Fraternité - O Sangue de Charlotte

5 É um Trabalho Necessário


Maximilien havia de esperar o tratamento em sua perna ofertado pela enfermeira do quarto, por mais que quisesse ver o paciente que sobrevivera ao suposto ataque de vampiro que tirou a vida de Sebastian Bordeaux, mordomo de Antoinette. Nikola já se despedia, um homem importante como ele tinha a agenda ocupada. Quanto ao médico, disse para encontrar-lhe mais tarde no necrotério do hospital.

A enfermeira não daria qualidade ao serviço. Mais do que certa, teriam cortado seu salário nos últimos meses em mais da metade. A mulher troca as ataduras do caçador sem qualquer sutileza, provocando dor, joga os remédios no leito como dando de ombros e ainda sai batendo a porta com força, barulho demais para uma ala médica. Maximilien podia estar impaciente, mas a respeitava quieto e sem apressar. Escancara-se aqui a ironia crônica de Moreau. Podia ser o terror entre os vampiros, mas era bom moço entre os humanos, e talvez até demais. Acostumava-se com o mau humor alheio, não se abalava por afrontas e respondia até o mais grosso dos homens com um sorriso; se puxassem briga, sem demora evitava com diplomacia; levava desaforos para casa tranquilamente e, quando tentavam enganá-lo para conseguir levar vantagem, se conformava. No fundo, talvez fosse covardia demais para confrontar, segundo ele, desnecessariamente.

Nikola havia deixado de presente uma bengala no quarto, talvez numa intenção um tanto irônica. O velho sempre andava com uma e agora seu pupilo parecia também precisar. Não havendo mais enfermeira para impedir-lhe, Maximilien se levanta do leito para andar com o apoio da bengala. Sua perna direita ainda estava muito dolorida pela perfuração que levara na coxa pela lâmina de Augustin. Com certa resiliência, vai se movendo para fora do quarto e seguindo o corredor para onde Dr. Simon dissera estar o paciente. Chegando lá, notando a porta aberta, encontraria de surpresa seu colega de trabalho, René Ernest, junto a uma jovem enfermeira e de pé em frente a cama onde descansava o homem que Maximilien procurava.

— Hm, Monsieur Claude Cuvier? — Maximilien pergunta ao paciente, que parecia estar bem anêmico.

— Eu... eu mesmo — gaguejava o rapaz deitado no leito, com um rosto cansado e seu pescoço enfaixado por ataduras. Parecia ser um pouco mais jovem que os outros dois homens ali, usava óculos e tinha um bigode e penteado curto característicos da época.

O caçador parecia ter interrompido os três. René fita Maximilien meio sem graça. A jovem mulata, mesma enfermeira que servira de assistente a René na noite anterior, dá seus cumprimentos a Maximilien, conhecendo-o pela Ordem Croupier. Era Brigitte Landsteiner, ajudante de Dr. Simon. Executando serviços mais básicos como de burocracia, perícia e assistência, havia muitos funcionários de baixo escalão, como Brigitte e Lumiére, trabalhando na ordem e dificilmente encarando criaturas sobrenaturais de frente como os caçadores.

— Moreau? O que faz aqui? Não estava se recuperando? — René indaga.

— Ah... não poderia ficar parado. Queria ver o Monsieur Cuvier — Maximilien olha o paciente: — preciso saber sobre Sebastian e principalmente de Antoinette.

René esboça uma leve face de preocupação, não conseguindo bem olhar nos olhos do amigo, mas responde:

— Bom, é o que viemos fazer. Cheguei para interrogá-lo não faz muito tempo. Brigitte e eu encontramos o corpo de Sebastian na noite de ontem graças às informações que Claude deixou a Simon. Não gostaria de incomodá-lo com perguntas logo após o ataque, então só vim agora.

— Me contaram sobre o caso — Maximilien estranha que René viera ao hospital e nem ao menos foi cumprimentá-lo no leito. Mas se voltando ao paciente, Moreau indaga: — Monsieur Cuvier... tudo começou contigo aparecendo a noite em Saint-Mandé, sozinho e sangrando. Estava voltando dos bosques, não? O que exatamente aconteceu por lá?

Claude suspira, ainda tendo paciência para responder as perguntas, mas notavelmente abalado pelos últimos acontecimentos. Se as teorias de Maximilien estavam certas, o homem teria visto com seus próprios olhos um ataque de vampiro e talvez nem saberia explicar.

— Eu já disse... Eu moro por lá em Saint-Mandé, próximo ao lago. Sebastian veio até mim quando precisava. Ele estava desempregado, já que sua senhora havia morrido...

Maximilien pisca prolongado, sabendo que Claude não tinha informações muito precisas. Oras, não havia confirmação de que Antoinette estava morta! Só de pensar nisso, o estômago do caçador se embrulha, mas nada diz, deixando o paciente continuar:

— Éramos amigos há uns quatro ou cinco anos. Como havia um espaço vazio na minha casa, deixei ele ficar por um tempo. Isso não faz nem um mês, mas logo na noite de hoje... — Claude engole em seco — Fomos fazer um passeio pelos bosques ao pôr do Sol, nada demais. Ele foi falando sobre seus problemas e o tempo foi passando... Tínhamos levado uma lamparina, não teríamos problema com o escuro. Mas daí... alguém apareceu por lá. Não parecia armado, mas ele... eu não sei como, conseguiu me atacar. A coisa me mordeu! Foi tão rápido que nem percebi. Sebastian tentou me ajudar, disse para eu sair e buscar ajuda... e foi isso que eu fiz.

Maximilien avalia o depoimento e, enquanto René e Brigitte pensavam em suas próprias perguntas, indaga:

— Hm, perdão, monsieur, mas como conheceu Sebastian? Convivi com ele por um certo período e ele nunca o mencionou.

— Ah, já faz um bom tempo. Eu entendo porque ele não mencionaria... — Claude emite um um leve riso do nariz — Foi em Londres, um amigo em comum acabou nos apresentando um ao outro. Sebastian era um mordomo de boas palavras, sabia conversar muito bem. A amizade floresceu na mesma hora.

— Um amigo em comum? Quem?

O paciente parece desviar os olhos por um instante, repensando nas palavras, mas logo responde como dando de ombros:

— Era Augustin, também francês... Mal lembro se uma vez ele já me disse o sobrenome.

Naquele momento, ao ouvir aquele nome, Maximilien sente sua perna direita tremer e a ferida volta a arder. Podia ser qualquer Augustin no mundo a qual Claude se referia, mas o caçador não conseguia tirar a figura do vampiro de sua cabeça. Permanecendo quieto, resignando os pensamentos em si, Maximilien é sobreposto por René:

— Mas espera, como assim "entende porque ele não mencionaria"? O que havia entre vocês que ele não podia contar?

— Oras, foi só uma expressão. Todo grupo de amigos tem suas... particularidades.

— Monsieur Cuvier, nem preciso alertá-lo que a maior suspeita desse caso recai sobre o senhor, não? — René se senta na cadeira próxima ao leito — Não há testemunhas, você o levou ao parque e ainda não encontramos provas sobre esse suposto assassino que os atacou. Então eu gostaria de saber mais sobre essas "particularidades".

— Eu... — Claude parecia nervoso — está bem, vocês querem me ouvir dizer? Eu estava tentando esconder, e vocês devem saber porquê, mas que se dane. Sebastian e eu éramos mais do que amigos... se nem na Inglaterra podíamos falar em voz alta, por que aceitariam aqui neste país atrasado?! É lógico que mantíamos em sigilo.

— Não, negativo, Monsieur Cuvier — René se mantém cético — eu conheci Sebastian, oras, era mordomo da minha prima. Sei que ele não era esse tipo de gente. Eu já o vi com mulheres.

— E? — Claude olha para René quase que indignado. Brigitte se força para não rir do loiro, que só ignora e continua:

— Você está mentindo, Monsieur Cuvier. Inventando isso para esconder o real fato. Estavam em Londres justamente em 1865 quando se conheceram. Foram fazer o quê lá? Falar com Marx?! Esse tal de Augustin arrastou Sebastian para AIT! Ou foi você!

— AIT? — Brigitte pergunta, enquanto Claude estava quieto e nervoso, pensando em uma resposta.

— Associação Internacional dos Trabalhadores — Maximilien responde pensativo. Querendo ou não, tinha conhecimento dos jornais: — São um grupo político de socialistas partidários e sindicalistas de toda a Europa. Realmente houve uma conferência em 65, mas... Monsieur, você e Sebastian realmente se conheceram na Internacional?

— Bah! Mas é claro que não, esse daí está a inventar bobagens! — Claude responde já com raiva de René — Já falei como foram as coisas. Acabei de perder alguém que amo essa noite e ainda vêm suspeitarem de mim! Não quero mais saber de perguntas, vão embora.

René e Maximilien acabam não gostando, mas Brigitte atende ao pedido de Claude, abrindo a porta para os caçadores saírem do quarto.

— E-Espera! Eu preciso saber sobre Antoinette. Sebastian não falou nada sobre ela?! — Maximilien se aproxima quase que desesperado pelas informações. Claude responderia num tom um tanto malicioso, mesmo não querendo mais interrogatório, talvez por sentir pena do rosto angustiado de Maximilien querendo saber da noiva desaparecida:

— Ha, ele só falava mal dela! Aquela condessa mimada vivia o explorando. Sebastian disse que até mesmo depois dela morrer, ela o tinha amaldiçoado. Se ele se referia a estar desempregado ou outra coisa, não faço ideia! Que Deus o tenha agora. Quanto a ela, eu não sei...

— Vamos, Monsieur Moreau — Brigitte apressa Maximilien, que expressava frustração num rosto amargurado e quieto — deixe-o descansar, depois você pode voltar com mais perguntas.

Os três saem do quarto, com a garota fechando a porta e deixando a ala com outras enfermeiras. Maximilien e René se entreolham com um certo gelo.

— Ele está escondendo algo... — o loiro afirma pondo as mãos na cintura — e não é pouco.

— Sebastian foi vítima de um vampiro, não? — Maximilien contrapõe, ainda cabisbaixo: — E é óbvio que Claude não é um. Ainda suspeita dele?

— Eu sei que ele não matou Sebastian, mas com certeza tá com o rabo preso. Talvez até mesmo sobre Antoinette!

— Rapazes — Brigitte interrompe — Dr. Simon tinha me pedido para levar-lhes ao necrotério quando acabassem o interrogatório. Ele já deve ter acabado a autópsia do corpo de Sebastian.

René dá um tapinha nas costas de Maximilien e, sem demora, tomam rumo ao subsolo, guiados pela enfermeira. Não se falam no caminho, ambos presos em seus pensamentos. Ao término das escadas, abrindo uma porta de porão que Brigitte bate antes de entrar, encontram uma grande sala fria e escura que antecipava um longo corredor com várias portas. Nas laterais havia armários e estantes guardando frascos e instrumentos enquanto no centro mais espaçoso estava Dr. Simon ao lado de uma maca, com o corpo cadavérico de Sebastian em cima.

— Ah, vocês vieram — O médico permanece sereno ao lado do corpo, convidativo com a presença dos três ali — conseguiram alguma informação útil?

— Uma história estranha — responde René — qualquer um que não seja da Ordem terá Claude como suspeito número um. E mesmo eu sabendo dos vampiros e que o assassino provavelmente tenha sido um, eu não compro essa inocência dele, ainda mais vindo de um possível marxista.

— Pois saiba que tem mais nessa história...

Simon aperta suas luvas enquanto abre espaço para mostrar o corpo melhor. Maximilien fita com pesar o falecido Sebastian deitado. O mordomo vivia andando junto de Antoinette e agora permanecia ali, gélido e mórbido, com seu pescoço não mordido, mas sim rasgado, assim como seu braço direito e parte do peito. René até comenta surpreso:

— Eu nem tinha notado esse estrago todo quando o encontrei de noite...

— Avaliando os danos e as circunstâncias, acabei-me na teoria de que não foi um simples ataque — dizia Simon aproximando-se do rosto do defunto, colocando uma pinça dentro da boca de Sebastian e mostrando aos caçadores os dois dentes afiados do mordomo — e muito menos uma vítima normal.

Maximilien e René ficam sem saber o que dizer, passando mil coisas em suas cabeças, relembrando de memórias com Sebastian. Não era a primeira vez que passavam por tal situação, mas era difícil processar que uma pessoa tão próxima era na verdade um "inimigo".

— Eles costumam retrair as presas e só usá-las quando necessário, mas parece que Sebastian morreu antes que pudesse escondê-las, ou seja, no calor do momento enquanto atacava alguém. Evidencia minha hipótese.

— Sebastian foi quem atacou Cuvier? — René pergunta a primeira coisa que vem à mente.

— Muito cedo para dizer... e não faz muito sentido. Quem morreu foi Sebastian, e Cuvier não teria capacidade de matá-lo. Por esses ferimentos enormes, eu diria que Sebastian tentou lutar contra outro vampiro... um que talvez tentava roubar seu alimento, ou em outras palavras, o Cuvier. Sebastian atrasou o adversário o quanto pôde para que Cuvier pudesse fugir. No fim conseguiu o que queria, mas não venceu o duelo.

— E o maldito Sebastian estava usando Cuvier esse tempo todo... quem dirá o que ele fazia com Antoinette — René fica perplexo.

— Espera um pouco — Maximilien intervém desacreditado — você tem mesmo certeza de que Sebastian era um vampiro?!

— ...Bom, não há muito mistério — Dr. Simon continua: — se ele fosse apenas um homem comum, não teria ferimentos desse nível, teria morrido instantaneamente com uma mordida simples e não lutando. Mas se você quer comprovação... — Dr. Simon pega numa estante próxima uma amostra de frascos contendo sangue coagulado — isso diz respeito à minha pesquisa atual. Com os estudos de James Blundell sobre transfusão de sangue, descobre-se compatibilidades e rejeições dentro de um sistema de "tipos sanguíneos". Acabei por registrar categorias diferentes e ainda estou anotando os resultados nos testes, mas há um certo tipo de sangue capaz de receber todos os outros tipos de forma compatível, mas só pode ser transferido para outros portadores desse mesmo tipo de sangue.

René e Maximilien, sem conhecimento no assunto, apenas concordavam sem entender direito, mas reconheciam a inteligência do doutor. Para Brigitte, só ouvia o que já sabia sobre a pesquisa que estava ajudando a fazer, mesmo sem ganhar crédito algum por conta de seu gênero. Simon continua:

— Acabei descobrindo com as amostras de vampiros que todos eles possuem essa característica em comum. Vejo que há uma essência que os torna monstros, ainda desconhecida, mas ela interessantemente só consegue se manifestar em sangues do tipo receptor universal. Sebastian não é diferente, o plasma dele é igual ao das outras amostras.

Maximilien cruza os braços, surpreendendo-se com a pesquisa, mas repensando principalmente sobre o mordomo. Apesar de não se lembrar direito, tinha certeza de que já vira Sebastian sair no sol. Mas contestações agora que ele estava morto talvez não importassem mais. René suspira e toma a palavra:

— É inacreditável. Pesquisa fenomenal, doutor. Com esse método finalizado um dia nem imagino o quanto poderíamos fazer pela segurança de Paris — René elogia enquanto Maximilien esboça um rosto de dúvida sobre o que o loiro realmente pensava em aplicar como medida de "segurança". René retoma com as mãos nos bolsos e continua pensativo: — mas pensar que ele estava sempre tão perto e nem desconfiávamos de ser um vampiro... é realmente assustor. Enfim, podemos dizer que esse caso foi só um duelo entre vampiros?

— Talvez mais que isso — o médico já começa a se afastar do corpo e tirar suas luvas — Você disse, René, que encontrou o corpo perto do lago Daumesnil... se nosso assassino não quisesse ser encontrado, poderia dar um jeito de esconder o corpo, afundá-lo no lago talvez. Ao invés disso, preferiu deixar o corpo ali e até mesmo não ir atrás de Claude, mesmo vencendo a briga. Ou seja... ele queria que descobrissem, não?

— Foi um aviso? — Maximilien deduz.

— Muito provavelmente. E tendo em mente que Sebastian não era parisiense e sim de Estrasburgo, talvez estamos no meio de uma briga entre duas facções de criaturas da noite.

— E se o mordomo de Antoinette era parte disso, quem dirá que não envolveram ela também...

Com as palavras de René, Maximilien se segura com certa tensão sobre a bengala. Sebastian sendo um vampiro, justamente o mordomo de sua amada, permitiria ao caçador recorrer a uma investigação sobre o desaparecimento de Antoinette como um caso de interesse à Ordem Croupier, principalmente com um ataque e morte ocorridos em Paris. Maximilien conclui com convicção e uma pitada de crítica à ordem:

— Quer dizer que agora eu posso ir atrás da minha noiva.

— Precisamos de mais informações para esclarecer os fatos — diz Brigitte. René responde com prontidão:

— É, por isso mesmo vou investigar a casa de Claude pelo menos até amanhã. Só preciso de autorização.

— Vou ver de acompanhar — comenta Maximilien — se o doutor me der alta amanhã.

Saindo do recinto após algumas considerações finais, os dois caçadores voltam às alas hospitalares, onde Brigitte os deixa para voltar ao trabalho. Pensativos acerca das questões abordadas, Maximilien se senta em uma cadeira próxima enquanto René retira um pequeno charuto para fumar. Ambos calados se perdem em memórias, tanto sobre Antoinette, quanto sobre o passado.

— Ei... — Maximilien comenta cabisbaixo, quebrando o gelo com um certo pesar nas palavras: — Sebastian era um bom homem, um bom mordomo, talvez até um bom amigo. Nunca cheguei a conhecê-lo a fundo, mas era sempre muito respeitoso. Mesmo que ele não gostasse de Antoinette, tratava-a como uma rainha. Lembro-me também de sua erudição, ele lia bastante. De vez em quando comentava sobre a luz do conhecimento... os "adventos do iluminismo".

— ...Sim, lembro bem. O que quer dizer?

— Não sei se ele sempre foi uma criatura da noite, ou se foi transformado depois de tudo. Mas acho que não merecia morrer. Era uma boa pessoa, mesmo sendo um vampiro.

René encosta-se na parede, com uma das mãos no bolso das vestes. Já sabia onde essa conversa iria dar. E em especial, não gostava de ter em mente aquilo, que o trazia de volta a uma época passada, quando conheceu Maximilien e outros amigos que se foram há tempos. O moreno então finalmente faz a pergunta que o angustiava, mesmo já sabendo a resposta que receberia, quase como um desabafo provocativo tendo em mente não só Sebastian, mas também outra pessoa:

— Você acha, René... que possam existir vampiros bons?

— Não — responde curto e sem demora após uma tragada — você se lembra dos ensinamentos do padre. São criaturas do demônio, não possuem alma. Não merecem o reino de Deus e muito menos nossa compaixão.

— Oras, René, dizem a mesma coisa dos escravos na América!

— É diferente e você sabe. Tens mais experiência que eu nesse ramo. Questão de vida ou morte, nós ou eles. É um trabalho necessário para proteger a cidade, o resto é resto.

Maximilien passa a mão sobre os cabelos enquanto olha para o teto, parecia cansado, mas no fundo concordava com o amigo. Se fosse guiado, afinal, por um pensamento sincero contra tudo o que fez em tantos anos de trabalho, Maximilien não teria outro caminho senão ser engolido por uma culpa abissal de um inferno sem volta. Era mais fácil dormir a noite acreditando que as vítimas de sua lâmina, tantas vezes banhada por sangue, eram só criaturas inerentemente violentas e tão coincidentemente... sem alma. René conclui enquanto vira as costas:

— Você se lembra da última vez que poupamos um vampiro... e tudo o que perdemos naquele dia.

Este evidencia um tremor em suas palavras ao relembrar de um velho trauma da juventude. Maximilien conhecia aquela história e também tinha a sua própria, portanto resolve ficar quieto e não demora muito para o loiro ir embora.

. . .

Já era noite quando Charlotte e Marjorie voltavam para casa. Teriam conversado sobre Angelika durante o trajeto enquanto os acendedores de lampiões davam luz aos postes do 5° Distrito.

— Preciso arranjar algum trabalho — dizia Charlotte — para ter os 4 francos da Srta. Moldovan... e também não posso continuar incomodando vocês. Agradeço tudo o que fizeram por mim até então, Natalie, Luciene e principalmente a ti, Srta. Marjorie. Eu nem imagino como estaria sem vossa ajuda... e do Seu Jorge também! Ainda vou me encontrar com ele e agradecê-lo pessoalmente.

— Bom, não precisa ser tão formal por agora, nossa casa foi feita justamente para acolher os "indesejados". Você só conheceu a Natalie e a Luciene, mas temos outros dois vampiros morando lá, mais tarde eu os apresento. É propriedade da Belle, nossa amiga comerciante, ela deixou a casa para servir de refúgio aos que precisam de ajuda, caridade rara nos dias de hoje... Tanto Natalie quanto Luciene tiveram casos parecidos com o seu, mas claro, sem perda de memória. Eu as conheci nas ruas também.

— É? Como foi? — Charlotte segue Marjorie nas calçadas das quais se lembra de ter corrido, durante a alvorada que queimava sua pele há horas atrás quando acordara do caixão. Agora, sem mais dor e sem mais sol, pareciam ter outro significado pela noite.

— Luciene foi expulsa de casa pelos próprios pais, um assunto delicado. Quanto à Natalie, eu a encontrei no bordel em que trabalho.

— Oh, então esse é o seu trabalho... — Charlotte reage um pouco sem graça. Não enxergava aquilo com problemas significativos, mas ainda era uma mulher recatada do século XVIII.

— Ah, não, não — Marjorie ri observando a face um tanto engraçada da vampira — na verdade é um tanto irônico termos nos encontrado, Charlotte. Posso não ter os truques de antigamente, mas ainda sou uma bruxa. Trabalho defendendo e ajudando as meninas do bordel... — a mulher logo se aproxima da companheira para sussurrar: — ...são todas vampiras.

Charlotte demonstra curiosidade. Marjorie continua olhando em volta para ver se não tinha gente por perto para ouvir:

— Minha renda é pelo pó de cidreira, uma erva de encantamento quase entorpecente. Eu vendo para as vampiras usarem nos homens que vão ao bordel. Gera esquecimento da noite que eles têm, daí as meninas podem tomar o sangue sem correr o risco de serem descobertas e pegas pelos caçadores. Está aí a piada... justo eu que faço as pessoas esquecerem... encontro uma vampira que esqueceu até do próprio nome.

— Hm... é uma técnica um tanto inusitada.

— Nossa política é não matar. Desde que os homens retornem ao bordel, há sempre alimento que elas podem consumir em segurança. E cá entre nós, alguns homens bem que merecem! — Marjorie puxa uma risada junto de Charlotte. Assim que chegam na porta da casa, a bruxa recorre à chave em sua bolsa enquanto retoma o papo:

— Aliás, que homem era esse de que Angelika falou? Que não saía de sua cabeça? Não sou de fofocar, mas admito que fiquei interessada.

— Oh — Charlotte segura um dos braços, um tanto envergonhada — é o homem que encontrei nas catacumbas, justo quando me levantei do caixão. Eu lembro-me do nome... enquanto os dois lutavam, Augustin o chamava de "Maximilien".

Marjorie esboça um rosto assustado ao ouvir a resposta enquanto abre a porta. Catando o ombro de Charlotte com sua mão, abruptamente aproxima-se com a voz mais baixa com medo de alguém ouvir:

— Era um homem todo vestido de preto, não?! O mesmo que matou esse Augustin...

— Sim. Bem alto... e parecia forte.

A mulher logo adentra a casa rapidamente com Charlotte, fechando a porta enquanto conclui com certa preocupação nas palavras:

— Um aviso. Fique longe desse homem... o máximo possível.

. . .

Nesta mesma escuridão da noite, seguindo os passos conforme as informações obtidas, dois caçadores atravessam um corredor subterrâneo em breu, apenas iluminado com as lamparinas que seguravam em frente, enquanto suas outras mãos livres tomavam firmemente o cabo dos sabres. Roger Valentin e Louis François teriam acatado às ordens de Nikola, que sabendo das referências dadas por Maximilien e pelo vigia que o encontrou nas ruas do Panthéon, foram vasculhar a dita câmara das catacumbas, fazendo o caminho inverso de Moreau, adentrando pela sua saída nos esgotos.

— É de fato muito estranho... — Valentin observa o local — pelo o que disseram devia ser justamente aqui, mas...

O albino iluminava a câmara, o mesmo lugar onde Maximilien lutou contra Augustin. Havia um altar no centro e cera das velas derretidas por todas as extremidades do local, inclusive pelas estantes das paredes de pedra. Mas apenas isso. Não havia mais caixão ou sequer gotas de sangue. Esperavam pelo menos um corpo de vampiro apodrecendo com a cabeça cortada, mas nem isso. Qualquer vestígio de Augustin teria sumido completamente de lá.

— ...não há nada — Valentin conclui.

Louis permanece quieto enquanto se ajoelha para aproximar sua visão ao chão, iluminando o solo com sua lamparina enquanto parece procurar alguma pista. Roger continua de pé olhando as marcas de cortes feitos na parede:

— Maximilien não mentiria, apesar da história dos sete vampiros ser muito estranha... De qualquer forma temos um problema. Thiers me disse que era de extrema importância destruir o caixão e seja lá o que tivesse dentro... mas bem, vamos voltar com uma má notícia. Nem o equipamento do Moreau vai ter como recuperar.

— É... — Louis lamenta retoricamente enquanto parecia mais interessado no que encontrava pelo solo ao passar sua mão pelo chão de rocha. Ao analisar melhor a poeira que grudava em seus dedos, movendo-os perto de seus olhos e sentindo seu cheiro e textura, conclui ser pó de cidreira. Logo se levanta, mantendo o rosto indiferente: — ...Parece que a coisa conseguiu fugir. Está por aí em algum lugar, talvez não muito longe.

Louis por fim olha para Valentin, com um sorriso malicioso refletido em suas palavras:

— Vamos ter que caçar.