Fucking Perfect
5 Capítulo 4
Notas iniciais
Thalia nunca gostara daqueles banquinhos redondos e desconfortáveis que eram os únicos disponíveis para os alunos de pintura usarem, primeiro porque não tinha encosto o que fazia com que ela lutasse para permanecer com as costas retas – e ultimamente Afrodite brigava mais com ela por não ter uma postura adequada – e segundo porque eles não eram acolchoados. Mas toda a dor que ela passava ao ficar sentada naquele lugar era facilmente esquecida quando era tomada por uma ideia que preenchia rapidamente a tela inteira, o que infelizmente não estava acontecendo naquele dia.
Thalia era acostumada a ter a sua cabeça tão cheia de informações e ideias que raramente não tinha o que pintar, mas naquele dia após entregar o quadro dos ossos que terminara de pintar no intervalo e a professora ter reagido a ele mais negativamente do que o normal, a Grace se sentiu tão mal que nada mais lhe vinha à mente, apenas a cena que transcorrera ainda tão vivida na sua mente.
Sua ideia inicial era pintar a sua professora Afrodite enquanto patinava, ajeitando as proporções para que os patins fossem o centro da foto, como se estivessem observando o quadro na altura do chão. Mas após pintar os patins o que veio abaixo dele não foi gelo e quando Thalia olhou novamente para a tela toda a raiva que sentira anteriormente das suas colegas estava retratada ali. Era sempre assim com ela, a garota se deixava levar e quando via todos os seus pensamentos estranhos estavam retratados ali de alguma maneira errática. Depois que viu o resultado final estava para guardá-lo para si e fingir que não tinha feito a tarefa pedida para terminarem em casa, e foi nesse momento que Nico chegou. A garota não gostou da cara de nojo e espanto que ele fez ao encarar a sua tela, mas ele parecia tão verdadeiro quando lhe disse que ela pintava bem que decidiu relevar as suas expressões anteriores. Thalia quase acreditara na sua lógica estranha, afinal, se ela não pintasse bem como ele poderia ter realmente achado aquilo parecido com ossos, carne e músculos humanos?
Ela estava confusa, queria acreditar que ele estava certo, queria poder dizer a si mesma “Você é boa.”. Gostaria de dizer que todo esse tempo que passava se dedicando a sua pintura valiam a pena, que surtiram um resultado e talvez no final do dia até conseguisse se convencer disso, se a professora Leia não tivesse lhe encarado com um pavor nos olhos, e lhe pedido para se livrar daquilo o mais rápido possível como se não quisesse que mais ninguém visse aquilo, como se estivesse com vergonha por ela. Thalia odiava aquilo, aquele olhar, ela sentia seus olhos marejarem só de se lembrar, não sabia se deveria fuzilar a professora com os olhos ou apenas tentar impedir as lágrimas de escorrerem pelo seu rosto.
No fim acabou optando pelo segundo, odiaria chorar na frente da professora ou de qualquer aluno ali presente, ela sentia como se estivesse nos seus primeiros anos na escola novamente, com medo de todos os olhares dirigidos a ela, sempre se escondendo no banheiro feminino e se xingando por sentir nojo o suficiente para não comer lá, sendo obrigada a se sentar em uma mesa com o rosto virado para a parede, na tentativa falha de esconder seus sentimentos.
Ela não pintou mais nada durante a aula, ignorou as instruções da professora assim como ela fingiu não ver que Thalia não fazia nada, não guardou sua tela, pois ela permanecia vazia, não demorou muito para terminar de guardar seus instrumentos não utilizados, saindo da sala o mais rápido possível.
***
Após almoçar e trocar de roupa, Thalia ignorou todas as suas tarefas de casa para deitar em sua cama e apreciar a música alta que saia do seu celular, sabia que a professora de física provavelmente chamaria seus pais na escola para informá-los que aquela era a terceira vez que ela não entregava a tarefa de casa, Thalia não queria que isso acontecesse, entretanto a sua vontade de fazer a tarefa era muito menor do que a de ter seus pais chamados na escola, isso acontecera tantas vezes no ano passado que ela achava que seus pais já tinham se acostumado e até desistido de exigirem que ela fizesse a tarefa.
A garota não se importava, porque deveria fazer a tarefa de casa de alguma matéria inútil que não lhe traria nenhum benefício no futuro?
Alguma parte amarga dela lhe dizia que era irônico que tanto a pintura quanto a patinação artística não pareciam que trariam algum futuro para ela e ainda assim Thalia insistia em se dedicar nisso em todos os seus tempos livres. Ela tentava convencer a si mesma que isso era diferente, que ela poderia ter um futuro nessas duas áreas assim como muitas outras garotas ao redor do mundo, até agora a sua tentativa não estava surtindo muito efeito. Se ela não conseguia convencer a si mesma que era digna de uma apresentação solo ou de ter seus quadros expostos, como seria capaz de convencer as suas professoras?
***
Thalia não era intrometida, nunca se importara muito em prestar atenção nas conversas das pessoas ao seu redor, simplesmente porque não lhe interessava, então ficou surpresa ao perceber que passara a aula inteira concentrada na conversa de Percy Jackson e Annabeth Chase, provavelmente porque o assunto que eles conversavam era de interesse dela – não que a garota admitisse isso –, o casal falava sobre o primo do garoto, Nico Di Angelo, e Thalia fingia estar concentrada no seu caderno de cartografia que agora estava cheio de rabiscos, sem nenhum desenho reconhecido, a não ser pelo olho que ela desenhara sem ao menos perceber no canto da folha.
Percy falava que o primo se mudara com os pais e a irmã para Montreal devido ao trabalho de Hades, que deveria ser o pai de Nico, também disse como estava feliz por ter sua prima por perto novamente e que ela era uma das únicas coisas que salvavam os jantares em família já que a sua animação era contagiosa, Thalia parou de ouvir quando eles começaram a falar da irmã de Nico que aparentemente se chamava Bianca e segundo Percy tinha uma personalidade bem oposta a do irmão.
Quando o sinal bateu indicando o intervalo, Thalia seguiu seus colegas para fora da classe, prestes a ir em direção a sala de arte quando viu Nico vindo em sua direção, ela acreditava que nunca tinha prestado tanta atenção assim em um garoto, ele era no máximo cinco centímetros mais alto do que ela, sua pele era muito pálida e tinham um contraste incrível com seus cabelos e olhos escuros. Thalia sentiu se esquentar ao notar que tinha a atenção dele, não entendia porque suas pernas fraquejavam e ela precisava se apoiar na parede para não cair ao notar que os olhos dele não se desviavam dos dela.
“O que diabos ele queria?”
Ela estava prestes a falar alguma coisa – não sabia exatamente o que e duvidava que fosse algo inteligente, mas sentia a necessidade de dizer algo – quando notou que ele se dirigia ao primo que saíra da sala depois de Thalia, ela sentiu suas bochechas esquentarem de vergonha e raiva de si mesma por achar que ele iria falar com ela, começou a se distanciar deles com passos pequenos – ainda apoiada a parede – para que pudesse ouvir a sua conversa, se segurando para não se virar e encará-los.
Percy insistia que Nico fosse conhecer logo os seus amigos, que segundo ele estavam ansiosos para conhecer o primo que era tão bem falado, Thalia não se segurou ao sentir um olhar nas suas costas e virou para trás a tempo de ver o Di Angelo lhe encarando e parecendo tentar dar uma desculpa para não ir com o primo, então talvez ele realmente estivesse indo até ela, sentiu se boba por ficar esperançosa com a ideia. Thalia não estava acostumada a ter companhia e quando alguém parecia ir atrás dela de boa vontade, bem, a garota não podia evitar sentir-se curiosa e talvez até um pouco animada.
Mas todos esses sentimentos duraram pouco, pois Percy e Annabeth pareceram convencê-lo a se juntar a eles e com o que Thalia achou ser um olhar de quem se desculpava Nico lhe deu as costas e seguiu os amigos.
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