Forasteira

3 Noite na floresta


Ainda aturdida, Luna ficou ali, imóvel. Nem se deu conta de que Daryl estava praticamente montado nela. E ele aproveitou os minutos de total ausência de reação por parte da cigana para examiná-la melhor. Era realmente um rosto feminino diferente dos que conhecia. Não se assemelhava exatamente ao de uma índia, ao de uma latina, porque sua pele era clara. Mas seus traços não tinham nada de sútil. Parecia exótico para ele, um cara do interior da Georgia, acostumado a viver em um mundo simploriamente dividido entre loiros e pretos. Tentou decidir se estava espantado de admiração ou se estava apenas espantado. O corpo de Luna também acabava de se revelar um enigma: era esguia e até alta, sem dúvida. Mas tinha quadris destacados, coxas fortes, cintura muita fina – talvez contida pelas várias voltas do cinto de couro – e seios médios. Era magra, mas tinha volume. A carne macia e tenra teria sido um bom banquete para os zumbis, pensou Daryl.

– Ótimo momento para uma trepada gostosa, maninho! Deixe um pouco para o velho Merle também... – Merle estava às gargalhadas, parado bem atrás de Daryl e Luna.

– Merle, eu não tinha dito pra você esperar lá, cacete? Uma horda de zumbis acabou de atravessar o caminho. A donzela aqui ainda está lembrando da trombada que deu com um deles. Pirou total e agora estamos sem um acampamento seguro pra passar a noite e com esse fardo para carregar. – resmungou, Daryl.

– Pois carregue você, Romeu, a sua Julieta cigana. Eu disse pra deixar essa piranha pra trás e você não ouviu, não foi mesmo? Então, se vira ai leva-la no lombo e sozinho! – respondeu, bem ao estilo Merle de ser.

Daryl deu de ombros. Tratou de sair de cima de Luna.

– Ei, Luna. É Luna seu nome, não é?

– É... – murmurou a moça.

– Você pode se levantar ou está machucada? — perguntou o rapaz.

– Não... Eu vou levantar. – respondeu decidida. Tentou se erguer, mas viu o mundo girar a sua volta e entendeu que era melhor voltar a se deitar.

– Você está zonza. Vou ajudar, pera aê... – Daryl passou o braço por trás da nuca de Luna e apoiou sua cabeça, enquanto a cigana levantava o tronco e sentava-se.

– Você não tem a menor condição de andar... constatou, Daryl – Já que estamos mesmo fodidos, melhor tentar improvisar um acampamento. De manhã, cada um segue seu caminho. Você compreende o que eu digo?

– Tenho que voltar agora, não posso deixa-los de jeito nenhum – disse tentando se erguer, sem muito sucesso. Daryl a segura no chão e dispara:

– Seus filhos estão sozinhos ou tem alguém cuidando deles?

– De onde você tirou que tenho filhos, caçador? – questiona Luna sem entender aquela conversa sem pé, nem cabeça.

– Você disse que tinha crianças para alimentar... A menos que você tenha mentido. Nçao me espantaria...

– Ah, claro... Devia ter imaginado! Pra você ciganos são todos mentirosos, ladrões, foras da lei. Eu não menti sobre as crianças. Porém, não são meus filhos. São crianças do meu bando. Vivemos em família, em clãs... Não é possível que você nunca tenha visto um filme com aquela imagem clássica dos ciganos na fogueira e tal...?

– Ah, entendi. Tá certo. Chega de papo. Essas crianças estão a salvo?

– Sim, acho que sim.

– Então podem esperar por você até amanhã. – disse decidido.

Daryl tirou uma lona e montou a barraca sobre ela. A noite estava fria e uma garoa fina e chata caia para atrapalhar ainda mais a vida de todos.

– Garota, entra na barraca. Está garoando.

– Você vai dormir onde?

– Aqui fora. Vou ficar de vigia enquanto você e o Merle descansam lá dentro.

– Não vou dormir com homem nenhum do meu lado. Prefiro ficr de vigia com você.

– Nem pensar. Entra nessa barraca de uma vez. Tudo o que eu não preciso é que você pegue uma pneumonia ou coisa pior que a impeça de tomar seu rumo de manhã...

– Ninguém muda o rumo de uma cigana, caçador.

– Daryl. Já disse meu nome. Terei que repetir quantas vezes?

– Daryl, pois bem. Aí eu não entro. Muito menos com seu irmão.

– Puta que pariu! Vem aqui, senta aqui do meu lado. Veste isso! — falou o rapaz, obrigando Luna a vestir o poncho que ele acabara de tirar da mochila. – Não quero ouvir um pio sobre frio. Merle, a barraca é toda sua.

– Que pena que a donzela não me concederá uma noite dE amor cigano caliente... – riu, entrando na barraca e fechando o zíper.

– Vou vomitar! – rebateu Luna, ao lado de Daryl e já agradecida pelo poncho. A noite estava gelad.

Eles se ajeitaram, apoiando-se numa árvore gigantesca e passaram duas horas só olhando os arredores. Não trocaram palavras, ruídos, olhares. Nada. Daryl, por incrível que pareça, resolveu quebrar o silêncio:

– Cigana, hein? Você é diferente das mulheres que conheci até hoje.

– Não estou pedindo para você gostar, caçad... Daryl. Não sou a Miss Universo. Não tenho a beleza que você e seu irmão provavelmente gostam. Sou romani, tenho cara de romani. Sinto muito se isso te deixa chateado... – ela estava com a guarda levantada.

Daryl deu de ombros. Talvez porque não tivesse o que responder. De fato, ela não era a Miss Universo. Mas era bonita, SIM. De um jeito totalmente novo para ele. Algo nela o agitava por dentro. Ele sentia o cheiro de incenso nos seus cabelos e teve vontade de tocá-los. Em outros momentos torceu para que ela arranjasse algum pretexto para levantar e assim deixar à mostra de novo a silhueta exótica. Apesar de haver tantas vontades borbulhando em seu peito, Daryl entendeu que não existia tensão sexual no ar, como a que ele tinha experimentado com Carol, dias atrás. Era mais como estar momentaneamente enfeitiçado.

Minutos de silêncio...

– Obrigada. – as palavras saíram da boca dela antes que pudessem ser censuradas.

– Pelo o quê?

– Por ter salvado minha vida. Se tem uma coisa que um cigano não pode ser, é ingrato. – disse, Luna.

– Tudo bem. – Daryl se virou para procurar algo na mochila. Quando achou, disparou:

– Ei, Luna. Me dá seus pés aqui.

– Pra quê?

– Está frio, tenho meias extras. Vista-as! Você vai se sentir mais aquecida.

Luna achou aquilo bastante doce vindo daquele caçador. Normalmente, seu orgulho a impediria de aceitar o presente. Mas estava mesmo com muito frio e decidiu ficar com as meias.

A moça tentou acompanhar Daryl na guarda até o amanhecer. Mas não aguentou. Dormiu, levemente reencostada no ombro dele. Seus sonhos foram agitados e quando ela deu um solavanco, Daryl colocou a mão na sua cabeça, um pouco hesitante. No momento em que seus dedos tocaram os primeiros fios, no entanto, ele não resistiu e aninhou-os nas madeixas sedosas, agora com algumas gotas de sereno salpicadas.

Ele esperou Luna acordar e quando isso aconteceu, ela se desfez das meias e se ergueu apressada para seguir viagem até o acampamento.

– Obrigada novamente, Daryl Dixon. – disse, num tom de voz calmo e baixo.

Seu nome sendo pronunciado por inteiro por Luna fez com que um arrepio percorresse sua espinha inteira. Ele tinha gostado. Ou estava só carente? Ou ambos?

– Espera. Toma isso aqui. Leve para as crianças – disse estendendo o esquilo. Aquele mesmo que tinha dado início a toda esta confusão.

Os olhos de Luna se encheram de um brilho que Daryl quase pensou serem lágrimas.

– Olha... Venha comigo. Você e seu irmão precisam de um banho e de um ponto para descansar. É justo. Vocês me abrigaram. Então, também lhes devo abrigo.

– Vou aceitar, Luna. Merle está machucado. Precisamos de tempo e um pouco de sossego.

– Certo. – ela respondeu, esperando os irmãos se aprontarem para seguirem viagem.

Daryl era um homem bastante bonito. E isso não passava despercebido por Luna. Mas ela havia sido educada na cultura romí. E aprendera a admirar gadjés (não-ciganos) sem segundas intenções. Especialmente porque, no seu caso, mesmo que ele fosse um cigano legítimo, não haveria chance dos dois se envolverem. Sem contar que Daryl, aparentando ter seus 33, 35 anos – já estaria casado, com filhos e até netos se fosse um romani, como ela.

Enquanto ele guardava a lona na mochila e ajeitava a besta nos ombros, seus olhares se cruzaram. Ele deu um meio-sorriso de canto de lábios, quase invisível. E ela lhe devolveu a gentileza com um aceno de cabeça. Daryl Dixon tinha se mostrado um homem íntegro e generoso. Aquilo a havia pego de surpresa. E agora estava tentando dar um nome para o sentimento agradável que a companhia do caçador despertara em seu peito. Difícil...

Mal sabia Luna que, internamente, Daryl vivia exatamente o mesmo dilema.

Notas finais
O que estão achando da história? Comentem, please!