Fraternité - O Sangue de Charlotte
6 A Garoa ao Leste
3 de Agosto de 1870, um dia depois do primeiro confronto da guerra.
Desde o começo do mês as tropas de Mac-Mahon haviam montado um grande acampamento à oeste de Forbach, enquanto o Exército do Reno estava a cobrir toda a Alsácia-Lorena. Em 2 de Agosto, o 2° Corpo de Exército, na companhia do pomposo príncipe imperial, teriam começado a troca de tiros contra as brigadas alemães da fronteira na cidade de Saarbrücken. A pequena batalha não durou muito. Ao perceber a grande diferença no número de soldados e a desvantagem de alturas no terreno, o General de Gneisenau do lado prussiano resolveu bater em retirada. Houveram pouquíssimas baixas e o lado francês firmou-se em Saarbrücken, começando a guerra com uma importante vitória para a moral dos franceses, apesar de belicamente tão irrelevante.
Leona de La Croix de Ravignan, a Dama de Espadas da Ordem Croupier e capitã de um pequeno esquadrão do 3° Corpo de Exército, chegava ao acampamento em Forbach, uma vila francesa próxima da fronteira. Não mais encapuzada como antes, era possível ver seu rosto fino, olhos cinzentos e cabelos louros bem curtos. Seu corpo esguio tinha 1,80 de altura, maior que muitos homens e por isso às vezes confundida com um. Trajava o uniforme de capitão, mas com uma capa preta por cima, bem longa. Havia chegado a pouco tempo na Alsácia junto ao seu esquadrão e outros regimentos que completavam as formações do exército e agora a mulher ia de encontro às bases de operações dos militares de maior patente, enquanto seus soldados se alocavam no acampamento que ainda atendia os feridos da batalha de ontem.

— Olha só quem finalmente chegou... — comenta uma figura imponente se aproximando de Leona, em cima de um grande cavalo branco. Uma mulher madura e de massa muscular avantajada, com um olhar fechado e nariz empinado. Tinha cabelos morenos presos sob um chapéu tricórnio, um maxilar quadrado e um rosto deveras sério, por mais que sorrisse sarcasticamente. Vestia-se como hussarda, já que era capitã de um dos regimentos da cavalaria do 2° Corpo de Exército. Era Giovanna Bonaparte, prima de Napoleão III e também uma das mais renomadas caçadoras da Ordem Croupier.
— Nosso trem apresentou falhas técnicas ao sairmos de Metz. Tivemos de completar o percurso em carroças junto de outros regimentos — respondia Leona ainda caminhando pelo acampamento enquanto observa os arredores, com soldados ocupados indo de um lado para o outro — parece que nos atrasamos ao combate.
— Pois é, perderam nossa primeira conquista, não que realmente fizesse diferença se estivesse lá. Esmagamos a artilharia inimiga e tomamos a cidade como se não fosse nada! E a imprensa ainda nos dizia para temer os alemães... ha, que ignorância.
— Conversei com alguns secretários de Banzaine ao chegar. O ataque surpresa foi bem executado, mas para mim foi imprudência do Imperador — Leona continua com as críticas enquanto Giovanna revira os olhos. A loira era uma estrategista nata dentro da Ordem — nosso trabalho de reconhecimento em território inimigo é praticamente zero. Tivemos esse golpe de sorte porque os soldados de fronteira não estavam preparados, mas vou sugerir aos generais que abandonem Saarbrücken para tomarmos uma linha defensiva do outro lado do rio. Não sabemos como será a resposta dos alemães.
Leona continua seguindo para o centro de comando dos generais até que Giovanna coloca seu cavalo em frente a ela, bloqueando seu caminho e obrigando-a a parar:
— Pode esperar aí, colega. Você pode ser nossa líder dentro da Ordem, mas aqui você é só uma capitã de regimento. Há ordens que configuraram a ti antes de querer palpitar táticas de batalha aos generais... Sem contar que confio mais neles do que em você. Acha que guerra é a mesma coisa que combater vampiros na capital?
Leona paira na frente de Giovanna com um olhar sério e sem nada a dizer. Sabia da rixa que a mulher tinha para com ela. As duas já disputaram o cargo de "Dama" na Ordem Croupier e a loira acabou vencendo, detentora de uma competência bem maior. Normalmente era Giovanna quem tinha de levantar os olhos para ver Leona, já que a loira era mais alta, mas agora em cima do cavalo, a morena podia observar o contrário e ela gostava disso.
— A que ordens você se refere? — Leona indaga ao cruzar os braços.
— Não é óbvio? Seu esquadrão de chasseurs já devia ter se reunido nas posições de infantaria em Saarbrücken. O resto da sua divisão está toda por lá. Não deves esquecer da razão pela qual fomos chamados para as linhas de frente...
De fato, Leona sabia até mais que Giovanna que os caçadores da Ordem estavam lá para combater não apenas os soldados inimigos, mas também qualquer potencial bélico que a Prússia pudesse usar envolvendo os já conhecidos "vampiros de guerra". O esquadrão secreto de Leona tinha sido montado com tal exclusiva prioridade.
— Imagino que então encontraram um deles por lá, estou certa?
— Vá e descubra, sabichona... Não me surpreende que escolheram o Capitão Rossel em vez de ti para o teatro de operações.
Com a resposta enfadonha de Giovanna, Leona tende a dar o troco:
— Mas me surpreende que o imperador tenha colocado a prima num cargo tão simples e fora do 1° Corpo de Exército. Parece que ele não gosta da ideia de lutar no mesmo batalhão que você, Giovanna...
A hussarda fecha a cara, com os olhos fuzilando em desgosto. Nascida como uma italiana bastarda da Casa Bonaparte, escondia seu passado mesmo sendo uma oficial militar de respeito. Não era bem vista entre seus familiares, por mais que buscasse aprovação.
— Você não sabe de nada — Giovanna responde enquanto Leona se retira tomando outro rumo.
Aproximando-se da loira rapidamente vindo de outro canto, chega o jovem Elliot Cartier, o mesmo que estava a dormir na última viagem. Com 24 anos de idade, era mais um dos caçadores de vampiros renomados o suficiente para estar entre os Treze de Paris, junto de seu irmão Edmond Cartier. Ambos se alistaram para a guerra, apesar de em regimentos diferentes. Elliot era calmo e estava sempre com um sorriso sereno, acompanhando como assistente de Leona na Ordem Croupier por compartilharem a qualidade do raciocínio lógico. Diferente de Edmond, filho de outra mãe, Elliot não se destacava na aparência. Tão comum, tinha curtos cabelos marrons, pele branca e corpo magro.
— Olá de novo, Capitã! — Elliot segue os passos apressados de Leona enquanto indaga bem-humorado: — O que estava a discutir com a Srta. Giovanna? Ela andou reclamando novamente? Nem aqui longe de Paris ela te dá sossego...
— Nada demais — Indiferente, Leona já estabelece ordens: — Elliot, vou precisar que reúna os demais homens do esquadrão para me encontrarem na ponte ao leste. Vamos fazer um reconhecimento geral pelos arredores de Saarbrücken.
— Sim, senhora. Mas se me permite perguntar, Capitã, por que designaram soldados de tão baixa experiência para nosso regimento? Aqueles dois caipiras, Ricardo e Paul, sinceramente... só faltavam brincar com os rifles!
— Tenho a mesma dúvida. Suspeito que o alto escalão enviou-nos homens que só servirão como peões de sacrifício. Não mandariam seus melhores soldados contra criaturas da noite e é bem melhor para eles enviar camponeses pobres e analfabetos para morrerem do que sobreviventes que possam quebrar o sigilo sobre os vampiros... Mas lamento informar-lhes, não pretendo deixar meus homens morrerem em vão.
— Por isso és a melhor, Capitã! — Elliot elogia, ainda pensando nos outros membros dos Treze de Paris: — só gostaria de ter Edmond ou Monsieur Archambault em nossa equipe... não me lembro para onde foram designados.
— Archambault estará no front norte. Ele é forte o suficiente para atuar sozinho como caçador. Já Edmond deve estar com Alejandro em Estrasburgo. A estratégia é dispersar os caçadores, melhor para abranger mais áreas.
— Sabe quem mais seria útil por aqui? Maximilien. Você viu? Nikola mandou um telegrama contando sobre as últimas noites. Monsieur Moreau matou sete vampiros nas catacumbas!
— ...certamente, o pupilo perfeito de Nikola — Leona concorda e logo para, encarando Elliot de braços cruzados.
— Hm, o que foi? Qual o problema com Nikola?
— Os homens, Elliot. Eu disse para ir chamá-los.
— Ah, claro, sim senhora, estou indo — e finalmente sai para acatar a ordem da capitã.
. . .
O relógio batia nove horas. Maximilien era acompanhado por seu velho amigo Jean-Jacques para fora do hospital. Dr. Simon daria alta para o colega de trabalho naquela manhã, mesmo que o caçador ainda tivesse dificuldades para andar, tendo de usar a bengala. Conseguindo suas roupas e itens de volta, os quais foram encontrados com ele, Maximilien se lembra da adaga de Augustin, a mesma usada pelo vampiro no ritual e também por ele próprio ao decepar a cabeça daquele estranho predador. Moreau pergunta a Simon sobre a adaga, mas o médico responde que não havia arma alguma quando o vigia do 5° Distrito encontrou o caçador desmaiado. Maximilien estranha, lembrava de ter saído das catacumbas ainda com a adaga em mãos, mas releva. Havia chances de ter sido roubado por outros enquanto estava apagado.
Jean levaria Maximilien até a nova casa do amigo, indo de cabriolet pago pelo próprio caçador e então segurando-o pelo braço para dar-lhe apoio ao caminhar enquanto este usava a bengala na mão livre. A lesão na perna era grave e não iria curar tão cedo.
— Me surpreende que o doutor te deu alta ainda nesse estado... — Jean-Jacques comenta enquanto ambos atravessam a rua praticamente abraçados de lado para chegarem ao edifício Fraternité — mas vem cá, parceiro, como conseguiu sobreviver depois de ser atacado assim?
— Ah, eu te disse, os bandidos correram depois de eu dar tiro... — Maximilien mascarava os reais acontecimentos — minha perna estava ruim, não minhas mãos.
— Conseguiu prender todos? Eu lembro da Manquer Catherine te falar das catacumbas, nem imagino o que deve ter passado.
— Na verdade... — o caçador se lembra de Charlotte enquanto chega na calçada cabisbaixo e pensativo — ainda falta um deles.
Assim que Jean-Jacques abrisse a porta do edifício, a dupla seria recepcionada por alguns vizinhos de Maximilien que se reuniam ali no primeiro andar. Amélie, a encantadora professora, se aproximaria de Maximilien junto do pequeno Denis enquanto ao fundo estavam sentados um casal de meia-idade e uma garotinha, que viravam-se com a chegada dos dois.
— Oh, Monsieur Maximilien! Estás bem? Como se sente? Quer um copo d'água? — Amélie se preocupa com o homem, atenta ao seu ferimento na perna enfaixada — Deve estar cansado, por favor, sente-se.
Enquanto o caçador fica sem jeito, pequeno Denis ajuda Jean a levá-lo para o apartamento de Amélie:
— Poxa puxa, Seu Max, como foi que arrumou esse machucado?! Foi lutar na guerra?
— N-não precisam se preoucupar — Maximilien estava desacostumado àquela atenção, principalmente vindo de pessoas que havia conhecido há apenas dois dias. Emite um leve riso enquanto tenta disfarçar: — Vocês sabem como é... trabalho da guarda noturna.
— Eu entendo, monsieur — Amélie guia o homem para seu apartamento enquanto continua com as palavras gentis — o Sr. Bittencourt me contou ontem sobre o acontecido. E ao meu ver, o ferimento parece ter sido muito grave! Venha, podes descansar.
— Hm, então Jean-Jacques está vindo muito para cá? — olha para o amigo de relance com um sorriso, sabendo do mulherengo que era Jean, que responde:
— Ora, ontem eu vim para te ver, Moreau, ainda não sabia que estava no hospital... mas pelo menos a mademoiselle Amélie me recepcionou muito bem — Jean pisca para o amigo.
Antes mesmo de ser levado a sentar na poltrona mais próxima, Maximilien nota as duas figuras mais velhas da mesa se levantando contentes para cumprimentá-lo. Ele os reconhece de cara, também feliz ao vê-los. Eram os ex-empregados de Antoinette, a criada Eugénie e o jardineiro Alfonso.
— Olha como ele está! — comenta a criada, uma mulher baixinha de cinquenta e poucos anos, de óculos redondos e de curtos cabelos ondulados ainda não brancos. Após cumprimentar o caçador com dois beijos nas bochechas, continua: — você teve de sair tão rápido de Fontainebleau, Monsieur Moreau, nem nos despedimos.
— Hah, é muito bom revê-los... eu teria ficado se pudesse, mas meus chefes não entenderiam.
— Nah, nem se preocupe, também tivemos que sair de lá. Não a toa, cá estamos — responde Alfonso, um velho alto e bem magro, uns dez anos mais velho que sua mulher Eugénie. Tinha olhos caídos com as rugas, cabeça careca e um grosso bigode que parecia tampar sua boca. Este cumprimenta Maximilien com um aperto de mãos.
— Espera, então vieram para morar em Paris?
— Estamos ainda procurando um lugar, monsieur — Eugénie responde — mas você sabe, Fontainebleau é muito caro de se viver. E agora que estamos desempregados desde aquele dia... a capital é mais fácil de encontrar trabalho.
— Sem contar que ficamos sabendo... de Sebastian — Alfonso complementa com pesar nas palavras — Monsieur René informou-nos por telegrama. Disse para virmos o quanto antes, quer nossos depoimentos.
Maximilien acente com a cabeça, entendendo a razão de terem vindo. Primeiro Antoinette, agora Sebastian. Certamente seria melhor ter os outros empregados da mansão seguros em Paris, onde os caçadores teriam mais contato. Enquanto pensativo, Maximilien é abordado por Denis puxando sua camisa:
— Seu Max, é pra se sentar! Como aguenta ficar de pé com um machucado desse?!
Esboçando um riso fanho, o homem se senta na poltrona enquanto vê Amélie voltando da cozinha, trazendo xícaras de chá para as visitas.
— É que eu como muitos legumes e vegetais — brinca Maximilien para com Denis.
— O Sr. Alfonso e a Sra. Eugénie chegaram não faz muito tempo, Monsieur Maximilien — dizia Amélie servindo o chá — vieram para vê-lo, eu disse que o senhor já estaria aqui em breve junto de Bittencourt.
— Eu... — o caçador olha para toda aquela gente admirando a simpatia que lhe aquecia o coração — Eu aprecio a bondade de vocês. Muito obrigado mesmo — Maximilien desconfiava que Amélie e Denis podiam estar lhe agradando por interesse em seu dinheiro também, mas não se importava. Afinal, desde o desaparecimento de Antoinette, o caçador esteve passando por péssimas experiências, achando que até mesmo morreria naquelas catacumbas, então o mínimo de carinho já era visto como um grande prêmio afável.
— Nem mesmo precisa nos agradecer, monsieur. É como eu digo, aqui na Fraternité somos como uma família — Amélie responde enquanto se aproxima da menina ainda sentada na mesa — inclusive, esta é a minha filha Sophie. Diga oi, querida.
Sophie era uma menina quieta de cerca de 11 anos, com seus bagunçados cabelos loiros tampando o rosto, enquanto a mãe arrumava a sua franja com as mãos. Permanecia encarando Maximilien com um olhar sério e nada simpático, também não dizendo nada mesmo com a ordem de Amélie. Maximilien faz um aceno com as mãos para ganhar aprovação, mas a menina continua desgostosa com a presença dele.
— Ela é bastante tímida com pessoas novas... — Amélie quebra o gelo — mas monsieur, nem sabes o quanto as pessoas daqui já me ajudaram. Os Laurent's que moram aqui do lado foram quem me deram assistência quando perdi meu marido... O casal Duplay do 2° andar pagaram todos os materiais escolares da minha filha, sem contar os brinquedos e alimentos... Até mesmo o velho Thomas do 4° andar! Já me poupou tantas vezes o aluguel...
— Madame Cath também... — Sophie comenta em tom baixo. Jean-Jacques, encostado na quina da porta, cruza os braços ao ouvir o nome da mulher.
— Oh sim, Catherine também nos ajudou com as dívidas e vivia cuidando de Sophie quando eu estava fora... ah, nesses tempos difíceis que o país enfrenta temos que realmente nos ajudar. Por isso pode contar comigo para o que precisar, Monsieur Maximilien.
O homem sorri olhando para a mulher e as crianças. O pequeno Denis ali parecia até um segundo filho de Amélie, que hora ou outra também cuidava do menino, mas era bem provável que os pais daquele garoto que vivia nas ruas não estavam mais por aí. Maximilien sabia o que era ser um órfão. Decidia ali sentado na poltrona que, assim como fazia com a família de Jean-Jacques, ajudaria financeiramente também Amélie e as duas crianças.
— Mas falando nisso, os senhores têm alguma notícia de Augustin? — Amélie olha para Jean-Jacques e Maximilien, este último que deixa de sorrir ao escutar o nome — Ele saiu de casa faz quase três dias e até agora não voltou... nem a Belle da cafeteria o avistou depois de segunda-feira.
— Oh, aquele garçom amigo de Catherine? — Jean-Jacques relembra — ele nos serviu naquele dia, mas depois não o vi mais.
Maximilien fica alguns segundos em silêncio, até que responde falsamente:
— Digo o mesmo... — este repara Sophie o encarar estranho — eu fui embora depois de pedir-lhe um croissant. Não voltei mais para a cafeteria — analisando a própria resposta, Maximilien conclui o próximo local que iria investigar.
— Ele mora no mesmo andar que o casal Duplay. Eles também não o viram, mas o mais estranho de tudo é que eles disseram ter escutado alguns barulhos vindos do apartamento dele.
— Sinistro — Alfonso comenta ouvindo tudo, por mais que não entendesse o caso. Eugénie e ele estavam a tomar o chá.
— Seria possível investigarmos o apartamento dele? — Maximilien indaga com um certo interesse, recebendo alguns olhares curiosos — Isto é, se houver alguma chave extra ou algo do tipo. Eu trabalho na guarda civil, posso tentar descobrir onde ele foi parar.
— Bom, o velho Thomas é o dono do edifício, ele deve ter chaves secundárias — Amélie responde pensativa — pode tentar conversar com ele.
Maximilien toma um gole do chá servido, sendo observado por Sophie ainda com um rosto desconfiado. Denis intervém quando o homem parecia querer se levantar com o apoio da bengala:
— Mas Seu Max, o senhor não tá pensando em ir agora, né? Velho Thomas deve estar descansando, coisa que você também precisa!
— É, Moreau, ainda quero ouvir a história inteira de como sua perna foi perfurada assim! — Jean-Jacques comenta.
— Ha, hoje ainda não é domingo. Tenho que trabalhar... — Maximilien continua sentado dando um tapinha no ombro de Denis.
— E vais perseguir bandidos andando de bengala, seu guarda? — Eugénie faz piada.
— Pelo o que eu saiba, és da guarda noturna, não? — Enfatiza Amélie — Ora, monsieur, fique aqui em casa até o anoitecer. Quem sairá para trabalhar sou eu.
— Eu levo vocês duas para a escola, mademoiselle. É a caminho do Sena... — diz Jean para a professora e sua filha. Amélie agradece.
— Bom, já que insistem, ficarei aqui pelo edifício — Maximilien responde um tanto aliviado. No fundo, realmente queria descansar, por mais que René contasse com ele para o trabalho — mas a noite vou ter que seguir afora.
— Aliás, monsieur... — diz Eugénie enquanto Amélie organizava os últimos pertences a levar antes de sair — tem algo que queríamos te entregar.
— Oh, sim... — Alfonso se toca do assunto e começa a procurar em suas vestes o objeto que a mulher se referia. Maximilien se volta sério para o casal de empregados, um pouco ansioso enquanto Alfonso demora para encontrar: — achamos no quarto de Antoinette quando tirávamos nossas coisas da casa.
— E o château também... — Eugénie continua: — oh, monsieur, a família está querendo leiloar a mansão.
— O quê? Eles não podem fazer isso — Maximilien indigna-se. Sua noiva estava desaparecida e muitos já a tratavam como se estivesse morta. A família de La Fontaine, a qual Moreau teve pouquíssimo contato além de René, cometia um ultraje ao ter essa consideração com um dos próprios membros da família — Antoinette não está morta!
— Eu penso o mesmo, monsieur, mas já estão falando de fazer um funeral... — lamenta Eugénie — depois do pai da condessa, não houve nenhum outro patriarca realmente bom na família.
— Aqui está — Alfonso encontra o objeto em seu bolso do peito, entregando-o para Maximilien. Era o anel de noivado que o caçador havia dado para Antoinette. O aro prateado jazia no palmo do jardineiro, com metade manchado em um pigmento escuro. Maximilien permanece sem palavras enquanto o toma para si.
Sophie, quieta, olhava curiosa para o anel até ser chamada por sua mãe para arrumar os cabelos antes de ir para a escola. Jean-Jacques estaria já na porta do edifício, com um pé para fora.
— Então ela estava sem o anel no momento do ataque... — Maximilien imagina que situação poderia ter ocorrido.
— Realmente não faço ideia — Alfonso comenta — eu lembro dela perfeitamente bem naquela noite, estava saudável e segura, mas depois que voltei no dia seguinte, não encontramos nada da condessa. É como eu disse, parecia que a tinham engolido viva... Mas meus sentimentos, monsieur. Espero que a encontre logo — Alfonso coloca a mão no ombro de Maximilien. Eugénie estava com um rosto igualmente triste e preocupado — ...e pensar que agora temos de lidar com a morte de Sebastian só alguns dias depois... o que raios está acontecendo?
Maximilien guarda o anel em suas vestes. Sabia que o jardineiro tinha sido o primeiro a encontrar a mansão naquele estado deplorável, na manhã que se seguiu da noite em que houve o ataque. Sentia que Alfonso escondia algo, mas no fundo o caçador não desconfiava de sua índole. A melancolia parecia ser a mesma nos três.
. . .
Sob o céu chuvoso da tarde daquele mesmo dia, René se deslocava para Saint-Mandé, pequeno município no limite leste de Paris. O jovem caçador estava determinado a encontrar mais pistas sobre a morte de Sebastian e o desaparecimento de sua prima Antoinette, principalmente depois das últimas descobertas com Maximilien e Dr. Simon. Andando sobre um coupé alugado pela Ordem, pensava em sua família enquanto observa as últimas vias do 20° Distrito. Vindo de uma parte menos rica da família de La Fontaine, lembra-se de ter conhecido a prima só na idade adulta, após a morte do pai da jovem, um patriarca influente antes envolvido no golpe de estado que trouxe a família Bonaparte de volta à governança da França. Antoinette sempre fora tão enigmática quanto o pai. A bela dama de cabelos dourados se envolvia nos círculos sociais da mais alta classe, até mesmo em lugares os quais seu convite não era requisitado. Era grande surpresa para René o fato dela ter se apaixonado por um homem tão simples e humilde como Maximilien, num evento da guarda de Paris promovido por Nikola no Palácio das Tulherias. Talvez por isso a família de La Fontaine foi ficando cada vez mais afastada da mulher, que tinha potencial para se casar com homens tão mais ricos e importantes. De qualquer forma, René entendia a própria família já a considerar como morta.
Ao chegar no destino, depois de passar pelos muros de Thiérs, René salta e pede ao cocheiro para esperá-lo do lado de fora. Era uma rua um tanto deserta, afastada da igreja. Contava com dois pequenos edifícios ainda em construção e outras sete casas ao lado de terrenos baldios, bem aglutinadas umas às outras formando uma espécie de cortiço. René observa uma mulher dormindo com uma criança de colo por uma das janelas abertas e depara-se, estranhando, com um homem de costas segurando um guarda-chuva, observando a frente da casa de Claude Cuvier assim como René.
Chegando próximo à misteriosa figura que parecia aguardar-lhe, René a reconhece:
— Louis?
— Bonjour, Monsieur René. Esperava outro alguém? — O caçador de belos cabelos louros e olhos frios permanece sério mesmo que esboçando um sorriso retórico.
— O que faz aqui? Digo, você é responsável pelo 2° Distrito, não?
— Tenho meus assistentes cuidando de lá e o trabalho de vigilância só inicia oficialmente à noite — Louis fecha o guarda-chuva percebendo que a garoa já diminuía. Suas roupas pareciam molhadas já há um bom tempo — E Maximilien me contou sobre o caso, pediu para que eu viesse em seu lugar. Acabou de voltar do hospital, afinal.
— Ah, perfeitamente, é melhor assim... — René, já tão próximo da porta, observa a casa de dois andares com um suspiro — e então? Está aqui desde quando? Fiquei até agora no Hotêl de Ville esperando obter um mandato de Valentin para poder entrar nessa espelunca.
— Estive conversando com os vizinhos, obtendo informações do caso. Não há muito de relevante sobre Cuvier, depois mostro-te as anotações.
René acente desinteressado e logo se coloca rente à porta, respirando fundo para então executar um avanço de ombro contra o objeto. Nada acontece, René apenas cambaleia para trás e ajeita seu braço agora dolorido. Por mais que a madeira da porta fosse ruim, seus pregos estavam bem colocados e o loiro não teria botado tanta força em sua tentativa de arrombamento. Enquanto o caçador permanece num silêncio um tanto constrangedor, Louis levanta a sombrancelha e puxa dos seus bolsos um molho de chaves:
— Tenho uma ideia melhor.
Assim que Louis destranca a porta, René revira os olhos e se arma com seu revólver em posição defensiva. Já entrando, notavam um estreito corredor com duas portas e uma escada nas laterais, no fundo a cozinha. Não havia nada de errado na casa, apenas paredes mofadas e um chão empoeirado. Louis anda na frente observando os pequenos quadros que haviam por lá, fotos de Claude junto a amigos e companheiros de trabalho, em quase todas elas Sebastian estava junto.

— Então o mordomo da noiva de Maximilien era um vampiro... — Louis comenta esperando alguma resposta de René, que não demora:
— É, nem mesmo eu acreditei quando Dr. Simon nos mostrou. Mas não é a primeira vez que me deparo com um deles sendo alguém tão próximo... — O loiro caminha pelo corredor até chegar na cozinha, o maior cômodo da casa, com uma mesa de jantar no centro tendo espaço para quatro cadeiras.
— Maximilien era mais próximo do mordomo do que você, não? Lembro-me dele viajar muito mais para Fontainebleau.
— Sim, o que quer dizer? — René mexia nas gavetas e armários da cozinha, mais concentrado em procurar informações sobre Claude do que na conversa que Louis parecia levar.
— Não achas estranho Maximilien nunca ter percebido isso? Ele é um caçador experiente, deveria saber identificar vampiros, ainda mais depois de três anos perto de Sebastian.
— É... mas Maximilien sempre foi muito lerdo — não encontrando nada além de talheres e louça, René fecha as gavetas — só foi se casar depois dos trinta, haha! Mas olha, eu sou quase um cunhado dele, posso afirmar com toda a certeza que Maximilien é bem confiável. Hoje em dia, na real, ele parece um pouco alterado. O desaparecimento de Antoinette tá mexendo com ele. Sempre foi tão durão contra os vampiros... e agora ele parece estar amolecendo.
— Amolecendo?
— É, ele ontem me veio com um papo batido de "vampiros bons" — René ri balançando a cabeça em negativo — como se pudessem existir.
— Hm... — Louis para a pensar enquanto também investiga os móveis da cozinha — nunca entendi Maximilien, mas ele foi criado pelo próprio Nikola, é fácil reconhecer sua índole. Quanto a alguns outros da Ordem, é preciso cautela tratando-se do trabalho que fazemos...
René volta ao corredor abrindo as portas. Uma delas dava ao banheiro, a segunda a um quarto de hóspedes. Dali, responde:
— É, eu também não vou muito com a cara de todo mundo... mas olha aqui! Acho que era nesse quarto que Sebastian estava morando.
Os dois caçadores adentram o cômodo, um quarto até que grande com uma cama próxima à parede, um criado-mudo ao lado, um armário, uma escrivaninha e uma estante de livros. A janela jazia trancada. René não demora para abrir as portas do armário.
— Mas depertando-me a curiosidade, quem dentre os treze você não confiaria plenamente? — Louis continua com o assunto, com a pergunta soando quase como fofoca enquanto investiga as gavetas do criado-mudo.
— Bem... — René estranha, não esperava isso de Louis — pra ser sincero, nunca gostei da Catherine. Não sabemos nada sobre ela e ela tem umas ideias muito... progressistas. Fala de "direito das mulheres" e essas coisas, sem contar que ela nem é daqui! E, se me permite, acho que o Valentin não me parece competente o suficiente para ser um dos Trois Royaux.
— Entendo. Mas cá entre nós, o que achas que será da Ordem daqui pra frente? Com a aposentadoria de Nikola, é provável que Valentin seja o próximo "Rei", isto é, se Nikola não indicar outro alguém...
— É, e ainda temos os rumos da guerra... não sou bom com previsões — René para rapidamente de fuçar os itens de Sebastian e volta-se para Louis falando mais baixo: — Mas olha... você não ouviu isso de mim, ok? Me contaram que a Ordem parece estar se dividindo em dois grupos. Uns querem manter do jeito que tá, baseado nos pilares de Nikola, enquanto outros pensam em mudar as políticas da Ordem, principalmente no que se refere ao extermínio das criaturas da noite... falam até em permitir que o conhecimento sobre elas seja público... é um absurdo.
— Interessante... imagino que não saibas a posição de cada um dos caçadores — Louis analisa a informação com um sorriso singelo — mas tu se identifica com qual grupo?
— Ha, nenhum dos dois. Me deixa fora disso — René volta em sua busca pelo armário, encontrando apenas peças de roupa e pertences pessoais.
Já Louis, dando uma olhada no criado-mudo, encontra uma foto guardada na última gaveta. Havia Sebastian junto de um grande grupo de homens vestidos como intelectuais, sentados em cadeiras. Um rosto em especial chamava a atenção do loiro:
— Hm, veja só o que encontrei — Louis mostra a foto para René. Ali estavam não apenas Sebastian e Claude, mas também os rostos de Marx, Engels, Blanqui e outras figuras da esquerda radical européia no que parecia ser um comício com outras pessoas ao fundo. Ao ver a foto, René ri maliciosamente, percebendo que suas suspeitas se confirmavam:
— Mas nem fodendo... — René pega a foto para ver melhor — minha intuição não decepciona, viu?
E justo quando os caçadores encontravam informações relevantes, Louis e René escutam barulhos vindos do andar acima, como passos tortos a passar mancando sobre o piso de madeira. Ao ranger do teto, Louis cata seu Lefaucheux de calibre 7 mm antes escondido nas vestes, se levantando calmamente e se colocando perto da porta com cautela, enquanto René, parecendo já estar em adrenalina, não apenas carrega a arma, como também tira da bainha o seu sabre, movendo-se para a lateral da porta do quarto e ficando em guarda.
Com os sons cessando, um silêncio se instaura na casa. René, mesmo tentando ter a frieza de Louis,, ainda escutava o barulho do seu coração batendo rapidamente. Fazendo um gesto com o pescoço, indicava ao outro caçador para que saíssem do quarto em direção ao corredor. A passos lentos e silenciosos, ambos vêem a escada dando caminho para o andar de cima, com uma janela aberta no final deste. Apontando tanto a espada quanto o revólver para frente, René ruma a subir, com Louis logo atrás cobrindo a retaguarda. Notando os papéis de parede parecerem mais escuros que o normal, René chega ao fim da escada vendo uma porta à esquerda e outra à direita, ambas fechadas. Mas o que mais assustava eram as grandes manchas de sangue na janela se dividindo no chão, indo uma para debaixo de cada porta. Louis percebe que a visão para fora dela dava para a lateral de uma outra casa do cortiço bem perto, com manchas de sangue também na outra janela.
— Mas o que raios... — René percebe que o invasor teria pulado de uma janela para outra já sangrando. Já no andar de cima, buscando abrir a porta da esquerda, tenta intimidar: — Olha aqui! Seja quem for, saiba que estamos armados! Entraste na casa errada!
Com Louis se colocando do outro lado, na porta direita, René move a maçaneta percebendo que não estava trancada. Sendo assim, usaria agora seus grandes músculos de forma correta e, num breve instante de silêncio, dá um forte chute na porta em sua frente, de surpresa abrindo-a num estrondo e apontando as armas ao entrar com tudo.
Era um quarto normal, parecido com o de Sebastian. René não encontra nada por lá, mirando o revólver para o armário, cama e a janela que dava para a rua. Olhando para Louis no lado de fora, conclui:
— Ué, tem nada por... — a porta logo se fecha com grande força mesmo não havendo ninguém por perto para sequer tocá-la. René e Louis são separados enquanto o primeiro se assusta já metendo um tiro contra a parede. Louis, ainda sem reação mas percebendo a ameaça, abre a porta da direita, encontrando outro banheiro enquanto esperava achar a coisa inimiga escondida por lá. Fitando o espelho de cara, percebe o objeto se rachando em pedaços perfeitamente triangulares, que num piscar de olhos, saltariam no ar vindo contra a face do caçador como pequenas lâminas atiradas. Já em cautela com a mão na maçaneta, Louis fecha a porta com grande agilidade antes que os cacos do espelho pudessem acertá-lo. Ouvindo apenas o som dos estilhaços se quebrando no chão, o loiro se firma para a outra porta, onde René estava, tentando abri-la, mesmo que não conseguindo de primeira, parecendo haver uma força contrária não o deixando abrir.
René, do outro lado, começa a escutar sussurros em seu ouvido vindo por de trás e, ao se virar, percebe várias tarântulas no teto descendo em teias contra a sua cabeça, dezenas delas, começando a perambular por todo o seu corpo e adentrando em suas narinas, orelhas e até a boca quando começasse a gritar. Tentando tirá-las em vão, René se joga no chão, se debatendo e contorcendo-se em pavor. Fitando uma silhueta escura fitá-lo de cima, René tenta executar cortes contra a coisa, não acertando nada além das pernas da cama. As aranhas lhe mordem nos pulsos e braços, sentindo uma dor tão excruciante que seria obrigado a largar ambas as armas.
— Ad txelṣeḍ, a skum! — a criatura parece gritar algo sem sentido para René, numa voz tenebrosa que ecoava agudamente nos ouvidos do caçador, que nada mais conseguia fazer além de urrar desesperado até que finalmente Louis adentra a porta arrombando-a.
— Você — Louis parecia reconhecer a ameaça que jazia de pé sobre o o outro caçador. Uma mulher de aparência africana, com vestes longas e coloridas que a cobriam da cabeça aos pés, ensopadas de sangue — pensei que já tinha lidado contigo. Nesse caso... — Louis aponta o revólver contra a mulher.
— Mmut ay aqettal...! — e antes que esta pudesse completar suas palavras, Louis efetua o tiro contra o peito da mulher, obrigando-a a cair no chão em mais sangue.
René se ajeita assustado e respirando ofegantemente, vendo que as aranhas tinham sumido num piscar de olhos assim como a dor. Levantando-se abruptamente enquanto pega seu sabre, recua até botar as costas contra a parede, apontando a espada contra a mulher, percebendo que tudo aquilo tinha sido obra de bruxaria infame. Já Louis, caminhando até ela, notando-a engasgar-se com o próprio sangue ao tentar balbuciar mais feitiços, o loiro friamente carrega a arma novamente e aponta para a cabeça da bruxa, efetuando não apenas um, mas dois tiros para ter certeza de que estaria morta.
Um silêncio mórbido se instaura no quarto, com René sentado no chão, respirando e tentando entender a situação ao contemplar o corpo abatido ali. Louis, estranhamente indiferente, assopra o cano da arma e a guarda novamente após se alongar e estalar os dedos, enquanto vai absurdamente abrindo as portas do guarda-roupa de Claude, continuando a investigação da casa como se nada tivesse acontecido.
— Cacete, eu esperava um vampiro, não a merda de uma bruxa! — René reclama indignado — e você sabia dessa coisa, Louis?! Como assim?!
— Erro meu, pensei que tinha matado todos.
— Hã?
— Os vizinhos. Como achas que arranjei as chaves? Eram todos bruxos.
René se lembra da mulher na janela que havia visto antes de entrar na casa. Uma mãe junto ao seu bebê, mas percebia agora que não estavam dormindo. Estavam mortos desde que chegara. Louis havia feito uma chacina com os moradores do cortiço antes mesmo de se encontrar com René. Bom, se eram bruxos, "criaturas com a alma vendida ao Diabo", então tinha feito o certo, não? Exterminar o sobrenatural já era corriqueiro e tarefa tão simples... então por que René ainda se sentia tão mal?
— Mas olha aqui, René. Achei algo interessante — Louis mostra um bilhete que havia acabado de encontrar entre as vestes de Claude. Mudava de assunto mesmo com seus sapatos se molhando com a poça de sangue no chão.
. . .
Durante todo esse tempo do dia Charlotte teria ficado no casarão, onde finalmente teria conseguido dormir, dividindo o quarto com Luciene. Não havia sonhado com nada e acordaria no final da tarde, assim como as outras. Por lá conhecia Matthieu, um dos vampiros que também morava no casarão, parecia ser um jovem rapaz, mas dizia ter sido transformado no final das guerras napoleônicas. Era bem magro e tinha curtos cabelos castanhos. Durante as conversas demonstrava ser um homem culto, mas também de muito carisma e bom humor, o suficiente para rapidamente virar amigo da vampira. Além dele, o último que faltava conhecer era seu colega de quarto André, não estando por lá já que vivia no trabalho. Charlotte sente falta de Marjorie na casa, disseram-na que teria ido trabalhar mais cedo.
Com o dia se acabando, Matthieu sugere ao trio de mulheres para saírem a noite, nem precisando demorar já que as nuvens escuras no céu, mesmo diurno, forneciam certa proteção ao sol poente. O convite era para uma reunião aberta de estudantes e trabalhadores que organizavam os recentes protestos na Praça da Bastilha. Apesar do interesse de Charlotte, Matthieu só conseguiria convencer Natalie e Luciene depois de informar-lhes sobre os galãs e certos conhecidos que apareceriam por lá. Logo a vaidade de ambas lhes atrasam, com Natalie deixando as linhas de seus cabelos num penteado harmonioso com um diadema sobre, enquanto usava um vestido grisette de bustle atrás e decotes acima do peito e nas costas. Luciene trajava-se com um vestido evasê mais humilde, acompanhado por um bolero para esconder os ombros e um chapéu tirolês sobre os finos cabelos claros. Charlotte em contrapartida, vestia-se como antes, apenas com um xale cobrindo a parte de cima do corpo e um perfume de Luciene usado pouco.
Enquanto passavam pela ponte de Sully, já tendo saído de casa há um bom tempo e efetuando uma caminhada até a grande praça no 11° Distrito para economizar os gastos que teriam com transporte, já conseguiam ver o obelisco da Coluna de Julho estender-se iluminado com a luz dos lampiões.
— Espero que valha a pena, Matthieu — comenta Natalie junto ao vampiro, segurando-o no apoio de seu braço como se fossem um casal, por mais que o rapaz não fosse fã de mulheres, se é que me entendem — estou querendo dar um tempo do bordel.
— Não se preocupe, mademoiselle, garanto que León estará por lá e junto de Ayurek e James. A nossa sorte, cara amiga, é que eu soube que ambos estão solteiros agora — Matthieu dá uma leve risada e checa seu relógio de bolso — André deve nos encontrar também, a cafeteria já fechou a essa hora.
— S-só espero que — Luciene fala gaguejando — vocês n-não me deixem sozinha enquanto arrumam seus caras.
— Não se preocupe, ficarei contigo — Charlotte, com um sorriso carinhoso, estende o antebraço para a Luciene segurá-lo — também não tenho companhia.
Colocando as mãos em volta do braço de Charlotte, Luciene parecia um tanto cômica com sua altura avantajada sendo refém da vampira tão baixinha. Mas Charlotte, por mais que não parecesse, era muito mais velha que Luciene e por isso tentava passar um ar de segurança para a loira. Segundo o que Matthieu havia contado, Luciene tinha sido transformada há menos de um ano e por isso ainda tinha muitos problemas de insegurança rondando sua cabeça. A morena, numa situação tão diferente mas igualmente perdida, se identificava e compadecia-se para com a recente amiga.
Enquanto caminham em direção à praça, Charlotte nota uma figura um tanto inusitada aproximar-se do grupo. Uma mulher elegante toda vestida de preto, parecendo de alta classe, com um vestido longo permeado por babados e mangas de sino que escondiam as mãos, no topo um mantelet cobrindo os ombros e um chapéu casquette igualmente preto, cujas rendas serviam quase como um véu à metade do rosto. Tinha pele bem branca em contraste às roupas escuras e suas feições faciais pareciam vir de outro canto da Europa. Era uma viúva, acompanhada por dois homens de casacos grandes que pareciam seguranças. Seu andar imponente em salto alto viria a ficar entre o grupo, reconhecendo-lhes com um sorriso curto:
— Oh, Monsieur Matthieu, Manquer Natalie, que surpresa vê-los por aqui... devem estar indo por causa de André, suponho.
— Ora, se não é a Madame Catherine — Matthieu cumprimenta com um beijo na mão da mulher amiga de Dona Belle, a proprietária do casarão onde moravam — Bonne nuit, cara amiga. O que levas a madame para cá?
— Estou mais a trabalho. Querendo ou não, este evento está também na minha zona de minha influência, por mais que o 11° Distrito seja de outra pessoa...
— Creio que Dona Belle deva comparecer também. O que achas de ficar, Madame Catherine? — pergunta Natalie.
— Não tenho tempo para isso — e logo os olhos interessados de Catherine se dirigem para trás do casal, fitando Charlotte — mas antes, eu lembro-me da Srta. Luciene, mas não desta aqui... não vão me apresentar a nova amiga de vocês?
Charlotte, já se apequenando pela altura e imponência da viúva se aproximando, a cumprimenta com gesto de baile enquanto Matthieu dita:
— Ah, claro, esta é a Charlotte, nova no casarão. Marjorie a encontrou ontem... com certos problemas de memória, mas ela é adorável!
— Prazer em conhecer-te — a vampira esboça um rosto confiável.
— Hm, então é nova em Paris — Catherine se inclina aproximando sua cabeça, encarando-a — que estranho, sinto que já a vi em algum lugar...
— Eu... acho improvável — Charlotte recua um passo, um pouco desconfortável com a aproximação anormal, não conseguindo olhar por muito tempo nos olhos da mulher.
— Quem sabe... — Logo Catherine aproxima-se do pescoço de Charlotte e sussurra em seu pé do ouvido com um sotaque acentuado na letra "R": — Ah, tens um cheiro extremamente agradável, Charlie —e levantando a cabeça para voltar à posição ereta, Catherine deixa Charlotte e Luciene, que teria escutado ao lado, ambas sem graça com a atitude um tanto inusitada. A viúva então finaliza com as palavras antes de se despedir: — Bom, sejas muito bem-vinda a Paris. Se eu tenho um conselho a compartilhar é... que tenhas cuidado. Há muitas sombras na Cidade das Luzes.
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