Four Seasons
12 Bitter Sweet Symphony
Notas iniciais
Se divirtam com esse...
[Música — Bitter Sweet Symphony — The Verve]
- Então, como foram as provas?
A pergunta de Poseidon fez Atena emergir dos seus pensamentos sobre o que iria fazer para comer quando voltasse para casa e olhá-lo. Sob a fraca luz que adentrava entre as altas copas das arvores, uma entrelaçada a outra, formando um toldo verde escuro rente ao negro, os olhos verdes dele se mesclavam com toda aquela natureza infindável e meio mágica ao andar em plena noite em uma floresta.
Quando ele lhe pedira um lugar calmo e silencioso, o único espaço que Atena recordara e que detinha os dois desejos dele, era o Bosque dos Esquilos, como todos na faculdade chamavam, por, no inverno, haver esses animaizinhos castanhos correndo no chão cheio de neve da floresta, que agora, no verão, encontrava-se fofa com as folhas coloridas esparramadas por todos os cantos, com quase nenhuma planta embaixo, onde a luz do sol não conseguia adentrar. Parecera meio mórbido a ela entrar naquele habitat, tão intocado e meio frio, mas com umas incentivadas dele e Aquiles correndo até o máximo que sua guia deixava, fizeram-na concordar em ir. Agora, ela fitava-o, seguindo a terra ondulada enquanto seguia o ritmo dele.
- Bem — deu de ombros. — Cansativas, mas acho que consegui notas boas.
Poseidon sorriu, assentindo, os cabelos negros, como sempre, despenteados caindo de uma maneira que pela primeira vez, depois de conversar com ele mais vezes, Atena achou sexy. Dessa, Poseidon não se encontrava com roupas comuns, mas um moletom completo preto com o símbolo da universidade, de tênis quaisquer e nenhuma chance de estar bem arrumado para uma festa. O que era bem estranho para ela, porque, homens como ele, adoravam sair, ainda mais depois de tanto tempo. Ele ia me chamar para beber... Só que Aquiles não deixou.
- Você tem cara de quem gosta de estudar. — comentou batendo de leve um braço no seu sem querer. — Ops, desculpe.
Atena revirou os olhos. E seu corpo dizia "que merda de choque foi esse?”.
- Relaxe, e não precisa afirmar que eu sou nerd de uma forma tão polida.
- Você tem um quê de pensar que sempre te chamo de nerd.
- Mas é o que eu sou. — tossiu sem graça. — Quer dizer, você consegue me ver vestindo uma roupa de líder de torcida?
Poseidon a analisou por um tempo, levando-a a corar mais e odiar-se por ter comentado isso, antes de explodir em uma gargalhada que ecoou naquele, literalmente, inóspito espaço, mas só de pessoas, ok? Havia animais.
- Não, pela personalidade, eu jamais conseguiria visualizar. Mas em relação a corpo, bem, ai sim.
As bochechas dela arderam ainda mais, como estava virando usual cada vez que conversava com ele. O lobo puxou um pouco ela pra frente.
- Hum... Eu devo dizer... Obrigada? Isso foi se quer um elogio?
Outra vez, ele riu antes de fitá-la.
- Você é divertida. Mas, respondendo a sua pergunta, sim, foi um elogio.
- Ah, obrigada, então, eu acho.
- Você é peculiar, Atena.
- Outro elogio?
A garota de cabelos loiros que tremia de frio, mesmo que jamais admitisse isso, dentro da sua calça e blusa cavada de tactel, seguiu-o na risada. Andaram alguns metros, deslumbrando-se com o ambiente meio Senhor Dos Anéis a sua volta, o que fez Atena imaginar cavaleiros em armaduras cavalgando com alazões e indo para uma luta, o que de fato, não era difícil, ainda mais quando se tem um husk siberiano branco para dar um ar mais selvagem, se possível, para então ele voltar a puxar assunto.
- Eu nunca tinha vindo aqui, acho que deveria ter trazido minha máquina. — fitava o horizonte arborizado enquanto falava. — Você, esse verde, esse cachorro... Ficaria uma imagem bem legal.
- Você gosta de tirar foto de animais.
- Hã?
Ele a olhou e ela corou, abaixando os olhos como desculpa para tirar a guia de Aquiles. No primeiro segundo que o cachorro albino notou a liberdade, saiu correndo, como que indo achar sua alcateia, entre as arvores e os fios prateados que às vezes batiam sobre ele, tornando-o definitivamente um lobo. Atena sorriu daquela cena mística antes de encarar os olhos escuros de Poseidon.
- Eu notei que você gosta de animais. — explicou para o homem que sorria. — Tem certa alegria em sua voz ao falar deles.
Poseidon deu de ombros. E Atena nunca se sentiu tão pequena do lado dele, devia bater o que? No ombro dele? Não menos, quanto será que ele tem de altura? Por que eu não sou baixa. Não mesmo. E ela estava correta, só que nunca tivera tanto tempo para perceber o quanto ele era mais alto que ela. E nem o quanto era mais forte.
- Eu já tive muitos animais. Em sua maioria, por não mais de um mês porque logo eu trocava de cidade e o clima do próximo pais era diferente demais para levá-los sem causar problemas de saúde neles. Tive um camelo no Egito, era o Frank, assim como deixei Lalume, uma loba no Alaska, e Genessi, uma anaconda mansa que ganhei de um amigo ao ir no Brasil. Um filhote de canguru abandonado em Sidney, um leopardo de duas semanas de vida em Zimbábue... — ele sorriu para ela. — Vai ser uma lista bem grande.
Os cantos da boca meio arroxeadas de frio dela se ergueram em um sorriso singelo.
- Posso ser honesta?
- Deve.
- Eu jamais imaginei você, Poseidon Danniels, cuidando de animais desprotegidos. Ou tudo isso só foi um modo de tentar me conquistar?
Ele sorriu, misterioso.
- Primeiro a resposta. Consegui ou não?
Atena revirou os olhos rindo enquanto balançava a cabeça. Ele ainda a olhava quando se voltou para Poseidon.
- Hum... Deixe-me pensar. — mordeu o lábio. Se havia conseguido melhorar sua imagem com ela? Coloca um certo ai. Que o tornara mais divertido? Outro certo. Mas... — Não, não conseguiu, lamento.
Poseidon riu com ela que passou a seguir com os olhos os rastros que as patas grandes de Aquiles deixavam na terra macia. Tremeu. A temperatura estava abaixando cada vez mais e o orvalho já molhava as suas meias.
- Diferente da minha irmã — começou ele, subitamente passando um braço ao seu redor. O ar quente do corpo dele sendo muito bem vindo, ainda que a própria encontrava-se pasma. — Eu gosto de cuidar de animais, ser aventureiro e não faço escândalo por quebrar uma unha. Parece que viu um fantasma, Atena.
Atena revirou os olhos pra brincadeira dele, tendo de olhar para cima para ver o sorriso brincalhão dele.
- Sabe... Hum... Não precisa... Ér — apontou para a mão quente dele contra seu quadril. — Sabe...
Poseidon riu, puxando-a para mais perto, de forma que Atena encostou-se contra o peito dele, bem mais aquecido que seu ombro, ao mesmo tempo em que continuavam andando, os passos um pouco menores para não correrem o perigo de esbarrarem os joelhos e caírem.
- Você está tremendo e com a boca roxa, Atena. Eu até daria o meu moletom se não tivesse sem blusa por baixo. Então, acalme-se, não sou um pervertido como minha irmã. — não muito, pensou ela. — Não vou te morder.
Um pouco menos tensa, Atena viu-se abraçando com vontade aquela "lareira" andante para espantar o frio dos seus músculos que adormeciam antes de sorrir, o fitando de baixo.
- Promete.
- Prometo, E se duvidar, chame Aquiles, falando nisso... — olhou a mata — Cadê aquele lobo?
- Onde você menos esperar, ele sempre foi assim, aparece na hora certa — piscou — Relaxe, ele te morderá se você inventar de brincar comigo.
- Ali ele.
Atena virou a cabeça para achar o local em que ele apontava. De fato, o pseudo-lobo encontrava-se sob uma pequena montanha, não muito longe deles, as patas fortes sustentando o corpo longínquo e os fitando com os olhos de duas cores, um ponto branco no meio de tanto verde. Parecia muito mais parte daquele habitat do que confinado em um apartamento com cinco pessoas. Então, tinha sumido.
- Ele é um animal muito bonito. — disse Poseidon, agora que voltaram a fitar a frente. — É seu?
Atena negou, seu corpo aos poucos parando de tremer a cada vez que o calor infiltrava-se. Poseidon não parecia nem um pouco incomodado de estar abraçado a ela, nem um sinal de inquietação, o que gerou um pensamento de que ele talvez fosse mais pegador do que Atena tinha calculado. E coisas fora dos números e ideias dela, se tornavam grandes perigos para essa mente tão racional.
- É da Artemis, sabe uma menina morena, branquinha e de olhos prateados?
- É a que estava com a Bonequinha de Luxo na True... ?
- Sim... Aquiles é dela. Já faz uns três anos desde que Apolo o comprou pra ela.
- Apolo é o namorado dela?
Atena riu. Mais complicado que isso, mas foi um belo chute, bem próximo.
- Não, eles são gêmeos.
Poseidon franziu o cenho, uma pequena marquinha de expressão aparecendo entre as sobrancelhas negras que Atena não deixou escapar de seus olhos perspicazes. Ele fica com cara de homem assim, não de pirralho. Quase riu de seu próprio pensamento.
- Ninguém julgaria isso ao vê-los.
- Costumamos chamar Apolo de Sol e Artemis de Lua, são opostos. — foi então que notou que falava demais sobre si mesma e mudou de assunto. Ele não precisaria de informações para tirar fotos suas. — Posso fazer uma pergunta?
- Duas.
Ela revirou os olhos da brincadeira antiga enquanto ele sorria, um sorriso que passava tranquilidade.
- Que curso você esta fazendo na universidade?
- Por quê?
- Eu acho que nunca te vi em Arquitetura.
Ele negou.
- Não curso o mesmo que o seu, mas já te vi varias vezes na aula do professor Maxwell desde que cheguei. — ele deslizava o dedo de forma despreocupada, como se nem notasse, no quadril de uma Atena incomodada. — Sempre senta lá na frente, responde todas as perguntas, me salvando muitas vezes quando dormi. Eu não resolvi te escolher de uma hora para outra para ser uma das minhas modelos.
Ela corou, arrepiando com o polegar dele brincando contra o tecido fino.
- Então, isso quer dizer que você me conhecia antes de sermos apresentados?
Poseidon fitou-a com os olhos verdes brilhando de diversão, tão líquidos e calmos como um mar de madrugada.
- Eu te reconheci na boate, admito.
- Hum... — Atena não sabia dizer se isso era bom ou ruim. — E eu nunca nem falei com você antes?
Ele franziu o cenho outra vez, ainda que sorrisse. Ele tem sorrisos rápidos para dar e vender.
- Não, por quê?
Porque você não é uma pessoa que passa despercebida, até eu sei disso. Ela deu de ombros.
- Curiosidade, apenas. — foi o que disse antes de se afastar dele para descer a encosta que se encontrava, meio inclinada, demarcando o final do bosque e mostrando um grande descampado onde mesas e cadeiras de pedra espalhavam-se pelo local, fixos ao chão e onixados pela lua, no lado esquerdo da propriedade da faculdade. Um rio perene impermeava-se em curvas angulosas ao final do pátio de grama aparada e bem cuidada, criando um semicírculo de arvores grandes. Uma entrada a noroeste mostrava um corredor limpo acimentado que Atena sabia que dava no Bloco C dos cursos de Ciências Biológicas e Veterinária. Não era a toa que a maioria dos alunos que ali frequentavam era de um dos dois.
Mas agora, tudo estava deserto, parecendo ruínas de um antigo pátio onde a luz esbranquiçada da lua tocava, transformando aquele lugar em um cenário medieval. O som suave do rio deslizando pelas pedras corredeira a baixo, e que desaguava na cidade, em um lago, preenchia o ambiente com a ajuda de grilos.
Ela sorriu para ele descer assim que esteve embaixo, convidando com a mão. Não chegou a esperá-lo, pois via que Poseidon admirava a paisagem da outra margem do pequeno corte na floresta, assim como fizera pela primeira vez quando Artemis a levara ali, e encaminhou-se para seu espaço favorito. Acomodou-se em cima da ultima mesa, bem ao lado de onde a seda liquida prateada acarinhava as beiradas altas do pátio e sussurrava o vento.
- Desde quando esse lugar existe aqui? — perguntou ele, minutos depois de silencio, enquanto sentava-se ao seu lado, que diferente dela, estava de lado, de maneira que apoiava os pés na cadeira, parecendo um mano com os cotovelos nos joelhos. — E como eu nunca soube?
Atena, com as pernas delgadas recolhidas, naquele clássico sentar como índios, deu de ombros, olhando-o sobre um deles encarar a floresta. Ele vai voltar aqui com uma câmera, pensou ela só mesmo tempo em que depositava sobre o mármore a guia de Aquiles.
- Poucos sabem, é mais usado pelos biólogos e veterinários. Acho que isso daqui existe desde a construção da universidade, mas era frequentado por alguns que esconderam isso, a fim de evitar que o local de estudo deles se tornasse uma boate ao ar livre.
Um sorriso apareceu no rosto de Poseidon com suas palavras antes de olhar em seus olhos.
- Ficaram prateados.
- O que?
- O cinza — explicou tocando de leve a bochecha dela — Ficaram prateados.
- Ah, sim. — sorriu corando. — Uma hora eles são azuis outras prateados. Sou quase Aquiles.
Ele sorriu de lado para sua piadinha sem graça ainda a afagar seu rosto. O verde tornara-se inelegível ao fazer isso.
- Você é muito bonita, Atena.
A garota de rabo de cavalo mordeu o lábio, nervosa, ao mesmo tempo em que corava.
- Devo me preocupar em chamar Aquiles agora?
Uma risada baixa saiu dos lábios dele, os olhos sem deixá-la.
- Ele está bem ali. Parado debaixo de uma arvore, atrás de você.
Fingindo que o procurava, para sair daquele clima tenso e tirar o polegar dele de seu rosto, Atena virou-se para olhar o local indicado. Sentando nos flancos, com a língua pendendo sob pelos molhados do maxilar, Aquiles descansava, despreocupado, mas sempre perto caso ela precisasse ou estivesse em perigo. Aqueles olhos híbridos a encararam para segundos depois ele soltar o famoso uivo melodioso dos husks.
- Aquiles, shh — brigou ela, tentando fazer ser ouvida pelo animal. Outro uivo, mais longo. E de fato era bonito, que levava os pelos se arrepiarem ao estar naquele cenário, mas acordaria todos os que morassem por perto. Sendo que mesmo parecendo um local habitado só por fantasmas, não estavam muito longe da população, um quilometro ou dois, no máximo, mas o suficiente para aquele canto chegar aos ouvidos de alunos do campus. — Não. — sua voz foi firme, contudo, o lobo somente a olhou antes de uivar outra vez. Atena bufou, indignada, enquanto Poseidon ria da situação, que indignada por ter de ir lá, se levantava quando uma mão que enredou facilmente os dedos envolta do seu pulso, impediu-a. Ele sorriu, negando.
- Deixe. É mais bonito selvagem do que preso — murmurou baixinho, o verde no cinza. — São mais vivos.
E Atena não sabia se ele falava dela ou de Aquiles ao recordar que ele a chamara de selvagem outra vez. Os olhos dele enrugaram-se ao canto quando ele sorriu e a soltou.
- Mas Aquiles vai...
- Ele só está sendo ele, Atena. Algumas vezes temos de ser nos mesmos — Atena assistiu ele deslizar um dedo delicadamente sobre na sua têmpora e sorrir. Sua pele queimou onde a pele dele encontrava a sua. — Sumiu.
Atena encontrava-se tão desligada enquanto o encarava, um tentando ler o que o outro pensava, ao menos era isso que ela fazia naquele mar verde que virara um espelho igual o da casa de seu pai durante a noite, tudo refletindo de volta, que demorou a notar que ele voltara a falar. Ela piscou varias vezes antes de concordar. Onde é que eu estava com a cabeça?
- Sim, melhorou — e afastou-se dele, acabando o contato e consequentemente a corrente de energia que sentia ao levantar-se, preferindo escorar-se na grade de segurança para ninguém cair no rio a continuar sentada ao lado dele, porque seu coração estava batendo desregulamente. O que está acontecendo?
Ficaram uns bons tempos assim, calados, a escutar os grilos e seus pensamentos revoltosos como os Atena, tanto que Aquiles deitou-se aos seus pés, vigilante, no instante em que ela resolveu que era hora de quebrar aquele gelo. A esfera de tensão já havia sumido, mas em troca, restara apenas o calar da noite.
- Poseidon? — chamou ela com a cabeça deitada sobre as mãos, curtindo a brisa gelada que vinha do leste com cheiro de pinho. — Tá acordado?
Ela escutou-o suspirar em algum lugar atrás de si que não via.
- To.
Mordeu o lábio.
- O que você queria me dizer de importante?
E desde quando eu me importo com isso? Ah, mas um mês o vendo havia feito a diferença, ainda que fossem breves esses momentos, era como tentar decorar uma matéria: no final, sabia toda a fisionomia da pessoa. E ao se tornar familiar, torna-se mais propenso a ser amigável. Mas ela não pensara nisso tudo, é apenas uma analise que eu e você conseguimos fazer melhor.
O som de tecido se arrastando, passos amaciados por tênis esportivos e um corpo ao lado do seu, maior e bem presente. Eu errei, ele não usa perfume amadeirado, tem cheiro de sol e praia, água salgada. Ela sorriu de olhos fechados. Ele também é peculiar. Quem é o doido de surfar em pleno fim de verão? E sua mente juntou as pecinhas do Lego escritas "Corpo bronzeado", "Sal" e "Estilo Relaxado", formando uma nova ideia de quem poderia ser Poseidon para o arquivo "Interessante". Não que ela soubesse disso.
A barra vibrou fracamente quando ele se apoiou e suspirou.
- Seria errado eu confiar em uma pessoa que mal falo?
Atena abriu os olhos para encarar o semblante pensativo dele que fitava as águas escuras com muita intensidade. O vento brincava com os fios negros, bagunçando ainda mais o já bagunçado e ele parecia um pouco tenso ao apertar os dedos um nos outros, estralando-os. Seu tique nervoso, percebeu ela, ainda a pensar.
Por fim, disse:
- Um pouco, você não a conhece direito e não sabe se ela é fofoqueira ou se está em local seguro. — deu de ombros desviando os olhos para as arvores do outro lado do rio. — Eu diria para não confiar, mas é apenas minha opinião.
- Você é honesta.
- Gosto de ser assim — sorriu — As pessoas acreditam no que você diz.
Um silencio curto. Uma hesitação enquanto Atena acariciava Aquiles que se levantara, sentando, com as orelhas erguidas em sinal de alerta. Esse que nenhum dos dois deu atenção.
- E se eu quisesse confiar nessa pessoa?
Um sorriso cresceu no rosto da mulher de olhos cinza com a confusão presente na voz dele.
- Então, siga seus instintos. E confie.
- Você não confia rápido nas pessoas, não é?
Nem um pouco, já me ferraram demais, não sou boba.
- Cada pessoa é de um modo.
- E eu?
Os olhos dela voltaram-se com rapidez para achar os dele que pareciam sérios. Atena franziu a testa.
- Você o que?
- Onde estou nesse seu nível de amigos?
Enquanto ela mordiscava o lábio inferior e pensava, os olhos dele não se separaram dos seus, o rosto dele sem nenhuma insinuação de sorriso, aparentemente perguntando aquilo com seriedade. Ela não podia classificá-lo como um desconhecido, pois se o fizesse, não deveria encontrar-se tão longe das pessoas confiáveis. Assim como não podia colocá-lo como amigo, porque fazia pouco tempo que se falavam (Atena não conhece amizades que crescem rapidamente e que o tempo não importa!) e nem mais como um idiota que nem em seu hank estaria. Suspirou.
- Eu não sei — admitiu ela com um pouco de dificuldade. Irão notar que é a frase que ela menos usa. Atena deu um sorriso casto enquanto fazia carinho em Aquiles, desviando os olhos dos deles que pareciam cobrar muito da verdade dela, não apenas meias palavras. O que era estranho. — Acho que você ainda está em observação.
- Isso é bom ou ruim em seu padrão?
Seu sorriso ampliou ainda que não o olhasse.
- Por que quer saber tanto, Poseidon? — encarou os olhos verdes espelhados, procurando algo neles. — Curiosidade?
Ele franziu as sobrancelhas enquanto deixava o sorriso esmaecer.
- Não precisa ficar na defensiva.
- Eu não estou na defensiva. — disse calma. Sim, eu estou na defensiva.
Uma sobrancelha dele arqueou-se, descrente.
- Então, como se chama isso?
Atena enrugou a boca. Defensiva. Mas ela não deu a ele o gostinho da vitória, nunca deixava alguém ganhar uma discussão com ela.
- O que você ia dizer?
Então lá estava o sorriso fácil e tranquilo outra vez, meio consternado.
- Alguém já te disse que você é bipolar? — ela ia abrir a boca para responder algo não muito legal, mas ele devia ter lido algo em seu rosto que o fez impedi-la de continuar. Os olhos verdes eram divertidos. — Esquece o que eu disse, desculpe. Não vamos começar a brigar. Eu não quero brigar hoje.
E Atena viu-o desviar o olhar. Isso, detestavelmente para a loira, a deixou curiosa para saber por que o Sr. Sorriso não estava sorrindo só de tocar no assunto de brigar. Sentindo-se um pouco mal, porque ele queria lhe dizer algo, e não deixara com coisinhas bobas, ela calou-se e escutou-o suspirar, despenteando os fios negros com uma das mãos em um facilmente reconhecido sinal de desespero pelos olhos dela.
- Hum... — começou, sem encará-lo, tentando fingir a raiva que emanava dele em ondas constantes através dos ombros tensos. — Quer conversar?
Ele assentiu devagar.
- Posso confiar em você?
Os olhos verdes agora puro aço analisaram os seus com cuidado. Pesando as palavras, ela assentiu e deixou sua mente aberta para o que ele pedisse sua ajuda.
- Pode. — e tratou de dizer. — Mas não é recíproco.
Um sorriso fraco tomou a boca bem beijável dele, os olhos de repente cansado.
- Lutar com você é dureza.
Ela sorriu.
- Isso é um elogio. Obrigada.
Então haviam voltado ao silencio enquanto Atena o fitava, esperando que começasse que ele o fez após um suspiro e girar o corpo de forma a ficar frente a frente com ela, olhando-a sem interrupções.
- Quero que seja sincera, Atena.
Ela anuiu.
- Darei minha opinião.
Ele sorriu antes de coçar a nuca, a expressão infantil aparecendo no rosto dele.
- O que você acha da minha noiva?
Visualmente? Uma prostituta. Personalidade? Vulgar. E também que eu não gostei nenhum pouco do sexo em publico que vocês fizeram sem nem tirar a roupa. Atena pensava tudo isso ainda a olhar nos olhos dele, louca para soltar aquelas palavras, mas viu que ele gostaria de ser enganado. De contar o conto de fadas e fingir que princesas esperavam por ele presas na maior e mais alta torre do castelo.
Pena ter pedido para a pessoa errada.
- Pouco a conheço — não era de todo mentira. — Mas pelo que vi ela é meio...
- Meio? — insistiu ele.
Como posso chamar puta de uma forma fofa?
- Excêntrica — não, não estava bom — Vivaz demais até.
- Atena — ela ergueu o olhar para o de Poseidon notando que tinha desviado. Uma sobrancelha dele em forma de arco — Não precisa medir as palavras, acho que sou grandinho para escutar o que você pensa.
- Certeza?
- Sim.
- Ok... Sinceramente, a achei aos moldes de uma dançarina de cancã.
Ele sorriu do método dela.
- Uma prostituta, que você quer dizer?
- Não, não é... — o olhar afiado dele sobre o seu. — Ok, foi exatamente isso que pensei. Mas, não esqueça que foi baseado em uma só vez que a vi. Apenas minha opinião.
- Foi o que ela mostrou-se ser a uma semana atrás. — murmurou ele desviando o olhar para algum ponto inexistente através do ombro dela. — Uma Puta com P maior e muito bem paga também.
Era audível a raiva que ele detinha pela mulher, mas Atena encontrava-se pasma demais para dizer alguma coisa mais inteligente que um:
- O que ela fez?
Poseidon negou com a cabeça, um sorriso afetado.
- Era de se esperar que prostitutas de luxo não gostem de ter só um homem. — fitou-a — Você não concorda, Atena?
Os olhos cinza dela expandiram-se de surpresa com aquelas palavras.
- Ela... Te traiu?
E o rato saiu ganhando o queixo do gato. Um suspiro dele.
- Incrível, não é? Descobri isso há duas semanas. Mas não pude dar muito alarde, eu tinha provas e trabalhos para terminar e não ia dispor do meu tempo para uma... Vagabunda — Poseidon passou os dedos entre os cabelos lisos que batiam na altura do ombro. — Ainda deixei isso em aberto por uma semana até que resolvi terminar. Interessante que dias atrás eu estava noivo e agora estou solteiro. Mundo estranho.
- Demais... — concordou ela absorvendo o que lhe foi dito antes de desviar os olhos dele a fim de deixá-lo mais a vontade. Minha curiosidade não tem fim. — E você sabe com quem foi?
- Com quais foram, você quer dizer, certo?
Atena engoliu a seco. A vida não é boa nem fofinha, mesmo ele sendo quem é.
- Mais de um — sussurrou, podendo muito bem acreditar isso da parte da prostituta. Claro que ele também tinha uma parcela de erro ao ter resolvido casar com alguém como Anfitrite. Uma grande parcela. — Como você soube?
- Como eu vi?
E a coisa só fica pior.
- Onde?
- Na casa dela – suspirou – Eu tinha avisado que chegaria tarde da faculdade naquele dia, e de fato ia. Mas, nosso professor teve um acidente de ultima hora e não muito depois, eu estava de volta em casa. Então, o otário aqui pensou: “Vamos fazer uma surpresa pra sua garota” e eu fui.
Atena voltou-se para ele, recebendo o olhar envergonhado de quem admite algo que não quer mais é necessário. Ele precisava conversar.
- Você quer continuar? – ela deu um sorriso de compreensão – Se não quiser, não precisa.
- Só... – hesitou ele. – Não, não quero continuar.
- Sem problemas. – sorriu. – Uma coisa de cada vez.
Então, como mudar de canal em dias chatos de semana, ele sorriu, um sorriso markentizado e divertido bem treinado, mas mal posto no horário. Piscou.
- Vamos esquecer isso, eu quero tirar fotos suas.
Notas finais
Não esqueçam dos meus rewis, ok? *-------*
Até a próxima ^^
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