Funk-se Telma!
6 No Conselho
Telma não conseguia disfarçar que estava apreensiva, e dona Dalva procurava deixa-la mais relaxada contando histórias enquanto caminhavam juntas em direção ao conselho tutelar. Sabia que ia encontrar a mãe, mas não sabia como deveria fazer na hora. Era como se sua vida estivesse partida em duas, o antes e o depois da fuga.
Chegaram. A entrada do prédio era discreta, mas lá dentro havia muitos corredores e muita gente. Telma sentiu-se amedrontada, mas serenou-se ao encontrar dona Elizete sorrindo para ela. Após trocar algumas palavras com a amiga, dona Dalva despediu-se, dando seu dever como cumprido. Telma estava tão atarantada que mal pôde dizer algumas palavras de agradecimento, mas a presença ali de dona Elizete transmitia-lhe segurança.
— Sua mãe está naquela sala ali. Vamos lá?
Telma sabia que o momento tinha chegado. A sala era tranquila, com algumas poltronas e longe de burburinho dos corredores. Dona Nilce estava ali esperando, muito séria, e permaneceu impassível quando viu Telma. Por um instante Telma teve a impressão de que a mãe ia saltar no seu pescoço e começar a dizer desaforos, e no instante seguinte bem desejou que isto fosse verdade.
— Não se preocupe, eu estou aqui e vou fazer a mediação entre vocês duas — Explicou dona Elizete, e em seguida sentou-se no canto oposto, deixando mãe e filha de frente uma para a outra.
— Bem, Telma, você fala primeiro. Explique os motivos que levaram você a tomar essa decisão de não morar mais com a sua mãe.
Até admirando-se da própria calma, Telma expôs os motivos que fizeram-na ficar desgostosa em casa: a mãe pegando no pé dela, protegendo os irmãos, implicando com o jeito dela. O sorriso não desgrudava dos lábios de dona Elizete. Quando terminou, veio a pergunta:
— Mas a sua mãe maltratava você, deixava faltar alguma coisa em casa, excluía você de eventos familiares?
Telma respondeu que não, até um pouco surpresa com aquele questionamento. Dona Elizete passou a palavra à mãe. Dona Nilce explicou que procurava tratar a filha como qualquer adolescente daquela idade, exigindo e concedendo o que considerava justo, que a diferença de tratamento entre ela e os irmãos vinha da diferença de idade e do temperamento, pois ela era muito rebelde e com frequência a desobedecia e ia a lugares perigosos, andando em más companhias e expondo-se aos rapazes de uma maneira que ela considerava indecente. Telma escutou calada, admirando-se de como a mãe era capaz de expor argumentos de forma clara e ponderada quando estava calma, o que não acontecia quando ambas discutiam em casa. Dona Elizete retomou a palavra.
— Então, pelo que estou vendo, o motivo da desavença foi você não concordar com a disciplina e as regras estipuladas por sua mãe. Você concorda, Telma, ou tem mais alguma coisa para colocar?
Telma concordou. Achava mesmo a conclusão irretocável. Dona Elizete prosseguiu:
— Comparando com as suas colegas, a mãe delas estabelecem menos proibições que a sua mãe?
Telma ficou sem jeito. Realmente não tinha como citar muitos exemplos de colegas que tinham mães menos restritivas que a dela.
— Então, você aceitaria voltar a morar com a sua mãe, aceitando a educação da forma como ela te dá?
Telma respondeu que queria, sim, voltar a morar com a mãe, mas para tentar de novo, desde que houvesse uma mudança na atitude da mãe. Esta pareceu-lhe a melhor resposta no momento. Dona Elizete dirigiu-se à mãe:
— E você, aceitaria sua filha de volta nessas condições?
Dona Nilce respondeu que se era para voltar e continuar tudo do jeito que estava, ela não queria. Teria que haver uma mudança de atitude da parte da filha. Dona Nilce sentenciou:
— Então, chegamos a um impasse. Vamos procurar uma solução. Telma, você fique esperando um pouquinho ali no corredor, que eu e a sua mãe vamos conversar a sós.
Telma retornou ao corredor ruidoso e ficou sentada em um banco de madeira olhando a porta fechada. Agora já não tinha tanta certeza de haver dito as coisas certas, e estava admirada da firmeza da mãe. Mas não conseguia sentir revolta, pois sabia o quanto havia fracassado em seu projeto de morar sozinha, e não tinha como negar que a mãe tinha toda a razão. No fundo sabia que não podia voltar a morar com a mãe como se não houvesse acontecido nada, o rompimento profundo demandava um novo direcionamento na vida dela. Quando a porta se abriu dona Elizete e a mãe pareciam felizes.
— Chegamos a um consenso — explicou a conselheira — Você vai morar um tempo com a sua tia Justina de Rio Claro. Já conversamos e ela concordou em receber você.
Telma lembrou-se das primas que eram castigadas sendo mandadas morar com as tias em outra cidade, tendo muita faxina para fazer a fim de pagar a estadia. Agora ela era mais uma. Mas não podia negar que já esperava aquela decisão.
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