Fragrância de Rosas

1 Por Que Me Deixaram Só?


Notas iniciais
Apaixonada como sou por esse casal, não dá para deixar de escrever sobre eles. Espero que gostem. Vão ver algumas coisas um pouco diferente, mas acredito que surpreenderam.Até!

Era quase fim de tarde, e várias moças terminavam de recolher as cestas com as azeitonas colhidas naquele local. As oliveiras estavam no seu momento mais produtivo.

Eu era uma dessas colhedoras que agora encerrava meu trabalho. Dobrei meu avental e o coloquei na pequena bolsa de tecido onde carregava uma pequena vasilha com minha refeição.

Estava apressada pois a noite logo chegaria, e a vila onde eu morava ficava há oito quilômetros do campo de Oliveiras. Estava tão focada na minha tarefa que não percebi de imediato. Logo meu olfato me incomodou trazendo recordações que eu tanto queria esquecer.

Infelizmente aquela fragrância de rosas só me fazia lembrar uma única pessoa: senhor Albafica. O cavaleiro de ouro de Peixes. E lá foram minhas lembranças me levando para longe daquele campo.

Fazia oito anos que ele partira, entregando sua vida para defender a vila de Rodório. Ter que assistir sua morte era uma das razões que me fizera ir embora definitivamente daquele lugar. Sempre soube que essa era sua missão. Mas por Athena, quem é que manda nos próprios sentimentos?

Com certeza fui uma das vítimas do tolo Eros. Sua divindade sem juízo! – pensei comigo.

Havia passado tanto tempo desde o dia em que perdi as duas pessoas mais importantes para mim: meu pai e o senhor Albafica, não, Albafica. Havia passado tanto tempo desde o momento em que definitivamente deixei de ser a menina sonhadora e tive que encarar a dura realidade da morte e da solidão.

Por que vocês me abandonaram? – Suspirei.

A guerra santa havia terminado algum tempo depois levando tantas pessoas boas e corajosas embora. Aquilo era cruel demais. O santuário havia sido destruído. Athena, o mestre e praticamente todos os cavaleiros dourados haviam sido mortos. Poucos sobraram para reconstruir tudo. E para quê? Para ser destruído novamente e muitos serem mortos quando Hades voltasse.

Visitava o túmulo dos cavaleiros quase todo mês. Ajudava a cuidar, levava flores. O cavaleiro de Áries, um dos sobreviventes e agora mestre do santuário, me deixava entrar no cemitério, apesar de não ser permitido para as pessoas de fora do santuário.

Mas visitei o túmulo dele por semanas afinco durante dois anos. Era doloroso saber que de repente parte do meu coração estivesse ali, enterrada. Por que era assim que me descobri sentindo. Uma dor esmagadora cada vez que lembrava que nunca mais o veria.

O que eu estava pensando? A apaixonada, perdidamente apaixonada era somente a mocinha boba aqui. Provavelmente, Albafica tenha percebido meus sentimentos, mas seu destino já estava traçado. E mesmo que não, eu era apenas uma menininha apaixonada por um homem feito.

Ele nunca me deixou aproximar. Por causa do sangue venenoso. Mas será que deixaria se fosse um simples homem?

Quantas dúvidas? O que importa agora? Nada será respondido mesmo. – pensei comigo.

Enquanto retirava o lenço dos meus cabelos lembrei-me do dia que cheguei à vila que morava atualmente.

Queria esquecer tudo. Todas as mortes. Todas as saudades. Todas as tragédias. Queria recomeçar minha vida. Tinha 15 anos e nenhuma família. Pouca coisa havia sobrado da minha casa, e vivi muito tempo trabalhando como serva para famílias abastadas da região.

Mas eu tinha uma vida inteira pela frente. E nada, nada mesmo me prendia mais ali. Foi numa tarde de verão que decidi ir para uma vila distante de Rodório onde havia trabalho para moças. Nada muito pesado. Colheria azeitonas numa grande propriedade da região. O trabalho era constante, mesmo quando as azeitonas diminuíam, pois havia as podas e limpezas do solo. Era um local tranquilo, e fui bem recebida pelas famílias alegres que ali viviam. Muitos eram italianos ou descendentes. E rapidamente eu estava aprendendo um pouco do italiano também.

Me despedi dos poucos amigos que haviam sobrado. E tem seis anos que estou nesse local tentando sarar minhas feridas, curar meu coração. Mas tudo que consigo é sentir essa fragrância castigadora.

__ Agasha! Até mais! – Era Bella que se despedia.

__ Até mais Bella.

Ela era uma das poucas amigas que eu tinha, e morava junto com a família numa pequena casa na propriedade do dono dos campos. Sua família toda trabalhava para esse senhor há muitos anos.

Logo, passei um laço na abertura da simples bolsa. Ajeitei minhas sandálias e meus cabelos. Quando segurei minhas coisas para me levantar do banco onde estava, ouvi uma voz falando educadamente:

__ Senhorita, poderia me dizer qual estrada devo seguir para chegar à vila de Mavrias?

__ Claro, o senhor deve seguir... – quando o fitei meu coração acelerou, minha respiração disparou e minha visão foi ficando turva... turva...tur...

***

Comecei a sentir um baque. Seria um terremoto? Outro baque? Passos? Onde eu estou? Fui abrindo lentamente os olhos e a luz do sol já estava desaparecendo. Senti que estava sendo colocada escorada em algo.

Tentei fixar a visão em algo. Alguém? Os cabelos balançando. Aquela expressão de preocupação. Ele se abaixou e me fitou também. Minha pressão foi desaparecendo, minha cabeça rodando e tudo foi ficando escurooo...

__ Moça! Moça! – Senti uma batida leve na minha mão. – Acorde por favor!

Fitei-o novamente arregalando os olhos. E fui fechar novamente os olhos acreditando ser uma visão, uma ilusão.

__ Ei, ei! Não moça, não desmaie de novo! – E ouviu o gemido dele. – O que farei? Não posso deixa-la aqui desse jeito. – Ouvi a voz dele novamente. – Moça!

Abri os olhos e tentei entender a graça nessa ilusão. Eros não podia perseguir outra pessoa não?

__ Você está bem, moça? – era ele.

Não podia, isso era impossível. Será que morri e não percebi. Me dei um beliscão. Ai, isso dói! Fitei-o novamente. Não podia, não podia. Ai podia sim, podia sim. Talvez meus desejos fossem tão fortes que algum dos deuses teve pena de mim.

__ Como se chama? — Ele baixou os olhos com tristeza.

__ Não sei, não me lembro.

__ Como assim?

__ Minha memória parece ter desaparecido.

__ E de onde você vem?

__ Na verdade para onde vou é mais importante. Preciso chegar ao vilarejo de Mavrias.

Tudo era igual a ele, tudo! Só uma coisa não era. Ele não evitava ficar perto de mim. Carregou-me, eu tinha certeza. O que tudo aquilo significaria?

__ Certo! Por coincidência moro lá. Você tem algum parente ou amigo lá?

__ Não!

__ Por que quer ir para lá? – Que estranho!

__ Eu só sei que preciso ir para lá.

__ Me acompanhe. Vou te levar até lá. E obrigada cuidar de mim.

__ Deve estar doente. Deveria se cuidar, moça.

__ Não se preocupe. Não é doença. E me chamo Agasha.

__ Agasha? Esse nome não me é estranho, mo... senhorita Agasha.

__ Só Agasha.

Caminhamos um pouco em silêncio. Aquilo tudo era demais para mim. Eu tinha a cópia do Albafica na minha frente, mas este não sabia nem seu nome. Os deuses deviam olhar para a minha vida e pensar: ela tem que sofrer mais, não foi o suficiente ainda.

Ao chegarmos à vila, os olhos do jovem homem ficaram perdidos. Parecia indeciso com algo.

__ Esta é Mavrias. Você tem onde ficar...? – Ele parecia totalmente sem rumo.

__ Não senhorita Agasha. Apenas sabia que devia vir aqui. Mas eu me arranjo.

__ Venha, pode ficar na minha casa. É pequena, mas confortável. Pelo menos para uma colhedora. – Sorri.

__ Mas não vou atrapalhar sua família?

__ Venha! Não se preocupe com nada.

Caminhamos pela entrada da vila. Os olhos do homem percorriam cada detalhe. Minha casa ficava num beco. Era pequena, mas confortável e resistente. E me protegia do frio intenso no inverno e do calor causticante do verão.

Quando abri a porta da casa, ele percebeu que não havia mais ninguém ali. Entrei e fui acender algumas lamparinas.

__ Acho que não devo entrar, sua família não está.

__ Entre logo. Não se preocupe. Não ligo para comentários. Além disso não tenho mais família... alba... nós temos que dar um nome a você. – Quase chamei-o de Albafica.

__ Qual você me sugeriria?

__ Albafica. – pensei comigo. – Que tal Vincenzo ou melhor, Vince.

__ Vince! Sou Vince, senhorita Agasha. Mas ainda acho que não deveria me receber. Podem falar da senhorita.

__ Vince, se eu não estou preocupada, você também não deveria. Estou com fome. Me ajuda a fazer um ensopado?

__ Claro! O que devo fazer?

__ Primeiramente acenda o fogo naquele fogão. A lenha está do lado. – Apontei para o homem que rapidamente começou o seu trabalho.

Enquanto ele fazia seu trabalho, peguei uma panela e enchia com a água do jarro de barro. Peguei alguns legumes e os lavei na bacia.

__ Vince, coloque a panela sobre o fogo.

E lá foi o concentrado Vince fazer sua tarefa. Logo depois estava me ajudando a cortar os legumes, com o olhar perdido e expressão séria.

***

Após tomarmos a sopa, coloquei mais água para esquentar. Queria tomar um banho relaxante. Acredito que Vince também deveria querer um banho depois de caminhar.

__ Vince, você não tem nenhuma mala nem roupa, certo?

__ Certo!

__ Poderia me contar o que sabe sobre você.

O rapaz me fitou em terrível sofrimento. Tentei entender sua situação. Não lembrar nada. Como seria isso?

__ Antes de te encontrar na estrada, eu vinha de uma vila próxima daqui. Talvez uns vinte quilômetros daqui. Me encontraram caído e desacordado ao lado de uma casa em ruína. O senhor que me encontrou, me acolheu em sua casa, e sua esposa tentou me ajudar contando histórias da região. Falando de famílias. Mas nada. Isso tem uma semana que aconteceu. – Ele então suspirou. – Desde então eu venho tendo sonhos com uma moça que não vejo o rosto, e ouço-a dizer: venha, vamos para Mavrias. Então perguntei ao casal a respeito de Mavrias. Quando me disseram que era perto, decidi vir para tentar lembrar ou descobrir se alguém me conhece.

Com aquilo eu me calei. Não podia dar falsas esperanças a este rapaz. Como diria que sua aparência lembrava alguém que eu vi morrer, que vi e visitei diversas vezes sua sepultura? Decidi ficar quieta. Aquilo tudo parecia uma loucura.

__ O que você precisar, estarei aqui. – Caminhei para o meu quarto e voltei rapidamente. – Olhe, sei que você é mais esguio, mas acho que essas roupas te serviram. Eram do meu pai.

Vince segurou as roupas em análise.

__ Obrigada senhorita Agasha. Assim que puder lhe devolverei.

__ Por favor Vince, pare com o ‘senhorita’. Somos amigos, e amigos se ajudam. – Sorri.

Eu não sabia ao certo o que fazia. Sei que queria ter esperanças, mas essas especulações na minha cabeça não tinham fundamento. Não poderia ser o senhor Albafica, não poderia ser o homem que eu amava até hoje.

Como a casa era pequena, arrumei um local para Vince dormir na pequena saleta. Trouxe algumas mantas e uma pele de carneiro para isolar o frio do chão. Coloquei as mantas, um travesseiro e um cobertor.

__ Vince! Vou tomar um banho. Se quiser um banho também, coloque água naquela panela para esquentar. – E segurei a panela quente caminhando para o quarto de banho simples.

Tranquei a porta e despejei a água na tina. Rapidamente retirei a roupa e entrei na água morninha para então me lavar.

Ao sair do quarto de banho já vestida, Vince estava sentando hipnotizado pela luz da lamparina. Entreguei a toalha, e coloquei a água na tina para só acrescentar a água quente. Logo Vince estava saindo já limpo e com os cabelos longos úmidos. Fiquei fitando-o fixamente. Como poderia haver duas pessoas tão idênticas no mundo? Gêmeos? Mas tudo era tão igual. Será que eu queria ver coisas onde não havia?

Minha observação foi surpreendida pelos olhos azuis que sustentaram meu olhar, deixando escapar um brilho de poder, de força, de controle. Era esse olhar que ele dava para mim. E sempre vi que no fundo havia um misto de doçura e proteção.

Não, não, não. Eu precisava dormir. Devia estar querendo tanto ter o único que amei de novo, que estava enxergando no Vince uma possibilidade de Albafica estar vivo.

Levantei-me da cadeira onde estava e caminhei para a porta do meu quarto.

__ Boa noite Vince. – Não pude fita-lo de novo.

__ Boa noite menina Agasha.

Menina Agasha? Não, não, não. Eu estava ficando louca com meu desejo por tê-lo vivo novamente. Era a única explicação.

Notas finais
E então? O que acham que está acontecendo? Será que a Agasha está vendo coisas ou querendo ver o que não existe?Que as apostas comecem!Espero que gostem e comentem!Bjus!:-)