– Não foi o que eu disse, Yulia. — ele disse se sentando ao lado dela, em sua maca, a encarando com frustração. — O meu emprego não paga uma babá.

– Idiota. Tudo bem, eu sei o que você disse. — Ela sorriu o empurrando para mais longe. — E Rose? Aliás, não foi meia hora. Trinta minutos foi o tempo que eu fiquei com a cara enfiada naquela sua maldita mesinha de centro!

– Aliás, em dois dias você quebrou minha janela, minha mesinha e ainda arrombaram minha porta... eu não sei se quero morar com você por mais tempo.

– Vai me abandonar aqui?, à beira da morte? — Ela abriu a boca, pasma.

– Dramática. Ah, desculpe, eu falo mais baixo. Não, não. Sem problemas. — Falou com o paciente do lado, que reclamava de sono e se revirava na sua maca ruim.

– Não me falou sobre Rose.

– Ela é ótima. É só que.. eu não sabia que ela era desse jeito tão extrovertida. Ela me parecia mais recatada ou sentimental. Só que...

– Ah, Artie, mas ela gosta de você. — Ela arrumou o tubo que estava em sua veia, verificou se o soro já estava acabando, não.

– Falou com ela depois daquele jogo?

Ela riu.

– Não, Artie. — Encostou a cabeça no travesseiro e olhou para longe. — Eu não sei nada sobre ela.

Eram sete horas da manhã, Artie cochilava no ombro de Yulia, deitado em sua maca, ela o olhava às vezes com desgosto, fazia uma careta e voltava a encarar o teto manchado pelo tempo. A porta do quarto foi aberta violentamente e uma menininha de sete anos, cabelos ruivos, correu até ela e a abraçou.

– Yulia! Ligaram pra mamãe. Você tá bem? — Jammie a abraçou, era sua irmã mais nova e pela qual Yulia era louca.

– Ai meu deus, Jammie! Que saudade. — A apertou mais forte. Artie roncou em seu ombro, ela estapeou no rosto e ele acordou babando. — Que nojo!

– Ah, Yu..Yulia. Desculpa. Ahn... você é? — Encarou a ruivinha, sonolento.

– Jammie. — Ela esticou a mão formalmente. Usava uma roupa social e uma gravata. Artie arqueou uma sobrancelha.

– Ela é minha irmã, Artie. Jammie, esse é um amigo meu. To morando na casa dele.. verdade ou consequencia.

– Chaster.. — Ela lamentou.

– Não sabia que você e Rose tinham outra irmã. — Ele se levantou da cama para esta ser ocupada pela menina.

– Oh, não. Esta é só minha. — Yulia ofendeu-se. — Jam odeia a Rose. E ela é, também, filha da minha mãe com o Caio, meu padrasto.

– Rose é uma pessoa desnecessária, eu diria. — Palpitou ela. Ele arregalou os olhos. Sete anos...

– Jammie! — Ela deu de ombros e se levantou, foi até a porta, espiou o corredor e voltou para a sala, fechando a mesma atrás de si. Os outros pacientes ainda dormiam. Jammie mudou seu semblante brincalhão para um sério e caminhou até Yulia com os olhos baixos, encarando os quadradinhos de azulejo do chão. Segurou as mãos da irmã com força e deixou que uma lágrima escorresse. Yulia preocupou-se imediatamente. Jammie não chorava.

– A mamãe anda meio distante.- Começou ela — Já faz um mês e eu estava cada vez mais preocupada. Estava se trancando no quartinho e escrevendo por dias. Ai meu pai a levou no médico e ela estava meio conturbada naquele dia. Ela está internada, Yulia. Deu entrada hoje.

– O que ela tem? — Disse simplesmente. Não tinha muito o que falar.

– Uma espécie de verme no cérebro.

Ela tampou a boca para que não gritasse. Engoliu o pouco de saliva que continha ali e desviou o olhar da irmã, que a abraçou ternamente.

– Não se preocupe, Yui, vai dar tudo certo. O médico vai tirar os ovos. São só dois. Ele disse que, para as circunstancias, está bom.

Yulia assentiu e odiou Artie por estar ali naquele momento. Ele a olhava incrédulo pois, depois de tudo aquilo, nem um filete de lágrima riscou o rosto dela.

Jammie percebeu, em algum momento e sorriu. — Nós somos assim, puxamos a mamãe. Ela não chora por nada sério, ri. Quando choramos, saiba, não nos importamos tanto assim. Mas a Yulia chora de raiva, só disso. Ela também é meio dramática.

– Meio? — Ele riu alto. Um dos pacientes reclamou.

– Yulia, Charlie está querendo vê-la, pode entrar? — Perguntou uma enfermeira que entregou um copinho de comprimidos para o senhor ao lado.

– Fazer o que.

A mulher sorriu e saiu da sala, dando espaço para o homem que entrou logo em seguida.

– Quem é esse? — Perguntaram Artie e Jammie juntos. Yulia levantou os ombros.

– Meu herói! — Gargalhou. Charles bufou. — Como foi na psiquiatria? O trauma é muito grande?

– Te passo a conta, quando der.- Seus olhos passaram sobre o loiro de cara amarrada que o encarava e a menina estranha de olhos incrivelmente castanhos. — Quem são?

Yulia deu de ombros. Jammie estendeu-lhe a mão direita e apertou a do garoto, com um sorriso casual. — Sou a irmã dela. — Disse antes de voltar sua atenção à ela e esquecer da presença dele.

– Artie.

– Ah, você é o cara que ela conhece há três dias?

Ele assentiu. Charles gargalhou.

– Bem, eu só vim dizer que eu estou indo embora e que foi um prazer ajudá-la. — Fez uma reverencia e deu as costas para todos, indo em direção a porta.

– Ei. — Chamou Jammie. Yulia estava concentrada no seu soro que há pouco havia sido trocado. A agulha em sua veia a incomodava. — Obrigada por salvá-la. O que deseja em troca?

Ele sorriu para a menininha, abriu a porta e saiu.

– Jammie, querida, pode ir lá na recepção e me trazer um copo bem cheio de água?

– Bem gelada? — Yulia assentiu e esperou a irmã sair.

– Artie. — Olhou para ele séria, gesticulou com o indicador para que ele viesse até ela. — O que eu tomei?- Ele uniu as sobrancelhas. — Aquele frasco laranja no banheiro, que eu confundi com o meu. É mais fácil pros médicos se eu souber o que é. — Ele normalizou a carranca.

– Era para o coração. — Dito isso, ele saiu do quarto deixando-a sozinha com os outros doentes. Ela jogou a cabeça no travesseiro com força. — Droga de cara antissocial e sem jeito pra vida! — Amaldiçoou.

– Ah, minha filha. — Disse o velho ao seu lado que, pela primeira vez se pronunciou. — Ele sofre.

Ela o encarou e sorriu para ele.

– Não devia ter perguntado?

O velhinho levantou as mãos e disse não saber, mas logo sorriu para ela e falou que ele não se importaria em responder.

– Jovens.. — Lamentaram juntos.