Telma demorou-se no banho, e de volta ao quarto prontamente mergulhou a cabeça no travesseiro. Algumas lágrimas ainda lhe desciam dos olhos, mas ela se sentia aliviada. Era como se a surra lhe houvesse partido uma casca e o banho houvesse removido uma porção de coisa ruim que saíra de dentro dela. Agora experimentava novas sensações que momentos antes estavam aprisionadas em seu ser. Tinha enfim certeza de que não queria mais nada com Josias, e que ia fazer uma ampla revisão em suas amizades. Com esses pensamentos, adormeceu profundamente para só acordar com o sol batendo em seu rosto no dia seguinte.

Levantou-se e foi olhar no espelho o traseiro. Estava bem vermelho e dolorido. Passou um creme hidratante, melhorou, mas teve certeza de que naquele dia não conseguiria vestir uma calcinha. Não importava, estava se sentindo leve, como se uma nova Telma houvesse emergido da casca quebrada na noite anterior. Experimentou um certo acanhamento de mostrar-se na sala depois do que acontecera, estava arrependida, sim, e mentalmente decidiu pedir desculpas à tia. Mas na sala ninguém pareceu olha-la diferente, e tia Justina estava tão tranquila e sorridente quanto em todos os dias, então achou desnecessário comentar. De repente lembrou que já havia trocado palavras na noite anterior com a tia, que viera vê-la em seu quarto depois da surra. Pensou, como tudo poderia ter sido diferente se a mãe agisse assim tal como tia Justina!

— Está difícil, hein! — Disse o primo Eduardo ao ver que ela não conseguia sentar-se à mesa para o café. Telma sorriu sem jeito. O priminho era o único que demonstrava estar ciente do acontecido. Mas a tia passou-lhe uma longa lista de tarefas, e Telma sabia que não poderia ir à rua tão cedo.

— Vigia a sua prima e dá para ela a lista que eu passei! — Disse a tia para Eduardo antes de sair.

O garoto de 12 anos sorriu marotamente. Vigiar a prima era coisa que ele gostava. Telma sentiu-se sem jeito naquele vestido curtinho que a tia lhe dera para a faxina do dia, mas sabia que enquanto seu guarda-roupa estivesse sob a guarda da tia, era a tia quem diria o que ela ia vestir.

— Deixa eu ver se machucou!

— Danadinho, hein?

Telma sentia os olhos do primo percorrendo seu corpo. Tinha que tomar cuidado, pois estava sem calcinha, e safado como era, o primo vinha com aquele pretenso interesse em ver se machucou. Procurava não se curvar, mas estava difícil, a toda hora ela tinha que alcançar um cantinho do móvel que estava limpando ou do chão que estava varrendo. Quando precisou subir na escada para lavar as vidraças, passou um perrengue danado, e cuidou e colocar a escada junto à quina da parede e subir com as costas coladas à parede. Acabou rindo.

— De que está rindo?

— De uma coisa aqui que eu pensei...

A coisa que Telma havia pensado era a ironia da situação: sempre procurara se exibir para os garotos, porque isso fazia se sentir poderosa, e agora estava com vergonha de mostrar-se para um moleque de 12 anos, seu primo ainda por cima!

— Como é que está se sentindo agora? — Perguntou Eduardo, malicioso.

— Com a cabeça no lugar!

Telma até admirou-se da segurança com que respondera. Ela havia definido precisamente como se sentia naquele momento. No fundo até gostava de conversar com o primo, as perguntas instigantes dele eram uma espécie de desafio. Apertou com mais força o ferro de passar no colarinho, felicitando-se por estar passando roupas naquele momento, trabalho que normalmente ela detestava por ser muito maçante, mas que permitia que ela ficasse ereta e desobrigada de fazer movimentos que expusessem aos olhos gulosos de Eduardo o que ela não queria mostrar. De um relance, compreendeu a lógica de tudo: não era por acaso que a tia só permitia que ela vestisse aquelas saias curtíssimas quando fazia faxina. Ela não era uma piriguete que vivia se exibindo? Pois agora ia se mostrar, quisesse ou não. Como a tia bem colocara na noite anterior, faltou com o corpo, pagava com o corpo...

No dia seguinte, indo para a escola, sentiu-se um tanto estranha por não ter em mãos seu celular, era como se lhe faltasse um membro. Mas sabia muito bem: fora com aquele celular que começara tudo, então a tia estava dentro da mais perfeita lógica ao confisca-lo. O negócio agora é olhar para frente e pensar no que fazer para obtê-lo de volta. Nem olhou para Josias, que tampouco olhou para ela. Conversou pouco com as colegas, sempre com um pé atrás. Viu Suzana chegando com ar de novidade.

— Você sabe onde eu estive?

Falando baixo, desnecessariamente, pois ninguém as escutava, ela contou como fora a um clube sem o conhecimento da mãe. Telma sorriu. Estivera em um lugar bem mais barra pesada que aquele, mas não ia contar para Suzana, muito menos as consequências...

Mais adiante, viu Beto acenando para ela.