Friendly Living
20 Capítulo XX. Rapunzel
Notas iniciais

RAPUNZEL CORONA
Rapunzel chutou aquela folha amarela e bufou. Teria de esperar quanto tempo mais? Já estava cansada, irritada e bem inconformada com a situação. Bufou novamente e espirrou. Estava começando a ficar resfriada. Droga!
A loira coçou o nariz e sentou em um dos bancos que havia ali. Encarou o céu azul, já ganhando uma coloração alaranjada e vermelha. Encarou o sol se abaixando, sumindo entre os prédios e casas. Deu um meio sorriso.
— E ai, loira?
A menina virou assustada e se deparou com o menino que tanto odiava. Seus cabelos estavam bagunçados e o menino tinha a mochila pendurada no ombro.
— O que faz aqui? — A garota perguntou com certa indiferença. Não queria Jack por perto por um longo tempo. Talvez até para sempre.
— Treino — Jack respondeu enquanto sentava-se ao lado da menina. — Obrigado — sussurrou com a cabeça baixa. — Se não fosse por você, não teria entrado no time.
— Que isso — Rapunzel falou meio ruborizada. — Eu só dei um empurrãozinho, o resto você fez.
— Mas, se você não tivesse dado esse empurrãozinho, eu não teria entrado — o menino argumentou enquanto virava-se para encarar a loira. Rapunzel sentiu aqueles olhos azuis fixarem nos seus olhos verdes, e um arrepio lhe passou pelo corpo todo. — Obrigado.
A menina abaixou a cabeça, com um sorriso satisfatório no rosto, e totalmente envergonhada. Não sabia mais o que fazer.
— Podemos ir — Rapunzel ouviu a voz de Soluço e levantou a cabeça, encarando o amigo com um livro na mão.
— Vamos — a menina respondeu enquanto pegava a bolsa e se levantava.
— Vou com vocês — Jack falou se colocando de pé e ajeitando a mochila.
— Pode ser — Soluço respondeu e começou a caminhar. Rapunzel seguiu o amigo. – Já está começando a organizar a festa? – Soluço perguntou se dirigindo a loira.
— Mais ou menos – a menina comentou. Estava tudo uma bagunça, na verdade, mas não iria admitir isso.
— Tem que andar logo, daqui a pouco, a festa chega e nada vai estar pronto – o moreno reafirmou, provocando a raiva de Rapunzel.
— Ok, ok. Quando eu chegar em casa já começo a organizar.
— Vai dar uma festa, loira? – a menina ouviu a voz de Jack e se virou para o garoto.
— Aniversário – Soluço respondeu pela amiga. – Dezoito anos. Já arranjou alguém para comprar as bebidas? – o garoto perguntou se virando a amiga.
— Minha mãe disse que vai – respondeu. Havia tido uma pequena briga com Gothel no dia anterior, implorando a mãe para ir comprar as bebidas e deixar a casa livre para ela. A mulher, depois de muito tempo, acabou cedendo, mas disse que queria a casa em ordem no final do outro dia.
— Bom, se precisar de alguma coisa, sabe que pode contar comigo, né?
— Claro que sei – a loira sorriu para o amigo e continuou andando em passos calmos.
— E comigo também – a garota ouviu a voz de Jack, e encarou o menino, que sorria para a mesma. Rapunzel devolveu o sorriso.
— A propósito Jack, o que você estava fazendo na escola até agora? – Soluço perguntou ao amigo do lado.
— Estava fazendo um trabalho de literatura – o jovem respondeu. Rapunzel arqueou uma sobrancelha para si mesma. Não fora essa a resposta que Jack havia dado a ela. Fora outra.
— Mas...
— Quero causar uma boa impressão para Blair – Jack continuou, ignorando totalmente Rapunzel, deixando a menina estranhamente desconfiada.
O resto dos passos foram dados em silêncio. Assim que viraram a esquina, Rapunzel tratou de dizer tchau aos dois meninos e atravessou a rua, vendo sua casa já iluminada. Sua mão já havia chego. A menina continuou andando, e assim que pisou na calçada ouviu a voz de Jack.
— Calma ai Rapunzel!
A loira tinha duas opções. Ignorá-lo ou esperar. Decidiu esperar. Além de Jack tê-la chamado de Rapunzel, a menina poderia perguntar o porquê de Jack ter mentido a Soluço, ou a ela. Parou de andar e olhou para trás, onde Jack se aproximava ainda com a mochila nas costas.
O menino deu um sorriso.
— O que foi? – Rapunzel perguntou deixando todo o seu tédio sair pela voz.
— Nada, eu só queria me oferecer para ajudar na sua festa – respondeu ainda sorrindo.
— Não se preocupe Jack – a menina sorriu para o garoto, se vendo livre dele em alguns dias. – Já tenho voluntários demais.
— Mais um nem sempre é muito – o garoto argumentou.
— Porque mentiu para Soluço? – a loira perguntou, mudando totalmente o rumo da conversa. Não poderia dizer ‘não’ a Jack Frost. Ele poderia ser útil em alguma coisa.
— Ahn... Bem... – o menino coçou a nuca e passou a mão pelo cabelo. – Eu ainda não consegui contar a ele...
— Você me disse que ele ficaria feliz se você entrasse no time – a loira argumentou lembrando-se da frase de Jack “e isso deixaria seu amigo feliz... Estou falando de Soluço”.
— Bem... Eu realmente achei que ele ficaria feliz e...
— Além do mais, já faz um grande tempo em que você entrou no time.
— Também, mas... – o menino deu um suspiro. – Soluço não gosta dessa gente, e não queria que eu entrasse no time.
— Então porque entrou se ele não queria? – a loira perguntou sem entender nada.
— Porque eu queria entrar! – o menino exclamou já meio irritado. – Eu sempre gostei de jogar futebol, e não seria ele que iria me impedir. E, além do mais, ele nem sabe – o garoto argumentou.
— Você sabe que ele vai ficar super triste se você não contar nada, né? – a garota perguntou, recebendo em resposta Jack assentindo com sua cabeça.
— Eu queria poder contar, mas, é como se algo me impedisse de fazer isso.
— Se você quiser, eu posso contar...
— Acho que, se fosse para contar, eu teria que contar.
— Seria o certo.
O menino assentiu com a cabeça e olhou para sua casa, com um suspiro. Rapunzel olhou para o garoto que estava em sua frente. Nunca lhe passou pela sua cabeça, o fato de Soluço não gostar dos jogadores. A menina lembrou-se de quando contou a todos que não era mais a capitão do time de líderes de torcida. Soluço não havia ficado tão triste com a notícia.
— Acho melhor eu ir indo – a loira falou enquanto ajeitava a bolsa no ombro e olhava para sua casa. Sua mãe chegar cedo, era porque algo iria acontecer.
— Ah, claro – Jack pareceu acordar de um transe. A menina estava preparada para sair, quando foi surpreendida por um abraço.
Rapunzel não soube o que fazer por longos cinco segundos. Não se imaginava abraçando Jack novamente. E a primeira vez que o abraçou lhe veio a sua mente, como uma lembrança jogada ao vento que lhe é traga de volta.
A menina passou seus braços por em volta da nuca do rapaz e deixou sua cabeça cair em seu ombro. Por mais que Jack tivesse acabado de sair de um treino, ainda tinha o cheiro de seu perfume impecável, e isso fez com que a menina quisesse ficar ali sentindo aquele cheiro para sempre.
— Promete que não irá contar a Soluço sobre mim? – o albino sussurrou no ouvido de Rapunzel, fazendo a loira se arrepiar, e se culpar eternamente por estar abraçada a ele.
— Prometo – sua voz saiu abafada, mas a menina tinha certeza de que Jack havia escutado, principalmente porque sentiu seus lábios se curvarem em um sorriso contra seu pescoço.
A menina fechou os olhos, e sem motivo aparente, várias lembranças lhe estouraram em sua mente. Era como se estivesse vendo um vídeo onde toda a sua vida corria. E nesse vídeo, lembrou-se de Flynn. Empurrou Jack com uma brutalidade desconhecida de si mesma e encarou o menino, que a fitava meio atordoado.
— Desculpe-me – pediu antes de abrir o portão de sua casa e entrar na mesma.
Assim que fechou a porta, se escorou na mesma, se culpando do que havia acabado de fazer. Tudo bem, tudo bem, era somente um abraço de amigos, mas Rapunzel não era amiga de Jack, e a menina tinha certeza absoluta de que aquilo não era somente um abraço de amigos.
Sua pele ainda tinha um leve arrepio, e seus pêlos ainda estavam eriçados, mas a menina tratou logo de passar a mão diversas vezes sobre seus braços, e logo em seguida se tacar no sofá da sala, com um peso na consciência.
Sentia-se uma puta. Sentia que havia traído seu grande amor. Sentia que iria perder toda a confiança de Flynn. Sentia que ia ser chamada de puta por todos os cantos. Sentia que sua reputação de namorada perfeita iria diminuir á zero. Sentia que iria perder seu grande amor. Sentia-se uma idiota, besta, ridícula.
— Rapunzel? – a menina levantou a cabeça, vendo sua mãe de uma forma diferente.
Gothel não estava com o cabelo preso em um habitual coque, roupas qualquer (sempre uma calça jeans e uma blusa cinza), e descalça. Muito pelo contrário. A mulher tinha um avental sobre um vestido simples, e tinha seu cabelo preso com vários grampos, que Rapunzel entendeu ser para enrolá-lo. A moça tinha um chinelo no pé, e uma colher de pau na mão.
A menina encarou a mesa de jantar, e viu que ocorreria um jantar ali. Dois lugares haviam sido postos, com direito a vela, um vinho dentro de um balde com gelo, dois tipos de taças, e um pequeno vaso com uma rosa bem vermelha. A menina bufou e deixou sua cabeça cair novamente.
— Terei que ir dormir na casa de Merida? – perguntou com certa irritação na voz. Adorava dormir na casa de Merida, mas gostava de passar tempo com a mãe.
— Não, minha querida – a mulher respondeu, e Rapunzel conseguiu ver a mãe se aproximando. – Nós temos que ter uma rápida conversa.
— Pode falar – a loira pediu enquanto se sentava e encarava a mãe.
— Bem, eu comecei a namorar – Gothel despachou.
Rapunzel soltou um risinho.
— Mãe, não se brinca com uma coisa dessas – a menina alertou a mãe enquanto ainda mantinha um sorriso no rosto. A loira olhou para Gothel que mantinha o olhar sério. – Você estava brincando, não? – perguntou, já se sentindo culpada. – Você realmente está namorando? – perguntou de uma forma mais grave, acreditando em milagres.
Não que um namoro fosse um total milagre, mas, quando se tratava de Gothel comprometida, as coisas realmente eram um milagre. Rapunzel sabia muito bem que sua postiça mãe nunca foi lá uma mulher séria e comprometida. Sabia que seu lado mais pegador, mais solto era maior, e sabia também, que seu medo de engravidar do seu suposto namorado, era grande.
— Mãe... Eu...
— Eu sei, eu sei. Isso é meio estranho, mas, eu resolvi dar uma chance. De repente, ele é negativo – a mulher deu de ombros e um sorriso de canto surgiu em seus lábios.
— Ele já falou em gravidez e casamento? – a loira perguntou meio espantada.
— Não, não. Mas...
— Mas você gosta dele, não? – perguntou de uma forma mais carinhosa. Nunca imaginou ter uma conversa desse tipo com Gothel. A mulher assentiu. Rapunzel se aproximou da moça, e sentou-se ao seu lado. Com suas duas mãos, pegou nas mãos da mulher e as apertou, como se as estivesse protegendo. – Pode contar comigo, viu? – falou enquanto encarava a morena.
— Minha querida... – a mulher passou a mão sobre os ombros da filha e a puxou para um abraço. Ficaram abraçadas por alguns segundos até um apito soar da cozinha, e Gothel arregalar os olhos. – Meus Deus, a comida! – exclamou se levantando.
Rapunzel riu com a atitude da mãe e a observou ir correndo até a cozinha. A menina se levantou e pegou a bolsa no outro sofá. – Minha filha, vá tomar um banho! – a mulher gritou da cozinha. – Você irá jantar com a gente!
Rapunzel se dirigiu até a cozinha, e parou no parapeito, da porta, da mesma, cruzando os braços e vendo sua mãe retirar algo do forno.
— E pagar de vela? – perguntou com certo deboche na voz.
— Não, ele irá trazer a filha dele! – a mulher comentou enquanto colocava outra bandeja dento do forno e retirava as luvas térmicas. – Ela é da sua idade.
— Você a conheceu? – a loira perguntou com certo interesse.
— Não, ele me falou – Gothel informou a filha postiça e pegou mais duas taças dentro de um dos vários armários. – Agora, vá se arrumar. Daqui a uma hora eles aparecem por aqui.
— Já vou! – a garota exclamou enquanto saia da cozinha e subia as escadas, já cansada de seu dia.
Deixou a bolsa jogada em sua cama, e partiu para o banheiro. Tomou um banho rápido, lavando a cabeça e saindo logo em seguida. Já em seu quarto, trocou de roupa o mais rápido que pode, colocando uma saia de couro preto, meio rodadinha; uma blusa branca com estampas tribais e a sapatilha preta que tanto amava.
Secou uma parte do cabelo na velocidade da luz, e sentou-se em frente a penteadeira. Pegou um anel com um brilhinho e umas pulseiras pratas. Maquiou seu rosto de uma forma rápida e caprichada. Pegou o secador e deu mais uma secada, o que o tempo permitia. Ouviu a campanhia tocando e desligou o aparelho, descendo as escadas e parando ao lado da mãe, que já estava bem mais apresentável, jovem e bonita. Rapunzel levantou o polegar para a mulher, que sorriu e abriu a porta.
O homem, Rapunzel teve de confessar, era lindo. Tinha os olhos meio cinza, meio azul; a pele branca, os cabelos totalmente preto, e parecia ter um corpo bem definido. Usava um blazer preto sobre a camisa branca, uma calça jeans, e um sapato preto. Parecia querer se vestir igual a um jovem, e Rapunzel se perguntou quantos anos o homem tinha.
E sua filha? Sua filha era a Emma.
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