Telma sentiu o coração bater mais rápido à medida em que apertava o passo até estar correndo o mais rápido que permitia o calçamento irregular das vielas. De tanto em tanto olhava para trás a fim de ver se alguém a seguia, até que a casa da amiga Edilene despareceu após ela dobrar uma esquina. Sentia-se ainda como se fosse parte de um filme quer estivesse assistindo, sem controle sobre o que fazia, até que tropeçou e caiu sobre um degrau rachado. A dor do joelho ralado fê-la despertar, aquilo não era um filme, era real! Continuou a correr, notando que nenhum dos transeuntes parecia ter a atenção despertada por sua fuga espavorida, como se aquilo fosse um acontecimento normal de todo dia. Não se importava, só queria sair dali. Quando cruzou os limites da favela é que percebeu o quanto estava ofegante. Parou em uma esquina, sem forças para dar mais um passo, e sentou em um banco, sentindo a cabeça girar.

A primeira coisa que conseguiu pensar foi: e agora, Telma? Para onde iria? Sentia-se desamparada como uma folha seca levada pelo vento. Estava só com a roupa do corpo, e não tinha dinheiro sequer para um ônibus. O coração voltou a bater mais rápido à medida em que buscava na memória um lugar onde pudesse ir e alguém que a pudesse ajudar. Súbito lembrou-se de dona Dalva, a amiga da mãe que era da igreja, e que morava ali perto. Só tinha a ela a quem recorrer. Sentindo o corpo ainda tremer, caminhou pela ruas em direção à simpática vila onde morava dona Dalva.

— Mas onde é que você se meteu, menina?

Telma balbuciou algumas explicações, mas a história era longa e a voz esta trêmula. Dona Dalva levou as mãos à cintura e interrompeu-a:

— Primeiro de tudo vai tomar um banho, está imunda!

Só quando se viu no espelho do banheiro é que Telma conscientizou-se do quanto negligenciara com a higiene do corpo naqueles dias. Lavou-se cuidadosamente, bem desejando que a água levasse mais do que a sujeira, e dona Dalva emprestou-lhe uma roupa limpa para vestir. O alívio do banho foi suficiente para que Telma se sentisse muito mais calma, e sentada no sofá, sem omitir nada, contou tudo o que havia acontecido. Dona Dalva escutou pacientemente, sem interromper, apenas meneando a cabeça, e quando ela parou de falar, respondeu:

— A sua mãe esteve muito nervosa esses dias! Você arrumou uma encrenca das grandes! Mas o que importa é que você está bem e agora é colocar as coisas novamente nos eixos. Eu vou falar com a sua mãe, e também tem uma vizinha que pode ajudar bastante! Fica aqui um pouco que eu vou sair e falar com ela!

Telma ficou calada. Não tinha mais nada para dizer, mas com certeza tinha muito para ouvir. Dona Dalva saiu, e Telma deixou-se ficar no sofá contemplando o sol que entrava pela janela e o gato que dormia sobre uma bandeja no aparador. Sentia-se vazia como o jarro sem flor da estante ali em frente. Nada do que planejara dera certo, e principalmente, ela descobrira que não era nada daquilo que supunha ser. Poderosa? Agora tinha caído na real. Mas apesar de tudo sentia o alívio de quem tocou o fundo do poço, e agora pode subir. Estava com um medo terrível de encarar a mãe, sabendo que não tinha justificativa alguma para dar. Sabia que estava merecendo um castigo e tanto, mas queria que o castigo viesse logo e a resgatasse daquele pesadelo.

A porta se abriu e dona Dalva entrou acompanhada de uma senhora simpática, que a cumprimentou como se já a conhecesse.

— Já falei para a sua mãe que você está aqui! Essa é a dona Elizete, que é do conselho tutelar! Eu vou deixar vocês duas conversando aí numa boa enquanto eu adianto o jantar!

Dona Elizete sentou-se ao lado e pôs-se a fazer perguntas em tom gentil, mostrando ter prática com aquelas situações. Perguntou sobre o relacionamento dela com a mãe, qual o motivo dos desentendimentos, por que ela saíra de casa, onde ela ficou durante aqueles dias, o que acontecera para ela decidir voltar. Perguntou também sobre seus anseios e seus planos para dali para frente. Telma respondeu tudo com segurança sentindo-se confortada só com a presença de dona Elizete ali.

— Muito bem, já falei com a sua mãe, e agora já sei a sua posição! Vamos chegar a um consenso. Amanhã está marcada uma audiência com sua mãe no conselho tutelar, às dez horas!

Dona Dalva agradeceu a boa vontade de dona Elizete, e chamou Telma para jantar. Telma admirou-se de quanto tempo havia passado sem uma comida de qualidade em uma casa limpa. Depois do jantar conversaram longamente sobre assuntos da igreja de dona Dalva, até a hora de dormir, enfim, em um lençol limpo.