Notas iniciais
Queria agradecer a todo mundo que ta lendo e mandar um chute na bunda da minha amiga, B. Rockenbach, que me inspirou a personalidade de Artie.. ( Ele é ela com um volume entre as pernas. ). Amo-te, babaca.

Havia basicamente uma hora desde que Yulia o arrastara para aquela boate mal iluminada. Artie estava sentado em uma das mesas de quatro lugares, escutando uma banda cover que tocava. O vocalista era bombado, assim como todos os outros integrantes, que mantinham seus olhos focados na porta, esperando alguém chegar, aparentemente.

Yulia estava na pista de dança totalmente embriagada, as luzes afetavam seus olhos e ela não enxergava senão um borrão de neon. Segurava uma garrafa quase vazia de whiskey em uma das mãos, e na outra uma vodka pela metade.

Já faziam trinta minutos desde que ela disse que iria pegar umas cervejas mas, obviamente, fora além disso.

Artie a encarava com tédio. Já teria saído de lá, por ele, mas sabia que, assim como o mesmo, a garota era solitária e não tinha mais ninguém. Aliás, ela precisaria de ajuda para voltar para casa.

Os homens bombados começaram a cantar sua versão de Angie, dos Rollings Stones. Artie sentiu-se constrangido balançando sua cabeça no ritmo da música, com cinco garrafas vazias de champagne.

– Angie, I still love you.. — Gritou ele em um acesso de ansiedade.

– Artie. — Yulia cutucou-lhe o ombro, rindo. — Ah, meu deus. Artie, eu vou vomitar. — Ela correu em direção aos banheiros, que tinham as portas coloridas por neon. Ajoelhou em uma cabine e jorrou no vaso tudo o que ingeriu na última hora.

– Yulia? — Artie entrou no banheiro e se sentou ao lado dela. — Ah, eu disse para não beber tanto. — Segurou as pontas do cabelo da menina.

– Mike! — Disse limpando os lábios. — Eu precisava esquecê-lo.

– Ah, Yulia, poderia ter sido pior, sabes disso. — O garoto encostou sua cabeça na parede da cabine.

– Como? Como poderia ter sido? — Sim, ela era dramática. — Hein, Artie? Ele fez exatamente tudo o que eu pedi para nunca fazer.

– Beijar outra mulher? — Ele riu e ela o fuzilou.

– Idiota! — Deu-lhe um tapa sem força. — Ele me fez lembrar meu pai.

– E o que pode haver de tão ruim nisso?

– Porque eu amo meu pai mais que tudo, droga! Eu sempre amei e ele me abandonou. — Ela chorava.

– Não exagere.

– Ele e minha mãe se casaram jurando amor eterno. Eles juraram a Deus.. e eles mentiram para Deus. Para Deus! — Fungou. — Era tudo perfeito, Artie. Meu pai me levava ao parque às quintas, mamãe rodava a cidade à pé às sextas e, aos sábados, iamos todos ao centro. Mas eu não me lembro, Artie, se é verdade ou se eu que inventei. Aí tudo isso foi parando. Meu pai começou a chegar tarde em casa... depois nem chegava. E, em um mês de sumiço, ele me mandou uma carta dizendo que tinha uma filha e que não voltaria. Eu tinha cinco anos. E dezenove anos depois, no ano passado, outra carta chegou. Cartas.. eu odeio cartas.

– Ele podia não ter dinheiro para o trem.

– Ele sempre morou na mesma cidade que eu. A carta dizia que ele tava doente e que eu deveria visitá-lo. E eu fui. Ele não olhou para mim. Não! Ele me disse: Não respondeu minha carta. E depois o velho chamou minha irmã e disse: Julia, eu quero que você cuide de Rose! Sim, Rose é minha irmã.

Artie deixou que o queixo caísse.

– E ele errou meu nome! — Ela afundou o rosto nas palmas e saiu da cabine, sentando-se na pia e encostando a coluna no espelho frio.

Artie não disse que sentia muito. Não sentia. Não tinha pena dela.

– Por Deus, eu odeio cartas!

– Vou me lembrar disso. — Ele sorriu e sentou-se ao lado dela.

– Oh I don't have happy hours since I don't have you [...] — Cantou ela balançando suas pernas e as encarando tristemente.

– Yulia.

– Artie..?

– O quê você acha de montarmos uma banda?

Ela jogou a cabeça para trás e gargalhou.

– Sim, você arrasa cantando.

– I am like a diva, baby.

– E eu, modéstia parte, sou fera na guitarra. E ai, topa?

Ela sorriu.