Frozen Heart
1 A Filha de Avarosa
As folhas escuras dos pinheiros dançavam em sintonia. E ninguém jamais imaginaria quanta vida era operada entre os troncos congelados daquela floresta.
Ela observou o frenesi da neve que se acumulava nos cantos do palácio de pedra. Cada sopro do vento matinal era uma cantiga avarosiana sobre o poder da neve, a necessidade de força para superar o inverno, a esperança de um dia melhor. Palavra por palavra surgiu em sua mente e ela as repetiu, ansiosa para prestar satisfação à neve, consciente de que cada floco congelado era representante de uma força maior.
Um coçar de garganta chamou a atenção de Ashe. Uma senhora grisalha adentrou no cômodo em passos lentos e se pôs ao seu lado, admirando a vista da janela. Com cuidado, ela capturou o pulso de Ashe e removeu a mão que previamente esteve em contato com o vidro gelado. Se não tivesse sido chamada sua atenção, a arqueira jamais teria percebido que assim o fazia. As pontas dos dedos ardiam, vermelhas.
Ashe, ainda assim, não desviou o olhar. Apenas aceitou o carinho da mulher ao seu lado, que envolveu-a em um abraço de lado, preocupada com sua ausência de calor. Não era à toa que até mesmo seu quarto era decorado em tons avermelhados, cheio de cortinas e tapetes, como se as cores fortes também pudessem afastar o inverno. Ashe era tão parte do gelo do lado de fora que sua temperatura corporal era abaixo da média, mas não podia se esperar menos da herdeira de Avarosa.
— Belíssima manhã lá fora. — Clanire murmurou.
A jovem viu-se obrigada a concordar. Pôs, enfim, os olhos sobre Clanire. Naquela manhã, ela prendeu os cabelos grisalhos em um coque. A capa de couro de lobo que carregava nos ombros ostentava um broche prateado de Avarosa sobre o peito; e as rugas nos cantos dos olhos davam um ar ainda mais belo ao sorriso que mostrou.
— Está mesmo. — Ashe respondeu. — O que devo vestir hoje?
Da direção da porta surgiram três mulheres de cabelos presos e trajes modestos. Todas carregavam cestas nos braços e fizeram reverências ao cruzar olhares com Ashe. Alguns tecidos, perfumes e acessórios dentro daquelas cestas foram estendidos na direção de Clanire, e a conselheira desvencilhou-se de Ashe para ler o conteúdo de um pergaminho.
— Manhã. Seu desjejum será acompanhado pela filha de um dos maiores comerciantes de hidromel da Capital, que pediu uma audiência individual. Dizem que se trata de um pedido para se casar com um plebeu… Tarde. Caça de javalis com Elacaryn. Você o enviou um presente em razão do casamento do seu filho. Aquele que aconteceu no mês passado e não pôde comparecer em razão da viagem a Demacia. Noite…
Enquanto Clanire falava, as criadas direcionaram Ashe ao centro do quarto. Desfizeram a trança que prendia seus cabelos, removeram-lhe as vestes de dormir, amarraram um corset rente à cintura e mostraram uma cesta cheia de flores secas. Ashe apontou para os ramos cujas pétalas eram azuladas.
— Bem, seu compromisso durante a noite é com o Lorde Erric.
Ashe deu de ombros.
— Ele planeja pedi-la em casamento.
Ergueu os olhos ao rosto de Clanire. A conselheira não se atreveu a olhá-la de volta, mantendo fixa a mirada no pergaminho bem passado. Já as criadas, cochichando baixinho, só pararam de conversar quando Ashe puxou violentamente a barra da recém-vestida saia. Assustadas, recuaram.
— Ridículo. — A monarca disparou.
— Todos os conselheiros reais concordam que está na hora da senhorita se casar. Era questão de tempo que mais um Lorde a propusesse…
— Não ligo para o que acham. Eu já te disse o que Avarosa me contou.
— Ashe, não…
— Alteza. — Enfatizou. O cômodo permaneceu em silêncio por alguns segundos e as bochechas de Clanire coraram, tomadas pela cólera. As criadas pararam imediatamente o que estavam fazendo e caminharam apressadas para o lado de fora. Clanire só voltou a falar quando foram deixadas a sós.
— Vossa Alteza, é sabido que a Corte não…
— Não acreditam no que eu disse. Eu sei. Para eles, as mensagens de Avarosa são mentirosas. Mas eu sei o que eu vi no dia que ganhei aquele arco. E a minha palavra deveria ser lei no meu Reino.
Clanire respirou fundo. Já haviam conversado sobre aquele dia centenas de vezes. Cinco anos atrás, no início de sua mocidade, Ashe foi abençoada com o arco de Avarosa em uma visita às ruínas da antiga Freljord. Já era suspeito que a garota fosse a reencarnação da primeira Rainha: sua aparência delicada, pele clara, cabelos prateados e olhos extremamente azuis eram alvo de especulação por parte da Corte. Correspondiam perfeitamente à descrição de Avarosa, transmitida em cantigas há séculos. E ter conseguido arrancar o arco mágico do imenso bloco de gelo no coração das Ruínas foi a prova cabal de que havia sido escolhida pelos deuses.
Desde aquele dia, a vida da menina mudou completamente. Filha de uma prima do antigo Rei, foi rapidamente promovida a Princesa Regente dos Avarosianos e arrancada da tribo em que viveu durante a infância. Os nobres mais céticos questionaram sua nomeação, em tentativas de invalidar os conselhos dos magos da Corte. Mas o costume mais antigo de Freljord, gravado em runas ancestrais nas paredes do palácio, não podia ser ignorado. Era o que o texto explicitamente dizia: A volta de Avarosa é um sinal dos céus. Sigam sua filha rumo à vitória. Conquistem o inverno e expurguem o mal de uma vez por todas. Não haverá espaço para a dúvida sob o reinado de Avarosa.
A ascensão de Ashe foi comemorada pelo povo por mais de um mês. Todos acreditavam que o inverno teria piedade de suas plantações, os bandidos seriam todos capturados pela Guarda Real, os inimigos de Avarosa deixariam de invadir seu território. Aquela linhagem seria, enfim, vencedora sob todas as outras, e Freljord seria inteiramente deles para desfrutar até o fim dos tempos. A dominação total do continente finalmente traria paz.
Mas a monarquia era algo muito mais complexo do que uma série de conquistas militares. Ashe formou-se dentro da Corte, recebendo aulas de avarosiano, da língua comum de Valoran e também de história e de etiqueta. Passou a ter o dia a dia controlado pelos costumes nobres, do momento que acordava ao em que dormia. Sua aparência foi minuciosamente construída para relembrar a figura de Avarosa; os mesmos penteados e vestidos esboçados nas inúmeras pinturas distribuídas pelo palácio. Não menos importante, foi treinada para manusear o arco, o que dominou com a facilidade esperada.
A rotina de Princesa Regente endureceu o coração de Ashe após a morte de sua mãe, no segundo ano de regência. Isolou-se dos demais nobres, já que não admitiam que uma das pessoas mais afastadas da linhagem real havia sido escolhida para aquele cargo. Desconfiavam de todas as narrativas trazidas por Ashe, mensagens que Avarosa lhe revelava em sonhos ou quando punha as mãos no arco congelado. Uma daquelas mensagens era sobre seu futuro casamento. Avarosa afirmou que o caminho para a salvação seria trilhado pelos filhos de Ashe, mestiços, filhos de um Rei não-avarosiano.
Para os nobres, aquela era apenas uma desculpa para Ashe se manter como Princesa Regente sem o peso de dividir a coroa com outra pessoa. Mas a arqueira solitária não dava o braço a torcer, ainda que corresse o risco de uma deposição (ou pior, de morte). A única pessoa autorizada a contatá-la a todo momento era Clanire, uma senhora de idade que ganhou o afeto de Ashe por ser amiga de sua mãe e foi promovida a conselheira após muitos anos de serviço. Mas nem mesmo Clanire estava imune à grosseria de uma Princesa Regente como A Filha de Avarosa.
— Eu entendo. E gostaria de poder apoiá-la totalmente em sua decisão. Mas estamos de mãos atadas. Alguma coisa precisa ser feita sobre o seu casamento. O povo está prestes a perder a fé. O inverno castiga nossos mantimentos. A Guarda Real insurge-se ao seu comando e os bandidos correm mais soltos do que antes. E o pior: os nobres podem depô-la. E o que farias depois disso? Poderias ser presa por acusações de blasfêmia ao mentir sobre sua descendência, ou pior, enforcada em nome de Avarosa…
Ashe ergueu o dedo indicador e Clanire calou-se. Preparada para uma bronca, a conselheira abaixou o rosto. Para sua surpresa, Ashe não gritou.
— Então jantarei com ele, mas estou livre para negar o pedido se assim achar apropriado. Não falaremos mais disso. E não se preocupe. Agora mande as criadas terminarem de me vestir. E que decorem meus cabelos com as flores azuis.
Considerando aquela conversa uma vitória, Clanire fez uma reverência e deixou o quarto.
Solidão demais nunca é bom. Não importa quão sedutora a vida de um lobo solitário pareça ser. Desacompanhado, até o mais temível dos predadores pode se tornar presa.
Mesmo rodeada por outras pessoas, Ashe sentia-se solitária. O sentimento perdurava na maior parte dos dias, e naquele não seria diferente, principalmente porque os compromissos faziam referência — de uma maneira ou de outra — a casamentos.
O café da manhã com a filha de nobres, cujo nome Ashe não fazia questão de se lembrar, foi uma hora de paparicagem e elogios. Quando a Princesa Regente finalmente perguntou à moça o que ela queria pedir, a convidada balbuciou alguma coisa sobre ter encontrado o verdadeiro amor para além das muralhas de Avarosa, e…
— Certo. Então você deseja se casar com essa pessoa e quer minha bênção. Mas seu pai é um dos maiores produtores de hidromel da Capital. Vais largar essa vida? Tens certeza de que não voltarás\? E pior: por que eu deveria dá-la permissão para quebrar os costumes nobres?
A garota se assustou com a incisão de Ashe, mas fez o possível para respondê-la. Inúmeros argumentos foram lançados, nenhum prático de verdade. Ashe sentiu pena da jovem. Não devia ter mais de dezoito anos, mas estava decidida a partir da Capital para viver no meio da floresta, com um filho de ferreiro; provavelmente fariam uns três filhos até algum deles morrer da praga ou de frio e então seria completamente esquecida pela família paterna, que só faria questão de lembrá-la como mau exemplo a não ser seguido por qualquer outra mulher.
Depois de tanto criticá-la mentalmente, Ashe deu um soco na mesa.
O barulho das louças sacolejando fez a menina interromper a fala, assustada. Ashe apontou-lhe o dedo indicador. Sim, tinha pena dela. Mas também tinha compaixão. E, na verdade, não devia debochar tanto das pessoas mais pobres do Reino. Era o mínimo que podia fazer como regente. Não era…?
— Eu permito.
Os olhos da menina encheram-se de lágrimas.
— Desde que me dês notícias. Conte-me como estará a situação na cidade para a qual vai. Faça o possível. Acredito que as pessoas de… Bem, não me recordo do nome agora… Deste lugar… Não devem receber tanta atenção do Palácio. Hora de mudar isso.
Que decisão absurda. Ashe arrependeu-se logo depois de falar, questionando a logística de realmente seguir com esse plano, principalmente porque sabia que a menina cumpriria a promessa e seria grata à princesa pelo resto da vida.
— Com certeza, Vossa Alteza. Ora, seus propósitos são muito nobres, era de se esperar. Podes ter certeza, Alteza, que farei isso. O povo de Nelholune e eu somos muito gratos. Ah, eu… Eu…!
Ashe sacudiu uma das mãos e Clanire, que acompanhava a audiência no canto do Salão, aproximou-se da mesa.
— Oh, imagino que é momento de me retirar. Agradeço novamente, Vossa Magnificência, Lady de Freljord, Filha de Avarosa…
Ashe continuou sacudindo a mão até que Clanire guiasse a menina à porta com sucesso.
Quando finalmente ficou sozinha, voltou a desfrutar colheradas de sopa.
O sol estava no meio do céu quando Ashe deixou o Palácio com um grupo de escudeiros. Dentre eles estava Elacaryn, um senhor gordinho e barbudo que carregava o sobrenome de sua família como apelido. Das famílias nobres membros da Corte, os Elacaryn eram os mais simpatizantes ao governo de Ashe, principalmente por apoiarem o Círculo de Magos que cuidavam dos escritos antigos. A maioria dos ricos, corrompidos pela ambição, esqueciam propositalmente alguns dos costumes fundadores de Freljord. Queriam transformar o Reino em um banco e expandir seus negócios para os demais continentes, o que não combinava nem um pouco com a profecia de Avarosa.
A paz jamais viria por meio da riqueza. A paz advinha da guerra. Certo?
— Vossa Alteza é a única mulher desse Reino capaz de ficar bonita com essas vestes de caça. — Elacaryn comentou, sempre risonho.
Ashe ergueu os olhos para ele. A carruagem que os conduzia à floresta já havia deixado o Palácio havia uma ou duas horas, mas aquela havia sido a primeira tentativa de quebrar o gelo. Ashe estava particularmente pensativa naquele dia, era óbvio. Mas, sendo uma monarca, ser óbvia não era nada bom. Por isso, ela fechou o livro que carregava sobre as coxas e sorriu para Elacaryn. Estavam sozinhos na carruagem, afinal. Conversar um pouco era necessário.
— Ora, agradeço muito. Mas fiquei sabendo que sua nora é uma das mais belas damas do Reino. Acho que ela tem muito mais delicadeza do que eu… Ela não é de Shenlean, a cidade da arte e da dança?
Elacaryn torceu os bigodes, feliz por falar sobre o casamento do filho. Ashe havia lido todas as anotações de Clanire sobre aquele evento, então seria capaz de sustentar algum bate-papo.
— Fico lisonjeado por tuas palavras, Alteza. E agradeço muitíssimo pelos presentes que enviou. Meu caçula, quando recebeu… Ora, não pôde nem acreditar que a Princesa Regente de Avarosa escreveu-lhe uma carta! As joias e os tecidos finos não são encontrados facilmente em qualquer parte do Reino, imaginamos a dedicação que Vossa Alteza desprendeu para honrar-nos de tal forma. Ah, e a espada recebida será carregada por Beltar na linha de frente, afinal, não existe honra maior do que servir ao Exército de Vossa Majestade…
As bochechas gorduchas de Elacaryn estavam vermelhas de empolgação. Ashe fingiu acompanhar sua felicidade, mesmo que não fizesse a mínima ideia de quais presentes e de qual carta ele estava falando. Aquilo havia sido inteiramente trabalho de Clanire; a maioria das coisas que não envolviam caça, treino e estudos eram conduzidas por ela. Ashe não tinha apreço nenhum pela sociabilidade demandada pela monarquia. Ainda assim, precisava fingir se importar.
— Minha nora ficou emocionada com os presentes. Veja, Alteza, ela me pediu para lhe entregar isso. Se não for muita ousadia minha, peço que aceite.
Ashe estendeu as mãos para aceitar o embrulho entregue por Elacaryn. Tratava-se de uma carta escrita no mais delicado pergaminho, acompanhada de um par de brincos de cristal.
— Rachel… Trata-se do nome da minha nora, Alteza, Rachel Elacaryn. Ela trouxe este par de brincos raríssimos de sua terra natal. Foram fabricados pelo mais competente joalheiro de Freljord. Ela deseja tê-los entregue durante a cerimônia. Não pretendo constrangê-la por não comparecer, Alteza, longe de mim insinuar tal coisa… Entendo que suas tarefas reais impediram sua presença. De qualquer forma, ofereço-lhe o presente.
Ashe sorriu. Um sorriso genuíno, do estilo que não esboçava havia, no mínimo, uma semana.
— Aceito, sim. Diga-lhe que mal posso esperar para conhecê-la.
Os olhinhos castanhos de Elacaryn brilharam. Extremamente satisfeito, ele soltou uma risada simpática e virou o rosto para a janela da carruagem.
— A conversa certamente foi prazerosa, mas já vejo os pinheiros daqui! Hoje, Alteza, caçarei o javali mais gordo de Onrannor! Vida longa a Avarosa!
— Vida longa a Avarosa. — Ashe concordou, espiando a janela de canto de olho.
Onrannor era uma das melhores regiões do Reino de Avarosa para caçar. Distante da capital e acessível somente por estradas rústicas, tratava-se do retiro mais comum para os nobres que gostavam de se aventurar na floresta. Àquela época, pessoas assim eram raridade. Quando enriqueciam, compravam terras e negócios, viajavam para os outros continentes e esqueciam das maravilhas que a terra natal tinha a oferecer.
Ashe certamente valorizava aqueles que se mantinham fieis à tradição, como Elacaryn. Identificava-se de tal maneira que se sentia quase que confortável para construir amizades. O mais próximo de uma amigo era o senhor ao seu lado, certamente, mas Elacaryn havia vivido muitos mais invernos do que ela, tinha filhos de sua idade, gostos e passatempos não tão parecidos… Como diabos trataria como amigo uma pessoa que poderia ser seu pai?
Ainda assim, fazia o possível para manter a proximidade e cordialidade com ele. Os Elacaryn, além de simpatizar com o Círculo dos Magos, apoiavam as decisões da Princesa Regente e financiavam seus projetos. A maioria das propostas de Ashe eram de infraestrutura nas cidades mais afastadas da Capital; o que enfurecia os nobres acomodados, desejando que mais casas de banho e salões de festa fossem construídos em seus quintais, ao invés de melhorar a vida do povo. Ashe não era a pessoa mais benevolente do mundo, mas tinha alguma noção do que uma Regente realmente devia fazer.
A comitiva acomodou-se em uma clareira distante da estrada. Inúmeros serviçais organizaram uma cabana para Ashe, tão organizada por dentro que era difícil acreditar que a estrutura era de tecido, e ela descansou alguns instantes antes de ser convocada por Elacaryn. Quando retirou o arco congelado do invólucro, o senhor e os serviçais soltaram suspiros impressionados. Ashe não era de esbanjá-lo diariamente, mas não seria capaz de caçar com outra arma senão aquela.
A grande dificuldade da caça em Freljord — pelo menos para a maioria das pessoas — era manter a rapidez com as roupas pesadas. Ninguém era capaz de sobreviver a aquele frio sem camadas e mais camadas de tecido, o que certamente oferecia desafios aos caçadores. Mais lentos e pesados, também faziam mais barulho. Qualquer passo em falso afastava os animais ou causava um acidente. Por isso que os melhores caçadores de Freljord também podiam ser considerados os melhores do mundo; as condições impostas pela natureza eram quase impossíveis de superar.
Ashe tinha uma vantagem. Uma grande vantagem. Ela pouco era sensível ao frio: conseguia usar menos camadas de roupa, apenas um colete, uma capa, um par de calças e botas confortáveis. Embora seu corpo manifestasse danos em razão do frio, ela não os sentia. Isso era bom e ruim ao mesmo tempo. Nos invernos mais severos, durante a infância, ela se feria após passar horas do lado de fora. Só percebia que o corpo não conseguia suportar quando desmaiava ou sentia o cheiro de sangue. Adulta e devidamente treinada, tinha uma melhor noção, mas ainda não era perfeita.
Modestamente trajada, ela acompanhou Elacaryn pela trilha além da clareira. Aos extremos da estrada e nos contornos da floresta, grupos de patrulheiros se distribuíram. Além de monitorar o movimento de animais e possíveis feras, a tarefa mais importante era garantir a proteção de Ashe. Ainda que fosse uma ótima arqueira, a Princesa Regente estaria extremamente vulnerável a ataques externos. E ninguém nem sabia quais inimigos poderiam querê-lo, mas não se podia duvidar de nada dentro de uma monarquia.
O seu único companheiro de caça naquela tarde seria o próprio Elacaryn. Preferia daquele jeito; muitos caçadores iniciantes não sabiam como se comportar na mata, ou pior, tentavam manter uma conversa com Ashe quando ela tentava se concentrar na atividade. Para além de ser uma questão de honra apresentar maior quantidade de presas, ou a maior, a caça era um dos únicos momentos em que Ashe podia sentir alguma adrenalina. As únicas emoções extremas dentro daquele Palácio eram raiva, desgosto ou indiferença. Pior do que sentir raiva é se sentir indiferente. E Ashe era indiferente à maioria das coisas que aconteciam ao seu redor.
Separou-se de Elacaryn ao encontrar uma porção da floresta mais difícil de navegar. Continuou no caminho apertado, enquanto o senhor — visivelmente com dificuldade de traçar uma melhor rota com todos aqueles casacos e capas — seguiu o caminho mais fácil. Poderia ser mais fácil para ele, mas era fácil demais para as presas. E Ashe sabia que os animais mais preocupados em sobreviver estariam dentre aqueles pinheiros e arbustos mais baixos.
Assim continuou na caminhada, tão concentrada no caminho e nos sons da floresta que quase não teve pensamentos autônomos.
A mata tornou-se densa e escura, mais apertada a cada minuto. Ashe pensou que sentiria medo e daria meia volta, mas, além de não saber exatamente para qual lado deveria voltar, a vontade de vencer a caçada falou mais alto. Assim, precisando se arrastar por entre os arbustos congelados, ela obteve alguns cortes nos braços e nas pernas, rompendo o tecido em alguns pontos. “Que sorte não sentir frio nesse momento”, ela pensou. Mas era uma pena que ainda sentisse a dor das feridas. Nada que uma exímia caçadora não fosse capaz de tolerar, no entanto.
Orgulhosa de si mesma, como se aquela aventura por si só já tivesse a rendido algum prêmio, Ashe escalou uma série de galhos e pedras altas, objetivando chegar ao coração da floresta — da onde logicamente partiria em direção ao Oeste após achar uma presa, visto que, daquela altura, foi capaz de contemplar a posição do sol e identificar o trajeto até a saída.
Nem passou pela sua cabeça que jamais chegaria ao extremo Oeste. Após se pendurar em uma das pedras, escorregou em limo e despencou com tudo por entre arbustos, chocando-se contra o chão úmido de um riacho, a um ou dois metros de onde previamente estava.
O impacto com o chão fez Ashe gemer alto. Assustados, alguns pássaros voaram para longe, sacudindo mais galhos congelados. Enquanto sofria com o impacto da neve, Ashe tentou entender onde havia se metido.
O pequeno córrego sobre o qual estava deitada era raso, umedecendo-lhe pouco as vestes. Teria ficado aliviada pela queda não ter sido tão brusca se, à beira de um pequeno lago do qual derivava o córrego, não tivesse visto uma sombra humana.
Parou de se mexer imediatamente. Quase nem respirava.
Não era Elacaryn. Impossível que fosse. Era um homem muito alto, agachado na margem do lago. Por estar sob a copa de um pinheiro, não era possível identificar suas vestes ou seu rosto.
Ainda estavam distantes. Ashe conseguiria fugir dali, ou pelo menos encontrar uma posição mais favorável para atingi-lo.
Ou talvez aquilo fosse uma ilusão. Uma brincadeira gerada pela floresta. Não sabia exatamente quanto tempo havia passado dentro daquela mata, mas parecia que o sol havia caminhado bastante desde que partiu da clareira. E então se pegou pensando, irritada, como poderia ter passado tantas horas sem ninguém procurá-la; quão incompetentes eram os funcionários que supostamente deveriam protegê-la?
Antes que pudesse voltar aos problemas da Corte, Ashe viu o homem erguer o rosto. Após aqueles segundos de barulho — queda, neve e pássaros — era óbvio que ele buscaria a fonte da confusão. Ashe arrastou-se para trás, tateando o chão em busca do arco, sem tirar os olhos da direção do homem.
Desesperada, fez mais barulho do que pretendia. Jamais havia estado naquela situação. Claro, caçar javalis e raposas era uma coisa, mas se ver diante de uma pessoa desconhecida, no meio da floresta, longe do Palácio, podendo contar somente consigo mesma e com aquele bendito arco que ainda não havia aparecido…
O homem ficou de pé. Ashe desistiu de manter o silêncio e virou-se na direção do chão, encontrando o arco a alguns centímetros de distância. Após agarrá-lo, rezou a mais poderosa das preces para Avarosa e impulsionou o corpo para a frente. Sentou-se, puxou a corda, conjurou quatro flechas de cristal e, quando a sombra do homem pairou sobre seu rosto, atirou.
Um ruído metálico irrompeu na floresta. Ashe piscou os olhos, confusa, e viu as flechas despencarem no chão. O homem, que havia se defendido com rapidez impressionante, aparou o impacto com a braçadeira direita.
Ashe puxou a corda do arco novamente, mirando-lhe o rosto.
Ele falou alguma coisa em um idioma desconhecido. Não entendeu nem uma palavra.
— Nem pense em me atacar! — Ashe bradou.
O homem resmungou algo naquele idioma esquisito. Ashe puxou a corda com mais força e rezou para conjurar mais flechas. Enquanto elas se formavam magicamente entre seus dedos, o homem falou novamente.
De várias palavras, Ashe entendeu apenas uma: Avarosa.
— Eu sou A Filha de Avarosa! Vai se arrepender se me atacar!
— Percebi. — Ele respondeu em língua comum bem pronunciada.
Ainda atônita, a arqueira sacudiu o rosto, afastando alguns dos cabelos que taparam-lhe os olhos, e analisou o recém-feito inimigo. Certamente não era avarosiano; tinha a pele bronzeada, um conjunto de armadura prateada rústico, cabelos e barba muito escuros. Mas o que mais chamava atenção eram seus olhos esverdeados, estranhamente brilhantes. Ele ergueu um dos braços e afastou alguns galhos acima de Ashe.
Quando a luz do sol iluminou o córrego, Ashe pôde analisar sua figura com mais cautela. Musculoso, o homenzarrão tinha um ar grosseiro que jamais havia presenciado em vida. Algumas cicatrizes claras estavam distribuídas por seu tronco e, na mão esquerda, ele carregava uma espada grosseira, dentada, com detalhes em esmeralda…
Oh, Céus. Um bárbaro.
Ashe gritou, aterrorizada, e soltou mais uma rajada de flechas. O homem mais uma vez as aparou, dessa vez com uso da espada, e xingou. — Não ataque! Está louca!?
— Você é um bárbaro! Um bárbaro! Como tem coragem de me dirigir a palavra? Melhor: como… Como você sabe falar?
Ela preparou mais flechas.
— Vocês avarosianos são mesmo estúpidos. — Ele respondeu em tom desinteressado. Ashe foi tomada pela cólera e tentou se erguer, com muita dificuldade, visto que as vestes estavam molhadas e pesadas, e as pedras do córrego sobre o qual estava sentada eram muito escorregadias. — Venha, eu te ajudo.
Ashe apontou o arco para a mão que o homem a estendeu.
— Não vou cair nesse truque. Afaste-se ou será morto.
— Eu não quero te atacar, mulher…
Para a surpresa de Ashe, o homem riu. E não foi uma risada leve, ou nervosa, mas uma risada que se dá quando se vê uma criança brincar, fingindo-se de ninja ou cavaleira, e atinge bonecos de palha com armas feitas de madeira…
— Não ouse rir de mim. Me diga quem é e o que faz aqui. Você está em território que não te pertence…
— Tryndamere. — Ele prontamente respondeu.
Ashe ficou estupefata com sua imprudência. E estava prestes a respondê-lo, quando foi interrompida:
— Líder dos Yogssaef. Conhece?
Apertou os lábios. Yogssaef. Leu aquele nome não havia muitas semanas. Eram uma tribo — ou povo — dentre aqueles considerados bárbaros. Eram os mais organizados, se é possível considerar um bárbaro organizado. Tinham um sistema social baseado em conquistas militares, uma monarquia iniciante, mas pujante, e regras que, de maneira subdesenvolvida, igualava homens e mulheres em todas as funções…
O homem aproveitou que Ashe estava perdida em pensamentos e agarrou-a pela cintura sem esforço.
Antes que pudesse reagir, foi colocada de bruços sobre seu ombro. O bárbaro tomou o arco de sua mão e marchou na direção do lago, em passos pesados, ignorando os rosnados da arqueira. Ela protestou, sacudiu os braços e as pernas e até mesmo mordeu a parte das costas de Tryndamere que seu rosto conseguiu alcançar. Ele reclamou, xingando novamente, e a jogou no chão.
Ashe espatifou-se novamente e tateou o chão, tentando encontrar o arco, ou uma adaga, ou uma pedra, ou qualquer coisa que pudesse a salvar daquela situação.
— Seu… Seu monstro! Não ouse me tocar! Não se aproxime de mim! Não vou deixar que… Que me toque! Eu vou te morder! Eu consigo te arranhar!
Foi tomada por tanto desespero que os olhos começaram a marejar. Não podia acreditar que se tornaria vítima das histórias mais nojentas sobre os bárbaros. Tolos e fúteis, eram tão violentos que faziam coisas horríveis com as mulheres dos vilarejos que derrubavam… Ateavam fogo às casas e plantações, cortavam os braços das crianças para que jamais conseguissem lutar ou trabalhar, e quanto às mulheres… As mulheres…
Tryndamere agachou-se à sua frente, mantendo o rosto à altura do seu.
— Eu não vou fazer isso.
Ashe conseguiu controlar as lágrimas. Ainda aterrorizada, ela avaliou a expressão facial do bárbaro e buscou indícios de veracidade. Para sua surpresa, mesmo se tratando de uma pessoa menos evoluída, ele parecia… Estranhamente racional. Como se realmente fosse capaz de formular pensamentos não-malignos. Ou pensamentos em geral.
— Não…?
Ele riu novamente, dessa vez parecendo envergonhado.
— Claro que não. Mas imagino que as histórias contadas nesse Reino sejam perturbadoras.
Perturbadoras…? Aquela não era uma palavra complexa demais para um bárbaro saber, ainda mais em língua comum…?
— Mas… O que… O que você está fazendo aqui…?
Tryndamere analisou o rosto de Ashe. Identificou os cortes e a sujeira em suas bochechas, colo, braços e pernas. Analisando as vestes da mulher, e provavelmente um pouco mais do que isso, ele prontamente pôs os olhos sobre o broche real que fechava a capa de Ashe. Depois, analisou o arco gélido que havia tomado; rodou-o nos dedos, admirando a estrutura congelada. Para a surpresa de Ashe, ele sorriu e a estendeu o arco.
— Eu vim negociar, Avarosa.
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