Fragrância de Rosas
2 Quando Pesadelos Viram Sonhos!
Notas iniciais
Que noite difícil foi aquela. Minha cabeça estava cheia da última frase dele. Menina Agasha? Por que ele me chamou assim se nunca havia me visto menina? Eu já sou uma mulher. Entre tantas especulações, acabei adormecendo, e tendo mais uma noite conturbada. Sim, mais uma. Desde a morte de Albafica, tive uma noite atrás da outra com pesadelos. A dor que eu sentia durante o sono era tão grande que por vezes acordei com o rosto molhado de suor e lágrima.
Mas já tinha um ano que não sonhava mais com sua morte ou com das pessoas de Rodório. A diferença nessa noite foi que acabei despertando após sonhar com a sua face bela, altiva e doce. Esse homem, o dono do meu coração era capaz de fazer essa mistura de um jeito particular, que me fazia ama-lo cada vez mais.
Era por volta de cinco da manhã. E como o sono havia fugido de mim, decidi me levantar para preparar meu alimento. Toda manhã eu preparava meu almoço que levava numa vasilha com tampa, que era envolvida e amarrada por um pano de louça para não abrir.
A vasilha de metal e o pano mantinham a comida quente. Era uma forma para não ter que percorrer todo caminho de volta a vila no horário da refeição, além de faltar tempo para isso.
Ainda no meu quarto, lavei meu rosto utilizando a água do jarro que mantinha no quarto. Apliquei um preparado de álcool de maçã e hortelã, que ajudava a manter a boca saudável e o hálito mais agradável. Era uma receita desenvolvida por minha família, e que continuei a fazer.
Troquei minha roupa, colocando algo mais quente para o horário fresco do início da manhã. Retirei a bacia com a água que havia utilizado e a derramei-a pela pequena janela do quarto que abria para o meu quintalzinho.
Ao abrir a porta do meu quarto me senti invadida por uma fragrância de rosas. A mesma que eu senti ontem e a mesma que sentia quando Albafica estava por perto. Por Zeus, será que até o meu olfato estava caçoando de mim?- pensei.
Olhei para onde Vince estava dormindo. Ele parecia tranquilo. Aquele homem lindo dormindo como um anjo me hipnotizou, e caminhei quase sem perceber para perto dele. A cada passo que dava, mais o perfume de rosas se intensificava.
Abaixei próximo ao rosto dele e aspirei o perfume que emanava dele. Rosas, as mais perfumadas rosas que alguém poderia conhecer. E só havia um lugar onde havia aquelas rosas. No santuário. Mais que droga! Será que eu jamais me livraria dessas memórias. Oh Poseidon, deus dos mares, me transforme em peixe para só sentir o gosto da água salgada. – supliquei em meus pensamentos.
Peixe??? Eu deveria ser louca ou Vince mexeu comigo de alguma forma profunda. Estava querendo virar um peixe como sua constelação protetora? Estava numa enrascada sem fim.
Subitamente uma expressão de dor passou pelo lindo rosto do homem adormecido. Aquilo me trouxe de volta a realidade. Sem me dar chance de reagir, fui puxada pelo braço.
Vince me puxara com tanta força que cai sobre seu tronco, acordando-o imediatamente. Aqueles olhos de um azul que parecia uma água marinha me olharam tão dentro dos meus, que por um segundo tive certeza que lia a minha alma como se fosse um livro de criança. Quando me dei conta, Vince deu um sorriso de lado, e tentei desesperadamente sair de cima do seu peito.
__ Bom dia senhorit... Agasha. – Ele consertou ao ver meu olhar bravo.
__ Bom dia Vince. Desculpe-me por te acordar dessa forma... é que...
__ Eu te puxei sem querer... as desculpas são minhas... tive um novo sonho... – Ele sentou-se com o olhar perdido. – A moça apareceu de novo. Quando ia se distanciando, eu tentei segura-la, e puxei você... mas o que você fazia aqui? – Ele me olhou curioso.
__ Eu... eu vim preparar meu almoço. Não quero te incomodar, mas vai ter barulho e cheiro aqui. Se quiser pode deitar no meu quarto. Lá poderá dormir sem intromissão... – Falei um pouco sem graça.
__ Não menina Agasha. Vou me levantar e te ajudar. – Vince falou se levantando do acolchoado.
__ Por que me chamou de menina? Por acaso sou menina Vince? – Falei fitando-o curiosa.
__ Desculpe-me, Agasha. No sonho eu te chamava de menina Agasha... não sei por que... – Vince olhou para baixo em claro questionamento. – Deixa pra lá. Vou lavar meu rosto e já volto.
Vince foi até o quintal, e logo voltou com o rosto molhado. Uma toalha em volta do pescoço era usada para secar. Logo estava do meu lado descascando alguns legumes.
__ Vince, eu irei para o campo trabalhar. E você pode ficar a vontade aqui. Apenas diga que é meu parente se quiser andar pela vila e arredores. Diga que é um primo distante, algo do tipo. Assim não te incomodarão. Deixarei a chave da tranca da casa com você. Peço que esteja aqui para entregar a chave ao pôr-do-sol, que é o horário que regressarei. Aqui você é meu convidado, não preso.
__ Mas eu deveria te ajudar pelo menos te acompanhar no caminho. Se você desmaiar de novo? – Ele estava sinceramente preocupado.
__ Não se preocupe. Estou bem, e sempre me cuidei sozinha. E você tem que descobrir o motivo dos seus sonhos com a moça, lembra?
__ Tudo bem! – Vince suspirou. – Mas amanhã vou te acompanhar, queira ou não. – Ele ficou sério.
__ Está bem, eu me rendo! – Desisti antes dele.
Também estava gostando da ideia de tê-lo do meu lado. A quem eu queria enganar? Estava claro que eu queria me agarrar a esperança de ter Albafica ou sua cópia para amar.
Enquanto estava refogando os legumes, eu olhava de soslaio a expressão compenetrada de Vince. Era igual à de Albafica. Ele pareceu perceber que era observado, pois me flagrou e sorriu sedutoramente. Esse sorriso eu conhecia de raros momentos. Albafica às vezes sorria consigo, achando que ninguém o observava. Eu o observava sempre.
Após tudo pronto, fui me lavar e arrumar para a colheita no campo. Logo estava de posse da minha simples bolsa de tecido, com minha refeição e um aceno de despedida para Vince.
Caminhei perdida em meus pensamentos que não percebi quando cheguei ao campo. Sem mais delongas, coloquei meu avental e o lenço na cabeça. Peguei meu cesto e caminhei até as oliveiras marcadas para receberem as colhedoras.
A metade do dia chegou rápido. Todas as colhedoras faziam suas refeições sentadas debaixo das oliveiras que ainda tinham folhas. Eu comia guisado pensando que Albafica havia me ajudado a fazer. Não, não era Albafica, era Vince. E quem seria Vince? Mais uma vez me perdia nas possibilidades de Vince e Albafica ser a mesma pessoa. Mas como seria possível? Athena, deusa da sabedoria, me dê uma explicação aceitável! – suspirei.
__ Sonhando com um príncipe, Agasha? – Bella me perguntava.
Ah se ela soubesse quais são meus sonhos. – pensei comigo.
__ Não, na verdade me lembrava de alguns amigos que perdi há muitos anos.
__ A tal vila de Rodório, né?! – Bella falava.
__ Sim Bella. – Sorri fracamente. – E como andam os preparativos para o casamento?
Bella estava noiva de Luigi, um italiano que havia chegado com a família um ano antes de mim. Tanto Luigi como a família, trabalhava nas propriedades do Senhor Lourenço, dono dos campos de oliveiras.
__ Estão a todo vapor Agasha. Será na primavera, e Luigi já está preparando as mesas e bancos para almoço de comemoração. E faremos a cerimônia ao ar livre. Teremos muitas flores. Minha mãe está fazendo a renda que será usada no meu vestido. Estou tão feliz. – Ela sorria com os olhos brilhando.
Parecia feliz e iluminada. Sorri com ela desejando silenciosamente que fosse feliz com o noivo. E me peguei pensando se algum dia teria sido feliz com Albafica. Nem que fosse só para vê-lo passar por minha vila.
Comecei a imaginar a vila como se nada tivesse acontecido. Albafica passando pelas ruas, sendo motivo de gracejo e ao mesmo tempo de respeito. Seus lindos cabelos esvoaçando pelo vento, seu olhar frio, mas protetor para mim. Estaria lindo como sempre, e preocupado como sempre. Em sua solidão se preocupava com os demais como se fossem da família.
__ Agasha? Agasha? Acorda menina. – Bella me chamava. – Deve estar sonhando com um belo grego né?!
E que belo. Era um verdadeiro Apolo andando na Terra. – pensei. – Pena que estava morto, ou não? Vince, que segredos guarda os seus olhos cristalinos? – Suspirei.
__ Vamos trabalhar Bella. Sonhar não põe comida na nossa mesa. – Mas alimenta o espírito. – pensei
Já passava das cinco horas quando começamos a agrupar as cestas para serem levadas para o armazém. Lavei meu rosto, retirei o avental e o lenço, guardando-os na bolsa. Ao me levantar para caminhar tive uma grande surpresa. Vince estava chegando com um sorriso contido no seu lindo rosto.
Acenei sorrindo feliz e animada. Corri para encontra-lo ainda na estrada. Eu me acostumaria tranquilamente com meu amigo protetor.
__ Que surpresa boa! – Sorri para Vince.
__ Vim defender minha anfitriã e amiga. – Vince me deu um abraço apertado.
Corei de imediato. Não tive coragem de me afastar. Era tão quente e aconchegante. Senti como se estivesse nos campos elísios, banhada pela luz cálida do sol. Ouvi seu coração bater acelerando e sua respiração ofegando. Será que havia algo de errado. Sem um movimento brusco, nos afastamos em sincronia. Seu rosto afogueado denunciava seu constrangimento.
__ Agasha, me desculpa. – Seu olhar estava perdido no horizonte a sua frente. – Foi quase um reflexo. Pareceu tão certo, tão desejado... que estou falando... – Ele virou-se para o caminho que havia vindo. – Vamos senhorita Agasha, antes que escureça.
Lá se foi o vislumbre de o homem espontâneo que havia ganhado minha admiração. Até parecia que ele tinha uma luta interna entre o certo para os costumes e o certo para seu coração.
Caminhamos quietos. Para quebrar um pouco o silêncio comecei a cantarolar baixinho uma canção. Logo, Vince caminhava ao meu lado, e seu constrangimento e frieza haviam desaparecido. Por baixo daquele homem perdido em pensamentos e buscando sua realidade, havia outro que era a doçura e força juntas.
__ E andou pela vila? – Perguntei quando estávamos chegando à entrada do vilarejo.
__ Andei. Tentei relembrar as imagens que tenho, mas nada que me ajudasse. Caminhei no bosque próximo da vila. Mas nada. Só teve um fato curioso. Quando passava por uma casa, vi vários arbustos com flores lindíssimas. O perfume me é conhecido. Me trouxe uma sensação de saudade, nostalgia. – Vince parecia mergulhado na lembrança das flores.
__ Que flores eram? Você sabe o nome? – Perguntei tentando me lembrar das casas da vila.
__ Eram rosas vermelhas. Rosas lindíssimas. – Naquele momento empalideci. — Havia as brancas, tão puras. A dona da casa onde há essas rosas me deu algumas para levar para casa. Estão num vaso te esperando. – Rosas! Justos as rosas. Por Athena, que eu tenha uma resposta logo, ou os subordinados de Hades iram me receber logo.
Coração acelerando e mente trabalhando numa velocidade alucinada. Que brincadeira sem graça é essa. Que Zeus puna Eros por brincar com os meus sentimentos. – bufei.
__ Não gostou da surpresa? – Vince me olhava de soslaio.
__ Gostei sim! É só um mal estar. – Falei fitando o caminho à frente.
Claro! Vou chegar a casa acompanha da cópia do Albafica que gosta de rosas vermelhas, que levou para enfeitar minha casa. Deuses tenham pena de mim e parem de brincar com minha vida. – Supliquei.
__ Você deve estar doente, menina Agasha.
__ Menina não! Não sou mais menina. – Gritei descontrolada.
Vince arregalou os olhos assustados com minha reação estúpida.
__ Desculpa Vince! Não gosto que me chamem assim. Há muito que deixei de ser menina. Há muito que vivo sozinha nesse mundo tendo que defender.
Ele nada falou. Apenas assentiu quieto. Era a mesma reação de Albafica. Ficar calado diante de um conflito no qual ele não poderia resolver.
Quando chegamos a minha casa, fui recebida por uma refeição pronta me esperando ao lado do vaso que enfeitava a mesa. Vince puxou uma rosa, cortou seu pedúnculo liso e colocou no meu cabelo.
__ Pode ter deixado de ser uma menina. Mas foi para se tornar uma linda mulher. Mais linda que essa rosa.
Se ele não fosse Albafica, pelo menos estava fazendo uma ótima encenação. Pois aquele olhar carinhoso e protetor eu só tinha visto no rosto do protetor da casa de peixes.
É, alguém no Olimpo tinha me escolhido para receber o sofrimento eterno, não havia outra explicação. – Pensei comigo.
Apenas assenti para Vince que se sentou ao meu lado servindo o lindo ensopado que havia preparado.
Fale com o autor