Fracture (sequencia De Falling)
5 04 - Paranoias (parte 1 - Patch)
Notas iniciais
CAPÍTULO PELO PONTO DE VISTA DE PATCH.
Aproveitem =)
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Eu estava me odiando. Como não me odiar se tudo que eu fazia dava errado, e quanto mais eu tentava, mais burrice eu cometia? Saí de casa com uma mochila nas costas, porque eu não sabia quanto tempo aquela condição imposta por Nora ia durar. A única certeza que eu tinha era que nada, nem ninguém, me impediria de ficar de olho em Rose. Eu não arredaria o pé da frente do prédio durante a noite, porque eu não deixaria que arcanjo nenhum entrasse sorrateiramente pela janela enquanto minha menina estivesse dormindo. Eles teriam que passar por mim, primeiro.
De qualquer forma, eu estava expulso de casa. Eu jamais deixaria de considerar a vontade de Nora, porque ela me foi tirada uma vez. Não haveria segunda. Ou eu não deixaria, ou eu iria para o inferno, banido para sempre. Ou até que os arcanjos me aceitassem de volta, o que eles, definitivamente, nunca fariam. Eles preferiam me ter mundano a me devolver as asas. Eles fariam qualquer coisa para me manter afastado deles, ou do que eu quisesse. Fazer a minha vontade, era o que eles, definitivamente, não queriam.Bati à porta de Rixon, sem me preocupar se ele estaria acompanhado. Eu estava cansado, precisando dormir, mas eu não poderia, porque eu tinha que montar guarda na janela de minha filha. Ao menos um banho e um lugar para colocar minhas coisas eu teria que conseguir do meu amigo caído.— Patch-o? — Rixon não entendeu, obviamente, a minha presença ali. — O que houve, foi expulso de casa?Algo entre minha mochila, meu silêncio e minha péssima expressão facial devem ter contado a Rixon que ele tinha razão — e que eu não queria discutir aquilo, naquele momento. Ele saiu da frente da porta e eu entrei, jogando a mochila por sobre seu sofá. Rixon morava em uma pocilga não muito diferente da que eu tinha em Coldwater. Mas ele era ainda menos organizado. — Eu preciso de um banho, e de hospedagem pelos próximos dias. Será que posso contar com um velho amigo? — Disse, passando as mãos pelos cabelos. Aquele gesto sempre me entregava; era muito fácil perceber meu nervosismo porque eu sempre passava a mão pelos cabelos. — O que houve, Patch? Você sabe que sempre pode contar comigo, mas… e a sua vida perfeita?— Continua perfeita. Mas Nora está em crise, e eu não sei se posso ajudá-la, agora. — Você nem vai tentar? — Rixon ergueu uma sobrancelha enquanto falava comigo.— Eu não posso tentar. — Pressionei a ponte do nariz, tentando respirar lentamente. Eu precisava de ritmo. — Porque eu estou submetido aos arcanjos, você se lembra? Foram quatro anos esperando por ela, quatro anos convencendo-a de que ela me amava. Qualquer dúvida que ela possa ter é suficiente para que eles a tomem de mim outra vez. Rixon moveu os ombros, pouco se importando com as minhas crises. Deixei-o de lado e fui até o banheiro, enxaguar aqueles sentimentos negativos de mim. A água sempre me tinha um efeito interessante, e todos sabiam o por quê. Ela purificava. Eu precisava exatamente aquilo, sentir-me puro, livre de todo e qualquer pecado, porque, no final do dia, eu era, ainda, um anjo. Caído ou não, o meu lugar deveria ser no Paraíso. Depois de enxugar meus cabelos e não penteá-los, vesti qualquer coisa que fosse uma camisa preta e jeans escuros, e saí pela noite de Portland. Meu destino, a janela de Rose.Era sempre por ali que os arcanjos entravam, enquanto eu sonhava. Quase sempre era Azrael, mas Rafael também apareceu uma ou duas vezes para me importunar. Eu não acreditava que ele pudesse ser tão cruel, considerando tomar uma criança da mãe. Mas Rose não era, para eles, uma criança. Eles não tinham sentimentos, aqueles canalhas. Bem, era exatamente porque eu blasfemava contra o Céu e tinha aquela atitude que eu era um caído. A noite de Portland era animada demais para que alguém notasse um stalker. Eu posicionei-me debaixo da janela de Rose, do outro lado da rua, próximo a um poste de energia, e recostei-me por ali. Daquele ângulo eu podia ver quase tudo que queria, menos minha filha. Eu via as venezianas, as cortinas brancas esvoaçantes pela brisa da noite, porque Nora não fecharia a janela. Eu não estava ali para ser paranoico por ela, então ela não precisaria se trancar em casa. Ela não sabia o que eu sabia, e se soubesse não acreditaria. Ela era muito mais cética do que eu, apesar de tudo que ela já tinha visto.Enquanto eu montava guarda esperando sabe-se lá o que aparecer, na expectativa que nada aparecesse, de verdade, permiti que meus sentimentos se reorganizassem. Eu estive tão enlouquecido com o fato de ter Nora de volta, de perder Nora, de ter um filho programado pelos arcanjos, de perder meu filho, de realizar que meu filho era, na verdade, uma filha, que eu não tive tempo para me permitir compreender o que eu estava sentindo. O que o fim de Dabria, a minha bênção, a chegada de Rose significavam para mim. Eu não consegui parar para pensar o que Nora significava para mim. Eu a amei por tanto tempo que talvez aquilo tivesse se perdido em algum lugar. Talvez amar não fosse o suficiente, talvez o simples fato de amar não bastasse para manter-me junto a ela. Ou, ainda, talvez eu a amasse de uma forma diferente. Porque eu não sabia sentir fisicamente; todas as minhas sensações eram espirituais, e receber a bênção não me fez ter uma percepção muito diferente dos sentidos. Eu tinha o tato de volta, mas aquilo me fazia ter mais prazer com um beijo de Nora? Aquilo me fazia mais feliz quando nos amávamos? Se eu não me importava com toques e carícias de mulheres quaisquer, por que aquelas sensações físicas eram tão importantes?
Ergui o olhar e senti meu diafragma paralisado por alguns instantes. Nora estava na janela, olhando para o céu estrelado. Ela estava vestindo a camisola preta que eu adorava, eu tinha certeza. Meus lábios quiseram sorrir, mas contive-os fechados. Minha expressão séria e indiferente era o que restava da minha dignidade. Ela não estava prestando atenção em mim, enquanto meu coração já tinha parado de bater por causa dela. Eu estava há poucas horas sem ela, mas a ausência doeu. Porque eu não sabia quando poderia tê-la outra vez. Porque eu não sabia se poderia tê-la outra vez. E então ela olhou para mim.Se eu tive alguma dúvida quanto aos meus sentimentos por ela, todas as dúvidas eram ridículas. Se eu, em algum momento, achei que poderia estar enganado sobre o quanto eu a amava, eu estava enganado sobre estar enganado. Os olhos de Nora pousaram nos meus e tudo que eu queria era correr até ela, pedir por perdão, dizer que a amava, e que faria qualquer coisa para ficar ao lado dela. Eu suportaria Blythe Grey para sempre, se fosse para poder estar com Nora. Eu faria qualquer coisa. Mas havia algo naquele olhar que fez com que todos os meus impulsos recuassem. Nora estava infeliz, e eu pude mensurar a sua infelicidade pela ausência de luz em seus olhos. A sua dor me fez sofrer bem mais do que a minha dor jamais poderia fazer. Respirei fundo, tirando meu diafragma do estado de inflexibilidade total, e baixei a cabeça mais uma vez. Meus sentidos me informariam se os arcanjos estivessem por perto. Eu não poderia continuar a fazê-la sofrer. Era melhor esperar que Nora fosse dormir até retornar para aquela janela. Chutando algumas imundícies do caminho, arrastei os pés pela calçada até sair do campo de visão dela, sentei no meio fio e apoiei a face nas mãos. Eu não sabia como fazer parar aquele sentimento, eu não sabia como livrar-me daquela agonia. A incerteza do futuro — eu já tinha vivido tudo aquilo uma vez. Nora não se lembrava, mas eu tinha memórias marcantes de todos os momentos que antecederam a visita dos arcanjos à sua casa, e dos momentos posteriores, quando fui arrastado para longe dela. Ela não se lembrava, mas eu sentia cada momento como se as lembranças fossem flechas em meu peito. Levantei-me e fui até o bar que ficava duas quadras depois do nosso apartamento. Se eu não queria mais sentir, a melhor forma de fazer aquilo era me embebedando. Apenas a ebriedade me levaria ao branco que eu precisava para conseguir relaxar e colocar os pensamentos no lugar. Comprei uma garrafa de uísque doze anos e voltei para a casa de Rixon, na intenção de beber e dormir — para revisitar minha filha depois de estar um pouco mais descansado. Mas fui frustrado por uma mensagem na porta que dizia “Estou com Vee. Vá dormir em outro lugar.” E eu podia contar com ele, imagina se não pudesse. Entre a luta de brigar pelo lugar em minha cama ou desabar em um motel qualquer, a segunda opção venceu. Escrevi outro bilhete, por cima da mensagem que meu amigo caído me deixou, informando em que espelunca eu iria me enfurnar e saí arrastando-me, ainda, até o motel mais próximo do bar que eu costumava jogar. Era o único que eu conhecia, e o único onde todos me conheciam. Aquilo facilitaria as coisas, porque eu não pretendia pagar por aquela estadia.
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