Funk-se Telma!

13 Cuidado com as companhias!


— Cuidado com as companhias, menina!

Foi o conselho de tia Justina naquela manhã, antes de chama-la para ir à igreja, onde haveria um encontro de jovens. Telma escutou calada. Estava mesmo ressabiada, sem saber quem era amiga de verdade ou não, e a tia não deixava de ter razão.

Pelo menos o clima na igreja estava bom, com muita gente bonita. Houve um breve sermão de um pastor jovem, e Telma aproveitou para dar uma olhada nos garotos. Reconheceu o Beto, o Tadeu e alguns outros, e por um instante divertiu-se imaginando-os em um baile funk. Depois o pastor convidou o pessoal a debater um tema, que era sobre ficar ou namorar. O pessoal estava bem descontraído, e as respostas foram variadas. Engraçado que Telma sempre pensara que o pessoal da igreja era um pessoal bem certinho e careta, mas via agora que eram pessoas normais, e alguns eram até bem safadinhos... Mas quando chegou sua vez de falar, foi discreta e disse que só ia namorar mesmo quando sentisse firmeza em algum garoto. Não queria se expor, pois muitas das meninas ali eram fofoqueiras.

Depois encontrou Beto rindo com um pessoal na barraquinha de doces, e entrou no meio.

— Oi Beto, namorar ou ficar?

Fingindo estar continuando a conversa com o pastor, Telma passou-lhe a cantada. Riu por dentro de sua sutileza. Conseguiu afastar Beto do grupinho e ficaram conversando a um canto, escutando o som do órgão que ecoava nos fundos. O garoto era bonitinho mesmo, com aqueles olhos verdes e o cabelo onde brilhavam umas mechas castanhas. Pena que não podia tacar-lhe um beijo ali...

O humor de Telma melhorou aquela semana, e já estava novamente falando com todo o mundo na escola. Em casa, porém, continuava com a tia marcando em cima e batendo relatório para a mãe. Paciência, haveria de encontrar algumas brechas, e até lá o melhor era ficar bem na dela. No domingo foi convocada para ajudar a servir o churrasco de comemoração do aniversário de casamento de uma prima que não via desde os dez anos. Melhor que lavar banheiro, pensou. E lá estava ela na quadra alugada do clube, indo e vindo em meio às mesas onde sentava a parentada, a maioria desconhecida. Mas estava lá também Francielly, que tal como Telma fora mandada mudar de casa depois de muitos aprontos.

— Oi mulé!

— Oiii...

O sorriso cúmplice sinalizava a empatia de quem está no mesmo barco. Quando cruzaram de novo, Francielly perguntou:

— Conta o que você aprontou para vir para aqui, menina!

— Dancei muito funk, HAHAHA

Telma achava divertida aquela conversa entrecortada sempre que cruzavam uma com a outra, mas sentia vontade de falar mais com aquela prima de quem sempre gostara, mas fazia tempo que não via. A oportunidade surgiu quando ambas foram lavar os pratos na cozinha.

— Fui correr atrás de macho, RÁ!

— Ah, eu também. Isso de ir muito a baile funk, a gente conhece muita pessoa errada.

— Mas eu sinto falta, bem que podia estar tocando um funk agora no lugar dessa música sem sal, ah! Eu ia dançar e deixar a velharada toda de cabelo em pé!

— Mas eu já consegui ir a baile funk depois que eu vim para cá!

— Sério? Sua tia deixou?

— Claro que não HAHAHA

Telma estava sentindo que podia confiar em Francielly, e olha que pouco tempo atrás mal se lembrava que a prima existia. Durante a semana trocaram muitos ditos provocantes pelo celular. Francielly a convidou para uma festa no sábado seguinte.

— Ih, não sei se a tia vai deixar, porque foi você que convidou, você é má companhia rsrsrs...

— Diz que vai ser lá na casa da Daniela, dessa ela gosta!

Telma esmerou-se no cumprimento das tarefas diárias, e nem se importou com as piadinhas de Eduardo, que estava sempre a vigia-la e aproveitava para zoar com ela. Na sexta-feira, chegou para tia Justina com muito jeitinho, cabeça baixa e pés juntos, e pediu permissão para ir à festa da Daniela.

— Muito bem, está andando com gente certa! Mas toma cuidado com essa sua prima Francielly, que ela é muito sonsa, e a sua tia Eliza está deixando ela muito solta!

Vitoriosa, Telma pôs-se a imaginar o que ia fazer naquele sábado.