Funeral Bands
3 Capítulo 3
Yulia acordou com a boca do estômago ardendo, ela suplicava por comida, já sentia o gosto de ácido em sua lingua. Levantou-se. A casa era extremamente silenciosa àquela hora da manhã, ouvia-se apenas o barulho de Artie movimentando-se em sua cama, o garoto dormia agarrado com um coelho de pelúcia rosa. Yulia sorriu sem pensar em nada, apenas que o sentiu frágil e sofrido naquele momento em que o mesmo não se escondia em sua interminavel carapaça de homem durão. Ele não o era.
A garota rumou a cozinha, onde procurou incansavelmente por algum alimento, qualquer um. Mas não tinha. Não tinha qualquer molécula de carboidrato ou proteína. Apenas champagne e maços de cigarro. Yulia não fumava.
– Mas que merda! — Murmurou irritada, depois se arrependeu quando Artie se revirou incomodado. Ela caminhou até ele com passos firmes e sussurrou perto do seu ouvido — Isso é tudo culpa sua, Artie sabe-se lá do que, culpa sua e daquele maldito jogo! Eu tenho problema no... ah esquece! — Yulia correu até o banheiro, o qual não tinha porta, e ela ficou abismada, quase gritou. — Siga em frente, Yulia Burnes, em frente! — Colocou sua calça jeans clara colada que vestira no dia anterior e pegou uma regata de Artie em seu guarda-roupa abarrotado.. e 50 reais do bolso de uma calça dele, claro.
Yulia tragou o ar frio que soprou em seu rosto e caminhou pelo beco até encontrar uma padaria qualquer, e não tardou muito para que ela se deparasse com um letreiro brilhante. O lugar era meio sujo mas os bolos e as tortas na vitrine chamaram sua atenção. Yulia era apaixonada por qualquer coisa que levasse mais de 70% de açúcar em sua composição, e ela se aproveitou disso para sair daquela loja com um bolo de chocolate, uma torta de limão, dois pedaços de torta de morango e quatro cafés duplos. De fato ela quase derrubou tudo no chão no curto caminho até aquele beco novamente, onde ela sorriu ao avistar Mike a distância.
– Mike! — Sussurrou ela indo em sua direção, uns vinte metros os separavam. O garoto usava uma jaqueta de couro por sobre seu peitoral nu, ele se encostava no vidro de uma floricultura com um buquê de tulipas nas mãos. Yulia não gostava de tulipas. Ele se movimentou bruscamente certa hora, quando ela já estava a somente dez metros de distância, ai o mesmo agarrou uma loira que passava desfilando sobre um salto gigante. Esta trajava um vestido vermelho que ressaltava sua pele claríssima, um batom da mesma cor e os sapatos pretos. — Mike.. — Sussurrou ainda mais baixo. Ele não a ouviria nem se quisesse. O homem, então, entregou àquela mulher o buquê decorado e a beijou ferozmente, derrubando o corpo dela contra o vidro. — Mike... — Yulia reuniu todas as suas forças para chamar o ruivo que interrompeu o beijo assustado e a encarou.
– Yulia, não é o que você está pensando. Ela é apenas... — Ele colocou as mãos na cabeça, soltando a mulher. — Yulia, foi ela quem me beijou eu... — Mas era tarde demais, a garota continuara seu caminho em passos normais. Não corria, não rastejava. Continuou como se nada lhe tivesse acontecido, sem dizer nada. — Yulia! — Ele gritou. A menina olhou para trás esperando alguma palavra, seus olhos não eram raivosos, pelo contrário. — Me desculpa. — Ele disse por fim, se aproximando dela.
– Mike. — E essa foi a ultima palavra que ela disse antes de voltar a andar pelo beco frio até chegar no armazém de Artie, onde ela entrou abruptamente, batendo a porta com força. Deixou todas as suas compras sobre a mesa e se jogou no chão, abraçando os joelhos. Não chorava.
– Mas que merda, Yulia! Não lhe basta quebrar a janela? Queres quebrar minha porta também? — Artie veio gritando, acabara de sair do banheiro. Os cabelos loiros dele estavam desarrumados e ele passava os dedos freneticamente para desembaraçar. — Yu..Yulia o que você tem? — Ele se aproximou da garota ao vê-la no chão.
– Mike..! — De uma hora para outra, era tudo o que ela sabia falar.
– Sim? Mike...?
– Mike! — Repetiu.
Artie a abraçou com força sem mesmo saber o motivo, depois se sentou ao lado dela, em silêncio. Os dois se encontravam encarando o chão há basicamente uma hora quando ela resolveu falar.
– Aquele filho de uma puta estava beijando uma mulher na rua. — Pronunciou com raiva. Ela se levantou e estendeu a mão para ajudá-lo. — Venha.
– Imagino que queira tomar algo quente e ficar em casa vendo filmes? — Deduziu o garoto se levantando.
– Não, Artie, eu não sou esse tipo de garota. — Ela andou pela sala a procura de alguma coisa para fazer. — E se fôssemos ao bosque?
– Não acredito que eu seria uma boa companhia... você mal me conhece.
– Ainda são dez horas, Artie, eu tenho o dia todo.
E assim eles foram para o bosque após Artie se vestir adequadamente. Era uma praça cheia de árvores e plantas que cobriam todo o céu, só sendo possível vê-lo do observatório. Havia um caminho de pedra por entre a grama, não era muito largo e dava somente para duas pessoas andarem lado a lado. Trilhas de flores vermelhas seguiam as pedras. O dia passou rapidamente. Eles foram perto de uma cachoeira artificial e até tiraram algumas fotos com a polaroid de Artie. Yulia lhe contou algumas coisas e até ele foi capaz de lhe revelar alguns segredos. Comeram um lanche qualquer acompanhado por um capuccino quando saíram do bosque. Yulia olhava animada para os carros que passavam, e para os ônibus lotados que paravam para sobrecarregar-se com mais e mais turistas. Olhava fascinada para os trens que hora ou outra ali passavam pelos trilhos de ferro provocando um barulho ensurdecedor. Eram dezessete horas quando resolveram voltar.
– Poderíamos ir a uma festa ou boate. O que acha?
Artie sorriu e se jogou na parede, se apoiando na mesma, lá estavam eles, no beco aonde tudo acontecia.
– Não sei se eu seria uma boa companhia. Não me dou bem com festas e boates. Não é melhor chamar um de seus amigos?
– Amigos? — Ela soltou uma gargalhada se encostando ao lado dele. — Ah claro, mas Artie, eu não tenho amigos. Se comparar o que eu te contei e o que me contaste hoje não dá o que eles sabem sobre mim. O que eles sabem sobre mim afinal? Que eu me chamo Yulia e que namorava Mike? — Ela riu de novo, desta vez mais melancolicamente. — Daqui a pouco vão me conhecer como "Yulia, a corna" sem nem se importarem com isso. Eles vão me olhar e rir sem nem se importarem com o que eu senti na hora. Se formos falar de amigos, Artie, você seria o melhor deles, aliás, seria o único. — Estalou a lingua nos dentes. — E você, Artie? Cadê seus amigos?
– Quanto tempo eu tenho para me arrumar? — Perguntou mudando de assunto e voltando a andar em direção a porta.
Yulia sorriu.
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