Frozen Heart

2 A Princesa Regente


Ashe foi conduzida até uma cabana em uma clareira próxima.

Tryndamere, após prometer que não a machucaria, convocou-a para uma pequena reunião. Ela não tinha como negar; estava perdida na floresta e o sol estava prestes a se pôr. Mas a ansiedade martelava o peito, já que ela se questionava, a todo instante, por onde estavam Elacaryn e seus patrulheiros, e se alguém havia se importado com sua demora. Se tudo aquilo tivesse sido um golpe orquestrado, poderiam muito bem “esquecê-la” em Onrannor, onde provavelmente seria sequestrada por aquele bando de bárbaros e jamais vista novamente.

A arqueira não esperava que a “cabana” mencionada por Tryndamere fosse tão estruturada. Construída com troncos firmes de pinheiro, o teto era baixo e rústico; mas havia portas, janelas, uma bigorna de ferreiro e um forno feito de argila, de onde um cheiro de pão fresco emanava. Aquilo não era possível: os bárbaros eram menos evoluídos, desorganizados e selvagens, não eram? Por que diabos aquela cabana parecia tão… Normal? E por que diabos havia ali outras pessoas com armaduras parecidas com a de Tryndamere, sentadas em bancos ao redor da clareira e estranhamente interessadas na figura de Ashe?

Pensou em recuar, mas não havia escapatória. Para além da série de descobertas sobre um povo que os avarosianos pouco haviam documentado, Ashe era uma estranha no ninho em meio a uma pequena multidão de bárbaros. Todas as pessoas eram altas e corpulentas, tinham os cabelos longos e trançados — homens e mulheres — e, apesar de alguns serem tão loiros quanto os avarosianos, outros também tinham cabelos vermelhos, ou alaranjados, em tons tão parecidos com o fogo que Ashe questionou-se se seriam reais.

— Bem vinda, Filha de Avarosa, ao nosso pequeno esconderijo.

Enrijeceu as costas, a fim de manter a postura, e acompanhou Tryndamere até a porta da cabana. Um burburinho foi criado do lado de fora, visto que mais de uma dezena de pessoas o acompanhavam, mas Ashe não sabia quem eles eram, muito menos entendia seu idioma. Assim, apenas acenou com a cabeça e fingiu normalidade, seguindo o bárbaro ao interior do refúgio, agarrada ao arco congelado como se sua vida dependesse daquilo.

— Gostaria de saber por que estão instalados no meu território…

A fala foi interrompida quando Ashe percebeu o interior. Nas paredes de madeira, escudos e tapeçarias coloridas estavam pendurados. O cômodo era amplo, com muitos espaços para se sentar e se deitar, todos forrados com camadas de couro animal; alguns cuja textura jamais havia visto. O chão estava repleto de tapetes ásperos e grosseiros, mas delicadamente trançados de maneira tão dedicada quanto os penteados das pessoas do lado de fora. E duas mesas longas e espaçosas, próximas ao chão, ostentavam cálices de bronze sobre os tampos. No fundo da sala, uma mesa curta, porém mais alta, era acompanhada de um trio de cadeiras de mogno. As cadeiras estavam viradas para a entrada e tinham visão privilegiada de todo o resto.

— Antes que Vossa Alteza insulte meu povo novamente, acredito que devo dá-la uma pequena aula sobre os Yogssaef. — Tryndamere comentou em tom mais alto, caminhando despreocupadamente na direção da mesa mais alta.

— Blasfêmia! — Ashe protestou.

Ele a olhou por cima do ombro, da ponta das botas até o capuz sobre os cabelos, e fez um gesto educado na direção de uma almofada larga em frente às mesas, bem no centro da sala. Ashe quase se insurgiu novamente, caminhando em sua direção com passos rápidos, mas, ao serem separados por menos de um metro de distância, lembrou-se da diferença inusitada entre seus portes físicos, em particular a altura, e de toda a desvantagem que teria ao iniciar uma luta naquele lugar inóspito. Recuou, assim, sentindo-se uma idiota por imaginar que algum dia seria capaz de deter um bárbaro, e Tryndamere abaixou o rosto em sua direção, sorrindo desafiador antes de fazer uma reverência.

Teria ficado impressionada com a elegância demonstrada por um guerreiro, mas ainda estava irritada. Sem escapatória, cruzou o caminho dele e sentou-se sobre a almofada com força. De trás de si, ouviu uma risadinha, mas manteve a postura ereta, ainda que estivesse desacostumada a sentar de maneira tão informal como aquela. Instantes depois, Tryndamere sentou-se na cadeira mais alta, bem à sua frente. Ele empurrou um cálice na direção de Ashe e serviu-se em outro, bebericando um líquido que parecia hidromel. Ela não fez questão de se levantar para buscá-lo, afinal, a incumbência de servi-la era de algum criado. Uma pena que não houvesse nenhum ali.

— Imagino que minha recepção não está à altura de Vossa Alteza. O Palácio de Avarosa certamente é mais encantador que esse refúgio improvisado…

— É mesmo. — Ashe concordou de prontidão.

— Permita-me realizar uma apresentação formal. Sou Yogssaef Tryndamere. Chefe deste povo. Considerado, talvez, nas palavras do seu povo, um príncipe.

Ashe bufou. O bárbaro lançou um olhar desconfiado, mas continuou a falar.

— Imagino que não conheças tão bem a história dos Yogssaef. Meu povo é tão antigo quanto o seu. Viemos do extremo Oeste deste continente.

— E por que estão nas minhas terras agora?

Demônios.

A conversa silenciou-se por alguns segundos. Ashe respirou fundo, absorvendo a informação. Jamais seria tão inocente ao ponto de acreditar nas palavras de um bárbaro, ainda mais uma alegação tão estúpida quanto aquela. Demônios? Naquela Era? Os “demônios” que já existiram algum dia em Freljord foram derrotados por Avarosa havia milênios. Provavelmente se tratava do apelido de algum grupo de bandidos ou bárbaros que havia se metido em uma confusão com aquela tribo, nada demais, e aquele rapaz ainda teve a coragem de…

Antecipando seu ceticismo, Tryndamere desceu os braços a um baú sobre uma das cadeiras; abriu-o com um estrondo, em uma ação rápida, e arrancou a cabeça de um demônio pelos chifres para colocá-la sobre a mesa.

Ashe recuou em completo horror, os olhos presos na carcaça aterrorizante. De pele vermelha e grossa, a criatura tinha o crânio do tamanho de um homem adulto, um par de chifres escuros retorcidos, dentes afiados como os de lobos e olhos completamente negros, arregalados, refletindo a expressão furiosa que ostentava ao ser morto. Parecia ter sido abatido não havia mais de um mês, a julgar pelo estado de decomposição, e emanava um forte odor de enxofre. Um corte cirúrgico separou a cabeça do resto do corpo, e ela sentiu-se grata por Tryndamere não tê-lo trazido completo.

— O que é isso…?

— Um dos demônios que quase dizimou meu povo, Vossa Alteza. — Tryndamere respondeu em tom de voz firme. Notou que ele não sorria, provocando-a, muito menos tinha o objetivo de assustá-la. Ele parecia um homem preocupado. Preocupado com as pessoas lá de fora e completamente enojado em mencionar o nome dos inimigos, estando na presença dos restos de um deles.

— Quando isso ocorreu?

— Há um mês e meio, a Capital foi atacada. Eles vieram do céu. Não estávamos acostumados com ataques vindos de cima, afinal, costumamos construir as cidades nas montanhas…

Por alguns instantes, Ashe sentiu-se deslumbrada pela eloquência de Tryndamere, que narrava os detalhes de sua civilização em língua comum.

— Meus batedores não notaram nada de diferente nos dias anteriores. Nenhum culto. Nenhum bruxo maligno. Nenhum outro tipo de fera chegou a nos ameaçar. Estávamos em paz pela primeira vez em anos.

O olhar da arqueira voltou ao rosto distorcido do demônio, e o bárbaro prontamente guardou os restos monstruosos dentro do baú.

— Como a maior parte das pessoas moram na Capital, menos os agricultores e mineiros, perdemos muitos.

— Quantos? — Ashe perguntou, com os olhos marejados.

— Dez mil.

A cabana foi tomada pelo silêncio novamente. Primeiro que Ashe jamais imaginaria que os Yogssaef eram tão numerosos; segundo que era difícil mensurar uma chacina tão atordoante quanto aquela. A Capital do Reino de Avarosa tinha exatamente seis mil pessoas. Em seu entorno, o resto da nação abarcava entre oito e dez mil. Pegou-se sentindo compaixão por Tryndamere, principalmente porque ele abaixou o olhar, ressentido, e, desde a primeira vez que se viram, demonstrou vulnerabilidade.

— Minha mãe também morreu no ataque. Ela é… Era a chefe antes de mim.

Levou as mãos ao rosto. Pensou na própria mãe e em como sentia falta dela, principalmente nos primeiros meses após sua partida. E pensar que a família de Tryndamere foi arrancada de si de maneira muito mais violenta, pelas mãos de um inimigo vil e demoníaco… A mãe de Ashe ascendeu aos céus após enfrentar uma terrível doença, o que, de certa forma, a preparou para o momento da partida.

Mas… Como e por que Ashe sentia-se tão conectada àqueles bárbaros?

Quando Tryndamere voltou a fitá-la, Ashe estava derrubando algumas lágrimas.

— Alteza…?

— Meu nome é Ashe. Eu sou a Princesa Regente deste Reino. Fui nomeada há alguns anos, quando obtive o Arco de Avarosa nas Ruínas da Capital.

O bárbaro prestou atenção em sua fala, calado.

— Eu sou a reencarnação de Avarosa. Não sei se é familiarizado com as histórias, mas…

— Sim, a primeira Rainha, quem foi capaz de reunir todos os povos de Freljord antes da invasão dos Observadores. — Ele respondeu de pronto. Ashe sentiu as bochechas esquentarem.

— Não sei se acredita nisso, mas… É quem eu sou.

O bárbaro acenou a cabeça, repetindo uma reverência cordial, ainda que sentado. E Ashe, pela primeira vez, retribuiu.

— Imagino que compreende o porquê de eu estar em seu território, Vossa Alteza.

— Sim.

— Meu povo foi massacrado, perdemos nossos melhores guerreiros. Mas todos os Yogssaef são lutadores ávidos, isso é fato, temos mais de sete… Quase oito mil pessoas lutando para sobreviver. Tivemos que largar nossa terra natal e desbravar o continente rumo ao Oeste, já que…

Ashe apertou os olhos, ansiosa pela conclusão.

— Já que nos disseram que o Reino de Avarosa é o mais benevolente de Freljord.

Sentindo-se sobrecarregada pelo olhar fixo no seu, Ashe fitou as próprias mãos, apoiadas sobre as coxas. Apesar de fazer tanto frio lá fora, ela sentiu as bochechas quentes; a trilha de constrangimento sendo guiada até o pescoço, a clavícula e o colo. Sabia que estava completamente vermelha, como uma adolescente que recebeu elogio de um garoto bonito, e era exatamente assim que se deparava. Ora, os nobres de Freljord eram tão rígidos quanto as paredes do castelo. Receber alguns elogios (que não viessem apenas de Elacaryn) era sempre prazeroso.

— Eu li algumas coisas sobre seu povo há algum tempo atrás e nunca imaginaria que seria capaz de conhecê-los. Mas o nosso continente não é tão grande quanto poderia ser, o que faz com que meus inimigos do Norte distante também sejam capazes de chegar até mim. Me parece que era questão de tempo até que os povos de Freljord voltassem a interagir diretamente.

Ele sacudiu a cabeça positivamente e foi sábio na escolha de suas próximas palavras.

— Certamente. Nós também não temos um bom histórico de interações com a Garra do Inverno, já que eles insistem em tentar dominar territórios alheios da maneira mais grotesca possível.

Ao ouvir a menção do povo que certamente era o nêmesis de Avarosa, Ashe cravou os olhos no rosto de Tryndamere. Ele mostrou um sorriso amarelo e tornou a falar.

— Acho que temos mais em comum do que imaginávamos.

— Você me dá sua palavra que isso tudo não é uma grande mentira? — Ela perguntou em tom baixo.

A risada desconcertada de Tryndamere ecoou dentro da cabana.

— E Vossa Alteza acha que eu seria um ator tão bom assim?

Após as últimas declarações de Tryndamere, Ashe afirmou que precisava retornar ao palácio antes que decretassem seu desaparecimento. O bárbaro aceitou de bom grado — fez um grupo de batedores guiá-la de volta à margem da estrada em que a comitiva a esperaria. Ela tentou recusar, mas o sol se pôs e o frio piorou, e o chefe dos Yogssaef impediu que deixasse a clareira totalmente desacompanhada.

Assim, fez o caminho de volta em silêncio, enquanto os bárbaros — extremamente altos e de cabelos quase tão longos quanto os de Tryndamere — cochichavam entre si no idioma materno. Apesar de não conseguirem trocar nenhuma palavra, eles utilizavam seus espadões para romper qualquer galho que ousasse entrar no caminho, além de se aproximar de Ashe com os braços estendidos e a cabeça baixa toda vez que cruzavam córregos e pedras altas, esperando que ela aceitasse ser carregada até o outro lado. A arqueira negava de maneira insistente, ainda que cortês, e ao fim da caminhada se perguntou se aquilo foi uma ordem direta do líder, ou se os bárbaros sempre eram assim tão… Educados.

Algumas tochas já eram visíveis entre os pinheiros quando a comitiva de Ashe notou sua apresentação. Os bárbaros pararam de caminhar, desconfiados, e a mulher correu na direção dos avarosianos antes que eles vissem os estranhos. — Estou aqui! Estou segura e eles estão me ajudando! — Berrou, assustada com a possibilidade dos seus soldados lançarem uma rajada de flechas nos desconhecidos antes mesmo de perguntar quem eram.

A primeira pessoa a ouvi-la foi Elacaryn. Ele estava sentado em um banco improvisado, feito com metade de um tronco de pinheiro, e prestava atenção no caldeirão borbulhante sobre a fogueira com um olhar triste. Seu rosto gentil mostrou logo um sorriso ao reconhecer a voz de Ashe, buscando sua figura no meio da floresta como um cachorro quando ouve o som de seu brinquedo favorito.

Mais ágeis que Elacaryn, duas damas de companhia correram em sua direção. Elas agarraram uma capa, uma bacia com ervas e uma tocha durante o caminho, até se aproximarem de Ashe, afobadas, cumprimentando-a com reverências desajeitadas. “Vossa Alteza, está bem?”, “Vossa Alteza, aconteceu alguma coisa ruim?”, “Precisas de alguma coisa, Alteza?”.

Ashe negou com a cabeça, muito melhor do que poderia estar, e aceitou todos os afetos oferecidos pelas servas. Não tinha motivo algum para se sentir mal. Na verdade, só precisava de um lugar silencioso e isolado em que pudesse pensar. E tinha certeza que passaria as horas de retorno ao Palácio com o rosto apoiado na janela da carruagem, a pensar na conversa com o líder dos bárbaros e no rosto daquele demônio horroroso. Foi o que aconteceu.

Quando retornou à Capital, Ashe foi interrogada sobre a experiência na floresta. Algumas pessoas demonstravam preocupação, horrorizadas com suposições absurdas sobre o que havia acontecido com a Princesa em Onrannor. Foi obrigada a convocar uma audiência com os membros do Círculo dos Magos, do Conselho e da Corte. Na manhã seguinte, dezenas de pessoas foram aglomeradas na Sala do Trono, de maneira que a multidão preenchia da escadaria do trono até as portas de madeira. Ashe não se lembrava da última vez que houve a necessidade de reunir tantos nobres, mas a situação foi pitoresca o suficiente para requerer um evento como aquele.

Desejando que aquilo não se tornasse uma preocupação maior do que já era, a Princesa Regente abriu as portas do camarote e desceu a escadaria que a levava do parapeito ao trono. Assim que a figura feminina surgiu no alto, as vozes dos nobres sumiram completamente; nos minutos anteriores, o salão estava tomado por cochichos, risadas e resmungos despreocupados. Sob o olhar daquelas pessoas, Ashe sentou-se no móvel cristalino, soltou um pigarro e começou a falar.

Embora alguns nobres não parecessem convencidos do que a Princesa informava, Ashe tinha descoberto que os bárbaros eram capazes de formular pensamentos racionais. Além disso, alguns deles falavam a língua comum e todos demonstraram compreender a estrutura política, militar e social do Reino de Avarosa. Agora afastados do seu território originário, por culpa de demônios (cuja menção surtiu suspiros de horror por todo o Salão), eles resgataram a mulher dentro da floresta de Onrannor, conversaram cordialmente com ela, através do seu líder, e então acompanharam se volta ao acampamento dos avarosianos, em completa segurança.

Ela falou por incontáveis minutos e depois ordenou que mantivessem aquela audiência em segredo até que emitisse outra ordem no futuro. Depois, sem dá-los o devido tempo para processar as informações em suas mentes — pois sabia que teria que responder a muitas perguntas excessivamente curiosas — encerrou a audiência e observou suas saídas em silêncio.

Antes que pudesse deixar o Salão do Trono, Clanire apareceu.

— Vossa Alteza! Uma… Uma audiência particular… Agora…

A julgar pelo tom esbaforido da mulher, não seria nada simples.

Quando as portas do Salão abriram novamente, Ashe prendeu a respiração.

A figura de Tryndamere emergiu entre um par de guardas, e ele mostrou um leve sorriso ao vê-la. Vestido mais formalmente do que da primeira vez que se viram, suas roupas de tecido fino demonstraram que ele não era tão vulnerável ao frio, mas que também era capaz de parecer uma pessoa tão civilizada quanto os avarosianos. Ali, sob a iluminação abundante do Palácio, ele pareceu elegante. A camiseta era bem apessoada, repleta de botões delicadamente cravejados, e a capa de tecido escuro infelizmente não permitia que Ashe contemplasse o resto do seu vestuário.

Ao perceber que ficou interessada demais no que um bárbaro poderia oferecer, Ashe pigarreou alto e acenou com a cabeça, permitindo que os guardas deixassem-o passar, o que ele fez.

As portas então se fecharam com um estrondo e os dois ficaram sozinhos no Salão do Trono, encarando-se em silêncio, a alguns metros de distância.

— Eu associei a figura de Vossa Alteza às vestes de caça que usava no dia que nos conhecemos. — Ele disse, a voz grave ecoando entre as grossas paredes do Salão. Seus olhos claros eram desafiadores.

Ashe fitou o colo. Ostentava um delicado, porém imponente, vestido de veludo vermelho. Os detalhes em cetim brilhante eram tão graciosos que pareciam feitos de cristal. Além disso, seus cabelos claros estavam soltos, não escondidos por um capuz de couro grosso, e as madeixas eram lisas, finas e suntuosas, de maneira que alguns nobres já as elogiaram por serem tão bonitos quanto as estrelas, ou então as geleiras de Freljord, ou quem sabe a crina de um unicórnio. Certamente, uma visão bem diferente do traje de patrulha usado na floresta.

— E eu não imaginei que você vestisse qualquer coisa se não uma armadura.

O bárbaro riu. Ashe limitou-se apenas a sorrir, levemente encabulada, já que mostrou-o uma parte de si muito mais vulnerável e desesperada naquele dia. Antes acostumada a manter a pose de Princesa sobre aquele trono, agora se sentia tão desimportante quanto uma plebeia que vê uma pessoa mais importante do que si na praça da cidade. A questão era que Tryndamere certamente não era a pessoa mais importante naquela sala, mas o coração dela não parecia reconhecer isso.

— Agradeço por me receber no Palácio. Fiquei com receio de nossa conversa ter sido de alguma forma inadequada, mas os futuros de muitas pessoas dependem do meu atrevimento.

— Espero que a minha Ordem tenha os auxiliado a transitar mais tranquilamente pela Estrada Principal. — Ashe respondeu. A notícia de que um grupo de bárbaros estava dentro daquele Reino já havia se espalhado, e ela teve que emitir uma comunicação oficial para que não fossem caçados ou denunciados a caminho da Capital. Ela previu que eles tentariam abordá-la novamente para negociar algum tipo de tratado.

— Sim, Alteza. Agradeço. — Ele fez uma reverência breve, mas graciosa, e Ashe se remexeu sobre o trono.

— Claro.

— Acredito que deixei claro, mas gostaria de ressaltar, que meu povo não é uma ameaça aos avarosianos, nem hoje nem no futuro. E não invadimos seu território, apenas trouxe um pequeno grupo comigo para tentar contato com a Realeza, que, para minha feliz surpresa, foi capaz de nos encontrar brilhantemente.

Ela bufou. Ele, por sua vez, mostrou um sorriso arteiro.

— Meu atrevimento, Vossa Alteza, talvez possa me parecer imprudente aos teus olhos. Mas o meu povo passou por muita coisa em pouco tempo, e eu também, e há momentos em que um líder deve ignorar sua racionalidade para correr riscos que oferecem os possíveis melhores resultados.

Ele passou a caminhar em sua direção. Ashe mais uma vez se remexeu sobre o trono.

— Gostaria, se possível, de explicar alguns detalhes sobre os Yogssaef. Somos sempre governados por um casal de pessoas de uma mesma linhagem, um homem e uma mulher, que se provaram dignos o suficiente para servir ao povo, seja por sua coragem, honra ou força. Os que vieram antes de mim, meus pais, eram dignos. Eles foram bons líderes. Agora eles estão mortos.

O coração de Ashe vacilou. Tryndamere não parou de caminhar em sua direção, desta vez parado ao final da curta escadaria que levava ao trono. Seus olhos esverdeados analisaram a expressão facial de Ashe, preocupado com a reação ao que dizia.

— Portanto, como sua única prole, eu me tornei o líder. E agora sou responsável por guiar meu povo a um futuro melhor, derrotando aqueles inimigos que tentaram nos destruir, e esse não é um trabalho a ser feito sozinho, mesmo que eu conte com o apoio dos melhores guerreiros que os Yogssaef já tiveram a honra de criar.

Ele subiu os degraus.

— Então o que eu estou prestes a dizer a Vossa Alteza não é, de forma alguma, um desrespeito. Até porque os Yogssaef também acreditam na primazia dos costumes mais antigos de Freljord, como é o caso da união entre dois reinos, dois povos, para conquista de maior território, ou, como no nosso caso, para enfrentar um conflito contra inimigos mais potentes do que seríamos capazes de enfrentar sozinhos.

Tryndamere ajoelhou-se em frente ao trono. Sem tirar os olhos dos da arqueira, ele tomou uma de suas mãos sobre as suas, acariciando as pontas dos dedos alheios com cuidado. Apesar de estar tentada a olhar para qualquer outro lugar naquele salão, o choque de Ashe não permitiu que se mexesse. E até mesmo Tryndamere pareceu desconcertado, visto que mordiscou o lábio inferior. Permaneceram naquela posição por longos segundos, as mãos unidas emanando tanto calor que os nós dos dedos começaram a suar, e o bárbaro mais uma vez estudou seu rosto antes de erguer a palavra novamente.

— Aceitaria se casar comigo, Alteza?

“O QUÊ?”, “DESDE QUANDO?”, “PRA QUÊ?”, “QUEM PERMITIU?”

Eram alguns dos gritos que irromperam das bocas dos membros do Conselho quando Ashe os reuniu em seu gabinete.

Após o pedido inusitado feito por Tryndamere, a Princesa Regente apenas pediu licença, levantou do trono e retornou ao gabinete e convocou uma reunião urgente.

O líder dos bárbaros provavelmente ainda a esperava no Salão, atônito, desejando receber uma resposta, mas aquele tipo de coisa não era facilmente resolvida — mesmo que em um breve momento de atração a arqueira tivesse se sentido… tentada a aceitar.

— Por gentileza. — Ela suspirou.

Os doze nobres, ainda de pé, calaram as bocas e buscaram se sentar nos móveis espalhados pelo cômodo. Apenas quando todos estavam devidamente acomodados que Ashe retornou a falar.

— Gostaria de lembrá-los do costume da Coroa, que certamente todos aqui já aprenderam. Os pedidos de matrimônio…

Novamente os nobres retornaram a conversar entre si. “Não é assim que se conduz esse tipo de coisa…”, “É uma afronta à história de Avarosa!”, “Mas, quem é aquele rapaz, mesmo?”

Daquela vez, a loira ficou de pé e deu um soco na mesa. Eles novamente se calaram, constrangidos. Todos eram homens e mulheres (a maioria, homens) mais velhos que Ashe (pelo menos uns vinte anos cada), mas alguns detalhes da hierarquia monárquica a davam a oportunidade de agir daquela forma.

Os conselheiros reais não gostavam de casamentos inesperados porque, segundo a tradição, o Conselho era reformado toda vez que um novo Rei assumisse ou se casasse. Ou seja, com o casamento de Ashe com um desconhecido, não haveria tempo o suficiente para restabelecer as alianças e continuar naquela posição. E muita gente queria estar naquela posição.

— É decepcionante vislumbrar membros do governo, os supostos guardiões do nosso povo!, tão desconectados das verdadeiras necessidades do nosso Reino.

Eles se remexeram nos sofás e poltronas.

— Recentemente tivemos uma reunião sobre a necessidade de repovoar uma parte do território que estava sendo ameaçada pelas forças do Norte. E, agora, sabemos que há demônios ao Oeste do nosso continente. Além disso, perdemos muitos dos nossos contatos de confiança no exterior em razão da diminuição do nosso Exército e, consequentemente, de homens que podemos ceder a aliados. Me parece que…

Uma conselheira fez menção a falar, mas Ashe ergueu o dedo indicador inquisitivamente.

— Me parece que a discussão sobre o futuro do nosso Reino deveria ser mais condizente com o que o povo precisa, e não com o que seria mais conveniente para com os membros deste Conselho.

— Então Vossa Alteza considera pertinente, ou minimamente digna de nossas atenções, uma proposta assim que foi feita por um bárbaro?

Os segundos de silêncio da loira foram suficientes para que aqueles velhinhos voltassem a berrar.

Irrompeu das portas, de volta ao Salão, depois de uma hora. Deixou o camarote em passos decididos, buscando a figura de Tryndamere entre as esculturas e braseiros, e o encontrou na mesma posição de antes, só que em pé. O olhar dele, antes distante e depositado sobre o trono, seguiu a figura da mulher. Ele fez menção de se agachar, prestes a fazê-la uma reverência, mas ela sacudiu a cabeça para os lados, proibindo-o. Então, desceu as escadas.

Após alguns segundos de caminhada, viu-se de frente a Tryndamere, separados por menos de um metro.

— Conforme prescreve o ordenamento da Corte, a Princesa Regente precisa convocar o Conselho Real e realizar uma votação antes de decisões políticas reformadoras.

O bárbaro mostrou um sorriso, parecendo aliviado por ela ter quebrado o silêncio, mas também se divertindo com os costumes de um povo que, para ele, eram os primitivos da relação. O coração de Ashe vacilou um pouco, mas ela não rompeu o contato visual.

— Portanto, cumpri o meu dever e ouvi cada uma das opiniões dos Conselheiros Reais, avarosianos de destaque na Corte Real e na nossa sociedade, um por um.

— Compreensível. — Tryndamere respondeu, ainda meio risonho. Ashe meio que desejou destruir aquele sorriso com um soco; ou quem sabe com outra coisa.

— Um escrevente redigiu o conteúdo da reunião em um documento que será selado e guardado na Biblioteca Real para complementar nosso registro histórico de costumes. Estou explicando isso porque, sim, é parte obrigatória do costume elucidar a sua estrutura para qualquer ouvinte não-membro do Conselho cuja presença foi autorizada pelo Regente…

Tryndamere sacudiu a cabeça positivamente, em concordância, apesar de visivelmente confuso. E soltou uma risadinha envergonhada, levando os olhos ao teto iluminado do Salão.

— Vossa Alteza, sem querer desrespeitá-la, mas não precisa me explicar tanta coisa antes de dizer não. Na verdade, eu já esperava que…

— Eu aceito.

Silêncio.

O bárbaro continuou a fitar o teto por alguns segundos. Talvez tivessem ficado calados por mais de um minuto, ambos atônitos; o homem pelo que havia ouvido e a mulher pelo que havia falado. Antes que pudesse tomar uma decisão de maneira um pouco mais cética, ela foi tomada por uma vontade incontrolável de falar.

— O costume dita que o Regente ouça as opiniões dos conselheiros e tome uma decisão informada e fundamentada. Então eu fundamento que, de acordo com a profecia de Avarosa, eu, Princesa Regente, devo me casar com Yogssaef Tryndamere.

O quê?

Ashe sentiu o rosto esquentar.

— Você… Aceita? — Tryndamere voltou a fitá-la, com os olhos arregalados. Aproximou-se em passos lentos. — Quer dizer… Um casamento… Mesmo? Que… Uniria…

— Sim. — “Não! Não! Na verdade, eu estou querendo dizer que não!” — Eu aceito, Tryndamere.

Sem saber como controlar o próprio corpo, a mirada de Ashe foi guiada ao lado esquerdo do Salão. Lá, ela pousou sobre um quadro que ocupava metade da parede; a figura de Avarosa, com um vestido exuberante e azul, os cabelos claros contrastando com o castelo de pedra atrás de si, e nas mãos uma coroa simples, mas delicadamente construída, feita do mais raro tipo de cristal. Quando os olhos de Ashe pousaram sobre os dela, Avarosa encarou o fundo de sua alma.

“Aceite, Ashe”, a voz ecoou em seus pensamentos, “É o que deve ser feito”.

Ciente do seu dever e do Avarosa a disse naquele momento, voltou os olhos ao homem. Teve de erguer o queixo, já que menos centímetros os separaram, e tentou esconder a surpresa quando ele tomou as mãos de Ashe nas suas. Permaneceram imóveis, como se tivessem sido petrificados por um feitiço.

Um bárbaro supostamente jamais seria atraente aos olhos de uma avarosiana.

— Obrigado. — Ele sussurrou.

Um bárbaro supostamente jamais se tornaria Rei daquele povo.

— Existe uma profecia… — Ashe tentou falar, mas a voz falhou quando uma das mãos dele subiu ao seu rosto.

O líder dos bárbaros também não deveria ser capaz de tocar os lábios da herdeira de Avarosa com as pontas dos dedos, de maneira tão delicada que sua pele chegou a formigar.

— Certo. — Ele falou ainda mais baixo, inclinando o tronco em sua direção, o que fez com que Ashe descesse os olhos aos seus lábios entreabertos, e então ao seu pescoço, e aos poucos botões abertos rentes ao peito, revelando o desenho do peitoral, também protegido pelo tecido que delineava suas costas fortes, naquele instante visíveis após a capa escura escorregar pelos ombros…

Ambos fecharam os olhos.

Antes que se beijassem, as portas do Salão abriram.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.