Fracture (sequencia De Falling)
4 03 - Ele é popular
Notas iniciais
Ei leitores! Desculpa mesmo pela demora aqui, mas o final de ano foi punk. Estou cheia de ideias, vamos ver se consigo postar 1 capítulo por semana durante as férias. Espero que vocês ainda estejam comigo, e obrigada por esperarem tanto tempo. Beijos!
Quando Patch voltou para casa eu já tinha acordado novamente, e estava com Rose na sala, assistindo televisão. Eu estava muito entediada por não ter nada para fazer há muito tempo, e estava infeliz por ter ficado sozinha. Minha mãe estava dormindo, porque alguém precisava ficar alerta se o bebê decidisse passar a noite em claro, mais uma vez. Eu fingi que não o vi, e ignorei quando ele passou a mão por minha cabeça, tocando meu couro cabeludo com os dedos, afagando-me da forma que só ele sabia fazer e que eu adorava.
Eu odiava Patch por fazer-me adorá-lo tanto a ponto de nunca me permitia irritar-me o suficiente com ele. Depois de beijar-me a cabeça e perceber que eu estava de péssimo humor, ele pegou o bebê de meus braços. Ergui os olhos para observar a cena que sempre me encantava, e que me fazia ter certeza que Patch, apesar da sua casca grossa, era uma pessoa – um anjo! – especial. Rose encaixava perfeitamente nos braços dele, e parecia confortável demais em contato com sua pele. Ele olhou para ela demoradamente, permitindo que seus dedos se enrolassem nos cachos dourados dos cabelos dela, enquanto ela o encarava com os olhos abertos e atentos.— Nora. – Ele disse, sentando-se ao meu lado no sofá, puxando-me para bem perto dele. Eu estava rígida como um cadáver, não muito interessada em conversar. – Você está chateada comigo.— É, devo estar. – Respondi, sem tirar os olhos da televisão. – Afinal, você sumiu pelo dia inteiro, e eu nem mesmo consegui falar com seu celular. E voltou para casa cheirando a...— Sabonete? Meu perfume? Minha loção pós-barba? – Ele me interrompeu, pendendo a cabeça para o meu lado. — Não seja ridículo. – Reclamei.— Nora, você está se deixando influenciar e está vivendo uma situação que não existe. Eu saí porque está cada vez mais difícil lidar com Blythe e sua intromissão constante em nossa vida. E porque você precisava descansar. — Você passou a noite inteira sem dormir; não ia querer dormir comigo durante a tarde? Eu acho que tudo isso é desculpa e você só quer se livrar de mim.Patch ergueu a sobrancelha e me encarou. Seus lábios estavam parcialmente erguidos, e havia aquela aparência de comicidade em sua expressão. — Vamos sair? – Ele disse, beijando minha orelha. Eu não esperava por aquilo. Na verdade, eu nunca esperava por Patch; ele sempre me surpreendia.— Você ficou doido? – Eu retruquei. – Como assim, sair; temos uma criança recém-nascida em casa.— Anjo. – Ele beijou minha boca, daquela vez. – É para sair com Rose. Vamos sair em família; há quantas semanas você não sai de casa? — Desde o parto. – Eu disse, com uma careta. Eu estava tão introspectiva que nem me reconhecia. Eu não era muito de sair para grandes festas ou eventos, mas eu sempre tinha algo para fazer durante os finais de semana. – E eu ainda não sei se está na hora...— O que você quer fazer? – Ele continuava a me beijar, daquela vez descendo para o pescoço. – Está claro lá fora, temos ainda bastante tempo de luz do dia; por que não podemos sair nós três, como uma família?Sim, família. Ele estava certo, e eu queria mesmo fazer aquilo. Sorri para ele, esquecendo-me momentaneamente daqueles pensamentos ridículos que me tinham extenuado a tarde quase inteira. Levantei, saltitante, do sofá, e corri para o quarto. Eu queria me vestir e ficar linda para Patch; perfeita para poder exibir minha família perfeita para os mortais que não tinham a mesma felicidade que eu. Porque eu achava que ninguém que não tivesse Patch fosse tão feliz quanto eu era. Escolhi um vestido azul, que combinava com minha pele, e passei maquiagem. Prendi o cabelão em um coque bem feito no alto da cabeça, deixando o pescoço à mostra, do jeito que ele gostava. E coloquei um batom vermelho, quase exagerado demais para aquela hora do dia, mas que devolveu a cor à minha face pálida e desanimada. Quando saí do quarto, mais vivaz, pensando em o que fazer Rose vestir, surpreendi-me mais uma vez com o fato de ela já estar pronta para o passeio. Seus pezinhos estavam cobertos por uma meia colorida, e ela usava um vestidinho cor-de-rosa de mangas compridas. Seus cabelos dourados como o sol de verão estavam ornamentados com uma pregadeira infantil. E seus olhos azuis prestavam atenção em tudo que acontecia à sua volta. Eu nunca pensei que ver o movimento das pessoas pudesse me deixar tão empolgada. Patch nos colocou no Jeep Comander e nos conduziu pelas ruas de Portland, eu já me animei apenas por ver gente andando pelas calçadas, pessoas fazendo compras, saindo do trabalho, buscando os filhos na escola. Rose estava em uma cadeirinha especial para bebês da idade dela, no banco traseiro do Jeep, e parecia estar atenta ao movimento tanto quanto eu. — Pare naquela vaga. – Apontei, abruptamente, para a esquerda. – Eu quero ir à farmácia.Patch fez uma conversão proibida no meio da avenida; alguns carros frearam por causa disso. Ele estacionou como se aquilo fosse natural para ele; como se guiar aquele carro enorme não fosse um desafio. Eu era mesmo uma boba apaixonada, tudo que Patch fazia me deixava mais excitada com ele. Bem, eu estava excitada com tudo, naquele dia. — Você está bem, precisa de alguma coisa, anjo? – Ele demonstrou preocupação, com aquele vinco no meio das sobrancelhas e o olhar intrigado dele. Sorri, e beijei-o nos lábios, sutilmente. — Não é nada demais, só vou comprar uma coisa que preciso começar a tomar.
Patch não entendeu, e eu não queria explicar. Aquele relacionamento deveria ser tão novidade para ele quanto era para mim, pois ele, por mais experiente que fosse, não estava acostumado a ter uma mulher como eu. Ele fazia sexo, talvez até mais do que uma pessoa normal costumam fazer. Ele era quase um animal, e aquele pensamento nunca me fazia bem. Comigo, a coisa era diferente. Eu era uma pessoa com quem ele era compelido a conviver, e eu era uma garota. Ele não entendia – às vezes, nem eu entendia! – algumas coisas que eu precisava ter, pelas quais eu precisava passar. Mas eu estava preocupada com o óbvio. Se nós tínhamos conseguido fazer um filho, o que nos impedia de fazer outros? Os arcanjos já tinham brincado conosco uma vez, com aquela história – ainda não processada e digerida – de criar uma raça de super híbridos, filhotes de anjos. Eu detestava pensar em minha Rose como uma criaturinha que seria preparada para lutar contra monstros, demônios, coisas do tipo. Eu nem sabia direito o que pretendiam os arcanjos, mas eu queria dizer não. Não, nunca, nem sobre meu cadáver. Então, por mais que eu a amasse, e por mais que constituir uma família fosse uma coisa fantástica, eu não queria envolver outra criança nessa história. Enquanto eu escolhia o que precisava, e enfrentava uma fila para poder pagar, fiquei observando o Jeep do lado de fora, pelo vidro da farmácia. Franzi a sobrancelha quando vi duas mulheres, vestindo trajes mínimos, que eu não usava nem na praia, se aproximarem da porta do motorista. Patch colocou parte do corpo para fora, e as cumprimentou. Eu não conseguia ouvir o que eles falavam, mas eu conseguia perceber. Uma delas tinha meio corpo para dentro do Jeep, e outra olhava pelo vidro, o banco de trás. Que, para minha surpresa, abriu-se para que ela pudesse ver Rose melhor. Claro que ela estava olhando para minha filha; que outra atração poderia haver no banco de trás de um carro?Torci os lábios em irritação. Patch era absurdamente protetivo com Rose, mas permitia que aquelas garotas, que eu nem conhecia, se aproximassem dela daquela forma? Senti meu sangue entrar em ebulição e, se eu não quisesse tanto comprar aquele bendito anticoncepcional, eu teria saído correndo da farmácia naquele instante. Joguei o dinheiro por sobre o balcão, quando chegou a minha vez de pagar, e enfiei a caixinha em uma sacola plástica, irritadiça. Meu péssimo humor nem parecia me pertencer, mas ele me perseguia há meses. Quando me aproximei do Jeep, as duas garotas se afastaram um pouco. Patch não fechou a janela traseira, apenas abriu a porta para mim – ela estava trancada, ao menos isso. — Essa é Nora. – Ele me apresentou para as garotas, que não pareceram se importar muito com a minha presença. A que estava mais próxima dele tinha a mão em seus cabelos, enrolando os cachos negros na ponta dos dedos. Se isso fosse possível, meu sangue já teria evaporado totalmente de meu corpo. – Conseguiu o que queria? – Ele dirigiu-se para mim. Patch não parecia muito envolvido com as garotas, na verdade. Como se elas estarem ali não fizesse muita diferença para ele.— Sim. – Disse, secamente. – Vamos?— Deem-me licença. – Ele fechou bruscamente o vidro traseiro do Jeep, e sorriu para as garotas, indicando que estava de saída. Arrancou com o Jeep e pegou a avenida novamente. Suas mãos tocaram as minhas, mas eu, instintivamente, puxei-as. Ele não disse nada, voltou a segurar o volante. Mas seus dedos pressionavam o couro com tanta força que os nós estavam esbranquiçados. A conversa era mesmo para ser iniciada por mim. — Quem eram? – Minha voz estava baixa e destonada. — Anjos caídos. – Patch disse, sem nenhuma emoção. – Curiosas por saberem da existência de Rose. Ela é meio que um mito no universo dos caídos; uma criatura que desperta a curiosidade de todos. — Elas me pareciam garotas de programa. – Franzi a sobrancelha, segurando a sacola de plástico quase a ponto de rasgá-la. — E elas são. – Ele não moveu um músculo. – Você está surpresa, anjo, por existirem caídos do sexo feminino? — Pensei que anjo não tivesse sexo. — Claro. – Ele ergueu os lábios, em um sorriso cínico. – Eu posso afirmar que anjos têm sexo, e pensei que você também podia fazer isso. Afinal, o que temos feito desde que nos reencontramos não seria suficiente para te convencer que eu sou um homem?Eu odiava quando ele era engraçadinho, e eu estava zangada demais com ele para rir de suas piadas. Odiava porque elas sempre me desarmavam. E eu queria estar chateada, afinal. — Não tem graça nenhuma, Patch. – Menti, tentando esconder meu humor. – Eu percebi o quanto elas se ofereciam para você; e você ainda as deixou ver nossa filha!— Eu tenho um bom relacionamento com os caídos, Nora. Eu sou um deles, e eu preciso deles, no final das contas. E todas as mulheres agem daquela forma comigo, você já devia estar acostumada. — Você não recebeu a bênção e deixou de ser um anjo caído?— Para quem está há tanto tempo comigo, Nora, você consegue ficar bem pouco objetiva quando está irritada. – Ele sorriu novamente, e me encarou com aquelas bolas negras de vidro, que brilhavam e refletiam luz nenhuma. – Eu ainda sou a mesma coisa de antes, anjo. Mas eu agora posso sofrer; eu posso me ferir, sentir muita dor, sentir muito prazer. Eu estou abençoado, mas ainda sou um anjo. Cruzei os braços e mantive minha postura indignada. Eu não gostava de saber que ele interagia com pessoas como aquelas garotas, mas eu não podia questionar o fato de que Patch era popular. O Jeep parou em um parque comunitário tradicional de Portland e ele indicou que ficaríamos ali. Eu ainda estava irritada, mas nada a fim de tomar decisões ou contrariá-lo. Depois de estacionar, Patch abriu a porta e pegou Rose de sua cadeirinha. Ele não tinha o hábito de ser cavalheiro ou gentil comigo, e aquela não seria uma exceção. Por que ele iria querer me agradar, se eu mesma não estava sendo agradável? O parque não me era conhecido, porque eu nunca tinha estado ali. Passei na frente dele algumas vezes, e só. Mas Patch parecia o rei do pedaço; todos que cruzavam com ele tinham algo a dizer; cumprimentavam-no. Ele estava usando uma camisa listrada de vermelho com cinza, de gola polo, que contrastava absurdamente com sua pele morena e seus cabelos negros, e jeans. E carregava consigo a criança mais branca e loira que já existiu na face da Terra, arrastando, atrás de si, uma mulher ranzinza e com a aparência de quem não queria nenhuma conversa. Eu. Parecia óbvio que ele chamaria a atenção dos presentes, e que Rose também seria uma sensação. Enquanto eu ficaria relegada a segundo plano, porque eu simplesmente não tinha nenhum atrativo. Nada daquilo deveria me chatear. Patch não estava prestando atenção em ninguém. Sua mão livre estava bem colocada em meu ombro direito, e ele me mantinha próxima de si como se eu pudesse desaparecer no meio do movimento. Nossa filha, desperta, olhava somente para ele, como que embevecida pelo fato de que o pai dela era espetacular. Claro que ela era um bebê e que não tinha nenhum daqueles pensamentos. Mas ela estava encantada por ele, assim como todo mundo que o olhava. Todas as mulheres, mais precisamente. A questão era que ele não parecia enxergar ninguém, além de quem ele pretendia ver. Paramos em um banco de praça tradicional e sentamos; Patch colocou Rose no bebê conforto, que eu carregava, e a acomodou ao seu lado. Quando o assunto era ela, ele se mostrava protetor em excesso. E mantê-la entre nós era um inconveniente, pois ele gostava que eu estivesse sempre pele a pele com ele. Eu não fazia objeções. Ficamos algum tempo ali, sentados, observando o movimento. Patch queria saber sobre minha pós-graduação, e sobre como eu continuaria os estudos e os trabalhos em breve. Sim, seria breve, afinal. A licença maternidade era pequena demais; eu já sentia a faculdade me oprimindo em apenas três meses. Foi interessante conversar com Patch; fazia algum tempo que eu só me reportava a ele quando ele me perguntava coisas sobre Rose, ou sobre Blythe, ou sobre o caos que nossa vida a dois tinha se tornado. Bem, para mim era um caos. Ele parecia tranquilo quanto a tudo. — Você quer um sorvete, anjo? – Ele perguntou, olhando para mim com as sobrancelhas franzidas. Havia um vendedor de sorvetes próximo a nós, balançando um sino estridente que estava chamando a atenção de Rose. – Ou alguma outra coisa? — Não sei. — Fiz uma careta e olhei em volta. — Talvez um de chocolate?
Patch sorriu e levantou-se, indo até o sorveteiro e deixando suas duas mulheres a esperar por ele. Mal percebi que meu pescoço estava tombando para o lado; enquanto meus olhos suspiravam pela visão dele se afastando de mim, de costas, bem devagar. Eu já tinha visto Patch sem roupa, muitas vezes, e já tinha usufruído daquilo tudo que ele podia oferecer, todas as vezes. Mas eu não me cansava de admirar e de considerar o quanto ele me seduzia; o quanto ele era, fisicamente, a materialização de todos os meus desejos. Naquele momento idiota, eu ouvi um estalo e meu cérebro me perguntou se eu sentia a mesma coisa por ele em uma conotação espiritual. Foi a primeira vez que considerei se minha conexão emocional com Patch era tão grande quanto a minha atração física por ele. Não tive muito tempo para pensar naquilo, apesar de eu ter certeza de que não abandonaria aquele assunto facilmente. Enquanto eu lutava com meu ‘eu interior’, que não era muito inteligente, e prestava atenção na dispersa Rose, alguém se aproximou de Patch. E eu não gostei nada. Era uma mulher, alta e loira, como era Dabria, o anjo da morte que tentou me levar à força para o outro lado. A simples similaridade com Dabria já era suficiente para me fazer eriçar os pelos da nuca. Mas não foi apenas isso que me irritou naquela aproximação, mas também o fato de que a mulher imediatamente colocou a mão no ombro dele, de uma forma displicente e íntima. E eu estava azul de ciúmes em menos de um segundo.Patch não se virou para mim, o que me fez considerar que ele não notou meu estado de espírito conturbado. Aquilo também era uma coisa rara de acontecer. Patch sempre me notava, ele sempre pressentia como eu estava, o que eu precisava, o que eu queria. E ele sempre se antecipava, o que me deixava, de certa forma, mal acostumada. A mulher passou a mão pelos cabelos dele e puxou-o para mais perto, sussurrando alguma coisa em seus ouvidos. Patch não demonstrou qualquer reação gestual que me fizesse compreender qual era o seu estado de espírito naquele momento. Mas o meu era dos piores. Sem pensar muito no que eu estava fazendo, levantei-me e caminhei até o sorveteiro. Não, eu caminhei até Patch. Meus pés pararam centímetros de distância dele, perto o suficiente para a dama que o molestava perceber a minha chegada. Ela não tirou as mãos dele, apesar disso. Seus dedos longos continuavam no pescoço de Patch, e seu corpo completamente colado ao dele, de lado. Ele tentou virar-se para mim, e seus olhos procuraram o que eu deveria ter comigo, mas tinha deixado para trás naquele arrobo de inconsciência. — Nora, onde está Rose? — Foi o que ele conseguiu dizer, enquanto suas mãos seguravam as da mulher e a faziam soltar-se dele. Olhei para trás e vi o bebê conforto no banco, da mesma forma que eu havia deixado. Os olhos de Patch me seguiram, e pude notar quando o diafragma dele relaxou. — Você precisa de ajuda para comprar o sorvete? — Perguntei, não oferecendo a resposta que ele já tinha. Considerei desnecessário explicar onde estava nossa filha se ele já sabia. Mas o semblante rígido de Patch não se suavizou. Ele afastou a mulher com uma mão, segurou o sorvete com outra, e empurrou-me com o corpo inteiro, demonstrando exatamente que ele não pretendia perder mais tempo ali. — O que foi, Patch?— Não gosto de deixar o bebê sozinho. — Ele disse, e entregou-me a casquinha de sorvete. Olhei para a guloseima com pouca vontade de devorá-la, enquanto Patch afastava-se de mim. Era segui-lo ou colocar fim à discussão. Adivinhem que opção escolhi?— Deveria ter pensado nisso quando me deixou sozinha para interagir com aquela... aquela... seja lá o que aquela mulher for. — Protestei, indo atrás dele. Patch pegou Rose no bebê conforto e a ergueu à altura de seus olhos. Eles pareciam conversar, os dois, e considerei se ele não estava realmente fazendo isso. Falando com ela, através de seus pensamentos. Como ele fazia comigo, antes. Ele parecia realmente aliviado ao aconchegar nossa filha em seu peito, mas seu olhar para mim continuava frio e distante.— Ela é Mary Sue. — Patch respondeu à pergunta que nem mesmo fiz. — Proprietária do bar onde eu sempre jogo; graças a ela temos provimentos em casa todo dia.— Você fala como se exercesse uma função social relevante, Patch Cipriano. — Soltei a fera que estava dentro de mim. Eu nem mesmo percebi que falava em tom de voz agudo e ruidoso. Eu não estava gritando, porque detestava escândalos, mas o timbre da minha voz indicava que eu não estava nada satisfeita com aquela conversa. — Você a apresenta para mim como se ela dirigisse uma fundação que ampara os necessitados, mas tudo que vejo é uma mulher vulgar, vestindo uma saia que não cobre nada do que se propõe a cobrir, que não sabe respeitar os limites dos homens casados. Aliás, sabe o que eu não vejo? Você se portando como meu, Patch. Desde que decidimos, melhor, desde que você decidiu sair. — Nora, você está fazendo uma cena porque uma mulher veio conversar comigo? — Patch me encarava. O sorvete já tinha começado a derreter na minha mão, mas eu não estava me importando muito. — Não. Eu estou fazendo uma cena porque... ah! Se você não sabe por quê, Patch, eu não vou te explicar. Eu quero voltar para casa. Eu estava profundamente irritada. O meu péssimo humor fez com que Rose se sentisse mal, e ela começou a chorar. Sentei com ela no banco traseiro do Jeep e a coloquei na cadeirinha, mas ela chorava sem parar. Tentei amamentá-la, para ver se ela tinha apenas fome, mas ela continuava a chorar. Quanto mais eu tentava fazê-la parar, menos sucesso eu tinha. Patch estava tenso, eu podia vê-lo segurar o volante de couro com força demais, e as suas articulações estavam todas esbranquiçadas. Estava tudo muito errado, mas eu não sabia o que fazer para que voltasse a parecer certo.Entrei apartamento adentro com Rose chorando sem parar, e fui para o quarto dela. Meu corpo tremia, e minha cabeça estava latejando de tanta dor. Bastaram alguns minutos de inferno para que meu organismo reagisse violentamente. Patch fechou a porta e veio atrás de mim, caminhando lentamente. Os seus movimentos calculados — e a facilidade com que ele encarava o stress — me irritavam ainda mais. — Nora. — Ele chegou por trás de mim, e eu o repeli antes que ele conseguisse me tocar. Patch afastou-se e recostou o corpo no batente da porta, enquanto eu me esforçava com Rose no colo, tentando fazê-la acalmar-se. — Dê-me o bebê, vamos.Eu não queria, mas não pensei em nada melhor, naquele momento. Estendi os braços e deixei que ele segurasse Rose em seu colo. Patch precisou de quinze segundos para fazer minha filha calar a boca; bastou recostá-la em seu peito e acariciar suas bochechas rosadas para que ela ficasse subitamente hipnotizada. Ela olhava para o pai, absorta, sugando violentamente a chupeta; e ele falava com ela alguma coisa que eu não conseguia — ou não queria — entender.— Você não está usando esses seus poderes em nossa filha, está? — Eu tinha que perguntar, afinal.— Claro que não, Nora! — Ele pareceu profundamente ofendido com aquela hipótese. Patch ergueu o olhar e me encarou, enquanto eu girava próxima ao berço. — Ela só precisava se sentir segura, e você não está exatamente apta a transmitir-lhe estabilidade, agora. Eu não uso “meus poderes” há muito tempo, você deve saber disso. Tem tanta coisa que você sabe mas parece que não consegue enxergar, Nora. O que está havendo?— Eu talvez esteja com dificuldades em lidar com um bebê de um mês e um marido que paquera todas as garotas de Portland. — Disparei.— Eu? — Patch me olhou com aqueles olhos sombrios. — Não existe outra mulher em Portland além de você, Nora. — Você só pode estar brincando comigo, não está? — Eu ainda estava muito descontrolada. A voz suave e a forma como ele falava comigo me deixava ainda mais enlouquecida. — As mulheres dessa cidade se atiram por sobre você, e fazem isso na minha cara! Elas nem mesmo respeitam o fato de que você tem uma filha comigo, de que você mora comigo! Elas por acaso sabem que eu sou a única mulher? Pois parece que não!— Claro que elas sabem. Mas isso não as impede de tentar.— Seu canalha. — O que me impediu de esmurrá-lo, naquele instante, foi Rose. Se Patch não estivesse com a menina no colo, eu o teria machucado. E sem qualquer piedade, porque havia um demônio dentro de mim. — Você não tem nem mesmo vergonha de me dizer que essa mulherada fica se esfregando em você e...— Nora Grey, você está completamente fora de si. — Ele elevou um pouco o tom de voz, e caminhou na minha direção. Afastei-me, mas ele queria apenas colocar Rose no berço. Ela estava quase adormecida, mas eu duvidava que nossos gritos pudessem ajudar em algo. Provavelmente ela voltaria a chorar em minutos. — Eu não deixo ninguém se esfregar em mim, ou qualquer outra coisa que você esteja pensando. Eu não sinto essas pessoas, Nora! Eu vivo por séculos, e desde então eu nunca sinto nada, eu nunca senti nada. Nenhuma dor, nenhum calor, nenhum toque. Sim, as mulheres tocam em mim, e elas até mesmo faziam coisas das quais não me orgulho; mas elas nunca importaram porque nunca houve nenhuma conexão entre mim e elas! — Patch virou-se para mim, e segurou minha mão. Eu quis fugir dele, mas ele não deixaria. — Eu preciso sentir aqui. — Ele colocou minha mão por sobre o seu peito, como ele usualmente fazia. — É aqui que eu te sinto. Você não entende, nenhuma delas importa, nada do que elas fazem importa.Havia súplica nos olhos de Patch, e eu nunca o tinha visto olhar para mim daquela forma. Era como se aquela fosse a primeira vez que ele estivesse realmente preocupado com a minha opinião, com o que eu faria com aquela conversa. O negro absoluto de seus olhos estava brilhante, e eu nunca tinha visto brilho algum, ali. Patch absorve a luz, não a irradia. Mas eu estava ferida demais. Puxei a mão e o encarei, com a mesma irritação de antes.— Você não sentia, Patch Cipriano. Você poderia me convencer com essa conversa toda, antes. Mas agora? Toda vez que elas encostam em você, ou falam coisas para você; tudo isso é físico agora.— Não faz diferença, para mim. Eu ainda só sinto você.— Mentiroso. — Disparei novamente. — Você é o mesmo vadio de antes, e o fato de ter ficado tanto tempo sem sexo só te fez ainda mais ordinário. Você precisa delas, não é? Porque aqui você não consegue se satisfazer!Novamente, ele olhou para mim como que profundamente machucado pelas minhas palavras. A luz se foi de seus olhos, e ele baixou a cabeça.— Eu amo você, Nora. Eu pensei que eu tinha conseguido convencer você disso; eu pensei que tinha mostrado que sou digno de seu amor. Eu acreditei que, depois da partida dos arcanjos, nós estaríamos juntos para sempre. Afinal, você é um nefilim. Mas talvez o sempre seja um período de tempo que só se aplique a mim. E à minha desgraça. Baixei o olhar, também. Eu jamais conseguiria falar o que estava preso em minha garganta se olhasse para ele. Porque, apesar do que eu estava fazendo, eu o amava demais. — Talvez nós devamos nos dar um tempo, Patch. Muita coisa aconteceu e talvez seja preciso que confirmemos nosso amor. — Eu não preciso confirmar o que sinto. — Ele disse, e a agonia estava em cada letra que ele pronunciava. — Mas se é como você se sente, eu devo respeitar. As regras são bem claras; enquanto você não me quiser, eu não posso me impor a você.— Não estamos mais jogando. — Indignei-me.— Com os arcanjos, estamos sempre jogando. — Patch passou os dedos pelos cabelos ondulados e caminhou em minha direção mais uma vez. Enrijeci todos os músculos quando ele colocou as duas mãos em meus ombros e me beijou os cabelos. Ele estava trêmulo. — Eu estarei por aí, anjo. Você sabe onde e como me encontrar, se quiser. — Aonde você vai? — Eu perguntei, já sabendo a resposta.— Você quer dar um tempo. — Ele virou-se de costas. — Vou me afastar e dar a você todo tempo que precisa. Saiba apenas, Nora Grey, que eu vivo para estar com você. Sem você, eu não tenho absolutamente nada para fazer nesse mundo. Não mais. Patch saiu do quarto de Rose e eu não o vi mais. Estava estatificada, presa ao chão, considerando o que tinha acabado de acontecer. A porta da sala fechou-se e eu tive certeza que ele tinha saído. Que ele não estava mais em casa; que ele não estaria na cama quando eu fosse dormir. Meu coração se apertou e eu não consegui mais respirar. Corri até a porta, abri-a e olhei para o corredor vazio. Minha cabeça girava de um lado para outro, e o mundo tornou-se um lugar muito confuso. Minha mãe apareceu para me levar para dentro de casa, mas casa adquiriu, repentinamente, um conceito muito errado.Não havia casa sem Patch. E Patch não estava mais ali.
Notas finais
Se ficaram com raiva da Nora, informo que a coisa só vai piorar =D
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