Friendly Living
37 Capítulo XXXVII. Hiccup
Notas iniciais

HICCUP HADDOCK HORRENDOUS
Hiccup ajeitou a gravata mais uma vez.
Já era a nona vez que ajeitava aquela maldita gravata cinza e ela não ficava bonita. Ok, respira. Suas mãos suadas provavelmente demonstravam o nervosismo que estava sentindo. Tudo bem que era só uma maldita festa de uma vadia qualquer da escola, mas era uma maldita festa que se transformou numa oportunidade perfeita para Hiccup reatar com Astrid.
E isso o fazia se sentir como quando a pediu em namoro.
Estava suando, tremendo, e horrível já que havia tomado chuva e vento no caminho; mas nada disso impediu Astrid de aceitar o pedido de Hiccup. Por que naquele dia, eles se amavam, e Hiccup não havia sido tolo o suficiente para trair Astrid. Não que ele havia sido tolo ao beijar Merida. Mas é que, porra, ela beijava tão bem!
Balançou a cabeça, retirando qualquer vestígio daquele beijo com sua melhor amiga.
Merida era sua melhor amiga. Apenas, e definitivamente, isto. E além do mais, ela mesma havia basicamente dito que aquele beijo não havia significado nada além de sair de uma aposta, então... Hiccup não precisaria se preocupar com o fato de que a garota poderia estar gostando dele sim ou não, e isso o deixava aliviado.
Suspirou novamente, tentando ajeitar novamente a gravata cinza no pescoço. Pela décima vez. E mesma assim ela estava torta. Horrível. Bufou retirando a gravata com força e tacando no chão, irritado. Nervoso.
Ouviu batidas na porta, e parou. Seu pai não poderia o ver desse jeito, e muito menos o de fios brancos. Caso algum dos dois visse Hiccup nervoso provavelmente gostariam de ajudá-lo, e ele não queria ajuda. Na verdade, só queria ter sua ex-namorada de volta.
Pegou a gravata do chão e abriu a porta.
— Eu consigo escutar seus grunhidos do meu quarto — Stoick comentou fitando o filho com um olhar preocupado.
Hiccup sorriu e abriu passagem para o pai entrar. Tudo bem, não queria ajuda dele, mas algo no olhar do mais velho dizia que ele precisava de alguém, e Hiccup não seria frio o suficiente para simplesmente dizer um grande ‘não’ para o homem que o criou a vida inteira.
— Foi mal — pediu depois de fechar a porta. Considerando que não precisava fechá-la, Stoick ergueu uma sobrancelha, e depois sentou-se na cama do filho, soltando um suspiro.
— O Jack não vai entrar no seu quarto sem permissão, você sabe disso — o homem falou, e Hiccup engoliu em seco, indo em direção ao espelho e olhando-se, recomeçando a ajeitar a gravata.
— Eu só não quero ter que vê-lo, e quero privacidade com o senhor — respondeu ainda fitando-se no espelho. Hiccup sabia que era ruim para Stoick aquela situação. Ter que dar casa e comida para um menino que brigou com o seu filho. Menino este que está sobre efeito de LSD, e era melhor amigo de seu filho.
— Filho... — o homem falou e passou a mão no rosto, cerrando os olhos e fitando o chão por alguns segundos, pronto para dizer algo terrível. — Você tem que começar a pensar em perdoar o Jack. Ele é seu amigo — argumentou. Hiccup sentiu os olhos do pai sobre si, mas mesmo assim continuou olhando para o espelho, arrumando a gravata totalmente errada.
— Pai, eu estou atrasado para a festa — falou, tentando urgentemente mudar de assunto, mas era seu pai. Não era qualquer um, e Stoick conhecia muito bem o filho para saber que ele estava adiantado e só queria mudar de assunto para não desabafar ali mesmo.
— Você chorou? — indagou ainda fitando o moreno.
— O que? — Hiccup parou de bagunçar ainda mais a gravata em seu pescoço e olhou para o pai, um pouco desacreditado. Que tipo de pergunta era aquela?
— Você chorou? — ele perguntou novamente. Hiccup ficou mudo por alguns segundos, tentando compreender. — Depois que brigou com o Jack, depois que os dois decidiram não se falar mais — por mais que sua voz tinha uma conotação grave, Hiccup sentiu o lado paternal.
— Eu... — sua voz falhou. Por que era verdade, ele havia chorado. E admitir aquilo era horrível, mesmo que fosse para seu próprio pai. Chorar por ter brigado com seu melhor amigo... Bleh, aquilo era gay demais!
E mesmo assim toda a discussão que os dois tiveram, tudo que o de fios brancos fez para o moreno, tudo aquilo veio como um baque na mente de Hiccup, e ele quis chorar ali mesmo. E sinceramente? Não estava mais se importando se aquilo o faria parecer mais gay do que já era.
— Você brigou com alguém que foi seu amigo por anos e anos, filho, quase uma vida inteira. Seria estranho se não chorasse — Stoick respondeu dando um sorriso carinhoso, e Hiccup sentou-se ao seu lado, retirando a gravata do pescoço. Não iria conseguir fazer o nó do jeito que estava.
— É só que... Me sinto um idiota por ter achado que ele seria meu amigo pra sempre — resmungou, desabafando, colocando aquilo que estava guardado em seu peito por dias. — Qualquer um que entra no time ignora os ignorados — a risada que acompanhou a frase foi de puro desgosto, e um sentimento que preencheu o peito de Hiccup.
— Ele quer voltar a ser seu amigo — Stoick acrescentou colocando a mão no ombro do menino, que riu novamente.
— Claro, ele saiu do time da forma mais humilhante possível, pai! — ele basicamente gritou. Aquilo que estava acontecendo era tão óbvio que Hiccup tinha a vontade de sair gritando pelo mundo o que estava acontecendo. Queria muito poder ter sua antiga vida de volta, mas de certa forma, Jack não estava incluso neste desejo.
— Hiccup, sair do time não significa-
— Pai, está na cara! — ele respondeu, levantando-se da cama e fitando o mais velho. Como ele poderia ser tão cego assim? — Ele está nos ignorados, ele está pior do que eu estava há alguns anos atrás, ele está na fossa, abaixo do fundo do poço! Humilhado, sofrendo bullying de todos, e sendo ignorado até pelos ignorados! É óbvio que ele quer minha amizade de volta!
E com esses gritos — que Hiccup tinha quase certeza que Jack havia escutado (o que o deixava até mais aliviado) — ele suspirou e passou a mão no rosto, desarrumando toda aquela obra prima que havia executado em seu cabelo. Que dane-se o cabelo, precisava esfriar a cabeça, essa era a verdade.
Stoick o fitou com os olhos apreensivos. E pela primeira vez em sua vida, Hiccup viu o próprio pai ficar ao lado oposto ao seu. Como ele pode defender alguém tão estúpido? Tão falso? Hiccup não sabia, e por mais que quisesse gritar com o pai, apenas deu-lhe as costas e voltou a ajeitar a gravata em seu pescoço. Afinal, precisava do carro do velho.
[...]
Ele não tinha certeza se Astrid realmente aceitou ir com ele na festa, na verdade, ele tinha quase certeza de que ela não tinha aceitado, mas mesmo assim decidiu ir na casa dela totalmente produzido com a pulseira dela no bolso do seu paletó e com um sorriso no rosto, por mais que tivesse relembrado coisas que não queria. Se ela dissesse um grande não? Bom, Hiccup insistiria um pouco mais, e se o não continuasse, ele provavelmente voltaria para sua casa, deitaria em sua cama e faria de tudo para conseguir dormir.
E por mais que algo dissesse que aquilo iria acontecer, ele estava estacionando o carro afronte a casa da menina, com um sorriso no rosto, o coração batendo muito rápido, a respiração quase acelerada demais, as mãos suando e a mente de que tudo daria certo preparada.
Era só tocar a campainha e chamar pela menina de olhos cinzas tempestuosos. Um trajeto que ele poderia fazer em dez segundos, mas que foi feito em dois minutos.
— Oh, que bom que veio, Hiccup! — Finn falou batendo nas costas do mais novo, que segurou o engasgo com tamanha força do homem. — Como anda seu velho? — indagou sorrindo para o menino, que sorriu de volta.
— Bem... — respondeu, e iria acrescentar que Finn deveria ir mais vezes em sua casa, quando viu um vaso de flor na sala e rapidamente lembrou-se que deveria ter comprado flores. — Merda! — resmungou alto demais, o que fez com que o homem arqueasse uma sobrancelha. — Desculpe, é que me esqueci de comprar flores para a Astrid! — argumentou mexendo as mãos tão freneticamente, que Finn soltou uma risada.
— Minha sobrinha não liga pra essas coisas, não, filho — respondeu ainda rindo, e então olhou para trás. — Vou chamar sua garota, calma ai.
Assim que o homem saiu, Hiccup suspirou aliviado, mas também deu um soco em sua própria cabeça por ter sido tão estúpido e não ter comprado as flores. E enquanto praguejava baixinho de como era burro, fitava a rua calma da menina, e os seus próprios pés ainda se sentindo um completo estúpido.
— Você ficaria bravo se eu dissesse que está exatamente igual ao dia em que me pediu em namoro? — e ao ouvir a voz de sua amada, Hiccup rapidamente ergueu a cabeça, fitando a garota em um vestido cinza prateado que fazia com que seus olhos se tornassem mais claro, se aquilo era possível, o que Hiccup não acreditava. — Digo, o emocional, e os gestos — a menina completou ao notar que ele estava bem mais vestido e mais bonito que no dia em que a pedira em namoro.
Os cantos dos lábios de Hiccup se ergueram mutuamente e rapidamente. Oh sim, aquela era sua garota que queria reconquistar, e pelo jeito ela lhe daria uma segunda chance, ao perceber o vestido azul que ia até acima dos joelhos, a maquiagem e o cabelo louro bem arrumado.
— Você aceitou — sussurrou um pouco pasmo. Isso era quase impossível em sua mente, que naquele momento não conseguia mais raciocinar direito.
— É, eu não gosto da Emma, mas quero muito ir a festa dela — falou, como se ir com Hiccup fosse a coisa menos importante do segundo plano da loira. — Estão dizendo que será a melhor festa deste ano — falou sorrindo, e Hiccup sorriu involuntariamente, mais do que já sorria. — Ir com você não significa que eu irei ficar a noite inteira com você — acrescentou e Hiccup quase desmanchou seu sorriso. Mas conhecia Astrid ao ponto de saber que talvez aquilo fosse mentira.
— Não se preocupe, eu vou ficar a noite inteira com você — seu sorriso se abriu, e Astrid, mesmo com um sorrisinho nos lábios com o batom vermelho (que puta que pariu, Hiccup queria imediatamente estragar aquele batom), revirou os olhos de um jeito divertido.
E naquele momento, Hiccup soube que seria uma longa noite.
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