Notas iniciais
Eu fiz essa história muito empolgado e me dediquei muito, espero que gostem :D

[1] capitulo um

A chamada

Eu acordei com um sinal de uma sirene, mais especificamente a sirene oficial, que significava que teríamos de comparecer a algum pronunciamento do prefeito do Poder

Me levantei logo e me visti com uma roupa habitual, ao sair de casa vejo que meu irmão estava aproveitando para olhar o mar e minha mãe esfrega a roupa suja no tanque.

Moramos em uma região onde os enormes prédios do Poder podem ser vistos porem um tanto distantes, geralmente ficam pouco próximos do mar, onde fica minha casa, por isso ainda é um lugar tranquilo para se morar, poucos gostam daqui, mas esses poucos não mudariam de modo algum.

O barulho da imensa cidade do Poder é alto, chega a alcançar essa distancia, posso ver no alto dos arranhas céus flutuadores aéreos e muitos veículos nas altas pontes extremamente altas. Ao olhar em direção ao mar vejo pontas de montanhas em terras cujo o mar engoliu ‒ justamente por isso toda a cidade do poder se distancia do mar, pelo medo da ferocidade das aguas. ‒ , um dos picos eu sei o nome, algo com Corcovado… alguma coisa assim. Ainda são muitos altos, agora ilhas, dizem haver em seus pés prédios e mais prédios, uma vez tentei mergulhar mais fundo, chegar mais próximo, pude vê-los, porem de tão fundo não me arrisquei a ir muito além. Mas não é necessário ir até lá para ver a antiga cidade, temos uma réplica ‒ um pouco mais moderna ‒ , onde fica o centro da única cidade de Enya, chamada de Poder.

Meu irmão joga pedras na agua, a mesma agua feroz que foi capaz de desmembrar um continente, que fez de onde moro a maior ilha do planeta, e o maior centro econômico, denominado como Enya, o maior dos países.

‒ No que está pensando, Kriller? ‒ pergunto me juntando a ele que olha para mim, sua aparência mais cansada que a idade que tem, é dez anos mais velho que eu, tem vinte e seis anos de idade, seu olhar é negro e é firme sua voz.

‒ Você não era nascido, mas a mais ou menos dezessete anos a sirene tocou, essa sirene, o mesmo som, sabe o que significa?

‒ Só que é algo importante, mais nada, geralmente o som é mais baixo e apenas para pronunciamentos rápidos ‒ digo ‒ tenho uma vaga ideia do que pode ser, mas não tenho certeza.

‒ Papai… já se perguntou porque nunca viu ele? Onde ele está? O que aconteceu para mamãe não citar ele nunca?

‒ Nunca tive essa curiosidade, o que eu sei é o suficiente, ele nos abandonou ‒ digo tranquilo

‒ Não é verdade! Não o conheceu, ele foi chamado pelo governo para integrar o exercito, para ir a primeira sociedade, não tinha escolha, desde então nos é enviado mantimentos e então sobrevivemos sem ele, o governo o levou sem dar maiores explicações! ‒ disse Kriller se enfurecendo

‒ Por que nunca antes me contou isso? ‒ indago

‒ Por que não precisava saber, mas agora eu posso ter o mesmo destino de papai, você não corre o risco, mas eu sim! E se dessa vez for igual, me lembro como se fosse ontem, nunca vou esquecer quando vi papai pela ultima vez.

“Lembro de sua aparência. Você é bem mais parecido com ele do que eu, os mesmos olhos verdes, diferente de mim que puxei a mamãe, era forte, grande, seu cabelo era preto como o seu, não castanho. Você lembra muito ele, muito mais do que eu.

Nunca antes tinha falado muito sobre meu pai, o que sabia era que se chamava Holl, apenas isso, não temos foto ‒ o que é um grande luxo para alguém que vive como nós vivemos, fotos são caras, só temos três, uma minha, de meu irmão e de nós dois e minha mãe juntos ‒ , minha mãe ficou grávida pouco tempo antes dele partir, por isso nunca o conheci. Eu não sabia o que dizer, Kriller sentia por ele ter ido, mas eu não o conheci, lógico que queria que estivesse vivo mas não fico tão triste assim.

‒ Acha mesmo que podem estar convocando para integrarem ao exercito que ir á primeira sociedade?

Sei pouco sobre a primeira sociedade, apenas que a que moro é a segunda e são dividas por um imenso muro ‒ apesar de tecnicamente serem apenas uma cidade. Guarnecido por muitos policiais, impedindo que qualquer um ultrapassa para o outro lado, nem ao menos pode-se vê-lo, o que me é contado é que é um lado muito perigoso, por isso é necessário que mandem soldados para o lado de lá, mas é raro isso acontecer, já que faz tantos anos desde à ultima chamada.

‒ Nenhum dos que foram para lá, puderam voltar, possivelmente todos morreram, e se isso aconteceu quer dizer que precisam de novos.

‒ Mas qual é realmente seu medo, afinal não temos um pai para poder ser chamado novamente.

‒ Mas EU posso ser chamado, não tenho a mínima ideia do que acontece por lá, não tenho treinamento algum para ingressar lá, morreria em menos de um mês!

‒ Já que não tem qualquer treinamento, por quê seria escolhido? Com certeza mandarão alguém de mais preparo para isso!

‒ Eu não faço ideia, mas papai não tinha feito nada para ingressar e ainda assim entrou, não foi? O que impede que eu seja, e caso eu fosse, quem cuidaria de mamãe… de você? Sou o chefe dessa família, e como tal é errado que os abandone!

‒ Eu não preciso que tome conta de mim, dezesseis anos é muita coisa, não preciso de sua ajuda!

‒ Você não tem absolutamente poder algum nessa cidade, você é uma mera criança para eles, não pode conseguir alimentos, não pode trabalhar oficialmente, não pode tomar conta de mamãe!

Era muito estranho aquilo, estávamos decidindo como íamos fazer quando Kriller fosse para o exercito, mas as chances são mínimas, quase nenhuma, em uma cidade de 30 milhões de pessoas para irem, como justamente ele poderia ser chamado?

‒ Vamos parar com isso, tudo bem? São mínimas a chance de ser chamado e com certeza não será, ande rápido que o dia de hoje vai ser longo. ‒ digo

Eu me levanto e volto até minha casa, uma casa de quatro cômodos, bem pequena, cercada de vegetação e em frente ao mar.

Minha mãe estava perturbada, não fazia nada direito, nunca havia visto-a assim, estava cabisbaixa, sua aparência era de mais velha do que realmente era, seus cabelos meio loiros já estavam sujos e bagunçados, seu olhar já não era mais feliz, qualquer coisa a fazia ficar emotiva, porem se mantinha completamente calada, afogava suas magoas batendo com a roupa molhada no tanque desgasto.

Ainda estava cedo, em exatas cinco horas deveríamos estar presentes a praça central da cidade, em frente ao grande monumento ao poder de Enya.

Antes de ir resolvo dar uma andada na praia. Caminho por um longo tempo, deixando Kriller pensativo jogando pedras ao mar e minha mãe lavando a roupa.

Por um momento ouço um barulho estranho, algo como o barulho emitido por um… javali.

O animal vinha correndo ferozmente em minha direção me obrigando a fugir desesperado, corri em alta velocidade até ouvir o grito de fúria de alguém vindo logo em seguida do javali. Eu o conhecia, segurava uma zarabatana e com um sopro acertou o javali que caiu duro ao chão.

O cara que o acertara era Jiller, um garoto que morava bem perto de minha casa, um de meus amigos mais antigos, morava sozinho, apenas com um cachorro, em uma casa parecida com a minha, um garoto que nunca demonstra a tristeza de não ter ninguém na vida, além de mim e Kriller que somos quase seus irmãos.

‒ E ai Aleff? Preparado para um daqueles monótonos pronunciamentos políticos ‒ disse Jiller zombeteiro

‒ Não ficaria zombando se soubesse o que pode ser o motivo de sermos chamados ‒ eu rebati

‒ E acha que eu não sei, uma convocação oficial, já invadi os sistemas do poder e descobri isso, o Terceiro Governador de Enya em pessoa virá aqui.

Jiller, um garoto extremamente nerd, cabelos ruivos, usava um imenso óculos quadrado e possuía um nariz imenso, era o que se pode chamar de um excelente racker, invadia qualquer tipo de maquina existente, era o melhor possível, poderia muito bem conseguir bastante dinheiro se quisesse, porem não é o que deseja, sempre teve uma atração por fazer O Poder de bobo, outro motivo que nunca permitiria que morasse ao centro da cidade seria o fato de que lá há rastreamento, aqui onde moramos é o Poder, porem apenas de enfeite, não há qualquer controle sobre essa área, mas não é necessário, matariam qualquer um daqui a mínima suspeita.

‒ Não tem o mínimo medo de desafia-los assim, tão… descaradamente? ‒ pergunto incrédulo, quase como uma pergunta de rotina, a cada invasão na tecnologia do Poder digo a mesma frase.

‒ Quantas vezes vou ter que lhe dizer, “não tenho”, o mínimo medo do Poder, afinal não vou permanecer aqui por tempo suficiente para que me peguem, vou fugir, estou partindo para a primeira sociedade.

‒ Não pode fazer isso! Não se lembra das histórias sobre aquele povo, o motivo de terem nos dividido em duas sociedades? São perigosos, por isso vivem além do muro erguido ao centro da cidade, você não pode de modo algum ir até lá!

‒ Justamente o que diz, são histórias, alguma vez te provaram a veracidade delas?! EU sei o que O Poder esconde, EU sei o verdadeiro motivo de terem se separado. Você não se interessaria nesse assunto, e além do mais é melhor que nem te conte agora mesmo, quanto menos souber é melhor.

‒ Por que motivo mandariam soldados para lá, há algum motivo! Para conte-los ou espioná-los. Algo assim… Isso já não é prova suficiente?!

‒ São provas que apenas enganam tolos, poderiam muito bem envia-los só para que tenhamos medo, e além do mais se realmente precisassem de soldados, não seria de um exercito?! Mas eles não treinam um exercito para ir, apenas pessoas comuns. E por que passam tanto tempo por lá esses “soldados”, a ultima vez que tiveram que escolhe-los para ir para lá já faz mais de uma década, uma região tão perigosa arrasaria com todos eles em pouquíssimo tempo, não acha?

‒ Eu não quero discutir isso! É inútil, você teima em acreditar em tudo que nem sequer é permitido que acreditemos, se desconfiarem que você instiga tanto as pessoas quanto a fraude que é nosso governo, poderiam te torturar até a morte, em publico!

Eu já estava ficando irritado não iria de modo algum deixar que Jiller arriscasse sua vida como planeja fazer, ele não entende que é extremamente perigoso o outro lado, é algo como o inferno na terra!

Porem como ele diz, a única “prova” sobre a periculosidade do lugar é o fato de terem que mandar soldados para lá, mas como pode passar um intervalo tão grande para isso? Não seria mais devido que treinassem pessoas e assim as mandassem, o tanto de soldados que mandam não conteriam nada, a menos que seja completamente minúsculo o outro lado.

‒ Vamos levar esse javali até sua casa para que sua mãe faça algo de bom com ele, poderia fazer, mas por comer isso inteiro sozinho?! Não há motivo.

Jiller caçava tanto que muitas de suas caças iam parar nas panelas de minha casa, era imbatível contra os animais com sua zarabatana, caçava simplesmente por esporte, até acho bom isso, assim fica ocupado demais e não pode ficar o tempo todo driblando os sistemas d’o Poder.

Pegamos o javali ‒ que nem era tão grande ‒ e o levamos para minha casa, minha mãe não ficou nem um pouco surpresa ao chegarmos com aquele animal por lá, nem demonstrou sequer uma gota de satisfação por Jiller ter o trago, estava sem humor

Minha mãe estava pálida, seu olhar azul bonito de se ver estava completamente apagado, seus olhos estavam vermelhos e inchados, o que demonstra que ela estava chorando, ela sentia por ter sido num dia como este que papai fora embora. Talvez os que puderam estar naquela ocasião saibam identificar o tipo de sinal, eu não saberia, caso Kriller não tivesse comentado mal notaria que esse não é o som habitual da sirene que avisa que haveria um pronunciamento oficial.

Minha mãe cortou todo o javali sem emitir um som qualquer além de seus soluços tímidos de choro, nunca a tinha visto desse modo, talvez mais por ter lembrado de nosso pai do que pensar que Kriller poderia ser chamado, afinal as chances são uma em trinta milhões, mas se aconteceu uma vez de alguém próximo ser chamado, o que impediria de acontecer uma segunda? Talvez pra ela as chances sejam maiores que eu penso.

Era hora do almoço, Jiller ficou, todos almoçamos calado, vez ou outra eu tentava dizer algo, mas nada quebrava esse gelo.

Assim que acabamos já estava na hora de seguir até a grande esplanada onde ocorriam os pronunciamentos ‒ não era apenas uma, essa por aqui era a mais importante, mas em uma cidade tão grande quanto O Poder, uma só não daria conta de tantas pessoas. Nessa especialmente o terceiro governador ‒ Enya é comandada por três governadores e um prefeito, Governadores tratam das ricas e férteis terras afastadas do Poder, das grandes questões da cidade e de questões internacionais, nunca foram eleitos pelo povo, foram eleitos pelos mais importantes e desde então vem sendo gerações diferentes de cada um deles ‒ fez a questão de sair de seu conforto para ir falar com o povo, eu juro que não entendo, assim como este lado faz parte de Enya, o outro também faz, os governadores não devia se meter, devia ser um imparcial, outro fator que dava razão a alguma desconfiança.

Jiller já estava arrumado, Kriller e eu também, faltava apenas minha mãe, que vestiu sua melhor roupa ‒ que não era lá grandes coisas pelo fato de não termos condições de comprar roupas caras. Seguimos andando por um bom tempo até a bonita e moderna estação, como já imaginava, está completamente lotada de pessoas, cerca de umas quatrocentas. O trem de alta velocidade chegou e todos embarcamos, não era um trem comum, era alto e largo, pouco comprido, mas não fazia diferença pois dentro cabiam confortavelmente quatrocentas pessoas e até mais.

Assim que saiamos da estação o trem começava a subir, andava em um viaduto muito acima da terra, ia apenas em linha reta, suas curvas nem se sentia, logo havíamos chegado a grande estação central d’o Poder, eu havia visitado o centro do Poder poucas vezes e por curto tempo, talvez por isso ainda me impressione ao ver a quantidade de pessoas e a modernidade das coisas ‒ o mais moderno que convivia era a casa de Jiller que tinha uns três computadores que conseguira misteriosamente. Mas aqui no poder era muito mais moderno, os prédios eram imensamente altos, as calçadas eram estreitas, os carros flutuantes e projeções holográficas pairavam nas alturas, mostrando as pessoas chegando na esplanada e o grande palco ao centro.

Tivemos de passar por muitos quarteirões até chegar em um grande espaço a beira do mar, com um palco grande ao centro e que começava a lotar de pessoas, soldados cercavam cerca de cinquenta metros ao redor do palco, provavelmente para proteger o governador Selmitt Keller.

Estávamos a uma distancia boa do palco, esperando impacientemente para que aquilo comece, Jiller e eu estávamos calmos ao contrario de minha mãe e Kriller estavam acuados, tristes e com medo, meu irmão, que sempre demonstrara força, frieza com os sentimentos estava ali, naquele estado, minha mãe que fazia questão de que não soubesse de nada que se passasse realmente para não nos deixar mal, estava quase que escancarando sua tristeza.

Todas as pessoas que haviam de chegar estavam ali na esplanada, o prefeito ao alto do palco e algumas outras pessoas, em um momento de total silencio uma grande nave que flutuava ao ‒ chamada de flutuadores aereos ‒ desceu do céu, parando bem em cima do palco, de onde desceu o governador e alguns caras armados, logo depois subiu e alçou voo novamente.

O governador olhou para a multidão com um olhar frio, tinha o cabelo negro com algumas mechas brancas, sua pele era uma pele na qual mesmo depois de tantos procedimentos cirúrgicos não dava mais pra esconder a idade avançada, ele acenou para o povo que respondeu com alegria e se sentou ao lado do prefeito que após cumprimenta-lo se levantou e foi ate o microfone ‒ essa era uma das únicas coisas que fazia o prefeito, conduzir um pronunciamento, dar más noticias ao povo, ao contrário dos governadores eles costumavam ser bons.

O prefeito era bem diferente do governador, seu nome era McJale, exibia um belo sorriso que não parecia ser falso como o do governador, seus cabelos eram loiros e seus olhos azuis, era bem jovem para um prefeito, não passava de uns trinta anos.

‒ Sabem que a muito tempo atrás nossa grande cidade do poder teve de ser dividida graças a revoltas e mais revoltas da outra parte que levou consigo toda a metade de um país, dividindo-nos completamente, aquele lado ficou conhecido por nós como a primeira sociedade, um lugar onde nem mesmo o próprio governador Keller não tem mais controle, um lugar constantemente em guerra, um desastre total, uma área onde as pessoas sofrem de todas as maneiras, mas é claro por vontade própria, já que podiam se aliar a nós e viverem felizes, mas não, eles não querem, ninguém vive por lá, apenas sobrevivem, é um terror completo, porem o governador tem tentado tomar de volta aquela área, precisando assim de soldados para isso. Porem antes de começarmos de vez uma batalha necessitaríamos de reconhecer o território e pra isso são mandados alguns soldados, e tenho o prazer de informa-los que alguns de nossos cidadãos terão a honra de fazer essa tarefa.

Não era bem verdade o que o prefeito disse, nunca havia ouvido falar em qualquer revolta acontecida em Enya, não há provas concretas nem sequer registros em livro, isso é apenas o que diz o governo, creio eu.

O governador levantou de sua cadeira e se dirigiu ao microfone, dispensando o prefeito ele começou a falar

‒ Caros cidadãos e cidadãs, para ser bem mais breve estou dando por encerrado esse pronunciamento, nada será feito imediatamente, ainda haverá um alistamento de todos aqueles capazes de representar nossa sociedade, e assim escolhidos em um cerimonia no dia de amanhã, não vou atrasa-los mais então podem dirigir-se as suas casas.

Até mesmo o prefeito ficou surpreso com a impaciência do governador Keller a ponto de dispensar todos, assim de um modo tão breve, típico, sempre foi muito impaciente, odiava cerimonias longas e fazia os mais curtos discursos possível para poder ir logo em bora e dispensar todo o povo que deixava de fazer suas coisas para ouvi-lo

O prefeito fez uma menção de pegar o microfone e pedir que todos voltassem, porem não teve a ousadia de revogar algo que o próprio governador havia dito.

Fomos todos em bora, minha mãe e Kriller já estavam mais tranquilos, não faziam nada para demonstrar qualquer sinal de tristeza. Nós nos dirigimos até o trem que já nos esperava e depois de uma curta viagem chegamos em nossa casa.

Já estava quase na hora do por do sol, minha mãe e Kriller se apressaram a entrar em casa, já eu queria andar, e foi por isso que seguir com Jiller até sua casa.

‒ Eu acho muito desnecessário nos chamarem apenas para um aviso como este, não podiam simplesmente chamar que fosse fazer o alistamento e pronto?! ‒ reclamou Jiller

‒ Conhece muito bem o governo, faz de tudo para aparecer, fizeram que todo o povo desperdiçasse um dia inteiro para ir até lá, muito típico.

‒ Vou tentar dar uma olhada nos computadores do governo para ver se consigo alguma novidade ‒ disse Jiller ‒ e até mais

‒ Até amanhã ‒ me despeço

Não fui logo para minha casa, parei antes, bem perto para olhar o mar, algo tão bonito mas ao mesmo tempo tão mortífero, tão destruidor, acabou com boa parte do antigo continente americano, algo temido pela maioria das pessoas de hoje. Exibia uma cor laranja/avermelhada refletida do sol, algumas vezes passaram um ou dois barcos pequenos em minha vista.

Logo tudo começou a escurecer e não tive escolha se não ir para casa, ninguém podia permanecer as ruas ou qualquer lugar depois da meia noite, aqueles que ousassem estar fora de sua casa nesse horário seriam severamente punidos, assim que chegou a hora em que os fiscalizados chegaram indo todos os lugares para conferir se haviam pessoas fora de suas casas, eu cheguei a janela.

Vários e mais vários flutuadores aéreos corriam pelo céu, deixando uma linha de luz na escuridão, eram muitos, mas muito mesmo, impressionante conseguirem ver pessoas nessa velocidade.

Em casa não possuíamos ducha quente, era muito luxo para qualquer morador de minha região, os banhos eram sempre gelados, logo depois de tomar um fui dormir, na parte de cima da beliche em que dormiam Kriller e eu.

O dia amanheceu bem rápido, acordei muito cedo, mas mesmo assim não acordei primeiro que Kriller que praticamente madrugava, fui para fora de casa, ver se o encontrava na praia, porem nada de meu irmão, fui até minha mãe que estava em sua cama chorando sem nem tentar esconder, estava chorando muito, chegando a soluçar, imediatamente fui até ela, abracei-a e perguntei

‒ Aconteceu algo? ‒ perguntei, obviamente havia acontecido porem não sabia o que dizer.

‒ Sim, seu irmão, já …já partiu.

‒ Mas como partiu? ‒ indaguei, sem entender nada

‒ Ele foi até a cidade, ele… foi se alistar ‒ foi ai que minha mãe desabou completamente em meu colo, chorando desesperadamente.

Eu já imaginava, na verdade tinha certeza que Kriller iria, ele era obrigado a ir, mas o que há de mais nisso? Eu não vejo nada, minha mãe talvez pense que há chances de ele ser chamado ao exercito, eu não acredito nisso.

‒ Fique tranquila, mãe, ele não vai ser chamado! As chances são tão pequenas que chegam quase a ser nenhuma, não chore por isso ‒ eu digo tentando tranquiliza-la

‒ Eu acho que está na hora de te contar sobre… seu pai. ‒ começou ela

‒ Não precisa ‒ interrompo ‒ eu já sei o que deveria saber!

‒ Então, se aconteceu com seu pai, o que impediria de acontecer com ele?!

Eu não tinha nenhum argumento para tranquiliza-la, então o que pude fazer foi manda-la se deitar e tentar dormir, e fui para praia.

Pela primeira vez passava pela minha cabeça a possibilidade de Kriller ser chamado, parecia que agora suas chances eram mil vezes maiores em minha cabeça de ele entrar no exercito.

De repente vejo Jiller correndo em minha direção, estava desesperado, queria muito me falar algo.

‒ Você precisa ir até minha casa imediatamente! ‒ exclamou Jiller

‒ O que aconteceu? ‒ perguntei

‒ Lá eu te explico, agora ande logo que é urgente!

Eu o segui até sua casa ‒ uma pequena cabana de madeira ao meio do mato, invisível a qualquer nave ao alto, tinha o tamanho de uns dois cômodos apenas ‒ Jiller entrou apressado, foi até seu quarto ‒ um lugar muito moderno, com umas três telas bem grandes de computador ‒ , ele se sentou na cadeira e apertou um botão na mesa, foi esse botão que ligou as telas que começou a exibir uma cerimonia idêntica a que havia acontecido por aqui ontem, um palco ao centro de uma explanada, com o governador Keller falando ao microfone, e o que parecia ser o prefeito pelo modo como se dirigia ao povo.

‒ Sabe o que é isso? ‒ indagou Jiller nervoso

‒ Não tenho a mínima ideia!

‒ Essa é a primeira sociedade, aquele sentado na cadeira ao palco é o governador Keller, e o que está falando ao microfone é Feller Monton. O prefeito Monton, da primeira sociedade.

‒ Não pode ser, isso é exatamente igual ao Poder!

‒ Por que é o Poder, porem, é a parte do outro lado do muro ‒ disso Jiller

‒ Não creio, todos dizem que a primeira sociedade vive em guerra, uma terra violenta, e não é isso que vejo!

‒ Posso te explicar depois, mas o assunto não é esse, repare bem ao vídeo, veja o que está acontecendo.

O prefeito parou de falar e o governador se levantou, um aeroflutuador desceu deixando cerca de dez pessoas acorrentadas no palco, estavam machucados, sangrando, pareciam ter sofrido do pior tipo de tortura possível.

‒ O que quer que eu veja? ‒ indaguei

‒ olhe bem nos rostos dos prisioneiros, olhe bem, não há nenhum deles que por um acaso se parece muito com alguém?

‒ Eu não consigo achar nada ‒ digo

‒ Eu passei a madrugada inteira até achar isso, foi necessário assistir muitas vezes, até que a suspeita me veio, na mesma hora fui procurando por mais, acabei que encontrei o que queria, olhe bem para o terceiro prisioneiro, veja se ele te lembra alguém, alguém que há dezessete anos foi selecionado para representar a segunda sociedade de Enya do outro lado.

Fui me aproximando mais e mais da tela, até ver o que não queria, eu com certeza conhecia aquele homem, era…

‒ Ele é o seu pai, Aleff ‒ disse Jiller cauteloso.

Eu olhei bem, ele se parecia bastante comigo, sim, os mesmos olhos, cabelos, quase o mesmo tom de pele, mas só porque parece não quer dizer que esse é meu pai!

‒ Não, não, não mesmo! Esse não é meu pai! ‒ exclamei, tentado cortar essa hipótese de minha cabeça, quando Jiller viu o estado de nervosismo em que estava ele imediatamente desligou a tela onde meus olhos se fixavam

‒ Eu sinto te falar, mas sim, é ele, como já tinha dito, havia feito uma pesquisa enorme para descobrir quem são esses, acabei chegando na lista de nossos soldados escolhidos, seu pai foi torturado e morto do outro lado sendo considerado por eles um criminoso, o governador e o prefeito da primeira sociedade eram um dos únicos que sabiam, eles inventaram provas que eles eram rebeldes, tudo isso para causar medo na população, por pesquisar mais eu descobri que o mesmo foi feito aqui, os soldados de lá vieram pra cá e foram torturados do mesmo modo, como criminosos, o que obviamente, não são!

O desespero me bateu, eu não podia deixar de modo algum que Kriller fosse para lá, fiz um juramento a mim mesmo que não deixaria que isso acontecesse.

‒ Seu irmão… já foi até lá? ‒ indagou Jiller

Eu fiz que sim com a cabeça, estava atormentado demais para fazer qualquer coisa.

‒ Oh, meu Deus, ele não podia ter ido ‒ disse Jiller

A sirene ecoou por todo os lugares do Poder. Uma voz surgiu dizendo:

“Peço a todos que se dirijam até o centro do Poder”

Imediatamente Jiller e eu fomos até minha casa, tinha toda a certeza que ia encontrar minha mãe do mesmo modo que estava quando a deixei, completamente desesperada, e estava certo, ela foi agarrando-se em mim até a estação de trem, onde embarcamos e logo já estávamos na grande esplanada.

O governador chegou e anunciou:

‒ Todos os cidadãos capazes já foram alistados em nosso exercito, acompanhem a cerimonia em homenagem a esses que serão lhes apresentados agora

O palco estava muito maior, um caminho abria-se entre as pessoas, por onde começaram a passar homens e mais homens com farda do exercito, eram cerca de uns mil soldados, e graças a Deus, não estava vendo Kriller

Todos haviam já passado e estavam prostrando-se em uma grande escadaria a palco. Minha mãe começou a se desesperar, eu não entendia o por que, Jiller estava completamente imobilizado olhando onde estavam os soldados, demorei para enxergar quem eles tanto olhavam

Notas finais
Se gostarem comentem pra que eu possa postar o proximo :D