Funk-se Telma!
19 Entra na fila
— Então se eu der o celular de volta, você promete que não vai mais usar para fazer besteira?
— Prometo, tia!
Tia Justina abriu um sorriso misterioso e fez suspense. Telma sempre se surpreendia de como a tia parecia ter uma capacidade de ler o pensamento dela e prever suas ações, mas estava confiante. Vinha se comportando bem e até já escutara a tia reconhecendo isso para a mãe no telefone. O sorriso de quem tudo sabe, contudo, continuava grudado nos lábios dela.
— Como eu posso ter certeza disso?
Telma tentou pensar em alguma coisa para responder, mas não deu tempo.
— Bom, se você não vai fazer nada de errado, então você também não vai ter nada a esconder, né?
— É...
— Está aqui o seu celular de volta, menina! Vou confiar em você! Mas olha lá, toda semana eu tenho que bater um relatório para a sua mãe!
As mãos de Telma tremiam ansiosas ao sentir novamente o aparelho em seus dedos. Conferiu nervosa várias mensagens novas, nada comprometedor felizmente, mas notou que a tia havia apagado algumas conversas. Melhor não falar nada, já fora uma grande coisa a tia haver devolvido o telefone, e ela ainda tinha mais um pedido para fazer.
— Eu posso ir na festa da formatura da T19?
— Se for e voltar direitinho como tem sido, pode.
Telma passou o resto da semana dedilhando o celular, mandando mensagens para os amigos e pensando na festa. A T19 era conhecida como uma turma muito animada, e com certeza ia ter muito agito lá. A escola toda estaria presente. O problema era que Beto também estaria presente. Problema? Não exatamente. Gostava de Beto, achava-o tesudinho, mas ele tinha a mania de julgar-se um namorado fixo dela. Não era disso que Telma estava a fim. Queria ficar com todos os garotos que achasse interessantes, e ultimamente vinha mandando sinais para Beto, que parecia não se incomodar, mas tampouco desistia da ideia de tê-la só para ele, que saco! Bom, na festa ele ia ver. No fundo, Telma gostava daquele joguinho de morde-e-assopra.
— Ai tia, deixa eu por uma roupinha mais transadinha! — Disse Telma ao ver que a tia só tencionava liberar o conjunto jeans de legging de sempre.
— Êh-êh, já liberei o celular, dou um dedo, quer a mão!
Telma ficou meio ressabiada, na dúvida sobre haver queimado o próprio filme ao fazer aquele pedido tão atrevidamente. Mas o sorriso inescrutável de tia Justina às vezes escondia boas surpresas.
— Vai com esse vestido, então.
Telma teve a certeza de que a sorte tinha virado. Estava tudo dando certo agora. Quando chegou na festa, o pessoal já estava bem animado, tinha muita gente e a música estava boa. Como os formandos já estavam fazendo 18 anos, a bebida estava liberada para eles, o que não impedia que fosse servida também para os demais. Ficou um tempo com Beto e trocaram alguns beijinhos, mas rapidamente se esquivou e foi para a pista dançar o funk que estava tocando. Como Beto não gostava de funk, não a acompanhou. Tinha uns garotos com ar bem malvado lá...
Telma não sabia dizer se já tinha tomado três caipirinhas e ficado com quatro garotos, ou se tinha tomado quatro caipirinhas e ficado com três garotos. Só sabia que estava muito bom. Quando cruzou com Suzana, comentou:
— Está chovendo homem! Tenho que mandar entrar na fila!
— A minha fila já está até na porta! HAHA
— Piriguete!
Às vezes voltava para Beto e dançava alguma coisa com ele, mas estava agora interessada em um garoto que não conhecia, louro de cabelos revoltos e ar de selvagem da motocicleta. Como era o nome dele? Luciano! É claro que já tinha um bando de mulher em cima dela, mas sentindo-se corajosa, furou o bloqueio e quase o agarrou à força.
— Oi! Eu sou a Telma...
— Luciano, gata!
Adorou o ar atrevido do rapaz, e ainda curtiu o olhar de raiva das concorrentes. Os braços dele eram fortes, o peito peludo e os lábios quentes. Ficaram um bom tempo trocando palavras safadas e se comunicando por telepatia. Depois ele pegou a motocicleta e se picou sem dizer aonde ia, mas o zap dele já estava no celular. Quando Telma chegou em casa, ainda sentia na boca o gosto dos beijos dele.
— Deixa eu ver o celular, moça!
Telma levou um susto, mas imediatamente lembrou-se da promessa feita à tia: se não ia fazer nada de errado, não tinha nada a esconder. Procurou fazer ar de mocinha comportada enquanto a tia inspecionava o celular sem perder a pose. Vez por outra ria de uma mensagem mais engraçadinha.
— Quem é André?
— Um amigo que conheci...
— Amigo não se conhece, amigo se faz! E não é em apenas um dia! Pensa nisso, moça!
— É só um conhecido mesmo.
— Bem, já disse quem é André. Mas agora, quem são Tomás, Zé Carlos, Nikita, Fudêncio, Adriano, Luciano, Nilton?
— Ah, esses estão na fila! — Respondeu Telma, rindo. Logo depois se arrependeu. Ainda estava sob o efeito das caipirinhas.
— Abre o olho, menina! — Disse a tia, devolvendo-lhe o celular.
Feliz por haver se dado bem, Telma ainda mandou várias mensagens para Luciano antes de dormir.
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