Frozen Heart
3 Summit Siege
Notas iniciais
O loiro puxava o menor pelas ruas de Arendelle, apontando vez ou outra para os locais que considerava mais importante. Não ligava, ou parecia não ligar, para o evidente aborrecimento do azulado que estava a ponto de libertar-se do braço que o segurava pelos ombros e sumir de vista. Mas Kise parou subitamente antes que tivesse tempo de fazer algo.
– Ah, chegamos onde eu queria! – disse. Estavam na porta de um estabelecimento, mas Kuroko não pode ler a fachada acima de sua cabeça, pois logo foi puxado para dentro.
No interior, podia ter uma ideia de onde estavam. As janelas estavam todas cobertas por cortinas de coloração lilás, combinando com os forros de mesa de mesma cor. Mesas redondas estavam dispostas ao seu redor, com os assentos completamente vazios. Pareciam sozinhos no local. À sua frente havia um balcão coberto de doces de vários tipos, fazendo-o relaxar um pouco.
– Essa é a loja de um antigo amigo que há um tempo vende doces para todo o reino – explicou Kise. Ouviu-se um resmungo e, em seguida, um rapaz alto de cabelos roxos a altura dos ombros surgiu pela porta atrás do balcão – Ah, Murasakibaracchi!
– Kisechin fala muito alto – murmurou Murasakibara de uma forma entediada, como se aquela visita fosse diária. Seu olhar se voltou para Kuroko e uma leve expressão de surpresa atravessou seu rosto por um breve segundo, logo voltando a dar lugar a expressão anterior. – Ah, vejo que trouxe companhia, vou ter que preparar mais doces.
– Não é necessário, não vou comer – adiantou-se Kuroko. Ainda se sentia desconfortável na situação e preferia não se manifestar muito por hora.
Murasakibara não pareceu magoado:
– Tudo bem... Kisechin vai querer o mesmo de sempre?
– Sim, e nos empreste seu espaço por um momento. – respondeu Kise, já puxando Kuroko novamente para uma mesa sem esperar a confirmação do garoto de cabelos roxos.
O azulado se sentou, ficando de frente para Kise. O silêncio dominou a atmosfera ao redor da mesa, aumentando ainda mais a inquietação de Kuroko.
– Kise-kun, por que viemos aqui? – perguntou por fim, quebrando o silêncio.
– Ah, sim. Eu queria te dizer algumas coisas sobre Akashicchi, Kurokocchi.
Kuroko observou-o atentamente.
– Akashi-kun?
– Sim, talvez seja um pouco complicado lidar com ele – Kise suspirou e apoiou o cotovelo na mesa para deixar o queixo repousar sobre a mão. – Akashicchi foi tratado como rei desde muito cedo, pois seus pais faleceram quando ainda era jovem. Sempre passa dias dentro do castelo mesmo antes de ter virado rei, e nem mesmo aparece do lado de fora para dar anúncios para a população, Midorimacchi sempre faz isso.
– Mas qual seria a razão disso?
– Akashicchi não costumava ser assim, conheço-o desde criança e ele costumava ter uma infância normal...
Imaginar aquele mesmo rei de olhar gélido e frases diretas como uma criança normal que brincava e sorria com seus amigos parecia uma impossibilidade para Kuroko. Mas não comentou, apenas deixou Kise continuar.
– Na verdade não diria normal – o loiro disse depois de parar por um segundo para pensar. – Ele era diferente, não como hoje, mas ainda diferente das outras crianças. Por isso nunca se aproximou muito de mim e de Midorimacchi, mesmo o conhecendo bem.
– Mas ele tinha outros amigos?
– Um amigo muito importante, eu diria. Eles eram parecidos e por isso se tornaram muito próximos. Mas foi quando esse amigo precisou partir que Akashicchi mudou.
– Eles não poderiam continuar se comunicando ou visitando um ao outro? – perguntou Kuroko.
– Não é tão simples, ele se mudou para outro reino e era impossível que mantivessem contato – respondeu Kise.
Um prato com um pequeno pedaço de bolo, completamente coberto por algo amarelo que parecia mel, foi colocado ao lado de Kise, que se virou para o maior ao seu lado com um sorriso nos lábios.
– Obrigado, Murasakibaracchi.
O maior balançou a cabeça antes de se afastar novamente em direção ao balcão.
– Vocês nunca tentaram trazer esse amigo de volta? Talvez Akashi-kun volte ao normal com isso – disse Kuroko.
Kise espetou um pedaço do bolo com o garfo e o levou a boca antes de responder:
– Seria complicado – seus olhos vagavam pelo teto do estabelecimento de forma pensativa. Até que se voltaram para Kuroko. – Pensando bem, você é bem parecido com ele, Kurokocchi.
Kuroko foi deixado de volta ao castelo depois de quase duas horas ouvindo Kise falar sobre quase toda sua vida em Arendelle. Interessava-se mais quando o nome de Akashi era trazido à conversa, mas isso foi apenas no começo, logo se cansou e apenas deixou Kise falar enquanto fingia estar escutando. Encontrou-se com Midorima nos portões, com a voz do loiro ecoando em seus ouvidos e o céu escurecendo sobre sua cabeça. O tempo realmente voara desde que chegara a Arendelle.
– Então aqui nos despedimos – anunciou Kise, finalmente libertando Kuroko de seu braço – Cuide bem do Kurokocchi, Midorimacchi! – gritou por cima do ombro quando já se afastava.
Midorima voltou-se para Kuroko assim que viu a cabeça loira longe o bastante.
– Kise alugou seu ouvido por um bom tempo.
– Bem mais do que eu planejava – admitiu Kuroko, deixando um suspiro cansado escapar pelos lábios.
– Sinto muito por isso. Mas logo será a cerimônia e poderá falar com Akashi.
Midorima abriu os portões e guiou-o pela região do castelo. Kuroko observava a decoração quase escassa nas demais partes, embora fosse quase sempre escuro como o salão principal. Subiram alguns degraus de uma escada menor que a primeira e viraram para encontrarem-se diante da porta de um cômodo.
– Ficarão hospedados aqui por hoje, seu acompanhante já deve ter arrumado as malas – disse Midorima, fazendo o habitual gesto de arrumar os óculos. – A cerimônia começa em uma hora. Falarei para Takao buscá-los aqui no horário certo.
Assim que terminou de falar e constatar que o azulado não tinha nenhuma pergunta, virou-se para desaparecer pelos corredores do castelo. Kuroko abriu a porta de seu quarto lentamente, receando incomodar Aomine se este estivesse dormindo. Mas o encontrou sentando sobre a cama com ambas as mãos segurando a beirada. Sua cabeça, que se encontrava reclinada para trás, voltou à posição normal assim que ouviu a porta.
– Ah, Tetsu! Onde esteve o dia todo?
– Kise-kun estava me mostrando o reino – respondeu simplesmente depois de fechar a porta e andar até a cama vazia, provavelmente a sua.
– Eh? Quem é Kise?
– Um rapaz loiro que coloca "cchi" no final de nomes.
Aomine suspirou e girou na cama para que pudesse se deitar. Aparentava ter tido um dia cansativo também. Kuroko resolveu imitar seu gesto antes de perguntar:
– E você, onde esteve, Aomine-kun?
– Aquele cara de óculos me fez trazer as malas até aqui e arrumar as coisas – resmungou o moreno com o olhar fixo no teto.
– Por duas horas?
– Ei, sua mãe colocou muita bagagem para apenas um dia!
Kuroko sorriu levemente. Costumava ter conversas como aquela com Aomine ao final do dia. Falava sobre suas tarefas como príncipe e todas as aulas que fora obrigado a assistir – embora sempre deixasse um único assunto de fora – e Aomine lhe contava sobre as correrias diárias exigidas pela rainha para atender necessidades da população e manter uma estúpida família real na linha com os súditos. Kuroko não se importava de ser chamado de estúpido por seu amigo de infância, às vezes o achava com razão por ser obrigado a fazer um trabalho de cão como aquele todos os dias enquanto ele e a família passavam acomodados no castelo tendo aulas nobres ou assinando papéis.
Mas conversas como aquela o acalmavam depois de ficar horas ouvindo a voz dos professores em seu ouvido. Naquele momento não era diferente.
– Vou me arrumar para a cerimônia – anunciou o azulado se levantando da cama. Ouviu Aomine resmungar em seu posto com o rosto afundado no travesseiro.
– Mas já? A cerimônia é em hora.
– Não me atrase, Aomine-kun, ou o deixarei para trás.
Kuroko pegou as roupas que já haviam sido separadas previamente por seu amigo e andou em direção ao banheiro do quarto. Mas, antes que entrasse, Aomine o chamou:
– Ei, Tetsu, o cara loiro te falou alguma coisa do rei?
O outro parou por um momento. Refletiu se deveria revelar alguma coisa do passado de Akashi, algo que pudesse fazer Aomine o ajudar a entender um pouco mais aquele enigmático rei.
– Não – disse por fim. E fechou a porta do banheiro antes que algo denunciasse sua mentira.
Não gostava de mentir assim, mas sentia que o passado de Akashi era algo íntimo e exclusivo para poucas pessoas, pois não podia simplesmente cair na boca do povo. Sentia que precisava manter aquilo para si, pelo menos por hora.
Fale com o autor