Friendly Living
23 Capítulo XXIII. Jack
Notas iniciais

JACK FROST
— Hipopituitarismo. Nunca ouviram? – Jack perguntou sorrindo para os demais. Henry deu de ombros.
— O que é isso? – Kaio perguntou devolvendo a camiseta para o armário.
— Digamos que você não consegue amar – o albino explicou. – Sério que vocês nunca ouviram?
— Jack, isso é praticamente impossível – Flynn se pronunciou, se aproximando com sua bolsa. – Não existe um ser humano que não consegue amar. Todos amam.
— Wow, todos menos eu – Jack se pronunciou. A alça de sua bolsa pesou no ombro direito. – Eu não amo, ok?
— Isso deve ser horrível – Henry se pronunciou mais adentro da conversa. – Não conseguir amar.
— Horrível? – Jack riu com escárnio. – É maravilhoso, Henry, maravilhoso.
— Maravilhoso como? – Flynn perguntou abrindo a porta do vestuário e sentindo aquela brisa invadir a todos. – Não amar, não tem alguém para poder falar ‘eu te amo’ – o moreno suspirou, e Jack revirou os olhos, sabendo que o menino pensava em Rapunzel.
— Para que uma se você pode ter várias? – o albino alargou o seu sorriso. – É simplesmente maravilhoso.
— Bem... Olhando por esse lado... – Kaio começou enquanto fechava a porta atrás de seu corpo e dava de ombros. – Até que é bom ter esse hipo alguma coisa.
— Hipopituitarismo – Jack corrigiu enquanto revirava os olhos, entediado. – Viu, isso é maravilhoso!
— Errado – Flynn pigarreou andando até a mesa de centro, a mesa dos jogadores. – Você fala isso Jack, porque simplesmente não tem alguém ainda. Mas, quando encontrar a pessoa certa, oh, irá esquecer-se desse treco ai.
— Eu concordo com Flynn – Henry levantou a mão. – Você somente não encontrou a pessoa certa, somente isso.
Jack riu com escárnio enquanto via algumas lideres de torcida passar por ali. O garoto observou Emma na frente de todos, com aquele uniforme curto e apertado. Jack desviou o olhar para Kaio, que sorria e acenava para a menina.
— Não existe pessoa certa para Jack Frost – o albino resmungou enquanto olhava ao longe, Merida, Soluço, Rapunzel e Astrid conversarem, todos sentados em uma mesa.
— Ih, depois que a Rapunzel saiu das líderes de torcida, ela começou a andar mais com os perdedores – Kaio soltou uma risada, recebendo, logo em seguida, um fuzilar de Flynn. – Desculpe cara – pediu erguendo as mãos em gesto de rendição. – Mas, é a verdade.
— Kaio não está mentindo – Henry comentou. – Mas, vendo assim, Rapunzel parece até mais feliz com eles, do que com as líderes.
Jack olhou para Flynn. O moreno tinha seu olhar na namorada, como se estivesse protegendo-a com o olhar. Sua feição era séria, como se não gostasse daquela ideia. Jack olhou para os quatro. Soluço falou algo e depois começou a rir, acompanhado por Astrid e Merida. Rapunzel fez bico e cruzou os braços. Jack sorriu, como a loira poderia ser tão fofa daquele jeito?
— Acha que ela ira perder a popularidade? – Jack ouviu a voz de Kaio e se virou, para encará-lo.
— Só porque ela está com os amigos? – o albino perguntou.
— Bem, ela não está somente com os amigos. Ele está com os perdedores. E, todos sabem o que acontece com quem fica com os perdedores.
— Eles perdem toda a popularidade – Henry sussurrou, terminando a frase de Kaio. Jack engoliu em seco. Soluço era um perdedor, mesmo o albino não querendo admitir isso, Soluço era um perdedor.
— Será que isso acontece com ela? – Kaio retornou a perguntar. Jack negou com a cabeça. Mesmo não conhecendo Rapunzel, nem a história daquele colégio direito, sabia muito bem que a garota era simpática demais, amiga demais, legal demais para ser julgada uma perdedora.
Claro, pessoas invejosas não se jogariam mais aos pés dela, e Rapunzel não teria aquela popularidade enorme como antigamente, mas, Jack tinha total certeza de que a menina ainda seria reconhecida, e seria um exemplo para algumas garotas.
Jack suspirou. Não queria ter de jeito nenhum terminar sua amizade com Soluço, e também não queria se afastar do moreno. Soluço era seu irmão, um irmão que Jack nunca teve, em circunstância nenhuma. O albino engoliu em seco, quando olhou novamente para a mesa dos quatro e não os viu mais lá.
Por um momento, agradeceu por eles não estarem lá, no outro, se sentiu extremamente frágil, Soluço poderia aparecer a qualquer hora, qualquer momento ali. Agora, que o moreno sabia da integração de Jack no time. O garoto olhou em volta, não vendo ninguém conhecido. Henry falava alguma coisa, talvez, nada de interessante. Kaio mexia no celular, e Flynn apenas assentia e negava algumas vezes.
Foi então, que o dia de Jack começou a piorar, a virar um inferno.
— Aquele não é um dos perdedores vindo na nossa direção? – Kaio perguntou, em tom claro, chamando a atenção dos três ali. Jack, rapidamente se virou (desejando arduamente, que fosse outra pessoa, não, Soluço), no entanto, viu seu melhor amigo, vindo na sua direção, com um sorriso no rosto. Jack engoliu em seco. – Eu vou embora, antes que me vêem com ele – Kaio sussurrou pegando sua bolsa e saindo de cima da mesa.
— Para de ser idiota – Henry pediu.
— Desculpe-me, Henry, mas, não quero que minha reputação caia no buraco – o garoto resmungou se preparando para ir embora. – Se, eu fosse você Jack, saia também. Você é novo, já ser visto com um perdedor, oh, cara... – Kaio torceu o nariz e saiu dali, meio correndo, meio andando. Jack engoliu em seco, preparando-se para pegar sua mochila.
— Ei, Jack! – o albino prendeu a respiração. Seu corpo estático, imóvel. Sua mente raciocinando a quantidade de azar que tinha na vida. O garoto sentiu os olhares confusos de Henry e Flynn e rapidamente soube que tinha que fazer algo. Engoliu em seco. Desculpe-me, Soluço, desculpe-me.
— Hum... Está falando comigo? – perguntou se virando para seu melhor amigo. Soluço arqueou uma sobrancelha, mas logo em seguida sorriu.
— Com quem mais seria? – perguntou alargando o sorriso.
— Desculpa, mas eu te conheço? – Jack escondeu a dor que sentia em sua voz, e se segurou para não abraçar o amigo e apresentar-lhe para Henry. O albino tinha suas apostas de que os dois se dariam super bem. Soluço fez uma cara estranha.
— É claro que conhece – o garoto falou com a voz um pouco mudada. Controle-se, Jack Frost, controle-se. – Sou seu amigo – informou.
— Não – Jack falou com a cara inexpressiva. – Não te conheço. Não faço ideia de quem você é – falou enquanto dava de ombros e terminava de pegar sua bolsa do treino. Não aguentaria mais ver a cara de Soluço, sua feição, sua expressão.
— Conhece sim – a voz do garoto estava frágil, e Jack pode ver que seus olhos já enchiam de lágrimas. Lágrimas derrubadas por minha culpa. Oh, Soluço, me perdoe!
— Não, não conheço – Jack reforçou. – Você pode me conhecer, afinal, sou um jogador – seu olhar passou, rapidamente, por Henry e Flynn. Henry, com uma cara de dó, com a expressão mudada. Flynn (Jack poderia negar falar isso em voz alta, mas, uma boa parte de si sabia que era verdade) estava meio sorrindo, com o canto dos lábios levantados. – E jogadores... Jogadores não conhecem perdedores – sussurrou enquanto se afastava com a mochila nas costas.
Não, não poderia, não aguentaria mais. Era doloroso, era doido, era horrível. Era a pior coisa que Jack Frost havia feito. O albino já sofrera na vida, mas, nunca, nada conseguiu fazer com que o menino se sentisse do jeito que estava se sentindo naquele momento. Era um completo idiota, imbecil, e principalmente, um sem coração. Como pudera fazer isso com seu melhor amigo?
— É isso ai, Frost – o garoto sentiu Flynn se aproximar, e logo tratou de mudar sua expressão, para algo inatingível. Afinal, Soluço não significava nada para Jack Frost, o jogador de futebol americano. – Mandou bem, hein! – elogiou enquanto continuava andar com Jack.
O albino trincou os dentes e se segurou. Flynn não gostava dos amigos de Rapunzel, isso era óbvio, só de olhar para o moreno era perceptível, no entanto, ele fingia gostar para felicitar Rapunzel. E, vendo o moreno ali, ao seu lado, sorrindo, porque Jack fez Soluço se rebaixar, deu uma raiva tremenda no albino.
— Onde está Henry? – Jack perguntou tentando esquecer-se de Soluço e da baixaria que havia cometido com seu melhor amigo.
— Ah, ele falou que já estava vindo – Flynn deu de ombros, como se nem importasse com aquele fato. – Disse que tinha que resolver uma coisa importante – o moreno suspirou ao lado de Jack. – Eu tenho quase certeza de que ele foi acalmar o perdedor que você humilhou – e soltou uma risada sonora. Jack deu um sorriso. Henry era um bom amigo, diferente de Jack, que não passava de um perdedor. – Henry não consegue ver as pessoas tristes – Flynn continuou, ainda com a risada. – Não sei como ainda não perdeu a popularidade.
Jack assentiu, ignorando praticamente tudo. Sua mente estava focalizada na burrada que havia feito. Porque diabos tinha feito aquilo? O que ganharia perdendo seu melhor amigo? A popularidade, sua mente gritou mais alto que o normal. Jack engoliu em seco. Era isso que queria desde sempre, não era? A popularidade. E, a teria. Soluço entenderia. Se Jack explicasse, Soluço entenderia. O albino sorriu. Oh sim, ele entenderia.
— X –
Ele não entendeu.
— Foi por uma boa causa! – Jack se justificou pela qüinquagésima vez. Soluço não fez nada, ignorando-o completamente. Seus olhos centrados no livro de álgebra. Jack bufou, puxando o livro das mãos do garoto, esperando que ele lhe desse atenção, no entanto, Soluço pegou um caderno e começou a escrever nele. – Porque diabos você não me escuta? Foi por uma boa causa! – gritou novamente. Nada. Nenhum gesto, nenhum grito, nenhum olhar. – Então é assim? Vai me ignorar por uma causa justa?
Jack bufou mais alto e tacou o livro de álgebra no chão. Passou a mão pelo cabelo, temendo nunca mais ouvir a voz de Soluço falar consigo. O garoto respirou fundo, puxando todo o ar que podia para dentro de seus pulmões, e os soltando logo em seguida. Repetiu esse gesto, tentando se acalmar.
— Vai me ignorar pelo resto da minha vida? – perguntou num sussurro. Como resposta, Soluço apagou alguma coisa e voltou a escrever. – Ok, então. Eu tentei, tentei fazer você entender o meu lado – sussurrou pegando sua mochila que estava no chão, tacada sem preocupação. – Mas, quer saber? Eu desisto!— Jack aumentou o tom de voz, e percebendo que Soluço ainda o ignorava, continuou. – Pode me ignorar o tanto que você quiser! Eu não ligo! — deu um sorriso, mesmo sabendo que Soluço não veria. – Sabe por quê? Porque eu sou popular! E, é muito melhor ser popular do que um perdedor como você!
O garoto parou de falar. O que estava fazendo? Mas, Jack estava com raiva! Soluço poderia ao menos dizer que o odiava, que não queria ver sua cara nunca mais, era melhor do que ignorá-lo para sempre. Era bem melhor do que ficar quieto, sem fazer nada, nem ao menos, dizer que um ‘me esqueça’.
Jack suspirou pesadamente, enquanto subia as escadas rapidamente, tomando cuidado para não pisar em falso e sair rolando ladeira abaixo. Isso era a última coisa que queria no momento. Abriu a porta do seu quarto e fechou-a rapidamente, ignorando o barulho que fizera.
Tacou sua mochila no canto, próximo a escrivaninha, e bufou, irritado. Passou a mão pelo rosto e suspirou. Porque sua vida estava tão complicada assim? O que diabos Jack havia feito para que tudo começasse a dar errado? Tudo estava tão certo e tão perfeito!
O toque de seu celular despertou Jack de seus pensamentos confusos e intrigantes. O garoto pegou a aparelho de dentro de sua mochila e atendeu a ligação, sem nem ao menos ver quem era.
— Alô?
— Tenha mais respeito com seu treinador, moleque! – o albino levantou-se imediatamente, temendo tudo, quando ouviu a voz grossa, forte e autoritária de Hedge, do outro lado da linha. Se acontecesse algo, e fosse expulso do time, Jack se matava.
— Desculpe, treinador – pediu engolindo em seco. – Eu estou tendo um péssimo dia.
— Pouco me importa seu dia! – Hedge exclamou do outro lado da linha. Jack revirou os olhos. – Tenho uma notícia para te dar.
— Ótimo, pode falar – o garoto pediu com certo receio. Cruzou os dedos, pedindo á Deus para não ser expulso do time.
— Oh, não – Hedge retrucou. – Quero falar com você pessoalmente – pediu. Jack pode ver o sorriso malicioso de Hedge flutuando no ar.
— Tudo bem.
— Certo, passe aqui na escola daqui a duas horas – Hedge pediu. – E, sem atrasos, Frost. Não tolero atrasos, e você sabe disso – ameaçou.
Jack suspirou quando percebeu que a linha havia sido desligada. Deixou seu celular em cima da cômoda. Seus olhos vasculharam o redor do quarto e viu, ao longe, uma fantasia parada. Arqueou uma sobrancelha, tentando entender o porquê daquela fantasia estar ali. Não iria a uma festa fantasia, iria?
— Rapunzel!— gritou enquanto pegava o telefone. Faltavam exatos duas horas para a festa. – Hedge! — o albino lembrou-se da ameaça do treinador. Bufou. Aquilo poderia ter sido combinado entre Hedge e Flynn. Jack sabia muito bem que o quarterback não gostava do albino, e isso fazia uma parte de seu corpo vibrar.
O garoto passou a mão por sobre o rosto enquanto encarava a fantasia a sua frente. Bem, Rapunzel, você irá ter que esperar.
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