Yulia dormira assim que Artia a deixou sozinha naquele quarto de moribundos, e só acordou duas horas depois, quando o relógio bateu nove horas e a infermeira a trouxe seus comprimidos.

– Aqui está, querida. — disse Fátima ao entregá-la um copinho plástico transbordando capsulas de todas as cores e tamanhos. Depois entregou outro com água. — Tome tudo desta vez, ficarei atenta.

Yulia os ingeriu e dispensou a agua, que foi sorvida pela enfermeira.

– Abra a boca. — Ordenou Fátima, que a fez levantar a língua para certificar-se de que nenhuma capsula permanecera ali. — Ótimo. Eu ficaria muito decepcionada.

Yulia sorriu.

– Fátima. — Chamou ela, que mantia os olhos abertos com muito esforço. — Conte-me sobre problemas cardíacos.

– Isso é a respeito do remédio que você tomou?

– Pode ser. — Ela se sentou na cama, dando espaço para a mulher se sentar na pontinha desta, com os ombros encolhidos e os dedos contornando a borda do copo em que bebera.

– Era um remédio para DC. — Ela disse sem olhar para a garota.

Yulia a encarou sem reação.

– É causado pela aterosclerose, que é a gordura impedindo a passagem do sangue pelas veias coronárias. Pode causar alguns infartos, não é muito raro que isso aconteça, aliás.

A menina engoliu em seco e cutucou a agulha em sua veia.

– Fatima, você se importaria de averiguar quando eu posso ir embora?

A mulher assentiu e saiu do quarto, em silêncio, deixando Yulia sozinha com seus devaneios. Até que o velhinho de antes de aprontasse.

– Coisa seria essa ai. — Disse ele, a voz falha. — Acho que por isso ele ficou tão nervoso... esses remédios custam tão caro. — A última parte parecia ter sido dita mais a si mesmo que para a menina, que o encarava com suas grandes esmeraldas.

– Eu fui muito rude? — Perguntou ela.

– Dentro das circunstancias, não. Você só estava nervosa.

– Você acha que eu deveria falar com ele? — Ela o olhava com seriedade, mas hora ou outra deixava de encará-lo para notar os bipes produzidos pela maquina que ligáva-se ao coração dele por algumas fitas colantes em formato redondo.

– Se ele vier aqui... sim. Se não, querida, creio que deve falar com ele em sua casa.

– Não sei se ele vem.

– Ele não perderia a sua alta. — O senhor disse por fim, então reclinou a coluna novamente, que já doia. Mas logo afobou-se e voltou a sua posição anterior. — Ah, aliás, eu me chamo Kerin, Kerin Saiy.

– Yulia Burnes. — Ela estendeu a mão.

– Filha de William Burnes? O deputado? — Interessou-se.

– Deve ser.

– Sinto muito pela morte dele. — Falou enchendo a boca de biscoitos que surrupiou de um pote.

– Não sinta. Ninguém sente. — Murmurou. Mas ele ouviu.

E sentiu pena dela por isso.