesseis.
— Então você é menor de idade. O corpo é seu, mas você ainda não se manda! Você sabe por que a sua mãe te mandou para cá?
Telma fez sim com a cabeça, desviando novamente o olhar.
— Que coisa, menina, olha para mim! Isso! Eu estou sabendo das coisas que você anda fazendo com os garotos, porque vieram me contar. Lembra do que aprendeu da última vez? Você não está se dando ao respeito, você está desrespeitando o seu corpo, então é no corpo que você vai ser castigada! Você disponibiliza seu corpo para os meninos, não é? Quando a sua mãe mandou você para cá, ela disponibilizou seu corpo para mim, para eu castigar.
A voz não estava zangada, mas a lógica implacável das palavras da tia deixava Telma desarmada, sem conseguir responder nem desviar o olhar. A tia fitou-a por mais alguns segundos, e não escutando resposta, prosseguiu:
— Entendeu, não foi?
Telma fez sim com a cabeça. A tia abriu um sorriso e anunciou:
— Eu não vou castigar você antes de você ter entendido tudo! Agora que entendeu, espera só um minuto!
Telma estava estranhamente calma, embalada pelas palavras da tia. Permaneceu sentada no divã enquanto a tia voltava trazendo o cinto. Antes de cruzar a porta, ela chamou:
— Eduardo, pode vir!
O primo apareceu na porta, fazendo cara séria. Como tinha sido ele o responsável por contar tudo à tia, ganhava o direito de assistir, Telma pensou. Estava cumprindo o dever que a mão o incumbira.
— Tira só a calcinha, e deita.
Telma removeu a calcinha, que foi colocada na beirada da cadeira, depois deitou-se de comprido no divã, e virou-se de bruços. Escondeu o rosto entre os braços, e preparou-se para a surra. As primeiras cintadas não fizeram grande efeito, mas depois da quarta Telma não aguentou mais e tentou se irar. A tia fez uma pausa, e prosseguiu. Telma mordeu os lábios e fez força para aguentar, mas o ardor nas nádegas vinha em um crescendo e parecia uma fogueira. Telma não conseguia evitar de botar as mãos atrás, e a tia parava de bater, segurava o pulso dela e continuava. Telma começou a tamborilar os pés no divã, mas ainda não tinha soltado um gemido. Lá pelas tantas sua garganta destravou e o choro saiu. Telma agora nem se importava mais de ter o primo na porta assistindo, e nem tinha mais noção do tempo, só sentia a dor das cintadas e o alívio do choro que fazia sair em uma corrente tudo o que tinha de ruim por dentro.
Quando a tia parou, Telma ficou um tempo que não soube precisar choramingando deitada no divã, volta e meia contemplando a tarde cair na janela. Quando parou de chorar, o silêncio a envolveu, até ser quebrado pela voz da tia.
— Vai tomar um banho, depois vai para o quarto e fica lá até a hora do jantar!
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