Four Seasons
16 Hear Me.
Notas iniciais
Ô VIDA BOA *------------*
Vai Apollito ^^
Esse daqui vai para Dama do Poente *--* Obrigada, Lady, pela recomendação ^^
[Música — Hear Me — Kelly Clarkson]
Ela estava encolhida, as pernas contra o peito, as mãos nas orelhas e a cabeça abaixada quando Apolo, após muito esperar que ela voltasse ao terminar o banho, abriu a porta do banheiro e adentrou no pequeno cômodo. Lágrimas banhavam os olhos fechados dela, os cílios colados com força enquanto murmurava alguma coisa que ele não conseguiu compreender.
- Artemis? – chamou-a preocupado, ajoelhando-se assim que viu a cena, a frente da garota, as mãos grandes e quentes tocando-lhe as dela que pareciam para ele tampar, impedindo-se de ouvir algo. O medo o preencheu quando ela tremeu, murmurando “Não existe, não existe”, e ele soube do que ela se dirigia. Desde o dia em que eles haviam conversado, ela prometera ao garoto de cabelos loiros de que diria se visse algo, o que não ocorreu por todo aquele tempo, e nem ele mesmo deixou isso acontecer. Até agora. Ele sabia que havia algo errado, não precisava ser um gênio para isso, e fora a primeira vez que a deixara longe por tanto tempo, costumavam até mesmo esperar um terminar o banho para o outro para terem certeza se o fato dela encontrar-se dentro de um cubículo que podia ser facilmente trancavel não a despertasse a doença.
E agora ele via como aquilo poderia agir com ela.
Olhos opacos, sem vida e sem sintonia o fitaram cobertos pelo pavor, o verdadeiro, daqueles que só sentimos quando estamos em situações extremas.
- Não é real. Não é real. – Artemis continuava a murmura como um mantra enquanto Apolo entrava em desespero. Não esperava que a esquizofrenia a atacasse por agora e nem com aquela força. Talvez estivesse a tanto tempo guardada que na primeira chance, saiu, assombrando tanto a garota pálida quanto a ele. – Não é real. Não é real.
- Artemis – chamou mais alto, segurando o rosto da sua gêmea perto do seu, forçando-a a olhá-lo nos olhos. Loucura, foi o que ele viu ao afundar-se nos prateados confusos e medrosos, uma pontada forte de tristeza o tocou no coração a notar aquilo, mas Artemis continuava a encará-lo como que o olhando, contudo, sem realmente o vê-lo. – Artemis, sou eu, Apolo.
- Não é real, não é real.
Por um minuto, Apolo perguntou-se se sua irmã encontrava-se ali, com ele, naquele plano, no instante em que as pupilas dela viraram-se em sua direção. Ele sorriu forçadamente. Precisava ser forte, por mais que seu coração quisesse se despedaçar ou sua alegria esvair com a consciência dela. Ela está como nossa mãe nos primeiros dias, ela não vai ser nossa mãe, não vou deixar.
- Artemis – amaciou o nome dela ao mesmo tempo em que afagava a bochecha molhada esbranquiçada, secando algumas gotas que escorriam – Artemis, olhe para mim, estou aqui.
Como que saindo de um sonho, ela deixou o corpo tremer e assentiu para suas palavras, demonstrando que o compreendia, mas que não conseguia corresponder.
- Apolo.
- Sim, sou eu. – sorriu, com lágrimas caindo pelo seu rosto contra sua vontade, alivio chegando ao seu coração. – Está tudo bem. Eu estou aqui.
Ela balbuciou ao falar:
- Isso é real, Sol?
O fato de recordar seu apelido o acalmou e ele tocou seu nariz ao dela, sentindo a respiração irregular e o medo que emanava a cada expirar.
- Sim, Lua, sim, é real. – afagou o cabelo negro dela. – Está tudo bem.
- Eu estou com medo, Apolo. – Artemis apertou as mãos contra o ouvido. – Eles estão falando alto, gritando, me pedindo para machucar. Por favor, Apolo, me ajude. Eles estão por toda a parte.
Ela está vendo coisas. Medo, seu pesadelo se transformando em realidade nas gotas que escorriam pela face dela, pela boca branca.
- Shh, eu estou aqui, não precisa ter medo – encarou-a com mais força. – Não escute o que eles dizem.
- Não dá. – choramingou ela, em pânico naqueles atormentados olhos cor de lua. – Eles não me deixam, Apolo. Não deixam. Dizem coisas horríveis e tem ele. Ele diz que me segue todos os dias, mesmo quando não o vejo, Apolo, ele diz isso. Gritam, aqui, no meu ouvido.
Fique calmo.
- Quem é ele, Artemis? – sussurrou, fazendo-se ouvir sobre as vozes imaginárias, enquanto sentia os dedos dela trançarem-se aos seus com força, a ponto de ficarem brancos. Ela tem medo deles, seja o que forem. – Ele está aqui agora, Art?
Vagarosamente, ela assentiu, sem tirar os olhos dos seus. Ela está evitando olhar ao redor.
- Atrás de você – murmurou ela, a voz fraca de horror. – Ele está sentado, de pernas cruzadas e uma faca na mão. Ele diz coisas.
- Que coisas, Art?
Um soluço subiu pelo peito pequeno, estrangulado.
- Diz que vai te matar, Apolo, que devo te matar, que está me traindo, que vai me deixar assim que tiver oportunidade, que não me ama – as orbes transbordaram. – Eu estou com medo, Apolo.
- Não o escute, shh, eu não vou te deixar. – olhos sérios. Incerteza, a pior parte. – Eu nunca te deixei, Art, não será agora, ok? Ignore-o, só existe eu e você aqui.
Enquanto ele dizia, ela anuía com acenos de cabeça, os orbes enluarados marejados e as mãos segurando os ouvidos fracamente, com os dedos dele sobre as dela.
- Só eu e você – repetiu ela.
- Sim, exatamente, só eu e você. Isso... – deslizou o polegar carinhosamente nos lábios frios e entreabertos dela. – Isso é real, Artemis, consegue sentir?
- Consigo.
- Assim mesmo, isso é real. Eu... – colou a palma dela sobre seu rosto também úmido. – Eu sou real.
- Sim, você é real – Artemis tremeu. – Me tira daqui, por favor, Apolo.
Escutando o pavor de voltar ao estado inicial que a encontrara, o homem passou um dos braços por baixo das pernas dobradas dela e a puxou para cima ao erguer-se, segurando-a contra si, a carregá-la no colo pelos cômodos, ao sair do banheiro, do quarto, da sala até as escadas. Estas se encontravam vazias e frias, o que ele esperava, e não despertava nenhum medo com as luzes de neon ligadas e com Aquiles, que ao ver a dona daquele modo, chegando perto assim que Apolo sentou-se com ela em seu abraço, aninhando-a para afastar seus medos, os dela e os dele. O pseudo-lobo abaixou a cabeça para tocar a garota encolhida no colo do irmão. Artemis foi a primeira a revidar o comportamento com um carinho na cabeça dele. Apolo suspirou. Ao menos ela está voltando ao normal, apesar de ser rápido demais. Terei que fazer algo, não posso deixar isso assim. Não posso deixá-la longe por agora.
- Aquiles é real – murmurou ela, apropriando-se da forma que ele encontrara para fazê-la acordar e aplicá-la enquanto amaciava o pelo macio do animal que a encarava com preocupação. Então, ela virou-se e tocou o peito de Apolo, sobre o coração acelerado de medo e dor. Um choque subiu por ele ao ter aquela mãozinha gelada sobre seu peito quente. Ela ainda tem medo, posso ver isso em sues olhos. – Isso, esse batimento, é real.
Sorrindo, como que para afirmar que ela acertara, em uma didática infantil, ele deslizou o dedo pela bochecha macia e com toque de veludo e assentiu. Ela sorriu fracamente de volta.
- Você é real – suspirou. – Artemis, você escuta algo aqui?
Parecendo calcular, ela assentiu, os lábios prensados.
- Eles me seguem, por isso preciso saber o que é real. – mordeu a boca devagar. – Só há dois, uma menininha e um menino. Acho que somos eu e você.
- E você está com medo deles?
Ela negou.
- Não, ele me lembra você. – olhou pelo ombro dele. – Ele diz que você não me faz mal. Eles apenas conversam, não parecem preocupados com que eu posso escutá-los.
- Você não pode conversar com eles, ouviu, Art?
Voltando-se para ele, ela tocou a bochecha quente dele com dedos delicados e trêmulos. Prata no azul um pouco dourado.
- Eu sei, nossa mãe começou desse jeito. – suspirou, os olhos marejando. – Apolo, por que eu estou escutando-os agora?
Porque você ficou sozinha e o stress está desencadeando tudo.
- Não sei, Art, não sei. Mas não converse com eles, promete?
- Prometo. – sorriu um pouco. – Será que você vai ter que me internar?
Não, eu não vou fazer o que nosso pai fez.
- Jamais – a apertou com força. – Nunca.
- Mesmo se eu ficar ruim?
- Independente de como você esteja. – eu jamais te deixarei no estado e na distancia que nossa mãe esteve de nós. Medo, era só o que ele conseguia sentir enquanto tocava a têmpora dela com a boca molhada por suas próprias lágrimas. – Eu e você daremos um jeito, com todos os problemas.
- Apolo... – suspirou, o puxando para mais perto. – Não me deixe, não permita que eles me levem.
- Não vou deixar, Art. Família protege.
- Família cuida – terminou ela a frase que sempre dizia desde pequenos. Ela afastou-se para olhá-los nos olhos e pousar a mão sobre o maxilar dele. Olhos meio desfocados. – Me faz esquecer isso.
E a única maneira que ele achou para isso foi simplesmente colando sua boca a dela e a levando para dentro, para seu quarto, para seus braços, para seus desejos, para longe da loucura.
Eu vou dar um jeito, pensou ele antes de apagar aquilo de sua memória e só ter ela em sua mente.
Notas finais
Please ^^
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