Fuga
2 Capítulo 2
Notas iniciais
[2] capitulo dois
Acesso de dor
O momento em que mais me desesperei em minha vida foi ver Kriller caminhando para a morte. Ele estava lá, naquele palco, em exibição para o povo agradecido que não tivera de mandar ninguém.
Só o que via era Kriller lá ao alto e minha mãe em prantos ao meu lado, após algumas palavras as quais nem prestei atenção se eram do governador ou prefeito a falar sobre o palco, tudo o que queria era tirar meu irmão de lá que por sinal não tinha nem a vontade de nos olhar pela ultima vez.
Eu fechei meus olhos, esperando que tudo aquilo fosse nada mais que um sonho ruim, um pesadelo, mas o vento batia em meu rosto me alertando que tudo era real, eu não queria acreditar, eu não podia acreditar, um meio de me manter forte diante tal situação, mas estava sendo difícil, minha mãe já não se satisfazia com meu consolo, queria avançar e resgatar Kriller mas eu não podia deixar que ela fizesse isso.
Foram várias palavras de honra a todos que estavam em cima daquele palco, no momento era tratados como heróis, sendo gloriados com honras de medalhas, com promessas que voltariam e seriam recompensados com muito dinheiro, o que era em vão, pois eles não voltariam, o Poder iria matar todos, mas aí eu pensei, me lembrei de ter visto na tela de Jiller, foram no máximo uns vinte executados na praça, e os outros? Saíram vivos? Não! Nenhum voltara daquela viagem, todos morreram, de uma forma ou de outra.
Assim que a cerimonia terminou, todos desceram do palco e foram seguindo rumo aos flutuadores aereos que chegavam, quando vi que Kriller já estava quase embarcando eu corri em sua direção, empurrando as pessoas a minha frente que resmungavam, eu mirei Kriller.
Disse para ele o que consegui, para que fugisse na primeira oportunidade, eu estava desesperado, com isso no impulso tentei ir até ele, porem um dos soldados — que mantinham a barreira entre os soldados e nós — me deu um soco, ele estava com algo na mão, algo que fez um imenso corte que começou a jorrar sangue. Eu não tinha tempo para sentir dor, queria tirar Kriller de lá, ele tentou vir em minha direção, mas alguém o impediu. Antes de embarcar ele apenas pôde pedir pra que eu cuidasse de nossa mãe.
Dois soldados vieram em minha direção, me deram uma pancada na cabeça fazendo com que eu desmaiasse, a ultima coisa que vi foi o olhar exasperado de Jiller que estava a uma pequena distancia de mim.
...
Eu acordei em uma sala, uma sala completamente branca, totalmente fechada, tinha apenas uma grande tela de vidro que permitia que os do lado de fora me vissem, eu só via meu reflexo, estava em uma maca que fora bem suja de sangue, passei a mão em minha testa e pude sentir a cicatriz que começava ao alto de minha testa e seguia até metade de meu nariz.
Eu me levantei da maca e dei algumas voltas na pequena sala branca. Mirei o vidro e comecei a bater ali, chamando por alguém que talvez pudesse me tirar dali, eu batia e batia no vidro mas ninguém parecia me ouvir.
Uma porta se abriu, um homem vestido de médico entrou trazendo consigo uma seringa com um liquido verde, atrás do médico vinham dois seguranças que olharam para mim com desdém
‒ Por favor! ‒ eu pedi, minha voz estava em um tom que eu próprio se me visse diria estar louco ‒ Eu não posso ficar aqui, tenho que sair, me tirem daqui!
O médico apenas sorriu pra mim, não disse absolutamente nada, os dois seguranças me seguram e me colocaram a força na maca, eu me debatia muito, mas não foi suficiente para impedir o médico de aplicar o liquido em meu braço.
‒ Vai doer só um… bastante ‒ disse o médico com um sorriso sádico.
Aquilo entrou queimando em minhas veias, eu gritei de dor, me debatia cada vez mais enquanto o liquido se misturava em meu sangue, todos riam ao me ver sofrer.
‒ Está doendo? ‒ indagou o médio, eu não conseguia sequer falar, e ele próprio respondeu ‒ Sim, sei que esta! E é pra doer muito mais, entendido, assim da próxima vez poderá se comportar melhor… Ops! Não haverá uma próxima vez ‒ sua voz era aguda e esganiçada, seus olhos miúdos e seus cabelos e sobrancelhas eram verdes.
Eu estava o odiando pela dor que me fazia sentir eu não fazia ideia do que ele me aplicara mas estava me torturando.
‒ Você deve estar se perguntando o porquê de eu estar te aplicando isso… é um veneno, um veneno composto de micropartículas que vai possuindo cada pedaço de seu corpo, não é letal, é apenas algo que o governador mandou de pre-lembrete, se é que me entende, o pior ainda está por vir . ‒ disse ele com um sorriso perigoso
Ele já ia saindo da sala com os dois seguranças quando voltou a olhar pra mim e disse:
‒ Assim que o efeito parar o governador virá aqui, em pessoa! Te fazer uma visitinha, sinta-se honrado!
Eu não entendia o porquê de aquilo tudo, eu não entendia o que de tão serio eu poderia ter feito pra merecer aquilo! Eu estava sendo torturado e mal sei o motivo.
Foram umas duas horas de dor até parar de sentir meu corpo completamente, e foi também um pouco depois que a porta da sala se abriu, quem eu via? Selmitt Keller.
Ele olhou pra mim com um olhar frio que sempre tivera, porem eu nunca havia prestado atenção, um olhar completamente negro e vazio, no qual eu só enxergava seu sadismo em me ver paralisado de tanta dor.
‒ Caro Aleff Kimbell… sim foi esse o nome que me deram; eu estou aqui porque fiquei curioso, foi algum parente seu selecionado para o exercito? … sim, sei que foi, e em sua despedia você disse com tanta convicção que ele iria morrer, e ainda teve a pertinência de desafiar-nos, o poder no geral, invadindo a linha dos soldados para tirar seu irmão de lá. Mas o que me incomoda, por que teve tanta certeza que ele não voltaria? Queria por que queria tira-lo de lá, eu exijo que me conte tudo o que sabe!
Eu estava olhando-o fixamente, obviamente eu não diria nada que Jiller havia me mostrado, mas eu queria de alguma forma deixa-lo irritado, eu olhava dentro de seus olhos vazios desafiando-o.
‒ Eu não sei de nada, apenas não queria que ele fosse, ele não tinha qualquer treino! Ele morreria de qualquer forma…
Ele me interrompeu ‒ Não minta pra mim! Eu sei que sabia de alguma coisa! Foi detectada uma invasão em nosso sistema, coincidentemente localizei a área perto de onde você mora, não sei exatamente onde, por isso não tivemos como ir lá, e pelo acaso você faz esse escândalo, puxando sua ficha o que eu acho, esse fato da invasão e a certeza que você tinha de que seu irmão morreria, algo é estranho.
Qualquer coisa que eu falasse poderia deixar Jiller encrencado, e com encrencado eu queria dizer morto, o governador não deixaria limpo isso.
‒ Sim, EU invadi o sistema, eu descobri tudo o que foi possível, não foi muito, mas já ajudou a saber quem é realmente o Poder, eu sei que eles vão pra lá para morrerem como criminosos, que VOCÊ os mata impiedosamente torturando-os. Sabe porque mexeu tanto comigo? Por que eu vi, sendo tirado de mim o meu pai, eu vi o que fez com vários inocentes.
“Como pode você ser tão mau, sabe, eu não sei se isso tudo foi sua ideia, aliás, nem me interessa, o simples fato de ter permitido acontecer já é uma confissão de culpa, eu vou fazer de tudo para fugir daqui e tirar de lá meu irmão!
‒ Eu não ligo que tente, ninguém consegue. Se antes tinha duvida agora não tenho mais, acho que é necessário o castigo que estou planejando pra você…
‒ Pode me matar! Não sou o único que sei disso tudo, vocês já estão acabados, você: o poderoso governador; e todo o Poder, vocês irão cair aos rebeldes. Pode escrever o que digo, seu sistema não é tão forte assim para viver para sempre ‒ eu disse com um sorriso malicioso.
O governador Keller tentava se controlar, porem via sua expressão de raiva contida, ele estava caindo completamente em minha provocação.
‒ Se tinha alguma duvida, tenha certeza que ela não existe mais, você merece o que planejo e ainda mais, agora me despeço, não tenho todo o tempo do mundo para gastar aqui com você ‒ disse o governador se retirando da sala.
Eu fiquei um bom tempo naquela sala vazia, imóvel em uma maca, ninguém se prestava a ir até mim dizer algo, até que apareceram dois seguranças seguidos de um médico que me aplicou uma injeção, não era o mesmo médico dissimulado de antes, esse nem sequer olhou pra mim, apenas aplicou a injeção e foi embora, aquilo era um sedativo pois logo depois da dose que tomei eu desmaiei, não vi mais nada assim que os seguranças e o médico se retiraram da sala.
Quando acordei não estava mais na sala de antes, eu agora me encontrava em uma outra sala, esta de agora estaria em uma escuridão completa se não por um pequeno fio de luz que vinha de uma lampadazinha por cima de mim, a sala não continha nenhuma janela nem mesmo de observação, ela possuía uma porta a cor da parede que poderia ter passado muito bem despercebida se eu não tivesse aguçado bem minha visão a aquela direção.
Eu estava segurado por uma corrente que juntava minhas duas mãos, estava mole sem conseguir me firmar em pé, minha vista turva e completamente se forças.
Um homem abriu a porta, deixou-a aberta e logo depois passaram mais um homem e uma mulher de aparência sombria, o ultimo a entrar bateu a porta com força, apertou um botão a parede que fez com que a corrente que segurava minha mão se elevasse me deixando em pé, eu estava sentindo um frio enorme, estava usando uma calça que não era a mesma com a qual cheguei aqui, era parecida com uma militar e não vestia blusa.
O homem veio até mim e me deu um soco tão forte no rosto que chegou a cortar, logo depois veio o outro que ajudou a me espancar, a mulher ficava olhando minha tortura imóvel, demonstrava prazer ao me ver machucado, ela levantou uma das mãos como sinal para que parassem de me bater.
‒ E então… está sofrendo bastante? Sim, está! É exatamente o que quero, que você definhe de tanta dor, além de desafiar O Poder se negando a aceitar a escolha dos militares, você ousa desafiar o próprio governador, juro que não entendo de onde vem tanta coragem e burrice! Seu otário! Poderia muito bem estar tranquilo em sua casa, mas não, está aqui, sendo torturado. Isso é para que você aprenda que por mais que tenha coragem de se voltar contra uma atitude d’O Poder, você é um mero cidadão, sem qualquer poder para nada.
Eu estava sentindo tanta dor que mal conseguia falar, mesmo que quisesse minha boca estava inchada assim como todo o meu rosto. Estava cheio de roxos a face e ao peito devido aos chutes aos quais fui cometido.
Só pude dizer uma curta frase: ‒ por que não me matam de uma vez?
‒ Ia ser fácil demais, você vai morrer… sim… mas não aqui nem agora, todos verão você morrer, um exemplo, não se deve nunca desafiar o Poder, muito menos invadir nossos domínios! ‒ disse a mulher maldosa cujo nome era Analiz ‒ levem-no para o lugar onde deve estar ‒ disse ela aos dois homens
Um deles ‒ o mais moreno ‒ apertou algo na parede que reluziu e fez com que minhas correntes se afrouxassem, soltando-me, eu estaria livre se conseguisse fazer algo, mas não conseguia, estava completamente a mercê deles que me puseram em uma maca, amarrando-me e me levando até algum lugar que eu não sabia.
Pararam em volta de mim Analiz e os dois seguranças, ela estava com uma roupa negra, justa, que dava um ar de superioridade, seu cabelo era tão negro quanto sua roupa, seus olhos eram o único resquício que cor em seu corpo, com uma bonita cor azul, sua pele era excessivamente pálida e haviam algumas tatuagens saindo por seu pescoço.
A sala em que estávamos era redonda, sem qualquer saída a não ser a que entramos, não tinha teto, era um imenso buraco bem fundo, sua parede era de terra e pedra marrom, o chão era de ferro e de repente começou a se elevar, subindo bem lentamente.
Chegamos ao topo, aquele lugar era o mesmo lugar em que foram apresentados os soldados aos cidadãos do Poder, muitas pessoas aguardavam atentas por mim, me olhavam com pena e terror, eu tinha um limitado campo de visão, só via pouca coisa de meu lado esquerdo já que estava fraco demais até mesmo para poder se mexer.
Haviam diversas pessoas comigo ao palco, dentre elas o prefeito, que olhava entristecido, sendo levado ao palco; o governador me olhava contrafeito, feliz, satisfeito com meu estado; minha mãe… ela estava ali aos prantos.
Imagino como dever ter sido difícil minha mãe, sozinha, ter de enfrentar a perda dos dois filhos, ao que parecia, no mesmo dia, um para o exercito e o outro torturado aos seus olhos.
Eu não continuei na maca, me puseram de pé e me amarraram a uma grande pilastra de ferro. E me deixaram por lá, por um curto tempo, em exibição para o povo d’O Poder.
Um assistente do prefeito chamado Louis Hammit seguiu até o microfone, começando um discurso curto e espontâneo
“Cidadãos e cidadãs d’O Poder, estamos todos aqui para que possam presentear um triste acontecimento, verão pessoas que ousaram trair o Poder caírem, de alguma forma, e como é obvio, foram pegas, afinal ninguém que desafie o Poder consegue escapar, aceite isso como um aviso.”
Eu me encontrava cheio de dor, amarrado a uma pilastra, logo não estava só, alguns homens viam acorrentados um ao outro, eram no total de uns trinta, estavam todos sem qualquer reação e não conseguiam se manifestar de qualquer forma, todos tinham uma estranha cicatriz cortando o olho direito que tinha uma cor acinzentada, olhavam frios para os cidadãos dispersos a praça.
“Estes aqui cometeram um erro muito grave, tentaram espionar-nos, para que depois de alguma forma voltassem para seu lugar de origem, aquele lugar conhecido por vocês como a primeira sociedade de Enya, lugar esse que mesmo que não sejam de seu conhecimento, vivem tentando tomar o nosso controle, mas graças as nossas forças de combatem acabam sendo destruídos antes que vocês tenham conhecimento, de vez enquanto é necessário lembra-los que qualquer um que se atreva a entrar no caminho do poder será cruelmente atropelado” continuou Hammit
Eu parecia me lembrar daquela cena, como se já tivesse a assistido.
Os soldados se postaram lado a lado, fecharam seus olhos e um choque passou pela corrente matando a todos que caíram duros ao chão de borracha que fora preparado.
“Estes mereceram o castigo lhes dado, acharam ser suficientemente espertos para nos enganar, se infiltrando em tudo possível, roubando-nos de todas as maneiras.” Disse o governador levantando-se e se dirigindo ao microfone “desde que a primeira sociedade saiu de meu controle isso tem acontecido, desde que fui obrigado a dividir o país, deixando-os isolados por lá, sem qualquer ajuda”
“Este aqui, amarrado na pilastra, fez algo muito pior do que tentar roubar nossas tecnologias, pior do que nos invadir para extrair informações, ele é, ou melhor, um dia foi um de nós, mas deixou de ser assim que resolveu que não seguiria o que o Poder o propusesse, quando por algum acaso talvez, ou muita inteligência resolveu invadir nosso sistema, ele parece ter decidido não ser mais um cidadão Enya, ele decidiu não ser mais um cidadão do Poder, da primeira sociedade” disse o prefeito, parecia ressentido com suas palavras, ele não queria me ver ser torturado…
O governador murmurou para mim: “considere isso como uma vingança pela raiva que me fez passar” e me deu uma chicotada forte ao abdômen que me fez urrar de dor.
Um policial se dirigiu a mim com outro chicote em mãos, me atingiu ao ombro, ainda mais forte que o que o governador dera.
A dor era tanta que não havia notado os gritos de minha mãe que estava tão desesperada que tentava vir até mim, me tirar dali, se colocar em meu lugar…
Jiller subiu até o palco, buscou minha mãe e a levou dali, ela tentava voar de seu braço para correr até mim mas Jiller era forte e a conseguia impedir de avançar.
Eu levava chicotadas e mais chicotadas, haviam diversas marcas por meu corpo, eu implorava por morrer logo, era insuportável aquela dor, minha mãe gritava e gritava, assim que estava quase saindo do palco, Jiller não conseguiu impedir que ela gritasse:
‒ EU ME PONHO NO LUGAR DELE! ‒ gritava ela, só ai esqueci de minha dor, não ia permitir de modo algum que minha mãe se sacrificasse por mim, de modo algum ‒ EU VOU EM SEU LUGAR, MEU OUÇAM!
Eu virei pra ela e só o que consegui foi murmurar um “não” para que ela não se atrevesse a subir esse palco, se atirar em meu lugar, sofrer por mim, eu não podia permitir!
Ainda bem ninguém a dava ouvidos, ela apenas gritava e gritava, do mesmo modo como eu urrava de dor, ela parecia sentir o que eu sentia, mas sua dor era pior, eu sentia na pele e ela sentia em seu interior, a dor física me mataria, mas a dor interna não é capaz de tal bondade, ela apenas te consome até que não possa mais aguentar, até que implore e busque uma solução fatal.
Eu não aguentaria, estava pronto para o golpe fatal quando o governador interrompeu tudo
‒ Parem! ‒ exclamou ele
Eu sentia minha pele arder, queimar de dor, mal me mexia, depois disso eu imploraria por ter levado mil socos como o da cerimonia de apresentação dos soldados a vinte chicotadas.
‒ Eu acho que está bom de chicotadas para ele, já sofreu o suficiente, sua pena seria a morte, algo que seria piedoso em tal estado em que se encontra.
“Ele merece mais que isso, sim… ah, ele merece, por isso vou fazer uma pergunta, você, minha senhora, como se chama?
‒ Missela ‒ respondeu minha mãe tomada pelo nervosismo
‒ E você, cara Missela, se colocaria no lugar de seu filho para sofrer por ele? ‒ indagou o governador
‒ Não… ‒ murmurei, o mais forte que podia, estando daquele jeito não saiu por mais que um sussurro, mas foi o suficiente para que o governador ouvisse.
‒ Bem… ele disse que não quer que a mãe se ponha no lugar dele… acho que vou aceitar que ela entre em seu lugar, afinal creio que ele vai sofrer muito mais sabendo que ela está se sacrificando por uma imensa besteira que ele próprio fez…
‒ Eu morro… eu aguento a dor! ‒ eu disse com convicção porem ainda fraco.
‒ Não ouça ele! ‒ exclamou minha mãe ‒ se ele morrer vai sofrer menos, se ele morrer a dor acaba, seu eu me por em seu lugar vai ser pior! Me deixe ir em seu lugar! ‒ exclamou minha mãe se soltando de Jiller e subindo ao palco
‒ A senhora fica! ‒ disse o governador ‒ ainda vou resolver que atitude tomar. Liberte o garoto!
‒ Mas governador… ‒ começou Hammit
‒ Não se atreva a me questionar! ‒ disse o governador firme
‒ Mas…
‒ Já disse!
‒ Ele traiu nossa nação! Não pode ficar impune!
‒ Quem decide o que pode ou não sou EU, não te dei o direito de sequer se dirigir a mim! Onde está seu respeito! Uma ordem minha deve ser cumprida, sem mais delongas!
‒ Leve a senhora Kimbell daqui… ‒ disse Hammit contrafeito
O prefeito não fazia nada, a todo momento sentado em sua cadeira, ele não queria de forma algum olhar pra mim, percebi quando olhei para que ele me ajudasse e ele se desviou de meu olhar, e sempre havia imaginado que o prefeito fosse uma pessoa boa, mas foi incapaz de me ajudar. Até mesmo Hammit de alguma forma estava me ajudando, mesmo que desejasse minha morte, ainda se manifestou quanto a minha mãe tomar meu lugar.
Um dos soldados prostrados atrás das cadeiras com os oficiais do governo se dirigiu até minha mãe que esticou o pulso para que pudesse ser algemada
‒ Por… favor… não… mãe… ‒ eu disse, ainda fraco
Minha mãe que me encarava a todo momento desviou o olhar, aquilo era algo que ela não podia fazer, deixar que eu morresse sem fazer nada para impedir.
Para minha mãe seria duro demais perder dois filhos em tão curto tempo, talvez por isso o sacrifício, mas eu não podia deixar que ela se colocasse em meu lugar.
Fui solto da pilastra, cai com um baque ao chão de madeira, meu corpo doía tanto, era impossível de se expressar a dor que sentia, mas o que pudesse fazer para impedir que minha mãe entrasse em meu lugar. Fui me arrastando até os pés de minha mãe, o lugar por onde eu passava ia ficando marcado com resquícios de sangue que saiam de meus ferimentos. Imediatamente minha mãe rejeitou as algemas e veio até meu encontro, me abraçando em desespero, eu gemia de dor em seus braços calorosos em minha pele ferida.
‒ Tudo vai ficar bem, meu menino ‒ disse ela passando a mão por meu cabelo ‒ Eu te prometo, lembra que quando era bem pequeno e perguntava por seu pai eu dizia que não precisamos dele, que se estivermos juntos tudo ficaria bem. Estamos juntos… tudo está bem.
‒ Não… não faça isso… por mim… deixe eu morrer!
‒ Por favor, meu menino, isso é algo que eu não posso permitir nunca, imagine só, meu mundo destruído em tão pouco tempo, eu não ia suportar. O meu maior medo sempre foi perder vocês, seu irmão… será como todos que foram e nunca voltaram, você eu tenho chance de salvar, pode ter certeza que eu vou fazer!
Suas mãos leves passavam por meus cabelos, ainda que lagrimas escorressem por seus olhos, silenciosas, ainda que sua voz se enfraquecesse, as vezes até falhava, ela não se permitia ser frágil, usava uma força tamanha para se conter, força essa que muitos não conseguiriam ter, com certeza, a pessoa que eu mais admirava era ela. E eu teimava em não deixar que ela partisse por minha causa.
Jiller veio correndo até mim, desesperado
‒ Não foi você quem invadiu o sistema do Poder, fui eu! Deixe que eu pague pelo que fiz, não é justo você sofrer assim, eu teria me manifestado antes mas eles não permitiram que eu subisse.
‒ Não… eu provoquei… isto está destinado a mim, não a você, se se entregar, vai acumular mais uma morte apenas, de qualquer forma eu vou ter de pagar, sou um traidor a nação!
‒ Você pode evitar isso! Deixe que eu fique! ‒ ele se levantou e foi até o microfone ‒ Eu me entrego…
Hammit o puxou para o lado, interrompendo-o
‒ O que está fazendo?!
‒ Me entregando, não foi Aleff quem invadiu o sistema, fui eu, vocês não tem motivo para penaliza-lo!
‒ Você será um tolo se fizer isso, estamos dispostos a perdoa-lo se permanecer calado!
‒ Não vou fazer isso! Não vou deixar que meu amigo pague uma divida minha!
‒ Seu amigo vai pagar de qualquer modo, se sair livre daqui, vai ser vigiado e morto sem ninguém perceber caso você se entregue, ele desafiou não só o Poder, pior, desafiou o Governador, que, pode ter certeza, não vai deixar isso passar limpo!
‒ Eu vou me entregar! ‒ disse Jiller firme puxando o microfone.
Hammit ordenou que um guarda o tirasse dali, ele saiu aos berros, gritando: Ele é inocente! Eu sou o verdadeiro culpado!
Jiller foi levado para algum lugar, permaneceria preso ao menos pelo tempo que levaria para que minha situação se resolvesse.
Hammit foi até o governador conta-lo tudo, o governador disse o que eu esperava que dissesse, de qualquer forma eu pagaria, o erro sendo meu ou não.
O prefeito estava avulso por ali, não dizia nada, não opinava sobre qualquer coisa, não conversava, somente mantinha os olhos fixos ao alto, estava pensativo e talvez até mesmo pesaroso.
Minha mãe esfregava meu cabelo, sentia suas lagrimas caindo sobre mim, eu mal conseguia me mexer, estava ali, quase inerte em seu colo.
‒ Vamos dar um fim definitivo a isso de uma vez! ‒ ordenou o governador impaciente.
Minha mãe segurou firme minha mão, me deu um beijo a testa, me molhando com suas lágrimas, olhou em meus olhos e se foi…
‒ Não! ‒ eu exclamei agarrando-me em seus pés, minha mão doía, queimava, mas não queria solta-la
Ela abaixou e desgrudou minha mão de sua perna, me deu uma ultima olhada, os guardas vieram e a levaram…
Até o momento eu estava me aguentando, mas aquilo fora realmente demais, eu não aguentei, permaneci desmaiado aquele chão de madeira frio do palco, chão esse que estava cheio de gotas de meu sangue, os homens que ali morreram eletrificados foram removidos, estava apenas eu, livre de uma pena e sem uma grande parte de meu coração.
Eu pensava, eu a perdi? sim, essa era a resposta que me vinha, o Poder não a pouparia.
Eu queria me levantar, enfrentar todos e salva-la mas estava completamente sem condições, nem sequer acordado estava.
Eu me torturava mentalmente pensando como aconteceria, não podia suportar a ideia de conviver comigo mesmo pensando que fiz minha própria mãe ser torturada…
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