Funeral Bands
5 Capítulo 5
Notas iniciais
– Então a gente começa ensaiando T.N.T do ac/dc. — Informou Artie afinando sua guitarra vermelha.
Yulia o encarou séria. — Por que?
– Porque é minha musica favorita, oras. — Ele debochou.
– Nana nina não! — Pronunciou. — Eu exijo que toquemos Take me somewhere nice do mogwai.
Artie a encarou incrédulo. Eles haviam acabado de voltar da boate, eram duas e trinta da madrugada e estavam sentados no meio fio em frente o armazém. A noite era clara, com muitas estrelas e o clima era agradável, o que os convenceu a ficar ali. Yulia ainda estava embriagada, só que mais moderadamente. Ela cantava alguns trechos e ele apenas ria, com vergonha do que ela o fazia passar.
Artie nunca passara tanto tempo com alguém.
– É perfeito, Artie, para de ser fresco.
– Mas é musica de menininha. — Ele riu. — Estou mentindo, Yulia, eu conheço bem.
Ela ficou séria e encarou o asfalto.
– O que você tem agora?
Yulia pegou-se imaginando uma borboleta, ou talvez duas, que a fizessem ser alguma coisa nova. Esse era o maior sonho dela: ser. Mas ela não era. Yulia tinha um potencial fraco com sentimentos e ela raramente sabia o que sentia ou o que sentir em cada situação. Ela era um emaranhado de pensamentos e confusões férteis que estavam sempre dispostas a aumentar. Artie não entendia isso. Artie não entendia ninguém que sentisse algo que não fosse tédio. Nunca amara. As pessoas que amam são doentes, afirmava, e ele poderia ser tudo, mas era completamente são.
– Eu estou bem. — Ela disse. Não mentiu, sentia-se calorosamente completa. — É só que tudo isso é muito novo pra mim. Não lhe é? Eu nunca me imaginei em uma banda ou então aqui, com você. Eu nunca me imaginei longe do Mike, e olha só... e meu pai, eu nunca imaginei revê-lo. Mas revi. E uma irmã! Eu nunca imaginei conhecê-la, mas a conheço. E eu não sei nada sobre ela.
– Yulia, isso é perfeitamente normal. A vida prega peças em todo mundo. Imagine só que chato seria se tudo fosse da forma como você imagine.
Ela assentiu, mas nem de longe concordou. Gostava de ter controle e ciência sobre tudo.
– E Rose? — Perguntou. — Você já ligou para ela ou ainda carrega o numero dela no bolso traseiro de sua calça jeans bege? — Ela gargalhou.
– Mexeu em minhas coisas?
– Aliás, estou te devendo 50 dólares.
Eles entraram em casa quando uma chuva grossa desabou. Yulia estava sentada no sofá de couro assistindo à um desses programas da madrugada que leiloam vacas e bezerros. Ela gostava.
Artie andava de um lado para o outro pela casa com Rose no telefone. Marcavam um lugar para se encontrar, ele nunca sentira algo tão próximo de atração por alguém, mas gostava.
– Yuli.. — Ele chamou tampando o microfone do aparelho — Yulia, se importa se eu for até o centro com a Rose agora?
– A casa é sua, Artie. Saia e venha a hora que quiser. — Respondeu sem desviar a atenção da tevê.
– Okay, então eu te encontro agora lá no... Tá bom, eu te espero. — Desligou.
Artie saiu de casa com o seu casaco de couro, apressado. Caminhou cerca de 15 minutos até decidir pegar um taxi. A chuva caia ameaçadora, lá fora e ele não pretendia correr o risco de pegar um resfriado. O carro laranja era bem nojento por dentro, o que fez seu estômago revirar, o motorista mascava um palito de dente sujo e com restos de alimento em seu bigode. Artie era bem fresco, como diria Yulia.
Tardou sete minutos para que o carro estacionasse de frente a um bar com um letreiro azul e uma musica altíssima que quase estourou-lhe os tímpanos.
Por Deus, pensou ele, eu não aguento mais músicas altas essa noite.
Entrou no local, depois de pagar o taxista e procurou a garota morena dos olhos azuis com veemência.
Yulia trocou de canal várias vezes até deixar em um de culinária, quando se lembrou que sentia fome. Foi até a cozinha e deparou-se com os pedaços de bolos e tortas que comprara. Não tinha tomado os cafés.
Devorou um pedaço de torta de morango, sorridente. Mas seu espírito feliz foi se degradando à medida que lembrava dos acontecimentos do dia. Ela amava Mike..
Vomitou.
Os jovens dançavam, aglomerados, e o estapeavam hora ou outra, sem querer. Não achava a garota, por isso sentou-se no bar e pediu uma cerveja. Odiava cervejas. Mas tomou.
A banda que tocava não era boa. Era uma espécie de tentativa de pop.. ou eletronica? Ele não sabia.
– Artie? Eu estava te procurando.
Abriu o armário, cambaleando, pegou uma garrafa de champagne e a abriu com toda a força que encontrara no momento. A tampa voou. Mais bêbada que estava, Yulia não podia ficar. Ou podia? Quando deu por si estava chorando em um canto qualquer.
Mike... seu filho de uma vaca.
Seu rímel encontrava-se acumulado em sua bochecha e ela sentia arder os olhos. Tinha vontade de gritar, mas não ia se dar o luxo de deixar toda a dor se esvair sonoramente. Não ia.
Agarrou os joelhos e continuou chorando até que se cansou.
– Rose! — Artie sorriu. — Eu também estava a sua procura. Quer beber algo?
A garota sorriu. Tinha os olhos maquiados e a pele levemente corada. Usava um vestido acima dos joelhos e grudado que dava a ela um ar vulgar.. ou quem sabe maturo?
– Claro. Você tá bebendo o que?
– Cerveja mas.. odeio isso.
Ela gargalhou. — Eu quero uma ice.
O barman lhe atendeu rapidamente.
– Porque tomas algo que odeia?
– Mania.
Eles sorveram suas bebidas rapidamente. Então ela se dirigiu a ele: — Quer dançar?
Ele assentiu e eles seguiram para a pista de dança.
Yulia sentiu uma dor no estômago.
Deus, gastrite agora não — pensou ela. Mas seu pedido não foi atendido. Foi até o banheiro e pegou o vidrinho laranja. Pegou quatro comprimidos e os ingeriu com empenho, sem água.
Foi ao sofá e resolveu não se sentar, colocou uma música em algum canal qualquer e dançou até que se sentiu mole e caiu sobre a mesa de centro de vidro, quebrando-a.
Sentiu sua pele se afastar de seu corpo.
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