Funk-se Telma!
25 Meu príncipe
— Vai, fala, em que você está pensando?
— Ah, garoto...
Eduardo tinha mesmo o dom de perceber alguma coisa diferente com ela, Telma pensou enquanto fingia concentrar-se na faxina diária. Ela estava mesmo pensando em alguma coisa. E essa coisa era Ronaldo. Lembrou do papo agradável que tiveram na festa de Alessandra, da dança coladinhos e do beijo mas aquilo tudo parecia muito diferente do estilo "cheguei chegando" dela. Era coisa de namoradinhos, e Telma sentia-se meio ridícula. A palavra certa era essa? Não, Telma sabia que no fundo queria mesmo ter um namorado assim. Mas sentia-se meio peixe fora da água. Ultimamente só tinha tido ficantes, e havia ficado com Ronaldo naquela festa, e ele havia ficado com ela, só isso. Depois, apenas duas mensagens gentis no whatsapp.
Esfregou com mais força a flanela no móvel. Ronaldo com certeza tinha muita mulher atrás dele, era bonito. Aquelas roupas de motoqueiro elegante, aquele bronzeado de surfista, aquela cabeleira loura brilhando, tudo isso dava a ele um ar de príncipe. E ela, Telma, era uma princesa? Deu uma olhada no espelho grande da sala e até riu: não, definitivamente não.
No dia seguinte, na escola, Telma voltou a sentir aquela sensação de vazio. Todos os ficantes dela estavam acompanhados e não pareciam sentir falta dela. Tampouco as meninas tinham agora motivos para ter ciúmes dela. Conversou um pouco com Beto, e o garoto que antes ela achava bobo agora parecia bem interessante, até sabia conversar e dizia coisa com coisa. Telma pensou que bem poderia ter investido mais nele antes, mas bobeara e agora ele estava acompanhado da Verônica, uma garota bonita que tinha fama de ser ótima aluna. Ficou sabendo que Beto conhecia Ronaldo, que estudara em outra escola mas já estava fazendo faculdade. Devem ser amigos, pensou, pois ambos são parecidos de temperamento e têm conteúdo.
Suzana, a irmão de Beto, veio chegando com ar de novidade. Telma conversou um pouco, mas percebia que não tinham mais a mesma intimidade de antes, quando aprontavam juntas e Telma sentia-se uma mentora, levando Suzana para o "mau caminho". Agora já não achava mais graça naquilo, mas ela sabia que Suzana continuava aprontando pelas costas enquanto passava uma fachada de santa, sem nunca perder os eventos da igreja.
— Você está a fim de ir no churrasco do country? Vai ser esse sábado e vai estar cheio de gente!
Telma respondeu que ia ver, mas no fundo duvidava muito que tia Justina fosse deixar, pois aquele country clube era bem distante, frequentado por gente que ela não conhecia, e Telma ainda estava com o filme muito queimado em razão do muito que já havia aprontado.
— Olha que o Ronaldo vai estar lá!
Telma sorriu, fingindo-se desinteressada, mas agora é que estava ansiosa mesmo. Ainda não tinha chegado a uma conclusão sobre o que fazer quando cruzou com Alessandra.
— Oi Telma! Vai ter um churrasco esse sábado lá no country, pela comemoração das bodas de prata de uma tia minha, eu queria te convidar!
Telma sentiu-se salva. Se era Alessandra quem chamava, então aumentavam as possibilidades de tia Justina autorizar. Cruzando os dedos, assim que chegou em casa foi falar com a tia.
— Hum... esse country clube é muito longe, é um clube elegante mas eu não conheço ninguém de lá! Foi a sua amiga Alessandra quem chamou? Peraí que eu vou falar com ela!
Após breve telefonema, a tia voltou parecendo satisfeita e trazendo a notícia de sua autorização. Telma passou o resto da semana sonhando com Ronaldo, e no sábado embarcou no carro dos pais de Alessandra. Chegando lá, era um clube elegante e cheio de gente bonita. Estavam lá Beto, Suzana e vários colegas, mas a maioria Telma não conhecia. Viu Ronaldo mais adiante com a cabeleira brilhando ao sol. Estava cercado de gente, mas para a felicidade de Telma, nenhuma parceira feminina. Foi chegando, mas sentia-se um tanto inibida no meio daquela gente estranha. Ronaldo sorriu para ela. Conversaram bastante, mas o clima não ajudava. Não havia nenhuma música que pudessem dançar, nem um cantinho onde pudessem trocar uns beijos. Ronaldo estava simpático, mas não tinha as atenções só para ela. No momento em que chegou um grupo de convidados desconhecidos e Ronaldo juntou-se a eles, Telma afastou-se. Tinha que conformar-se. Ronaldo até podia ser um príncipe, mas ela não era uma princesa. Ela era... bem, melhor não pensar!
— Aqui está chato, mas descobri um lugar melhor lá em baixo! Vamos lá?
O convite era de Suzana, e o lugar era um outro clube que ficava além da curva da estrada. Telma, Suzana e mais algumas colegas cruzaram o portão do clube e caminharam sob o sol. À distância Telma já reconhecia a toada familiar do funk. Sentia que estava retornando a seu ambiente natural, e pensou: ao menos vou me divertir um pouco. Ela e as colegas puseram-se a rebolar os quadris na pista, e mais uma vez Telma sentiu-se superior. Os olhares dos rapazes também dirigiam-se mais a ela, mas diferente do passado, Telma não conseguia ficar excitada. Achava aqueles rapazes feios e repugnantes.
— Qualé, gata, não quer dar uma mamada, bota essa buceta pra faturar!
Telma tentou rir com deboche, mas mal conseguia esconder sua repugnância. Não tinha como explicar: ao mesmo tempo em que provocava aqueles rapazes com a sua dança, fugia das investidas. Sentia que a irritação deles crescia, mas não sabia parar.
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