Fragrância de Rosas
9 Memórias! - As lembranças de Vince
Notas iniciais
# Vince #
Ainda na cidade de Agioi, resolvi esconder parte do meu cabelo para que Agasha não me reconhecesse de longe. Rasguei a barra da camisa que eu trajava, e comecei a juntar meu cabelo, prender e enrola-lo com a fita de tecido. Joguei meu cabelo preso dentro da camisa ocultando seu tamanho. O restante foi coberto com um chapéu que comprei numa feira a caminho do porto.
Ao descobrir o navio que iria para Atenas, percebi que precisaria usar de minhas habilidades novas para ter uma chance de embarcar. Falei com o imediato do navio, que riu debochadamente da minha aparência física.
__ Você não dura nem dez minutos, florzinha. Esse navio é para homens, não coisas delicadas como você. – Eu preciso dizer o quanto aquilo me enfureceu? Acho que não.
Sem pensar duas vezes, segurei o imediato pelo braço, torci levando para as costas do mesmo. Passei uma rasteira e o homem desequilibrou-se indo de face ao chão. Pisei em suas costas e segurei-o no piso.
__ Acho que a COISA delicada aqui é o senhor. – Debochei só um pouquinho. – E então, vou ter meu posto ou não? Perguntei furioso.
__ Claro, mas agora me solte seu louco. – Soltei-o e dei de ombros.
Alguns instantes depois vi Agasha subir a bordo, e tentei sair de sua visão. Acompanhei disfarçadamente ela ser instalada num dos camarotes. Menos mal. Assim aquele bando de homens pervertidos não ficariam com graça para cima de minha menina. Por que insisto em chama-la de menina se claramente ela é uma mulher linda? Impulsos que me movem sempre nesse rumo.
Balancei a cabeça tentando expulsar aqueles pensamentos estranhos. Ajudei armando as velas, e com minha surpreendente agilidade, consegui me pendurar nas diversas cordas e descer quase que escorregando pelas velas. Aquilo era demais. Diverti-me mais do que uma criança.
No horário do almoço, decidi comer algumas sementes e frutas disponíveis na cozinha. Como a viagem era curta, havia alimento fresco por ali. Enquanto comia, o cozinheiro com todo o seu tamanho me entregou uma bandeja arrumada, mas com um cheiro horrível.
__ Leve isso para o camarote cinco. – Lembrei-me que era o camarote de Agasha. – Vamos marujo, está esperando o que? – O cozinheiro me olhou com tanta raiva que decidi não discutir.
Subi as escadas que levavam da cozinha ao convés. Vi um ajudante parado olhando para o nada e vi minha oportunidade de escapar da minha missão.
__ Ei garoto? É você mesmo! – Confirmei para o menino confuso. – Leve essa bandeja para o camarote cinco. – Entreguei a vasilha na mão do rapaz.
O menino nem questionou minha ordem, estava caminhando para o camarote quando foi interpelado por um marinheiro.
__ Ei moleque, não é hora do seu almoço ainda. Me dê isso! – o marinheiro tomou do garoto a bandeja quente.
Eu ia me intrometer quando o marinheiro olhou a bandeja e viu anotado o número do camarote.
__ Deixa que eu entrego para a mocinha do camarote. – Ele sorriu malicioso.
Aquilo me tirou do sério. Resolvi ficar de olho para ver o andamento da situação. Logo percebi a porta aberta, vi o marinheiro falar algo e em seguida a porta se fechar. Ainda bem que Agasha não havia aceitado, e para sorte daquele marinheiro, também não teve gracinha nenhuma. Esse sentimento que me tomava era confuso. Queria entender por que tanta intensidade em relação a ela.
O restante da viagem foi entre mudar as velas de posição para aproveitar o vento e observar um cenário que me trazia sensações de serem familiares. Quase ao final da tarde, aportamos em Atenas. Tentei me manter oculto para Agasha não me descobrir no convés. Quando a carga havia sido descarregada no porto, sai sem mais demora correndo atrás de Agasha que já havia partido para a estrada que levava a Rodório. Rodório? De onde eu conhecia esse nome?
Fiquei confuso, aquilo me deixou cismado com a sensação de dejavu em relação a Atenas. Quando percebi, Agasha já estava sumindo de minha visão. Dei uma boa acelerada a tempo de vê-la ao longe entrando num sobrado rústico. Com o crepúsculo tomando o céu, decidi saltar sobre uma casa, e depois outra, e outra. As nuances de laranja e azul escuro me ocultavam da presença dos demais.
Consegui chegar ao telhado do sobrado. Com facilidade saltei para um dos galhos densos da árvore do lado do sobrado. De lá tive uma boa visão do quarto onde Agasha estava. Logo entendi que ali era uma pousada. E minha pousada seria na árvore que me ofereceu um galho largo o suficiente para que eu pudesse descansar tranquilo.
Algum tempo depois vi Agasha apagar a vela que clareava o quarto e deitar-se na cama sendo iluminada pela parca luz lunar.
__ Boa noite Agasha! Estarei aqui velando seu sono. – pensei comigo.
***
“Eu via por imagens borradas. Estava trajando uma roupa dourada, parecia uma proteção metálica. Eu caminhava por uma vila analisando o ambiente. O que eu buscava?
Adiante vi uma menina e seu pai. Eles faziam arranjos florais. Eu tinha visto aqueles arranjos no... aquele lugar parecia um templo, um prédio antigo.
Desviei meu olhar deles quando percebi que eles me observaram. O olhar da menina era cheio de devoção e... seria amizade, amor ou paixão. Eu nunca sabia a diferença. Talvez fosse por me manter sempre tão afastados dos demais. Por que eu faria mal. Como eu faria mal? Aquilo não me era claro.
Continuei caminhando pela pequena rua da vila em que estava. Rodório, esse nome veio em meio às imagens. Entre as imagens que me bombardeavam, o sorriso da menina que havia visto anteriormente voltou com mais nitidez. Era Agasha ainda menina. “
***
As imagens foram sumindo, evaporando de minha mente até que acordei. Os primeiros raios de sol começaram me tocar. Ainda havia tons de azul pelo céu que aos poucos se pintava de laranja. Me espreguicei no galho onde estava sentado. Peguei um pouco de água que retirei de um poço nos fundos da pousada. Lavei meu rosto e braços, tomei um pouco e peguei umas das frutas que havia na minha bolsa improvisada.
Pouco depois ouvi a voz de Agasha se despedir da dona da pousada. Bom, era o que imaginei ao ouvir as palavras da mulher. Esperei Agasha se distanciar um pouco pela estrada que levava a Rodório.
Esse era o nome que me lembrava do sonho. Era a vila que vi, onde eu andava e onde observava Agasha menina. Aquilo me atordoou.
Observei que ela havia tomado carona numa carroça com um casal. Entre algumas árvores observei eles se distanciarem pela estrada, e fui seguindo um pouco afastado. Algumas imagens me vinham conforme eu subia aquela estrada. Eu carregava uma caixa dourada com um desenho de peixes. Usava umas roupas elegantes no lugar das douradas. Um nome e um rosto surgiram em minha mente. Manigold? Sim, o irritante discípulo de Sage. Quem era Sage? Minha cabeça era um tumulto em lembranças.
Vi a carroça parar, e me escondi em alguns arbustos. Agasha desceu, enquanto o casal seguia numa outra direção. Deixei-a tomar uma boa distância de mim. Logo avistei as casas da vila. E a sensação de dejavu voltou. Eu conhecia aquele lugar.
Apressei-me quando vi Agasha entrar na vila. Tudo parecia conhecido. As imagens do sonho voltaram como um fluxo de vento em mim. Eu caminhava por aquela rua, muitas vezes vigiava Agasha menina, sem que a mesma imaginasse.
Sai do meu mundo de lembranças quando vi Agasha entrar numa rua lateral. Observei escondido num canto, enquanto ela subia a escada e pulava para a encosta.
Corri para a escada e subi sorrateiramente até observa-la sumir por entre as árvores seguindo uma trilha no chão. Dei um salto e pousei sobre um galho forte de uma árvore antiga.
Todos aqueles movimentos pareciam tão comuns. De repente, uma enxurrada de lembranças me invadiu. Naquela mesma floresta na encosta do... Santuário, isso aquele lugar era o Santuário. De quem? Pensei, me esforcei. Mas outras lembranças vieram. Ali treinei muitas vezes com meu mestre ... Rugonis. Mas o que eu treinava? Sentei-me numa pedra e tentei buscar entre minhas memórias. Nada que me ajudasse a entender. Mais nomes e rostos apareceram. Manigold, Shion, Hasgard, Degel, Kardia, Asmita, Sísifo, o jovem Régulus, Dohko, El Cid e Aspros. Onze cavaleiros dourados como a roupa que vi em sonho.
Subi mais um pouco a encosta que se revelou um platô onde avistei as diversas construções antigas que formavam o santuário... de quem? De A-t-ena, isso Atena.
Com esse nome muitas lembranças dançavam a minha frente e aos poucos tudo foi fazendo mais sentido. Eu não me chamava Vince, eu era...
Com aquela verdade em mente corri desesperadamente para subir as escadas que levavam ao santuário. Fiquei um bom tempo admirando a primeira construção. A casa de Áries.
Nesse momento eu já tinha perdido Agasha de minha visão. Agasha... essa menina que reinava em minha cabeça... Lembrei-me de tantos encontros na vila, sempre afastando-a por causa do meu... é que vida infeliz, amar e não poder toca-la sequer.
Entrei na casa de Áries. Pedi para passar ao guardião. Era uma regra para todos no santuário. Nenhuma resposta. Continuei caminhando em estado de alerta. Passei por Touro e o mesmo ocorreu. Nenhum defensor presente. Casa após casa passei sem ser interpelado por ninguém. Aquilo me doeu muito. Isso tinha um significado claro. Só não sabia com certeza quem estava morto quem não estava. Eu estava passando por Aquário quando fui recebido por... Teneo, isso, pupilo de Hasgard. Ele vestia a armadura de Touro.
Isso significava que Hasgard não havia resistido à guerra contra Hades. Aquilo deixou-me muito triste. Havia perdido um companheiro de batalhas e nem sabia como. Até aquele momento havia me lembrado de tudo, até o último suspiro meu. A batalha contra Minos trouxe a morte para mim. Fui o primeiro a partir.
__ Teneo! – Ele me olhou desconfiado, em pose de ataque. – Sou Albafica, cavaleiro de Peixes. Preciso falar com o Grande Mestre.
***
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