Fraternité - O Sangue de Charlotte
4 Os Amantes e o Cavaleiro de Paus
Notas iniciais
Marjorie e Charlotte caminhavam pelas ruas do 13° Distrito, após um longo percurso por entre becos onde a luz do Sol pouco chegava. Era final da tarde, para que depois voltassem para casa já após o crepúsculo. Charlotte usava um elegante guarda-sol aberto acima de sua cabeça, dado por Luciene, cuja sombra era o suficiente para proteger-se dos raios solares, mesclada com as vestimentas que cobriam todo o corpo da vampira. Trajava um vestido de passeio, de saia longa azul até as canelas, que eram complementadas por botas pretas. Um cinto corset na cintura, ao superior a blusa branca de mangas engageantes, cobrindo dos ombros aos braços e finalizados por luvas que mantinham as mãos seguras do Sol. Um chapéu bonnet em sua cabeça garantia mais sombra ao rosto, além de ser bom acessório para seus cabelos castanhos agora presos num coque. Estava bem vestida e devia tudo isso aos esforços de Natalie.
— Vamos, querida, você pode andar mais rápido que isso. — Marjorie se vira para trás, vendo Charlotte se locomovendo até agora em pequenos passos, talvez pelo medo de se queimar.
— Estou indo... — Ofegante, a mulher evita admitir que andava lenta pela exaustão do trajeto e do calor que as roupas mais fechadas retinham em pleno verão.
— Estamos já chegando. A Cassandra é por aqui. Há bastante sombra.
— Eu... lembro-me de tu ter dito que criaturas como nós não podem andar sob a luz, mas... você está indo muito bem. — Charlotte continua seguindo, notando que Marjorie não estava nem um pouco protegida do Sol. Pelo contrário, usava um vestido promenade de cor alaranjada, com várias aberturas para os ombros, costas e mãos. Marjorie ri e responde:
— Bom, há outros significados para "luz"... — E notando que não havia muita gente por lá, continua: — Digamos que sou diferente.
— Hm, seria indelicadeza de minha parte interrogar... — Charlotte observa os arredores amplos ao sair do beco, já mudando de assunto: — Bem, você me disse que estamos em Paris, não?
— Sim?
— O que aconteceu aqui? Não me lembro de... ter ruas tão grandes assim ou... construções tão retas. Me sinto até perdida.
Marjorie continua andando e guiando o caminho, passando por alguns homens que protestavam na bulevar com gritos de insatisfação ao aumento dos preços. A mulher cumprimenta rapidamente alguns conhecidos com um sorriso e um aceno, já respondendo a menina ao atravessar a esquina: — Estamos em 1870. A Paris que deves ter conhecido já não existe mais. Décadas de retrocesso só resultaram no que vemos hoje... guerra.
— ...Em guerra? Contra os ingleses? Austríacos?
— Prússia e toda a Confederação da Alemanha do Norte. Mas é mais complicado do que parece... Eu diria que os nossos líderes são piores que os alemães. Uma guerra civil é só questão de tempo.
Ambas se preparam para atravessar a rua enquanto Charlotte para a pensar. Muito do mundo o qual ela se lembrava havia mudado.
— Questão de tempo... — repete as palavras da mulher, sentindo uma leve melancolia nostálgica de uma época que nem se lembra de ter vivido, até que começa a atravessar a rua com um olhar de curiosidade, apontando para um instrumento bem novo aos seus olhos andando próximo às carruagens: — Ei... Olhe, Senhorita Marjorie! O que é aquilo?!
Era uma bicicleta velocípede, com sua grande roda dianteira como diferencial. Um homem de traje formal a pilotava de nariz empinado enquanto passa pelas duas mulheres, seguindo seu caminho na rua até sair de cena. Marjorie ri um pouco antes de responder, inclusive puxando Charlotte para acelerar o passo e sair do meio da bulevar antes que algum cavalo a atropelasse:
— Uma bicicleta, oras! Ha, você realmente... Não há memórias frescas de que se lembra?
Agora do outro lado, ambas adentram um beco coberto por vinhas crescendo pelas laterais dos muros e paredes edificadas.
— Não posso afirmar com certeza. Tenho lembranças vagas, mas nenhuma tão recente quanto as de hoje... Na verdade, talvez... — Charlotte tentava pensar com clareza enquanto andava: — Bom, lembro-me de passar dias reunindo cartas e ditando fatos a um homem sobre meu passado...
— É? Sobre que passado? — Marjorie finalmente para, como se tivessem chego ao destino, encarando um muro com grandes vinhas cobrindo-o por inteiro.
— ...Sobre o que já vivi durante a Revolução.
— De 48?
— Hm? Não, oras, falo da Bastilha!
Com a resposta de Charlotte, Marjorie a olha incrédula, até que, piscando e levantando sua mão esquerda com um gesto de dedos, se volta solenemente para o muro e diz palavras desentendidas:
— Deschide, soră.
As vinhas rapidamente começam a se mexer colocando-se em posições retas e em diferentes direções, formando um grande retângulo vertical como um desenho de porta naquele muro, tendo as vinhas como extremidades. O reboco parecia estilhaçar sozinho de cima para baixo, caindo pedaços de gesso no chão até dar espaço para uma elegante porta de carvalho que agora sobressaía-se naquela moldura. Charlotte fica surpresa e se perguntando o que raios acabou de acontecer. Marjorie olha para os dois lados, confirmando não haver terceiros por perto.
— É aqui. — Diz logo antes de bater na porta.
Por um instante, nenhuma resposta, até que bate novamente.
— Só um minuto! — Uma voz feminina vem de dentro, aparentemente deixando algumas moedas caírem ao esbarrar em algo, deduzível pelo som de pequenos metais atingindo o solo consecutivamente após um leve estrondo. Charlotte permanece quieta e evita perguntar enquanto admira o local deserto, num beco aleatório da periferia do 13° Distrito. A porta se abre assim que a proprietária surge com um sorriso maroto:
— Ah, querida Marjorie, quanto tempo! Gostaria de ver seu futuro no amor de novo? — Era uma mulher bem madura de etnia romani, com sedosos cabelos negros presos por uma fita rubra e seu batom igualmente vermelho realçado pelo tom de pele mais escuro. Usava grandes brincos de argola e vários cordões nos braços e pescoço onde pendurava-se moedas. O mais notório para Charlotte eram as vestimentas. Tecidos largos se sobrepondo no longo vestido de cigana em cores vibrantes nas roupas extravagantes, tão distoante do meio urbano cinzento.
— Hm... na verdade, não. — Marjorie responde um pouco sem graça, até que aponta para Charlotte: — Estou querendo saber sobre essa aqui. Memórias perdidas.
— Prazer. — A vampira estende a mão.
— Charlotte, esta é a Cassandra... ou Angelika Moldovan para os íntimos.
— Oh, sim, a caríssima "Charlie"... Já estávamos aguardando por ti, meu bem. — A mulher se aproxima da tímida vampira agarrando a mão que cumprimentava, analisando-a dos pés à cabeça, até que abre espaço para as convidadas passarem: — Por favor, entrem, temos muito o que conversar.
Adentrando a porta de carvalho, Charlotte percebe uma grande sala iluminada por velas, de móveis rústicos e decorações estrangeiras, bem maior do que parecia no muro lá de fora. Enquanto a garota observa com curiosidade os artefatos esotéricos espalhados pelo cômodo, Marjorie se senta numa poltrona próxima e Angelika fecha a porta.
— Ainda me pergunto a necessidade disso. — Comenta Marjorie a respeito da entrada.
— Segurança. Clientes humanos é uma coisa. Atender vampiros é outra. — A cigana responde, já olhando para o rosto de Charlotte: — Oh, não é você o problema, meu bem. Só não posso ser vista por aí brincando com o sobrenatural... há muitos caçadores em Paris e a situação aqui tá cada dia mais caótica... até fechei minha tenda na feira de sexta.
— És igual a Srta. Marjorie? Digo, que relação tens com... vampiros? — Charlotte pergunta.
— Ah, não, claro que não. Somos bem diferentes. Marjorie é uma bruxa. Eu sou só... uma cartomante solteirona com alguns amigos da noite... Mas a porta é um dos presentes mágicos da minha irmã de Bucareste. Eu não saberia fazer algo assim.
— Espera, bruxa?
— Sim, de uma antiga convenção. — Responde a própria Marjorie, suspirando: — Mas eu mal pratico hoje em dia, considere-me aposentada.
— Modéstia... — Angelika corta: — Mas oras, vieram cá por um motivo, não? Me diz, amiga, onde a encontrou?
— Numa das ruas do 5° Distrito. Um dos moradores de rua, o Seu Jorge, encontrou-a jogada na sarjeta, queimando. Foi um milagre ter sobrevivido.
Charlotte sorri para Marjorie, que retribui. Angelika pergunta:
— Hm, e a nossa pequena Charlie se lembra do quê?
A vampira desvia o olhar e, antes de falar qualquer coisa, Angelika continua:
— Espera, não diga mais nada. Vamos descobrir com tarot! Vou preparar um chá de romã, vão querer? Charlie precisa. — E logo a cigana toma rumo para outro cômodo.
— Eu dei a ela um chá de alecrim. O efeito mágico não deu certo. Até alimentei, mas ela nem tocou na comida. — Marjorie vai falando com Angelika à distância.
— Desculpe-me, Srta. Marjorie. Eu só... não sinto-me bem para comer. Quando acordei, tudo o que vi foi sangue... — Charlotte responde cabisbaixa: — Era um duelo entre dois homens. Sinto que eles podiam responder minhas dúvidas, mas... um deles matou o outro antes mesmo de eu entender o que estava acontecendo.
A garota olha para Marjorie, ainda pensativa, e continua:
— Estamos em 1870, certo? Já fazem oitenta anos... e eu ainda vejo cabeças sendo cortadas.
Angelika aparece encostada na quina da porta, segurando um bule:
— Você veio daquela época, não...? Da Revolução.
E esperam a resposta de Charlotte, que mesmo quieta, não demora:
— Sim. Disso eu me lembro.
Um certo silêncio recai entre as três, até que Angelika retorna a preparar o chá:
— Isso é bom. Já temos onde começar.
Charlotte sorri, mas ainda com uma pitada de receio estampado na face. Marjorie comenta:
— Vai valer a pena. Angelika já foi aluna do próprio Éliphas Lévi.
— Falando em magia, vou precisar de uma ajudinha aqui, amiga! — Angelika grita da cozinha.
— Hm? — Marjorie já levanta, mesmo que esboçando cansaço, indo em direção à cozinha. — Eu já disse que não faço mais!
Charlotte fica sentada apenas observando. Aparentemente, a cigana precisava de um "feitiço piromântico" para acender o fogão à lenha. Marjorie demora cerca de um minuto e meio para conjurar o que seriam faíscas, com esforço físico e mental para se lembrar do processo, enquanto discutia com Angelika. Até mesmo a vampira, que jamais vira algo parecido, percebia a demora não ideal na execução daquilo de chamavam de feitiço. Até o chá ficar pronto, alguns poucos minutos iriam passando, com Marjorie contando mais detalhes sobre Charlotte para Angelika, enquanto a vampira aproveita para ver o que Cassandra mantinha de material de leitura pela sala. Entre alguns livros como "Dogma e Ritual da Alta Magia" e "O Livro dos Espíritos", estavam também a revista "Les Belles Femmes de Paris" e algumas edições de "Le Rappel", um jornal que parecia informar os acontecimentos dos últimos meses. Dentre as manchetes estavam notícias sobre insurgências crescentes nas cidades de Le Creusot, Pfastatt, Mulhouse e Lyon, lideradas por sindicatos e trabalhadores.
— Um espectro ronda a Europa... — Cita Marjorie em tom risonho, observando de trás o que Charlotte lia, esta que responde:
— Oh, pois é... Eu admiro! Afinal, é quase como se... os ideais que eu conheci ainda estivessem aqui.
Trazendo duas xícaras de chá já pronto, Angelika serve-as para Charlotte e Marjorie enquanto comenta:
— Para dizer bem a verdade, eu não conheço muito da história francesa antes de Napoleão. Meus pais vieram da Transilvânia, então... Mas diga-me, Charlie, se lembra de já ter tido contato com o místico?
A cartomante se senta na redonda mesa vermelha ao centro da sala após pegar uma pequena caixa de metal de uma estante próxima, donde retira um baralho de 78 cartas divididas em dois bolos, um com vinte e duas e outro de cinquenta e seis. Era um clássico Tarot de Marselha. Charlotte responde após tomar o chá:
— Já ouvi falar, mas se eu já tive alguma experiência, certamente não me lembro.
A garota coloca a xícara na mesa e se senta na cadeira de frente a Angelika, que embaralhando as cartas de diferentes modos, sem misturar os dois bolos, esbanjando destreza nas mãos e uma gesticulação solene, retoma a fala:
— Bom, o tarot serve para contar muitas histórias. Com a energia vibracional certa e muito conhecimento, é possível até obter respostas para as perguntas mais abertas em sua vida... — Ela termina de embaralhar, fazendo dois montinhos no meio da mesa: — Combinei com Marjorie que farei uma sessão especial contigo, pela nossa amizade. Não cobrarei o preço que geralmente cobro, mas não garanto que todas as respostas virão de uma vez. Por isso é bom que venhas novamente... e com dinheiro.
Charlotte acente com a cabeça enquanto Marjorie revira os olhos. A bruxa decide ficar na poltrona, no escuro longe das velas, distante da mesa para não atrapalhar.
— Certo, agora me dê suas mãos e feche os olhos. Como eu disse, precisamos entrar em vibração. — Angelika diz já estendendo seus braços pela mesa, seguida por Charlotte.
Por alguns segundos, Cassandra permanece calada e toda a sala parece mergulhar num silêncio sepulcral, até que ela volta a falar, em tom mais baixo:
— Oh, amigos do além... conceda-nos vislumbrar o caminho de minha consulente... seus acertos e erros... suas pegadas e destinos.
Com Angelika novamente calada, Charlotte abre os olhos momentaneamente e logo é intimada:
— Mantenha-os fechados. Agora é o momento que fará a pergunta. Pense na questão que mais lhe atormenta atualmente. Não precisa me dizer.
Charlotte pensa conforme dito. Não possuía somente uma dúvida, tinha várias, mas tenta sintetizá-las numa única questão que via de empecilho desde que acordara no caixão: "Quem eu sou?".
Angelika solta as mãos e volta a abrir os olhos: — A que farei a ti é uma tiragem poderosa, conhecida como Cruz Celta. Usaremos 10 arcanos maiores e outros 10 menores para complementar, há muito a se revelar. Por favor, então, retire uma carta dentre essas vinte e duas. Pode ser qualquer uma.
Charlotte com leve hesitação move seu palmo esquerdo ao baralho que Angelika apontava, retirando a primeira carta da superfície do bolo, sem ver sua face antes de colocar virada para cima no meio da mesa. Era a carta de número XX, desenhada com um anjo tocando uma trombeta, embaixo escrito "Julgamento".
— Uh, interessante... — Angelika comenta com um sorriso, enquanto retira outra carta, dos arcanos menores, para colocar junto da primeira: — O Julgamento e um 6 de Copas...
Enquanto Angelika analisa com fervor, Charlotte estava desentendida e Marjorie aflora sua curiosidade ouvindo tudo. A cigana continua:
— O centro da cruz é teu estado atual. E como esperado, é ligado a memórias que já foram perdidas... Você as quer de volta não somente pra saber quem é, mas também porque guarda com carinho afetos que nem se recorda mais... Mas há elementos de angústia nesse passado. O Julgamento deixa isso claro, até mesmo apontando como essa palavra de "julgar" apareceu bastante em sua antiga vida. E como no capítulo 20 do Apocalipse, você voltou dos mortos, Charlotte, por ecos de redenção que agora reverberam num ultimato conflitante... o "dia do julgamento final", já aconteceu ou ainda virá?
A garota fica pensativa olhando para a carta, percebendo que talvez Cassandra não era apenas uma charlatona. Marjorie quebra o gelo:
— Hah, não precisa assustá-la, Angelika.
— Certo, mas... — Charlotte indaga: — De qual forma esse "julgamento" aparece a mim agora?
— Essa é questão da próxima carta, vai representar aquilo que a opõe. — Angelika gesticula de braços abertos, esperando que Charlotte tome novamente um arcano maior. Fazendo isso, a vampira rapidamente a vê para si e comenta aliviada:
— O Sol! Do pouco que conheço, é bom sinal, não?
— Hm, coloque-a de lado, abaixo do Julgamento. — Orienta Angelika ao obter a carta complementar, um 2 de Espadas que se junta à mesa. — Para falar a verdade, é um pouco irônico que a carta de oposição a uma vampira seja justamente o Sol, quase como se a alegria comum não fosse a mesma que a tua. Mas o arcano menor aqui sugere um conflito interno, felicidade ofuscada por dialética.
— Está me lembrando Hegel... — Comenta Marjorie, ouvindo enquanto lê uma das revistas.
— Conversando com a primeira carta... — Cassandra continua: — há uma batalha entre passado e futuro, dentro e fora de ti. Me atrevo a dizer que tu já fostes alguém importante, de uma família importante... Mas que talvez, buscar o seu passado agora não seja a melhor opção e sim desapegar-se.
— ...Certo. — Charlotte não parecia muito satisfeita com as recomendações, por mais que Angelika parecesse realmente ler ela.
— Dúvidas?
Charlotte nega com cabeça. Angelika continua:
— Bom, a próxima carta me dará noção do que se passa em tua mente. Vamos, pode ir.
Novamente, Charlotte retira junto de Angelika. Eram sobrepostos O Louco e um 3 de Copas, numa posição acima das cartas anteriores, formando uma coluna pela perspectiva da vampira.
— Hmpf, já esperava que o Louco viria. — Diz Angelika, confiante: — Está começando uma nova jornada, pequena Charlie, você mesma percebe isso e se sente perdida neste novo mundo desconhecido. Mas sabe que encerrou um ciclo de conflito no momento em que parou naquele caixão. Agora que acordou, teve a sorte de ser agraciada por mulheres de bom coração, isso já é motivo de gozo. Guiaram-na aqui para desenterrar mistérios, mas por mais que queira essas memórias de volta, tu sabes que não dá para voltar atrás. Tens de seguir em frente.
— Entendo... — Charlotte batia o pé no chão repetidamente, evidenciando uma certa impaciência que tentava esconder: — Ahm, você realmente parece descrever o agora e como eu me sinto... Mas no que isso ajuda a entender quem eu fui? Gostaria de lembrar pelo menos meu sobrenome...
— Hm... A pergunta que fizeste foi "quem eu já fui" ou "quem eu sou"?
Charlotte percebe o erro e se cala com uma expressão dúbia. Angelika ri e continua:
— Oras, a espiritualidade não revela o que queremos e sim o que precisamos. Mas para sua satisfação, eu consigo entender um pouco de sua "vida passada" apenas com as cartas que tivemos aqui... Você é uma mulher que sempre buscou o progresso. Defendeu a Revolução com unhas e dentes... ou presas. E mais... — Angelika apoia o queixo em suas mãos, demonstrando um olhar fofo para a garota: — Você valorizava sua família e a fraternidade acima de tudo.
— Hm, é... — Charlotte fica pensativa: — ...são pistas interessantes, mas nada revelador. Digo, isso pode descrever muita gente, não?
— Se você diz... — Angelika retoma com as cartas: — Agora vamos ao seu inconsciente. Talvez nem mesmo saiba o que procuras.
Dizendo isso, a cartomante deixa Charlotte pegar a quarta carta nos arcanos maiores. Revelando-a próxima de seu rosto, a vampira a lê como "Sacerdotisa", uma papisa de mantos azuis com um livro e uma coroa.
— Um 2 de Copas e a Sacerdotisa... — Diz Cassandra tomando um arcano menor e colocando-o junto à carta de Charlotte, deixando-as na parte inferior da coluna de cartas se formando na mesa: — Está saindo bastante copas, não? Talvez um chamado de sentimentos? Enfim, essa combinação é atraente ao meu ver... Vendo no âmago de seu interior, as cartas nos dizem que você é a própria Sacerdotisa agora. Possui segredos valiosos que ainda não entende, mas que muitos correrão atrás. As respostas estão dentro de ti, mas precisará da ajuda de um certo alguém para encontrá-las... Há um homem que não sai de sua cabeça, estou certa?
— ...Sim. De fato há — Charlotte confirma. A figura de Maximilien era presente em seus pensamentos, sem nem conseguir esconder — e eu sinto que ele deve ter respostas sobre mim. Sinto que devo encontrá-lo.
— Bom, é melhor ter cuidado. Pode seguir sua intuição, mas o que cerca vocês dois pode ser mais sombrio do que imagina. Dualidade essa que lhe trouxe, mas não sabemos como vai terminar.
A garota reside em silêncio. Marjorie teria deixado a leitura de lado para prestar atenção na sessão. Já Angelika, avança para a próxima carta e Charlotte faz o mesmo, esta que estranha a figura vindo de cabeça para baixo e logo a vira, sendo repreendida por Cassandra:
— Não, não. Veio de ponta-cabeça? Deixe-a como está. Coloque na esquerda da coluna, é um dos braços da cruz. Agora veremos talvez o que você mais estava esperando.
Pairava ali na mesa, então, o arcano da Torre, mas invertido. Junto a ele, o Rei de Paus.
— Uau... — Impressiona-se Angelika, inclinando-se interessadíssima: — Eu não esperava por essa.
— Hm... eu sei que a Torre é um mau sinal...
— Muito mais que isso. A combinação não poderia ser mais clara. Essa parte da Cruz Celta nos conta o seu passado. Esse período conturbado de mudança extrema que a Torre revela...
— 1789. — Marjorie comenta, se intrometendo brevemente.
— Você teve um papel central na Revolução, querida... Não só isso, mas experienciou uma perda imensurável para ti, como fruto da violência gerada. Talvez algo de si mesma... ou alguém muito importante em sua vida.
Neste momento, Charlotte sente sua pressão cair, colocando a mão na cabeça e inclinando-se um pouco para os lados, até que tombasse pela sua esquerda, caindo parcialmente da cadeira.
— Charlotte?! — Marjorie se levanta para ajudar a garota.
— Oh... Você está bem, Charlie? — Angelika se levanta igualmente.
A mente da vampira parecia recuperar memórias que sem demora eram esquecidas, como lembranças de um sonho confuso ao acordar. Em um breve momento, observa com clareza milhares de pessoas em volta da Praça da Concórdia, atentas à lâmina da guilhotina que caía no cadafalso pela plataforma central. Muitos comemoram com as cabeças rolando, mesmo que a água do Sena parecesse ficar vermelha com a quantidade de sangue derramado. Uma das cabeças paira na frente da garota, parecendo tão idêntica ao rosto de Augustin que viu nas catacumbas. A mesma cabeça diz algo a ela, mas não dava para escutar suas palavras.
Charlotte volta a si, segurando o próprio pescoço com uma das mãos e tremendo-se um pouco. Marjorie e Angelika teriam a colocado de volta na cadeira e estavam em sua frente, tentando ver o que havia de errado com sua saúde.
— Tão pálida... ela não parecer estar bem. — Diz Angelika: — Será que é falta de sangue? Não conheço a biologia dos vampiros.
— Eu dei meu sangue quando a trouxe para casa. — Marjorie responde: — Não foi muito, mas ela conseguiu curar as feridas.
— Quê? — Charlotte demonstra-se um pouco indignada: — Me fez beber seu sangue enquanto eu dormia?
— Sim, foi necessário. Bom, bastou encostar meu pulso nas presas.
— Não... — A garota se levanta e coloca a mão em sua boca, se sentindo enojada. — Eu não quero isso... Perdão, mas eu não quero tomar o sangue de ninguém.
— É a primeira vampira que eu ouço dizer isso... — Angelika comenta ao sentar-se na cadeira novamente.
— Eu entendo... — Charlotte continua, deveras depressiva: — Com certeza foi necessário, mas eu não consigo me imaginar bebendo... Já vi sangue demais para uma vida.
Marjorie apenas se senta na poltrona, agora quieta. Não havia muito o que pudesse dizer.
— Bom, tudo isso condiz com as cartas — Cassandra volta a falar — mas lembre-se, Charlotte, a Torre invertida nos fala que há problemas do passado que ainda não superou. E você está aqui por uma razão, talvez seja isso que o Rei de Paus queira dizer. Ou essa torre construiu-se envolta por tirania ou a mudança que estava por vir foi destruída. Sua própria determinação foi levada e cabe a ti recuperar.
Charlotte suspira e volta a sentar próxima à mesa.
— Consegue continuar? Podemos parar se quiser. — Marjorie pergunta.
— Obrigada... mas sim, quero saber mais — a mulher se mantém decidida, vendo potencial no que a cruz dizia — acabei achando mais produtivo do que pensava.
— Tá, de qualquer forma posso parar nessa etapa. Será uma das mais importantes. Podemos ter um leve vislumbre... sobre o seu futuro.
Charlotte confirmando, Cassandra e ela tomam os arcanos e os colocam sobre a mesa, do outro lado da coluna, firmando o desenho de uma grande cruz formada pelas cartas. O Julgamento e o Sol no centro, o Louco em cima e a Sacerdotisa embaixo, a Torre de um lado e por fim, Os Amantes do outro.
— Os Amantes e o Cavaleiro de Paus... — Angelika suspira e analisa bem o jogo por um tempo antes de falar — Há muitos significados, mas baseando-me no conhecimento que tive de ti até então, tenho duas hipóteses claras. Você embaracará nesta nova vida junto de alguém cujo laço será firme, muito provavelmente de amor. E terás de tomar decisões importantes de acordo com o que seu coração falar, inclusive revivendo o passado e encarando mudanças que afetarão muitos além de ti. Apesar de ter alguém para lhe salvar, no fundo é você quem tomará escolhas com vidas alheias nas mãos.
— Oh, então terei um cavaleiro a me proteger? — Charlotte sorri brevemente enquanto olha a carta dos Amantes, se imaginando involuntariamente com a figura do caçador e até mesmo ignorando o resto da previsão devido ao fervor em sua mente romantizada. Por mais que Maximilien fosse assustador aos olhos dela, a garota não conseguia tirar da cabeça o sabor tão viciante de seu sangue que, mesmo negando a vontade como um voto de castidade, no fundo ela queria provar de novo aquela doce gustação de pecado... Mas sem se aprofundar em tais pensamentos, piscando e voltando a si, Charlotte dá continuidade: — ...E a outra hipótese?
— Bom... — Cassandra se ajeita na cadeira, atenta às visões mais pessimistas: — Considerando uma visão geral da cruz, seu destino pode ser afetado por desilusões e trará grandes consequências a terceiros. Tu és o Cavaleiro de Paus e não um dos amantes. Apenas está entre eles, como um obstáculo a separá-los ou uma chama guia. Caberá a você decidir, mas é certo que a imprudência irá levar-te a um caminho trágico. Uma grande mudança virá e tu estarás no cerne do conflito... Não tenho um conselho final ainda, mas digo apenas que... apegue-se à fraternidade de seu passado para salvar quem ama, mesmo que haja sacrifício.
As três mulheres ficam em silêncio. Angelika parece cansada depois de tanto falar, mas aparentemente havia colocado um grande esforço mental e espiritual naquelas palavras, que fariam Charlotte e Marjorie refletirem, com a primeira tendo de engolir as previsões indesejadas. A cigana se levanta para tomar um copo d'água enquanto diz:
— Terminamos por aqui.
— Mas não eram dez cartas? Só foram seis — Charlotte reclama.
— Não estás em plena condição de continuar... precisa de descanso. E bom, é para isso que há de ter outras sessões, haha. Se quiser saber o resto, volte com pelo menos quatro francos.
— Eu disse a ela para descansar em casa. — Marjorie vai se levantando, pronta para ir embora: — Natalie e Luciene dormem ao dia, a noite é mais receptiva para vocês.
— Ah, eu até tentei... — Charlotte olha para as cartas na mesa antes de se levantar — mas sinto que já dormi por tempo demais.
— Esse é o espírito, cavaleira. — Angelika continua sentada, dedilhando o bolo de cartas ainda não jogadas.
— Para ser sincera, prefiro a primeira hipótese. — Charlotte comenta descontraída, já tomando de volta o guarda-sol de Luciene em mãos: — Mas muito obrigada, Srta. Moldovan. Sinto que realmente valeu a pena.
— Claro... Eu que o diga. — Responde Cassandra, disfarçando a espionada que havia dado na próxima carta que Charlotte possivelmente pegaria na superfície do baralho caso continuasse jogando. Embaralhando-as enquanto Marjorie se despede, Angelika gostaria de evitar que o próximo arcano da vampira fosse aquele de número XIII, desenhado um homem esquelético colhendo corpos com uma segadeira: A Morte.

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