— Ih, que chato!

Foi só o que Josias respondeu quando Telma lhe disse que não poderia sair no próximo fim de semana porque estava de castigo, antes de ir para outro grupinho onde havia mais umas meninas assanhadas falando alto. Telma não se juntou ao grupinho e ficou em seu canto cozinhando seu mau humor. Logo quando tudo estava dando certo tinha que acontecer aquilo! Mas o que não queria admitir para si mesma era a facilidade com que Josias a dispensara tão logo constatara que não ia rolar...

Procurou andar um pouco para ver se melhorava. Deu azar: foi logo cruzar com Elaine, que trazia um sorriso do tamanho da cara. Para não dar o braço a torcer, fingiu que não havia acontecido nada e conversou umas abobrinhas com ela.

— Ih Telma, a sua tia te botou de castigo? O que foi que houve, menina? — Perguntou uma menina do grupo. Telma ainda estava pensando oque ia responder quando Elaine interrompeu-a:

— Mas peraí, a quanto tempo você está de castigo? Desde que veio morar aqui?

Telma mordeu os lábios de raiva. Não teve remédio senão contar que a sua vinda para a casa da tia fora um castigo estipulado pela mãe, e agora a proibição de sair no fim de semana era um castigo dentro do castigo.

— Nooossa o que foi que você fez? — Perguntaram as colegas, admiradas.

— Cheguei tarde sábado passado, foi isso...

— Não, elas querem saber o que foi que você fez antes, para ser mandada para cá! — Interrompeu Elaine.

Telma mordeu os lábios de raiva novamente. Elaine queria mesmo vê-la de saia justa. Fez força para mostrar um sorriso cabotino, e respondeu:

— Ah... um dia eu conto para vocês!

— A gente já sabe! — Respondeu outra menina do grupo — Vê lá se não vai fazer besteira de novo, hein!

Telma afastou-se. Estava tinindo de raiva, mas felicitou-se por ter podido segurar e não demonstrar como se sentia. Mas sabia que ia rolar uma fofocada brava em torno dela, graças a Elaine, que naquele momento ria para as colegas, vitoriosa, sem olhar para ela. Falsiane! — Pensou. Com certeza agora teria Josias todinho para ela. Bem queria que o tempo passasse mais rápido e ela voltasse à sala de aula, mas ainda cruzou com Suzana.

— Que chato, hein, Telma!

— Coisas que acontecem...

O ar compungido da amiga incomodou Telma. Não queria que ninguém sentisse pena dela. Suzana pôs-se a desfiar palavras gentis, e rematou:

— Bem que eu te avisei sobre esse Josias, não foi?

Telma se lembrava, sim, e agora tinha que dar razão à amiga. Ficou em silêncio, mas quem cala, consente...

— Esse cara ia te meter em mais encrenca ainda! Já não basta a besteira que você fez?

Por um momento Telma teve uma intuição: teria sido Suzana, e não Elaine, quem contara para o pessoal o motivo dela estar ali? Sempre desconfiara de Suzana, daquele jeitinho de santa dela, pois sabia que pelas costas ela fazia uma coisas bem cabeludas. Suspeitava até que ela arrastava uma asa para Josias. Sabia que tinha Falsiane na área, isso com certeza!

Enfim a sineta tocou e Telma pôde voltar para a aula.

Passou o resto da semana macambúzia, só conseguia se divertir com uma ou outra bobagem que o primo Eduardo dizia. Mas na sexta-feira teve uma surpresa: dona Elizete do Conselho Tutelar veio visita-la.

— Achou que eu não vinha mais, menina?

Tia Justina saiu e deixou-as conversando no escritório. Dona Elizete fez várias perguntas sobre como ela estava sendo tratada, como ela estava se comportando, se estava cumprindo as obrigações que foram estipuladas, como estava indo na escola. Telma respondeu tudo de forma sucinta. Dona Elizete pareceu satisfeita, e respondeu:

— Você está se saindo bem, com um ou outro tropecinho, né? Mas agora me diga com sinceridade: você se sente revoltada por dentro, por ter sido mandada para cá?

Telma pensou no mau humor dos últimos dias, e decidida a não mentir, mesmo porque tinha a impressão de que o olhar de dona Elizete lhe varava a alma, respondeu:

— Às vezes...

Dona Elizete abriu um sorriso compreensivo antes de prosseguir:

— Isso é porque você ainda não compreendeu de todo a experiência que você está passando. Você pensa que está sendo castigada. Mas não. Você está sendo disciplinada aqui! Dis-ci-pli-na-da!

Ante o olhar interrogativo se Telma, dona Elizete explicou:

— Quer saber a diferença entre castigo e disciplina? Castigo é uma ação, disciplina é o processo inteiro. O castigo só faz parte da disciplina se tiver um sentido, se ensinar alguma coisa. Por exemplo, se você abusa de um direito, você pode ser privada daquele direito. Se você causou algum dano, você tem que dar alguma coisa de si para reparar aquele dano. Você aprende com a cabeça ou com o corpo, pelo amor ou pela dor. O castigo pode ser no corpo também. Você prefere apanhar, ou ficar de castigo?

— Ah, prefiro apanhar que é mais rápido... bom, depende da surra, né? — Respondeu Telma, divertida. Estava achando a conversa bem interessante, dona Elizete sabia escolher as palavras certas.

— A sua tia vai julgar o que for justo! Ela está autorizada por sua mãe e pelo conselho para disciplinar você! Juízo, hein?

Dona Elizete despediu-se prometendo voltar, e saiu deixando Telma mais leve após aquela conversa. Já não pensava nas falsianes.