Notas iniciais
Lindas e maravilhosas, o que eu posso dizer? Nada, além de: capítulo mais bombástico de toda a FIC. Espero que gostem e que entendam algumas coisas por meio dele. Não é à toa que é enorme. Divirtam-se e, pelo amor de Santo Deus, não me deixem no escuto, comentem o que acharam, tá? Obrigada por todo carinho.

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Mell Moore, uma leitora tão fofa e tão doce e tão TUDO! Me mandou inúmeras recomendações. O Nyah sumia com as danadas. Mas ela tem esse coração gigante e escreveu outra e outra e outra até que a dita-cuja apareceu e valeu todo o esforço. Muito obrigada, Mell, pelo enorme carinho! Sua recomendação, a 13º de Forasteira, foi muito especial!

beijos enormes da Amora

– Luna? – Daryl murmurou em seu ouvido. – Tá tudo bem?

Ela não respondeu de imediato, precisou de um tempo para articular o que diria.

– Não sei... Realmente não sei. – disse, por fim.

– Eu te machuquei em algum lugar? Tá com alguma dor? – o rapaz perguntou preocupado erguendo com as mãos o tronco de Luna para que ela ficasse mais sentada na banheira do que deitada, como estava antes.

Ela negou com a cabeça.

– Estou indo muito rápido com você, né? Vir aqui te atacar no banheiro não foi uma boa ideia. Eu só... Eu não resisti quando a vi. – ele se justificou, esperando ver um pouco mais de vida no olhar dela. Mas nenhuma luz acendeu ali. O caçador começou a ficar sinceramente preocupado. Horas atrás, Luna parecia feliz e tranquila. E agora... estava tão distante e fria.

– Quer que eu saia? – ele perguntou.

– Não é necessário. De onde eu preciso que você saia, talvez nunca consiga sair... – respondeu ela, erguendo a mão para alcançar a toalha que deixara em cima da pia, levantando-se e se enrolando na toalha.

Daryl ficou estupefato. O que era aquilo? A mudança em Luna era evidente. E aquelas palavras o feriram mais do que gostaria de admitir. Ele se ergueu também, pegou outra toalha e a seguiu até o quarto. Quando chegou lá, Luna estava sentada na beira da cama, de cabeça baixa.

O rapaz sentou-se na cadeira que dava de frente para cama e esperou ela quebrar o silêncio primeiro.

– Não consigo parar de pensar em você com outras mulheres... – Luna confessou. – Não consigo parar de pensar em você e Carol fazendo amor. – sua voz agora estava três tons mais baixo e, por pouco, a garota não consegue terminar a frase.

Ele suspirou.

– Pergunte o que quiser sobre as outras mulheres. Eu vou responder o que você quiser saber. Mas coloca uma coisa nessa sua cabeça oca de cigana: o que tive com Carol não dá para chamar de “fazer amor”!- falou irritado.

– Por que não?

– Porque eu fiz amor uma vez só na vida e foi com você, porra! Qual parte disso você ainda não entendeu, Luna? – disse, ameaçador, jogando a cabeça para trás, fazendo com que os fios lisos da sua franja se movimentassem também.

Ela o fitou com aqueles olhos enormes de um verde tão escuro, como os das folhas das árvores na primavera. Pareciam assustados e frágeis.

– Não devia ficar falando essas coisas...

– Por que não? É a verdade.

Novo silêncio. A cigana se levanta e veste sua roupa novamente, no banheiro. Longe das vistas de Daryl. Luna estava envergonhada pelo seu corpo, pela exposição e apavorada com o fato dele finalmente perceber que ela não era grande coisa. Embora soubesse que a separação era inevitável, queria adiar ao máximo. Queria se preparar. Porque naquele momento o que mais desejava era que o caçador a envolvesse em seus braços quentes e fortes mais uma vez.

Quando retornou ao quarto. Daryl estava vestindo apenas a calça surrada, cujo botão ainda estava aberto. Segurava uma garrafa de uísque na mão e dava grandes goles de tempos em tempos. Assim que notou a presença dela, ergueu aquelas lanternas azuis tão intensas e brilhantes e fuzilou a cigana com o olhar.

– O que eu fiz de errado?

– Você não fez nada de errado. Fui eu quem fiz a besteira...

– Besteira? – ele repetiu em um tom zangado.

– Não devíamos ter feito... – disse apontando para cama. – Eu... – tomou fôlego – Eu sei que uma hora você vai acordar e vai achar que não foi uma boa ideia e vai me deixar! – desabafou, ofegante.

– Mas do que é que você está falando, mulher? – ele agora estava irritado e tinha se levantado para caminhar de tão nervoso.

– Olha pra você Daryl! Olha pra mim!

– O que é que tem? Acha que não poso ser homem pra você, é isso? – questionou chegando bem mais perto dela.

– Você é o homem mais bonito que eu já vi na vida... – respondeu, honesta, abaixando a cabeça.

Daryl ficou chocado com aquela declaração. Primeiro porque não tinha como aquilo ser verdade. Segundo porque era a primeira vez que alguém o elogiava daquela maneira. Havia tristeza nos olhos de Luna, sim. Mas também ele enxergava admiração. Ela o admirava tanto assim? Seria verdade?

– Você é muito mais bonita do que eu. – rebateu, ainda olhando para a cigana.

– Lógico que não, Daryl. Pára de mentir! Até quando vamos fingir? Quantas mulheres mais bonitas você teve? E quando voltarmos Carol ainda estará lá... Ela pertence ao seu mundo, sabe como satisfazê-lo... Eu sou apenas uma mulher de hábitos estranhos, que nunca conseguirá ser o que você precisa! – as lágrimas pulavam do seu rosto. – Não pode deixar aquelas mesmas marcas roxas em mim, como fez com Carol. Eu nunca as aceitaria. Não poderia continuar com sua vida de caçador, andando por ai, porque eu morreria aos poucos, pensando em quantas outras mulheres estariam atravessando seu caminho, abrindo seus vestidos para você... E eu posso entende-las, meu Deus, eu juro que eu posso. Porque no dia em que o vi... No dia em que o vi eu mesma não sei como me atirei ao seu pescoço e pedi que me levasse com você. Não quero mais sofrer assim. Não sou deste jeito. Fui criada para ser um pilar, para ser fortaleza. Não para ser a primeira que cai e sente pena de si própria. E agora, caçador – apoiou-se em seu peito nu usando as duas mãos. Daryl via o quanto sofria. – eu nunca me senti tão fraca. Não quero me curvar. Não quero perder quem eu sou... Não entende?

Ela fez menção de cair sobre os joelhos e ele a sustentou. Não sabia o que responder àquele desabafo tão constrangedoramente sincero. Então, ela continuou.

– Somos iguais, Daryl. A diferença é que você é homem e tem uma necessidade que não conheço, nem sei dimensionar. Homens precisam de uma mulher em suas camas. Os fortes, como você, precisam de mais de uma... Eu não poderia suportar. Não poderia!

– Acha que você não me satisfaria o suficiente? Como pode pensar isso?

Luna apoiou a cabeça em seu peito também e o beijou ali, respirando fundo para inalar todo seu perfume de grama fresca.

– Ela não fez isso comigo. Não me beijou aí. – ele sussurrou em seu ouvido.

– Ela quem? – quis saber a garota.

– Carol...

Ele a carregou para a cama de novo e a sentou. Pegou um pouco de água e fez com que bebesse. Isso era inédito. Normalmente, Daryl não tolerava ataques de ciúmes idiotas por mais linda e fogosa na cama que uma mulher fosse. Alguém sentir ciúmes dele lhe soava ofensivo, como se fosse posse da outra pessoa. Mas com Luna, estava se sentindo diferente. Os ciúmes dela era doce. Até nisso, ela era perfeita. Apesar de assustado pela possibilidade dela desistir deles, o rapaz encarou a confissão como um ato de ingenuidade de Luna. E de ignorância também. Pois achava que ele era um homem bonito, um conquistador. Ao mesmo tempo, acreditava que não o satisfaria... Maluca! Como uma moça como ela poderia não satisfazê-lo? Era corajosa, inteligente, bonita e deliciosa.

Luna começou a passar os dedos pelo cabelo de Daryl, fazendo-o fechar os olhos.

– Amo seus olhos.

– Também amo os seus. – ele respondeu.

– Sabe? Queria ser o bastante pra você... – ela disparou.

– Mas você é! Porque insiste em achar que não é? – Daryl queria entender.

– Eu queria que nenhuma outra mulher jamais o tivesse tocado... Eu sei que é egoísta da minha parte, mas se eu pudesse desfazer todos os seus casos amorosos, eu os desfaria. Assim, ó! – desabafou estalando os dedos.

– Eu tenho 32 anos... Quase 10 há mais que você, cigana. E comecei nisso desde muito cedo. Já te contei que Merle pagou uma prostituta para fazer sexo comigo aos 13, lembra? – ela assentiu com a cabeça.

– Sente vontade de... Tentar tocar outras?

– Nunca mais senti depois que me apaixonei por você.

– E Carol?

– Foi um erro. Eu te disse! – ele respirou fundo. – Não sei se eu deveria te contar...

– Seja lá o que for, conte. Por favor, seja verdadeiro comigo.

– Ok... – ele se sentou no chão, a frente das pernas de Luna. Ela escorregou para baixo e se sentou no chão, junto com ele. – No dia em que eu e Carol transamos, eu pensei o tempo todo em você.

– Como assim?

– Enquanto fazíamos... Você sabe. Pensei o tempo todo que estava fazendo com você.

Luna estava chocada.

– Mas não consegui beijá-la... – ele falou num tom bem mais baixo. – Porque quando tentava, não tinha o seu gosto.

– Mas você não sabia como era meu gosto. Só me beijou depois de ter feito sexo com ela... Quando me forçou a te beijar, na saída do vestiário. Eu nunca te odiei tanto quanto naquele maldito dia!

– Tá, tá! Eu sei. Mas você acha mesmo que eu nunca imaginei como seria?

– O quê?

– Beijar você. Você sempre esteve por perto depois que deixamos o acampamento. Eu sentia seu cheiro o tempo todo, sabia que você tinha um gosto melhor que tudo. Quando ela tentou me beijar, não foi bom. Não era você.

– E faz diferença?

– Pra mim, fez toda a diferença.

– Mas se não conseguiu beijá-la, como conseguiu... Fazer?

– Eu... Nem sei como.

– Eu sei. Ela soube como tocar em você. O que ela disse estava certa. Eu não sei o que fazer, você vai enjoar, não terá mais paciência para me esperar. Você é homem, tem vontades. E eu morro de vergonha do meu próprio corpo...

– Vem aqui! – Daryl disse se levantando e puxando Luna com força para cima. Ela se ergueu e foi arrastada pelo rapaz até o banheiro. O caçador a colocou em frente ao espelho, se posicionando atrás de Luna, para que ela tivesse uma visão perfeita de si própria. Porém, ela mantinha o rosto virado para o lado, como se negasse a encarar a imagem.

– Olha pra frente, Luna.

– Não, por favor. Eu já fiz isso hoje, não foi bom...

Ele virou o rosto da cigana na marra.

– Não é possível que você enxergue o mesmo que eu enxergo. – ele disse.- O que você vê ali?

Com os olhos marejados, ela engasgou com as próprias palavras.

– Eu só... Não acho que eu seja como você me descreve. Só isso.

– Luna, você é tão bonita. Olha lá! – ele disse apontando o espelho. Mas a expressão da cigana era de dor e, num lampejo, ele soube: tinha algo mais que ela não havia contado. Algo além da promessa. Mas o quê? – Você gostou de fazer amor comigo? Conta, fala a verdade, Luna!

– Gostei, Daryl. Eu, eu... amei! – Luna sempre se sentia um pouco mais exposta quando dizia que amava Daryl ou qualquer coisa referente a ele. Mas este era o verbo a ser usado. Amar. Ela o amava e tinha amado ser sua.

– Doeu mais do que você confessou? Doeu muito?

– Doeu, claro. Mas você foi gentil... E depois eu gostei muito. Mas não quero mais ficar com você, porque não temos futuro juntos... Vou acabar me ferindo, me deixando. Somos iguais e, ao mesmo tempo, tão diferentes...

– Cigana, eu não tenho como deixar você. Quando eu te tirei daquele acampamento eu já sabia que não iria conseguir nunca mais me livrar de você!

– Se eu pudesse voltar no tempo, não teria vindo embora com você. Queria que você e Carol tivessem tido tempo para ficar mesmo juntos, não sei... Você vai me detestar.

– O que você tá escondendo de mim?

– Nada que não seja óbvio, Daryl.

– Me fala do mesmo jeito. Se é óbvio, eu devo ser um caipira muito burro para não perceber.

Luna se virou na mesma hora e tapou a boca de Daryl com a mão.

– Nunca mais se refira a você dessa forma! Já pedi mil vezes. Se quer saber, quando você faz isso me deixa completamente magoada. Mais do que já estou, mais do que sempre fui! – ela gritava em desespero.

O caçador tomou Luna pelos punhos e encostou suas costas na superfície do espelho.

– Então, me conta! Me fala agora... Porque você acha que vou deixá-la? Ou que vou te trocar? Ou que você não vai conseguir me satisfazer?

Ela continuou calada, apenas olhando naqueles olhos azuis enormes, tentando tomar coragem. Onde estaria a coragem?

– Você me pede para eu não me depreciar, mas, ao mesmo tempo, você se acha tão feia, tão indesejável... E não está tendo nenhum remorso de me fazer sofrer, dizendo que não dá pra gente ficar juntos, depois de ter feito amor comigo!. Porque, caralho, eu estou fodido, estou apaixonado por você, sabia? Antes de você eu só sabia pagar uma cerveja pra alguém e depois levar a coitada para um canto qualquer e mandar bala até não aguentarmos mais ficar em pé. Aí, você apareceu, no meio do mato, virou minha vida de ponta-cabeça e me fez parecer um maldito adolescente bobo, apaixonado! – ele gritou e se afastou um pouco, se virando para tomar fôlego e colocar as ideias em ordem. – Você tem alguma ideia do que fez comigo?

– Desculpa! – ela murmurou, de cabeça baixa.

– Desculpa? Desculpa é o que você tem para me falar? Só pode estar de brincadeira comigo. Luna, você vai mesmo me deixar? Desistir de nós?

– Eu preciso... – disse em um soluço.

– Eu vou te dizer o que você precisa... – ele andou decidido até o canto onde Luna estava acuada e a encurralou ainda mais, usando as mãos para segurar seu rosto, obrigando-a a olhá-los nos olhos. – Você precisa me falar. O que você está escondendo de mim hein, Luna? O que é? – ele a sacudia, estava perdendo a noção. Estava desesperado.

– Pára! Pááára de fazer isso... Parece ele. Você está fazendo do mesmo jeito! – Luna escorregou para o chão, cobrindo a cabeça com as mãos, chorando como Daryl nunca a vira chorar. Ele tomou um susto. O que tinha feito? Ele se odiou por tê-la feito ficar tão frágil e quebrada.

– Quem, Luna? Quem fez o quê com você? Me diz! Quero ajudar!

– Você não pode. Ninguém pode me ajudar... A única coisa que podia me ajudar era a minha promessa. Com ela eu estava segura desses sentimentos... Agora, estou de volta ao que realmente sou.

– Por favor, Forasteira, fala comigo. Vou te proteger de qualquer filho da puta que esteja te ameaçando, entendeu? Vou te proteger! Mas me conta!

Luna sentia-se transparente diante de Daryl. Ele enxergava tanto dela, mas tanto que ela tinha medo de que pudesse ler seus pensamentos.

– Você não pode me proteger dele, não entende? Pelo amor de Deus...

– Porque não? Tenho certeza que posso lidar com um maluco sem amor à vida que esteja te fazendo ficar deste jeito. – agora estava decididamente BASTANTE preocupado. Ela parecia que teria um ataque de pânico a qualquer momento de tão nervosa

– Na escola... Foi na escola! Você não pode voltar no tempo. Ou pode?

Ok. Agora as coisas ficaram muito estranhas.

– O que aconteceu na escola, Luna? – ele afastou algumas mechas do cabelo dela que grudavam no rosto molhado pelas lágrimas.

– Não vai querer tocar em mim depois disso...

– Impossível. Conta. Pode contar! – falou num tom mais calmo, secando o rosto de Luna com a palma das suas mãos.

Ela respirou fundo e começou.

– Ciganas só vão à escola para aprender a ler e a escrever. Geralmente, as meninas deixam o colégio aos 12, para começar a se prepararem para achar um bom marido cigano. Até esta idade, eu ia à escola com outras garotas do acampamento. Morávamos no Texas, em Charleston. Eu amava ir ao colégio e me sentia tão bem por poder ter companhia cigana. Minhas amigas... Mas quando fiz 13, fiquei absolutamente sozinha, entende?

Daryl assentiu. Também se sentia muito só quando adolescente.

– Sempre ouvíamos muitas piadinhas dos meninos e das garotas... Por nossas características físicas e nossas tradições. Era mais fácil suportar quando tinha outras pessoas comigo. Outras meninas para me dar suporte e desabafar. As meninas queriam muito que tudo acabasse e que pudessem parar de ir ao colégio. Mas eu amava estudar e só queria ficar em paz, como qualquer outro aluno.

– Os caras mexiam com você, Luna?

– O tempo todo... Eles diziam que meus seios eram muito pequenos, mas que tinha uma ótima bunda. Que sonhavam comigo de quatro. Que era a única maneira de eu ficar bonita...

Daryl sentiu seu estômago dar uma cambalhota. Ele já ouvira Merle falar coisas semelhantes para garotas negras em sua cidade.

– As meninas perguntavam porque eu não pintava o cabelo. Que se meus cabelos fossem mais claro, tudo iria melhorar porque eu tinha a pele clara, ao contrário das outras ciganas, e os olhos verdes. Assim, se eu desse um jeito na cor do cabelo pareceria menos cigana. Mas eu não queria ter que parecer menos cigana, você entende?

Ele apertou sua mão com força para lhe dar suporte.

– Porque não contou aos seus pais?

– Eles me tirariam da escola, com certeza. E eu queria tanto aprender, a ser independente! Eu sonhava com isso desde pequena. Talvez por ansiar por algo mais, já que não poderia sonhar com filhos e um marido. Meu pai ficaria furioso e me tiraria daquele lugar na mesma hora. Isso se não matasse alguém por me falar tantas coisas nojentas para mim.

– E eu acho que eu poderia ajudá-lo nisso, com certeza. – Daryl sussurrou em seu ouvido, dando um beijo em sua testa. Ela tomou fôlego e continuou.

– Mas um dia, achei que as coisas tinham passado dos limites, porque um dos garotos tinha tentado passar a mão nas minhas pernas durante uma aula de física no laboratório. Eu fiquei assustada. Eu tinha 14 anos, como aquilo ia ficar com o passar dos anos? Então resolvi procurar o diretor do colégio. A escola era enorme, bastante famosa e recebia apoio de um centro religioso em Utah. Achei que uma autoridade tão importante quanto o diretor pudesse me ajudar. Fui falar com ele e, para minha surpresa, ele aceitou me receber. Entrei e conversamos um pouco. Eu contei tudo o que acontecia durante todos os anos. Ele realmente pareceu se importar e me ouviu com atenção. Anotou nomes e tudo. Sai dalí muito aliviada.

– E o que aconteceu depois?

– Depois? Minha vida na escola melhorou demais. Os meninos que haviam me maltratado foram punidos com advertências, seus pais foram chamados ao colégio e receberam o aviso: ou seus filhos se comportavam ou seriam expulsos. Tudo ficou ótimo. E eu pensei: por que demorei tanto para ir até o diretor? Mal sabia que aquilo me custaria a alma... – falou derrubando mais duas lágrimas nos dedos de Daryl que a acariciava ainda.

– Continua falando... Não precisa ter medo.

– Certo dia, na saída do colégio, eu estava voltando para o acampamento, a pé. Então, um carro parou ao meu lado. Vi a janela abrir e era o diretor. Ele me perguntou se podíamos conversar. Queria saber se suas ações tinham surtido efeito. Eu entrei no carro e ele estacionou num parque. Conversamos bastante. Então ele começou a me dizer “Você é uma menina realmente muito bonita. Não dê atenção ao que os rapazes falam...”. No começo, achei que ele havia sido gentil. E ponto. Ele me levou ao acampamento e ficou tudo bem. Mas depois desse dia, ele me dava carona sempre. Antes do acampamento parávamos em algum lugar. Ás vezes, ficávamos no parque e ele comprava algo gostoso. Sorvete, balas, chocolate quente... Ele parecia alguém em quem confiar. Ele me contou da mulher e que eles esperavam um bebê. Que era uma menina. Depois de um tempo, me disse que não sabia mais se estava apaixonado pela esposa. Me perguntou se eu devia contar à esposa que estava apaixonado por outra. E eu disse que ele devia tentar salvar seu casamento a todo custo, pois o casamento era sagrado para os ciganos. Nesse dia, especificamente, ele tinha me trazido flores. Achei estranho. Mas aceitei. Quando entramos no carro para irmos embora, eu afivelei meu cinto de segurança, ele deu a partida e, após dirigir alguns metros, sua mão escorregou até minha mão. Meu coração gelou. Ele apenas falou que eu era a menina mais bonita que ele havia visto...

Daryl engoliu em seco, prevendo onde aquilo iria chegar. Então, intimamente, ele pediu que o que temia não houvesse ocorrido. “Com ela, não. Por favor, não com a minha Luna”.

– Eu recolhi a mão rápido. Estava envergonhada. Ele freou o carro e me olhou de um jeito estranho. Disse que não precisava ter medo dele, porque ele gostava de mim mais que todos naquela cidade. Eu não tinha por que duvidar, já que o diretor tinha expulsado aqueles moleques horrendos da minha vida. Senti que fui rude e pedi desculpas pelos meus maus modos. Alguns dias se passaram e, no fim da minha última aula, numa terça-feira, recebi um recado que o diretor queria me ver em sua sala. Fui até lá. Ele pediu que eu trancasse a porta. Obedeci. Sentamos no sofá de sua sala. E ele pegou minha mão de novo. Desta vez, não recolhi com medo de parecer mal-educada de novo. Ele me disse que sua esposa daria à luz em um mês e que tinha pensado muito no que falei, mas que não suportava mais esconder dela que estava apaixonado por outra mulher. E então ele me perguntou: “Luna, quer saber quem é a mulher por quem me apaixonei?”. Eu não sei por que, mas fiz que sim com a cabeça. Foi ai que meu pesadelo começou.

– O que ele fez com você?

Luna paralisou com a pergunta.

– Desculpa. – pediu o caçador.

– Tudo bem...

– Pode continuar? Acha que consegue?

Ela assentiu.

– Daryl, ele começou a passar a mão no meu corpo. Começou pelas minhas pernas. Eu fiquei sem chão. Ele estava fazendo o que aquele menino tinha tentado um tempo atrás, no laboratório. Ele disse que eu não precisava ter medo porque ele me amava e quando um homem fazia isso amando uma mulher, não era pecado. Eu disse que não podia. E ele falou que eu era linda, que era muito diferente da mulher dele. E ele enfiou a mão por baixo da minha camiseta de colégio. Ele tocou minha barriga e subiu aos poucos. Ele dizia que os meninos tinham razão, que meus seios eram pequenos, mas que ele não se importaria se eu quisesse ficar com ele. Acordei do transe e tentei escapar do sofá, mas ele me segurou. Ele me derrubou no chão e segurou meus braços. Eu me debati, mas ele me beijou mesmo assim. E ficava repetindo como eu era doce e bonita e que ele ficaria comigo mesmo que eu fosse cigana. Ele subiu a minha saia e passou a mão nos meus quadris e disse que eu era cheia de curvas, como as latinas. Pedi para ele parar porque estava me machucando e que aquilo era horrível. Então ele perdeu a cabeça e começou a gritar que eu era uma má agradecida e que devia agradecer por um homem como ele me desejar. Ele falava coisas desconexas. Me xingava de nomes que eu nunca tinha ouvido e dizia, ao mesmo tempo, que me amava. Ele dizia que a culpa era minha. Que mulheres com o corpo que eu tinham sido criadas por Deus para satisfazer homens como ele. E também que nenhum homem me amaria, só ele seria capaz de me amar. Que até meu pai sabia que eu jamais conseguiria um marido. Ele era minha única chance de ficar com algum cara... – ela falava e chorava ao mesmo tempo. Era devastador.

– Ele a estuprou? – Daryl não aguentava mais ouvir. Era torturante para ele imaginar que um desgraçado pudesse ter se aproveitado de uma criança. Tivesse se aproveitado de Luna.

– Não. Ele não teve tempo. Uma das secretárias bateu na porta perguntando se estava tudo bem. Ela deve ter ouvido gritos... Mas desde aquele dia ele me cercava pelos corredores. Me seguia na rua. E dizia que entre a palavra dele e a de uma cigana, jamais acreditariam na de uma cigana. Falava que éramos ladrões, inferiores, mas que me amava mesmo assim. No dia em que me formei, ele foi ao acampamento e fez uma proposta ao meu pai. Ele achou que podia simplesmente me comprar, me levar para ele, mesmo tendo esposa e uma filha. Ofereceu muito dinheiro por mim. Yago o esmurrou porque eu chorei quando o vi entrar na tenda do meu pai. Eu nunca contei para ninguém, mas tenho certeza que Yago sabia de algo.

– Meu Deus! Eu vou matar este filho de uma puta se ainda estiver vivo...

– Depois disso, me agarrei ainda mais à promessa. Eu detestava homens. Sempre os odiei. Tolerava os da minha família. Quando eu ouvia as garotas gritando em suas noites de núpcias, eu revivia todo o terror e o que o diretor dizia sempre voltava à minha cabeça: “Mulheres com o corpo como o seu foram criadas por Deus para satisfazer homens como eu”. – Luna cobriu a cabeça com as mãos. – Eu nunca consegui gostar de mim e do meu corpo. Nunca mais. Porque alguma coisa dentro de mim ainda acredita que a culpa é minha, entende? Eu tinha essas curvas malditas, eu deixei ele se aproximar...

– Luna, você não tem culpa! Pelo amor de Deus. Era uma criança. Porque não me contou isso antes?

– Porque isso é uma grande desonra para uma mulher. Por pouco ele não me estuprou. Faltou bem, bem pouco.

– Por isso você defende Yago desse jeito... Ele esmurrou o bastardo, filho da mãe. – Daryl pensou em voz alta.

Luna assentiu.

– E por isso tem horror a intimidade e acha que homens querem apenas se satisfazer...

– Eu não posso satisfazer homem algum. Eu nunca mais quero ser ticada daquele jeito. E quando vi as marcas roxas no corpo de Carol... Ele me deixou roxa daquele jeito depois que me derrubou no chão. Ele me apertou tanto que fiquei toda marcada.

– Desculpa por ter que ter visto Carol daquele jeito... – Daryl abraçou Luna tão forte. Queria ter se fundido a ela. – Nem sei como conseguiu fazer amor comigo depois de ter vivido tudo isso.

– Também não sei. Mas você não me machucou. E eu o amo... Só acho que devia procurar alguém que pudesse... Que tivesse a mesma energia que você tem para essas coisas. Eu nunca vou conseguir me soltar, nunca vou conseguir conquista-lo como Carol fez com você. Porque mesmo apaixonado por mim, você não conseguiu resistir a ela. E eu jamais conseguiria uma proeza dessas. Fiquei totalmente travada. Não sei fazer, Daryl, não sei! E não quero mais ser a vítima, não quero ser frágil... Ser fraca me fez procura-lo e olha o que me aconteceu! – a cigana vomitava anos de silêncio e dor em cima dele. Daryl a abraçava e só desejava poder tê-la protegido.

Agora tudo, TUDO fazia muito sentido. O seu jeito arredio, o fato de ter tentado fugir dele na floresta, a mania dela de se achar inferior e de que ele iria abandoná-la. E, especialmente, sua reação cheia de ódio e raiva quando descobriu que Daryl a havia "sequestrado".

– Só me fala uma coisa, Luna. Qual era o nome deste desgraçado e onde ele está?

Ela empalideceu mas sussurrou:

– Sei que ele foi transferido de instituição, saiu da cidade com a família e nunca mais os vi. E me lembro do sue primeiro nome: Philipe.

Notas finais
Vocês estão TÃO chocadas quanto eu? Comentem!!!

E a reação do Daryl a isso tudo? HELP!

Beijos enormes da Amora