Formas de Amor
5 Mudança
Aquele almoço foi uma droga, minha Mãe fingia que eramos uma família feliz, e meu Pai tentava mostrar ao máximo que não eramos. Estava louco para sair daquele lugar, que um dia eu chamei de casa. Depois que acabou o almoço, ajudei minha mãe a lavar a louça e fui para casa, sem me despedir do meu pai.
Andei até em casa, tentando esquecer que eu era um cara de quase 30 anos, solitário, que não tinha construído família, não tinha emprego fixo e nem uma namorada. Andei, andei, andei. E por algum momento, meu pensamento encontrou Amora, aquele sorriso suave, o rosto de boneca, cabelos selvagens que voavam com o vento, pele que parecia estar sempre iluminada pelo sol do verão. Cheguei em casa, como sempre, esperei por alguns segundos antes de abrir a porta, eu me sentia relutante em estar em um lugar que eu não sentia ser meu. Entrei e acabei pisando em uma correspondência que estava em cima do tapete. Peguei sem ler, joguei em cima do sofá, tirei a jaqueta e fui até o banheiro. Enquanto me olhava no espelho, eu percebia o quanto a falta de uma vida fazia toda diferença em mim. Tinha saudade de sair com meus amigos, de passar as noites em Pubs, atras de mulheres que eu sabia que não acrescentariam nada na minha vida. Gostava de voltar pela manhã, e me sentir enjoado com o balanço do metrô. Gostava de quando só saia pra beber, sem correr atras de mulheres como um cachorro no cio, gostava de ter companhia da Nina durante as noites nos bares. E agora, o que eu tinha ?
Voltei para sala, sentei no sofá, liguei a TV e me dei conta de que tinha algo em baixo de mim. Era a correspondência. Sem olhar o remetente, eu abri a correspondência, nela estava escrito:
Caro Senhor Wood, aqui quem lhe escreve é o Dr. Buhdur, da White Wolf University. Estamos muito felizes por seu exito profissional, por saber que o Senhor está realizando seus sonhos. Ficamos sabendo que passou 8 meses embarcado, é uma alegria imensa saber de tais notícias sobre um dos nossos ex-universitários. E como sabemos que, "O bom filho a casa torna", em nome da W. W. University, queria perguntar se o Senhor estaria interessado em trabalhar conosco no corpo docente de nossa Universidade. Seria um prazer, e uma honra ter o Senhor de volta.
Pense em nossa proposta Senhor Wood. Aqui está meu contato: 900-37472
ou o e-mail: jamirbuhdur@wolf.com
Jamir Buhdur
Quando terminei de ler aquela carta, mal acreditei. Uma ótima chance de recomeçar minha vida, a sorte estava começando a mudar.
...
No dia seguinte acordei antes do despertador tocar, fui dormir tarde, mas meus pensamentos não me deixavam quieta. Enfim sexta, dia da apresentação.
– Eu vou arrasar na apresentação ! — falei para o Dragão.
Ele me encarou em quanto eu me arrumava.
Os dias continuavam frio, mas começavam a esquentar um pouco nos últimos dias. Por isso usei um vestido azul marinho de manga longa, que tinha uma gola em forma de canoa, e ficava um palmo acima do meu joelho. Uma ankle boot preta de salto grosso, e uma bolsa bege estilo vintage, faziam parte do meu look.
Como era de costume, deixei a comida do Dragão, me despedi dele, e saí ... a maçaneta brilhante não era mais tão gelada.
Desci as escadas, abri a porta do prédio e percebi que o dia estava lindo. Cheguei no trabalho e preparei minhas coisas para apresentar meu projeto ao Jean, foi então que Samantha bateu em minha porta.
– Entra !
– Bom dia, Senhorita. — ela falou com a voz embargada.
– Bom dia Samantha, o que houve ? — falei, ainda olhando para o notebook.
– É o Senhor Young ... — ela não completou.
– O que houve com ele ? — olhei para ela assustada.
– Ele foi diagnosticado com tuberculose.
Meu corpo inteiro gelou, foi como se meu coração tivesse parado. Tuberculose ? O Jean ? Eu não podia acreditar, só imaginava que nunca mais o veria. Meus pensamentos mórbidos foram interrompidos pela voz suave de Samantha.
– Senhorita, fique calma. Ele já começou o tratamento, em breve estará melhor. Mas, é um susto, para todos nós.
Eu assenti com a cabeça, parei o que estava fazendo, e fiquei olhando para mesa, sem reação.
Até a hora do intervalo da tarde, eu me encontrei como se tivesse ido a um enterro. Jean era o melhor chefe que alguém poderia ter, não conseguia pensar nele mal. Foi então que meu celular tocou em cima da mesa da lanchonete, fazendo um barulho maior do que ele costumava fazer.
– Alô ?
– Oi De Lana, como vai ?
Aquela voz, Wood.
– Vou bem, e você Wood ?
– Estou bem, quer dizer, estou de saco cheio sabe ... queria sair.
– Cadê seus amigos ?
– Meus amigos são pais de família agora, eles não saem pra beber.
– Sabe Wood, é que eu não estou no clima. Aconteceu uma coisa ruim com o meu chefe, e eu não tava muito afim de sair.
– Bom, eu acho que, por isso mesmo você deve sair. Parar de pensar nisso. Você não acha ?
Eu fiz uma pausa.
– Acho que você tem razão . — eu falei, tentando sorrir.
– Então garota, vamos animar, tá parecendo ser mais velha que eu. — ele tentou ser engraçado.
– É. — respondi sem convicção.
– Bom, então, 21h20, tá bom pra você ? Posso te buscar na sua casa, se você quiser.
– Tá bom Wood, e não precisa.
– Tudo bem então, a gente se vê mais tarde .
– Até Nathan.
– Até Amora.
– Ah, Nathan ?
– Diga
– Se importa se eu levar uma amiga ? — eu falei rindo.
– Claro que não. Quanto mais amigas, melhor. — ele deu um sorriso safado
– Tá certo então, até mais tarde.
– Até.
Desligamos, e só aí, eu consegui sorrir de verdade e esquecer um pouco os problemas.
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