Funeral Bands
9 Capítulo 9
Yulia dormira assim que Artia a deixou sozinha naquele quarto de moribundos, e só acordou duas horas depois, quando o relógio bateu nove horas e a infermeira a trouxe seus comprimidos.
– Aqui está, querida. — disse Fátima ao entregá-la um copinho plástico transbordando capsulas de todas as cores e tamanhos. Depois entregou outro com água. — Tome tudo desta vez, ficarei atenta. Yulia os ingeriu e dispensou a agua, que foi sorvida pela enfermeira. – Abra a boca. — Ordenou Fátima, que a fez levantar a língua para certificar-se de que nenhuma capsula permanecera ali. — Ótimo. Eu ficaria muito decepcionada. Yulia sorriu.– Fátima. — Chamou ela, que mantia os olhos abertos com muito esforço. — Conte-me sobre problemas cardíacos.– Isso é a respeito do remédio que você tomou?– Pode ser. — Ela se sentou na cama, dando espaço para a mulher se sentar na pontinha desta, com os ombros encolhidos e os dedos contornando a borda do copo em que bebera.– Era um remédio para DC. — Ela disse sem olhar para a garota. Yulia a encarou sem reação.– É causado pela aterosclerose, que é a gordura impedindo a passagem do sangue pelas veias coronárias. Pode causar alguns infartos, não é muito raro que isso aconteça, aliás.A menina engoliu em seco e cutucou a agulha em sua veia. – Fatima, você se importaria de averiguar quando eu posso ir embora?A mulher assentiu e saiu do quarto, em silêncio, deixando Yulia sozinha com seus devaneios. Até que o velhinho de antes de aprontasse.– Coisa seria essa ai. — Disse ele, a voz falha. — Acho que por isso ele ficou tão nervoso... esses remédios custam tão caro. — A última parte parecia ter sido dita mais a si mesmo que para a menina, que o encarava com suas grandes esmeraldas.– Eu fui muito rude? — Perguntou ela.– Dentro das circunstancias, não. Você só estava nervosa.– Você acha que eu deveria falar com ele? — Ela o olhava com seriedade, mas hora ou outra deixava de encará-lo para notar os bipes produzidos pela maquina que ligáva-se ao coração dele por algumas fitas colantes em formato redondo.– Se ele vier aqui... sim. Se não, querida, creio que deve falar com ele em sua casa.– Não sei se ele vem.– Ele não perderia a sua alta. — O senhor disse por fim, então reclinou a coluna novamente, que já doia. Mas logo afobou-se e voltou a sua posição anterior. — Ah, aliás, eu me chamo Kerin, Kerin Saiy. – Yulia Burnes. — Ela estendeu a mão.– Filha de William Burnes? O deputado? — Interessou-se.– Deve ser.– Sinto muito pela morte dele. — Falou enchendo a boca de biscoitos que surrupiou de um pote. – Não sinta. Ninguém sente. — Murmurou. Mas ele ouviu.E sentiu pena dela por isso.
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