Funk-se Telma!
23 Vazio
Depois do banho Telma deitou-se e apagou a luz. Ainda tinha algumas lágrimas nos olhos, mas não se sentia mal. Sentia-se esvaziada, como se uma tempestade houvesse levado muito entulho que estava encalacrado dentro dela, e agora não sentia mais raiva, medo, despeito, empáfia, nada. Deixou o pensamento vagar meio sem noção até o sono chegar.
O dia amanheceu estranhamente silencioso, ou era impressão dela? Virou-se para olhar no espelho o traseiro marcado das cintadas, passou um creme e verificou que não ia dar para sentar nem usar calcinha aquele dia. Foi para a sala meio ressabiada de se mostrar para o pessoal da casa depois do corretivo do dia anterior, mas como de costume ninguém falou nada, só Eduardo exibia um olhar de dever cumprido. A tia saiu e Telma ficou dedicada a suas tarefas diárias, vigiada por Eduardo, que na ausência de todos desfez o ar de homenzinho e voltou a mostrar a safadeza de moleque.
— Ei Telma, não quer sentar um pouco?
— Bobo!
— Deixa eu ver se machucou! Quer que eu passe um remedinho?
— Ah, você já viu minha bunda ontem na hora que eu estava apanhando...
Tinha que tomar cuidado porque estava sem calcinha, e as roupas que tia Justina liberava para faxina eram curtíssimas. Telma a toda hora ficava puxando para baixo a barra do vestido, mas se cobria de um lado, descobria do outro. Pior que daqui a pouco teria que subir em escadas para lavar as vidraças. Paciência, pensou, não podia dizer que não merecera...
Dia seguinte, ao chegar na escola, Telma estava receosa do que as colegas iam comentar sobre o fiasco dela na festa e a surra da tia. Mas ninguém pareceu tomar conhecimento, e tudo corria como de costume. Telma ficou ressabiada: afinal, ela queria que as colegas comentassem, ou que a ignorassem, como se ela não existisse? Teve que reconhecer que não era tão famosa ou importante ali como pensava até dois dias atrás. A sensação de vazio interior persistia e começava a incomoda-la. Sentou-se em um banco no pátio, sem ter vontade de conversar com ninguém. Não queria falar com as amigas, nem com nenhum garoto. Estava pensando: quem era ela? Por que as coisas que ela pensava que tinham valor, sempre se revelavam sem valor? Será que ela tinha mesmo amigas, ou era só impressão? Será que os ficantes se lembravam dela um dia depois dela haver terminado com eles?
Apenas uma menina pareceu reparar em seu estado de espírito, e veio se sentar ao lado dela. Era Alessandra, uma colega que sentava sempre na primeira fileira, perguntava muita coisa para o professor e Telma sempre achara meia sem graça, mas naquele momento não se sentiu incomodada com a presença dela. Conversaram uma coisa ou outra, e em determinado momento Alessandra propôs:
— Amanhã tem encontro de jovens na igreja, quer ir comigo?
Para seu próprio espanto, Telma respondeu rápido que sim. Tinha certeza de que Alessandra só viera falar com ela porque notara sua tristeza, e ficou agradecida. Alessandra era da mesma igreja de tia Justina, fazia tempo que Telma não ia lá, mas das vezes que foi, achou legal o pessoal.
O pastor mostrou que se lembrava dela, e Telma ficou um pouco envergonhada por haver ficado tanto tempo sem aparecer. A sala estava cheia de jovens, alguns conhecidos de Telma, outros não. O tema do encontro era a amizade, o pastor discorreu sobre o assunto sem se estender muito em citações bíblicas, depois convidou o pessoal a falar, cada um contou experiências boas ou ruins por que haviam passado com amigos. Telma custou um pouco a destravar a língua, pois não tinha muita coisa boa para contar, mas notando o ambiente acolhedor e ausente de gozações, acabou contando de algumas peripécias e decepções de sua vida, colhendo o olhar compreensivo do pessoal.
Ao sair, Telma tinha a impressão de que o vazio dentro dela começava a ser preenchido. Não era pior nem melhor do que ninguém ali.
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