Telma divertia-se com os olhares das colegas ao verem que ela estava a toda hora sentada a um canto trocando beijinhos com Beto. Depois do desastre da semana passada, ela estava começando a sentir-se novamente poderosa, como ela gostava. Mas também sentia-se um pouco constrangida. Achava Beto bonitinho, mas também, como ia dizer? Muito "namoradinho". Coisa de mãozinha dada. Ele queria relacionamento fixo.

— Está guardadinho na gaveta! — Disse a uma colega. E era isso que Telma queria de Beto, que estivesse guardado e ela pudesse saca-lo quando desejasse.

Na saída, junto a um grupo, Beto fez-lhe o convite de sair com ele aquele final de semana. Telma ficou sem jeito. Não queria dizer que a tia a havia proibido de sair por tempo indeterminado.

— A Telma está de castigo! — Disse Suzana, entrando na conversa.

— HAHA a tia da Telma é foda, ela tá sempre de castigo!

Telma suspirou com raiva, sem ter o que dizer. Mas Beto não perdeu a linha.

— Pode deixar, eu vou lá falar com a sua tia!

Telma teve que fingir-se agradecida, mas por dentro estava tinindo. Não queria por nada que Beto a visse na casa da tia. Será que ele falara da boca para fora, ou ia mesmo aparecer? Em todo caso, não comentou mais sobre a proposta durante o resto da semana, e até já vinha pensando em uma boa desculpa para dar. Mas naquela tarde de sexta-feira, ocupada em passar roupas enquanto escutava a música que vinha da vizinha, a tia chegou de repente com ar de novidade:

— Telma, tem um colega seu te procurando!

E lá estava Beto vendo ela atrás da tábua de passar, com aquele vestidinho batido e descalça. Teve que fazer força para abrir um sorriso, sentindo os pelinhos das pernas se eriçarem. Tudo o que ela desejava naquele momento era estar com uma saia mais longa, ou ao menos calçando algo.

— Esse rapaz falou comigo, e pediu para eu deixar vocês saírem. Conversa um pouco com ele, depois vem falar comigo, os dois!

Fazendo força para disfarçar o embaraço, Telma disse algumas abobrinhas. Sentia vergonha de que Beto estivesse vendo como era sua rotina de castigo na casa de tia Justina, mas ele não parecia surpreso. No fundo, Telma tinha certeza de que Suzana já lhe havia contado tudo. Aliás, a escola inteira já sabia.

— Eu estou vendo se posso confiar de novo em você! — Disse tia Justina — Então, se eu deixar, eu preciso ver se vocês vão fazer direitinho, se vão mesmo no lugar onde eu deixei, e se você vai voltar no horário que eu marquei!

— Pode deixar! — Disse Beto — Eu vou levar ela para um passeio no shopping, e depois nós vamos dançar no clube. Eu trago ela direitinho no horário, as senhora não precisa se preocupar!

— Então eu vou confiar em vocês dois! — Respondeu tia Justina com um sorriso. Telma teve certeza de que a tia gostava de Beto, e só por isso deixava.

Telma passou aquela manhã de sábado meio ressabiada. O primo Eduardo já estava reparando, e começava a mexer com ela. Não era bem aquilo que ela desejava, e não tinha certeza se ia se divertir, além de incomoda-la a intimidade que Beto já começava a demonstrar com tia Justina, como se ele já fosse o namorado oficial. Mas deixa estar, com certeza seria melhor do que ficar trancada em casa lavando vidraças com Eduardo espiando suas pernas. De um jeito ou outro haveria de divertir-se aquela noite. A tia liberou-lhe uma calça jeans e uma blusa legging para vestir, e Beto chegou todo bem vestido na hora certa. Batendo perna pelo shopping, Telma já estava bem animada e nem se importava de andar de mãozinha dada com o rapaz. Encontraram gente e riram bastante antes de rumar para o clube.

Era o clube da igreja que a família de Beto frequentava, mas não encontraram lá ninguém de saião nem paletó e gravata, só gente normal dançando e se beijando, no fim das contas os evangélicos eram iguais a todo o mundo, Telma pensou. Só não tocavam funk. Por um instante imaginou como Beto ficaria dançando funk, e riu da ideia A música era boa, e quando se cansaram de saracotear na pista, foram para um cantinho mais escuro. Trocaram um beijo longo, e Telma sentiu a língua dele na dela. Seus braços o envolveram, e os dedos de uma mão deslizaram por entre os botões de sua blusa, sentindo o peito cabeludo do rapaz. Telma percebia também como os dedos dele ficavam cada vez mais espertos, procurando pelo corpo dela. Estou levando o rapaz para o pecado, pensou, e riu por dentro. Sentia-se novamente poderosa.

— Ops, está na hora! — Interrompeu Beto no melhor da festa.

— Penteia o cabelo aí! — Disse Telma, referindo-se à necessidade dele passar uma boa impressão à tia, de rapaz bem comportado. Quando chegaram, rigorosamente no horário, pareciam mesmo um casal de namoradinhos.

— Aproveitaram?

— Muito!

Quando encostou a cabeça no travesseiro, Telma ainda tinha um sorriso maroto nos lábios. Poderosa!