Fracture (sequencia De Falling)
6 04 - Paranoias (parte 2 - Nora)
Eu não sabia mesmo o que estava fazendo, mas continuava fazendo. Era como naqueles filmes de terror idiotas, nos quais as personagens sabem que o assassino está do lado de fora, mas mesmo assim vão lá checar um barulho muito suspeito. Eu era a personagem burra que, muito provavelmente, acabaria morta pelo assassino. Porque eu era mesmo estúpida. E eu precisava parar de xingar.
Mas não se podia esperar de mim nada muito diferente. Patch decidiu sair de casa porque eu, no lugar dele, teria feito o mesmo. Só que eu sabia que os motivos que o levavam para longe de mim eram vários, entre eles o fato de eu não possuir nenhum atrativo e de não estar disponível para o sexo. Não importava o que ele me dizia; eu tinha certeza que nosso relacionamento era muito mais físico do que emocional. Era o que eu sentia, porque toda a virilidade de Patch me fazia acreditar naquilo. Ele exalava sexo, então, como ele poderia dizer que sexo não era importante?
E fazia algum tempo. De qualquer forma, ele tinha ido embora. Claro que ele ia voltar, essa certeza eu deveria ter, também. Assim que eu voltasse ao normal, assim que as coisas voltassem ao normal, eu teria Patch de volta. Eu precisava me afastar dele para dar tempo a ele para pensar, para me dar tempo para pensar, para dar tempo ao tempo até que tudo voltasse ao que era antes; até que tudo voltasse até quando descobrimos que nos amávamos. Era fundamental que fosse daquele jeito. Mas vê-lo aquela noite, parado na janela do quarto de Rose, olhando para mim como se tudo que ele mais desejasse fosse estar comigo, foi doloroso demais.
E me custou uma noite sem dormir. Noite que Rose dormiu praticamente toda, e que eu, ao invés de aproveitar, fiquei rolando na cama, de um lado para o outro, lamentando não ter ali o corpo de Patch para me aquecer. Para me segurar nos meus pesadelos. Para sussurrar para mim quando eu precisava apenas ouvir a sua voz. Meu organismo demandava que Patch estivesse ali, somente. Só que eu não faria a vontade dele, do meu corpo. A emoção deveria sucumbir à razão pelo menos uma vez naquela minha vida miserável.
— Nora Grey, Nora Grey. — A voz de Vee ecoou aguda, quando ela atendeu o telefone. Por que eu estava ligando para ela se sabia que seria repreendida? Talvez eu precisasse. — Você só tem dois motivos para me ligar às sete e meia da manhã. Ou você precisa de carona ou você fez uma merda bem grande. Como o seu anjo tem carro, e você fica dirigindo aquela preciosidade para cima e para baixo, desconfio que a segunda opção seja a correta.
— Bom dia, Vee. — Fingi que não ouvi o discurso dela. — Eu realmente preciso conversar com você.
— Certo. Uma merda bem grande. O que foi, dessa vez?
— Patch saiu de casa.
Vee engasgou. Pude ouvir o pigarro, a tosse e algo que deveria estar sendo expelido do corpo dela. Provavelmente, Vee estava tomando o café da manhã e cuspiu tudo quando eu falei aquilo.
— Como assim Patch saiu de casa, Nora? O que você fez para isso acontecer?
— Eu fiz? — Intriguei-me. — Como você sabe que a culpa é minha; como você sabe que não foi Patch que fez alguma coisa muito ruim para isso ter acontecido?
— Porque foi ele que saiu. Oras, se você não estivesse sendo corroída pela culpa, Nora, você teria dito que o colocou para fora, sem dó nem piedade. Eu te conheço, criatura. Céus, Nora, você não cansa de meter os pés pelas mãos?
— Eu não liguei para você agir como minha mãe, Vee. Eu preciso de uma amiga, agora, para desabafar.
— Eu sou a sua amiga, e jamais agiria como sua mãe. Tenho certeza de Blythe está celebrando com champanhe essa sua separação de Patch, mas eu sou sua amiga, e eu não posso deixar de te repreender por isso. Ele te ama, vocês têm uma filha juntos; o que esse homem pode ter feito para te chatear a ponto de ter que sair de casa?
— Eu acho que ele me trai.
Vee engasgou de novo. Ouvi um “estou indo aí” e ela desligou o telefone, simples assim. Minha amiga não costumava ser de muitas cerimônias, e eu gostava daquilo nela. Tirei a minha carcaça da cama, considerando a inutilidade de ficar ali se eu não ia mais dormir e se Patch não estava nela, e fui até o quarto de Rose. Ela estava acordada, mas em paz. Ao me ver, agitou-se e eu precisei pegá-la. Queria tomar um banho, mas seria melhor esperar Vee chegar para me ajudar. Eu também não estava querendo muito falar com minha mãe.
Sentei-me na cadeira, que estava estrategicamente ali, naquele quarto, para mim, e ajeitei minha filha no peito. Rose mamava muito bem, eu não tinha do que reclamar. Pelo menos não dela.
Mamãe passou pela porta, viu-me ali e não entrou. Até ela sabia que não era bom mexer comigo quando eu não queria conversa. Rose ainda mamava quando eu ouvi o estrondo que era Vee chegando, e ela irrompeu apartamento adentro, até aparecer no quarto da minha filha e fechar a porta atrás de si. Típica entrada dramática dela, que não me causava impacto algum.
— Explique direito esse negócio, Nora. — Ela disse, sentando-se. Rose percebeu a chegada da ‘tia’, mas tinha coisa mais interessante para fazer. — Como você pode achar que Patch está te traindo; isso não faz nenhum sentido.
— Eu simplesmente não consigo confiar nele. Ele é... — tentei encontrar palavras que pudessem defini-lo sem parecer piegas, mas falhei. — perfeito. Ele tem o pacote completo que uma garota deseja, principalmente se ela não o conhece bem.
— Nora Grey nunca achou Patch Cipriano perfeito. — Vee tirou uma lixa da bolsa e começou a lixar suas unhas. — Ainda preciso de explicações, e dê-me a menina quando ela terminar. A titia Vee está limpinha e doida de vontade de segurá-la um pouco.
— Bem, a verdade é que ele é muito bom, e eu fui descobrindo isso com o tempo. — Não era mentira, porque foi isso mesmo que aconteceu. Patch se revelou muito mais do que eu esperava. — E ele tem uma interação muito esquisita com as mulheres; ele mesmo me disse que elas têm mania de tocá-lo.
— Elas tocam o Rixon também. — Vee terminou de lixar a unha e esperou Rose terminar de mamar. A menina já tinha saciado a fome, e estava ali no peito ainda porque era o que ela fazia, utilizava essa artimanha para ganhar a minha atenção. Eu nunca a impedia, se Rose queria ficar conectada a mim, ela ficaria. — Elas sempre agem como se ele pertencesse a elas, mas ele nunca liga, sabe? Ele diz que elas não lhe atraem em nada.
— E você acha isso natural? — Fiquei curiosa e indignada, ao mesmo tempo. — Você acha normal que ele seja assediado por garotas?
— Claro, ele é lindo! Nora, você já viu o cara com quem você está dormindo? Bem, eu já prestei bastante atenção em Rixon, e ele é lindo demais; ele causa todo tipo de sensação em qualquer garota mais desavisada. O que você acha, que elas vão respeitá-lo só porque ele tem namorada?
Vee podia ter razão. Rose cansou de mamar e eu a entreguei para a ‘tia’, que a segurou para que eu pudesse me recompor e tomar aquele banho que estava pretendendo. Tirei a roupa sentindo calafrios, com a pele sensível, como se tudo que me tocasse me irritasse. Entrei debaixo do chuveiro e ainda queria conversar sobre meu anjo.
— Eu não tinha visto as coisas por esse lado. Patch disse que ele não está adaptado às sensações físicas, por isso não se importa com essas mulheres que o assediam.
— Patch deve ter razão. Rixon não sente nada, então...
— Mas Patch sente. — Disse aquilo entre os dentes, um pouco mais chateada comigo mesma por desconfiar dele do que com ele por ser tão oferecido. Ou por não se impor. Por não impedir que aquelas vadias se interpusessem entre nós. — Bem, talvez eu deva conversar com ele, afinal. Sabe se ele está com Rixon?
— Duvido. — Vee deu uma risada. Ela conversava com Rose em um idioma peculiar, enquanto nós conversávamos em linguagem adulta. — Ontem fui eu que fiquei com Rixon, e posso garantir que não tinha mais ninguém naquele apartamento. Agora, provavelmente Rixon sabe de tudo; sabe onde ele está e nem mesmo me deu informações.
— Então, você me leva para procurar Patch? — Eu pedi, já me enxugando, um pouco ansiosa demais para quem tinha dispensado o cara. — Ele deve ter levado o Jeep, ou não teria ficado perambulando por aí.
Minha amiga torceu os lábios e revirou os olhos, naquele gestual que ela adorava fazer quando queria demonstrar aborrecimento. Mas, assim que vesti jeans e camiseta, e peguei Rose de volta, ela ligou para o namorado anjo e perguntou a ele o que precisávamos saber. As respostas eram uma droga; Rixon só soube dizer que Patch deixou as coisas lá e saiu, porque queria vigiar a filha. Aquilo me deu uma agonia terrível, porque, primeiro, eu não sabia que Rose precisava ser vigiada. Segundo, porque Patch fazia coisas que deveriam me fazer esquecer toda aquela baboseira de ciúmes, mas eu não conseguia.
Eu precisava comer, mas faria isso em qualquer lugar, depois que saísse de casa. Meu estômago protestou contra minha decisão, mas eu não daria ouvidos a ele. Encontrei minha mãe na cozinha, e ela também protestou.
— Você vai sair correndo atrás dele, Nora? — Ela disse, enquanto eu colocava o bebê conforto com o bebê em cima da mesa. Rose estava sonolenta; ela sempre mamava e dormia. Beijei a cabecinha de minha filha e expliquei a ela, sussurrando em seus ouvidos, que iria tentar conversar com o pai dela. — Não vai nem ao menos comer?
— Mãe, eu não estou a fim de discutir. Eu como depois.
— Leve isso com você. — Ela me estendeu um potinho plástico cheio de morangos e uvas. — Você não pode amamentar e sair correndo assim, Nora!
— Obrigada, mãe. — Aceitei a comida, abri o pote e comecei a comer. — Ela está alimentada, e bem. Se precisar de mim, ligue e venho correndo. Obrigada.
Vee moveu os ombros em desacordo com minhas atitudes, mas ela não falaria nada. Ela não costumava me dar mais de uma bronca por dia, e ela já tinha me esculachado por ter brigado com Patch, cedo demais. Entramos no carro de Vee e fomos até onde Rixon indicou que meu anjo poderia estar, um motel de nome Night Owl. Que motel tinha um nome daqueles, eu queria saber. Mas eu já tinha visto esse, ele ficava próximo ao pardieiro onde Patch jogava Pôquer e sinuca. Eu estava mesmo ansiosa, e aquilo era ridículo.
Passamos do outro lado da rua e a primeira coisa que vi foi o Jeep parado na frente do motel. Era mesmo lá que ele estava, eu reconheceria aquele carro em qualquer lugar. Vee fez uma conversão e estacionou na recepção, onde um homem malcheiroso e com uma aparência horrível, cabelos compridos e uma barba desagradável, coçava o saco e assistia televisão. A simples ideia de um homem com a mão nos testículos, naquele momento, me enjoou o suficiente para eu querer vomitar.
— Bom dia, amigo. — Vee, sempre muito comunicativa, era a minha salvação. — Estamos procurando o marido da minha amiga, ele passou a noite aqui. Precisamos saber o quarto dele.
— Não tenho nada a ver com maridos que passam a noite aqui. — O homem respondeu, sem nem mesmo olhar para nós.
— Sim, nós sabemos. Mas vimos o carro dele parado ali, é aquele Jeep Commander reluzente. Que tal se você nos disser o número do quarto para que possamos conversar com ele?
— Eu não posso dar informações sobre hóspedes. — O homem nos encarou. Vee revirou os olhos novamente e retirou do bolso uma nota de vinte dólares. Colocou-a sobre o balcão e sorriu.
— Então não dê. Estamos pagando.
O homem pegou o dinheiro e virou-se, abrindo uma pasta e pegando um papel. Leu alguma coisa, balançou a cabeça e disparou a informação que pedimos, com a mesma cara malcriada que nos recebeu. E, não posso deixar de contar, fez tudo isso sem tirar a mão de dentro das calças. Ou ele tinha uma coceira horrível, ou estava se masturbando, ou eu nem quero pensar o que ele estava fazendo.
Caminhamos para o quarto 145, que Patch supostamente ocupava. Vee contava os números nas portas enquanto eu visualizei uma mulher loira, alta, esguia e vestindo uma saia microscópica, fechando uma porta e vindo em nossa direção. Ergui uma sobrancelha quando ela passou por nós, encarando-me sem nenhum pudor, e percebi que ela saía exatamente da porta 145. Meu coração disparou, enquanto Vee olhou para mim com alguma incredulidade. Ela defendia Patch, mas ficaria difícil defendê-lo se aquela vagabunda tivesse, realmente, saído de seu quarto.
A dúvida se esvaiu quando abri a porta – que não estava trancada – e encontrei Patch deitado por sobre a cama, completamente nu e descoberto.
— Oh, céus. — Vee arregalou os olhos. Patch estava deitado de bruços, largado, como se tivesse desmaiado e sido jogado ali. Havia cheiro de álcool no ar; parecia que tinham derrubado uma garrafa de vodca no carpete, mas ele não estava úmido. — Eu estou vendo muito mais de Patch do que eu gostaria.
— Então não veja. — Reclamei, colocando um lençol por sobre ele. Ele nem mesmo se moveu. Meu sangue estava em ebulição; eu podia senti-lo ferver em minhas veias. Provavelmente, havia fumaça saindo de minhas orelhas, mas Vee fingiu que não viu. Ela mentia bem. Subi na cama e virei Patch de barriga para cima, mas ele, ainda assim, acordou. — Patch! — Sacudi-o pelos ombros. — Patch, acorde! — Bati em sua face, mas não tinha a intenção de feri-lo. Queria apenas que ele acordasse.
Mas ele estava completamente embriagado. Respirei fundo e pensei em racionalizar minha presença naquele lugar. Pedi a Vee que fosse buscar um café para ele, e ainda decidia se o faria beber ou se jogaria o café em sua cara. Depois que Vee saiu, fui até o banheiro, que estava todo molhado e uma bagunça, mas não tinha nada para encher de água. Enquanto eu decidia se esvaziava o lixo para usá-lo como balde, eu vi algo que não deveria. Eu não queria ter visto. Não era para ver aquilo, porque, quanto mais eu tentava ficar em dúvida sobre o comportamento de Patch, mas eu recebia indícios do que ele era capaz.
Dentro do lixo havia uma camisinha usada.
No frigobar, uma garrafa de água mineral foi a arma que encontrei para tirar meu anjo daquele estado deplorável. Despejei o conteúdo em sua cabeça, e Patch pulou da cama como se eu lhe tivesse dado um choque. Talvez eu devesse.
— Nora? — Ele me reconheceu. Quase fiquei emocionada. Obviamente, estou sendo sarcástica. — O que você está fazendo aqui, anjo?
— Essa pergunta é minha, Patch. O que raios aconteceu nesse quarto, eu posso saber? Você bebeu; você está bêbado?
— Provavelmente, quase certamente. — Ele baixou a cabeça, suportando-a nas mãos. — Minha cabeça está girando, acho que o mundo está girando mais rápido.
— Patch, tinha uma mulher aqui, com você?
Ele me olhou. Havia confusão em seus olhos, e ele precisou girar o pescoço e analisar cada canto do quarto para ter certeza de onde estava, e de que era eu mesma falando com ele. Depois ele olhou para mim.
— Claro que não, anjo. — Ele recostou na cama, e vi que ele estava bastante molhado, mas não conseguia levantar. — Eu estou bêbado ainda, eu acho. Mas claro que não tinha mulher alguma aqui, você acha que, se tivesse, eu estaria nesse estado?
— Então que tal você explicar por que há uma camisinha usada no banheiro? E por que tinha uma vagabunda loira saindo desse quarto quando eu cheguei?
— Eu não fiz sexo essa noite, Nora. Eu saberia, mesmo bêbado. Eu não perdi a consciência. — Novamente, ele parecia confuso, mas também parecia estar dizendo a verdade. Eu não sabia em quem acreditar; eu não sabia se queria acreditar nele ou não. — Anjo, o que você veio fazer aqui?
— Eu não tenho que te dar respostas, Patch. — Reclamei. Vee chegou com o café e entregou o copinho de isopor a ele, que aceitou o líquido quentinho com um sorriso. O sorriso de desarmava qualquer um; o sorriso de Patch. — Você é quem está devendo algumas explicações.
— Eu já de disse o que sei. Eu saí de casa ontem e fui para Rixon. Depois de passar algum tempo debaixo da sua janela, eu decidi arrumar um jeito de dormir sem pagar. Fui até o bar e joguei por um quarto nessa espelunca. Obviamente, eu ganhei. Bebi bastante; acho que ingeri umas duas garrafas de vodca. E vim para cá, me arrastando, tomei banho e me joguei na cama. Até você me acordar, eu estava completamente desmaiado.
— E você quer que eu acredite que estão armando para você, é isso? — Esbravejei.
— Não. Você está vendo o que quer ver. Deve ter uma camisinha naquele lixo, usada por outra pessoa, outra noite. Você acha que esse lugar é limpo regularmente, Nora? Você não viu o dono desse lugar? Isso é uma pocilga. E, se tinha uma mulher saindo daqui, você deve ter visto errado. Só se alguém entrou enquanto eu estava desmaiado. A porta estava aberta, mesmo.
Tudo que ele disse fazia sentido, e era exatamente esse o problema. Ele provavelmente achava que eu era fácil de enganar, e eu era. Mas eu não cairia nas mentiras de Patch, porque ele tinha que estar mentindo. Eram muitos indícios de que ele tinha passado a noite com a primeira prostituta que se ofereceu para ele. Eu estava certa, desde o início. Ele me traía, ele usava aquelas vadias para sexo enquanto eu não podia dar satisfação a ele. Talvez até quando eu podia. Eu era a ridícula da mulher que carregava o filho dele, enquanto aquelas garotas de programa, lindas e loiras, satisfaziam a sua libido.
Aproximei-me dele e desferi um tapa em sua face. Minha mão espalmada atingiu Patch em cheio, e ele nem mesmo se moveu para esquivar. Vee assustou-se, mas não interferiu em nada.
— Eu nunca te traí, Nora. — Patch disse, olhando-me nos olhos. O canalha sabia mentir, eu não podia negar.
— Eu não acredito em você, Patch.
Independentemente da reação de minha amiga, disparei pela porta do quarto em direção ao carro dela. Eu precisava chorar, mas eu não queria chorar na frente de ninguém. Eu precisava vomitar, e aquilo eu faria ali mesmo, no meio da rua, na frente de todo mundo. Despejei meu conteúdo estomacal – que consistia em algumas frutas e muito ácido – sentindo o vômito arder minha garganta enquanto meu corpo convulsionava, expelindo tudo que eu tinha absorvido nas últimas horas. Vee chegou atrás de mim depois de alguns minutos e segurou meu cabelo, na intenção de me ajudar. Eu precisava parar com aquilo; detestava vomitar toda vez que eu estava nervosa ou agitada.
Sem dizer nada, Vee abriu a porta do carro para mim, e me fez entrar. Até ela sabia que o melhor a fazer era me tirar dali. Eu achava que ela acreditava em Patch. Que ela me via como uma ciumenta exagerada, que estava fazendo tudo errado e que Patch jamais faria aquilo comigo. Mas ela não diria aquilo, também. Como uma boa amiga, ela dirigiu comigo até minha respiração normalizar, e me levou para a casa dela; para o dormitório que dividíamos antes, ao invés da minha casa. Eu não queria, também, enfrentar minha mãe, que saberia que algo muito ruim aconteceu. Porque eu estava suando, eu estava tremendo, eu tinha dor de cabeça e eu estava vendo tudo escuro na minha frente.
Então era aquilo que uma pessoa sentia ao perder o amor de sua vida.
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