Notas iniciais
Oi, queridos leitores. Mais um capítulo. Neste começo vamos entender melhor como os laços de Daryl e Luna se formam. É complicado. Logo perceberão que não vai rolar um Daryl versão pornô, querendo prensar Luna na primeira árvore que encontrar (até Norman Reedus já disse que Daryl não é disso, lembram? rsrs).

Da mesma forma não veremos uma Luna desesperada para se deitar com ele, pelo contrário. Esta personagem é muito convicta de suas raízes e é apaixonada pelo seu povo, seus costumes. Aqui também vocês verão algumas tradições do povo cigano :) Ela vai brigar para se manter fiel a si própria.

Está ficando complicado, mas ela luta, sim. E é isso o que estes dois personagens tem em comum: o instinto de luta e sobrevivência, não é?

"Mas, Amora, não vai rolar nem um beijinho? Nenhum romancezinho?". Hummm... Vamos deixar a história responder, mas tem tudo para #Luryl rolar mais para a frente.

Capítulo dedicado à Hiromi que deixou o primeiro comentário - coisa mais linda - para minha fic :) Beijos enormes pra vc, Hiromi ♥

Já fazia quarenta minutos que a Luna, seguida de Daryl e de um revoltado Merle andavam pela mata. A cigana interrompia a caminhada algumas vezes e, parada diante de arbustos ou árvores carregadas de frutas estranhas, avaliava mentalmente se valia a pena apanhar folhas, cascas de madeira ou uma fruta qualquer.

– Algumas folhas e cascas usamos para infusões curativas. Meu avô, Aguilar, costumava dizer que a floresta guarda tudo de que um bando cigano precisa: comida, remédios, água fresca e flores para enfeitar os cabelos da cigana que roubar seu coração.- Luna explicava, sem se preocupar se o assunto interessava aos seus interlocutores. Era como uma terapia falar sobre suas raízes. Ela se sentia viva novamente, como que transportada para uma época em que sua maior preocupação era escolher um belíssimo traje para usar durantes as slavas, as festas religiosas que eram tão importantes para o seu povo. Ela tinha carinho especial pela slava de Santa Sara Kali, que ocorria sempre no fim de maio, dias antes do seu aniversário. No ano que vem, logo após a slava de Santa Sara, ela teria sua festa de 25 anos e receberia o véu com o qual cobriria a cabeça para o resto dos seus dias. Assim, terminava de completar a promessa feita por seu pai à padroeira. “Estarei viva até lá? Algum romaní ainda andará sobre a Terra quando chegar o meu dia de cobrir a cabeça?”. Sentiu terror de morrer em dívida com sua Santa Sara. Preferia ser arrastada por um cavalo.

– Mi Devel Opral, dick tule opré mande! – murmurou ela, fazendo o sinal da cruz.

– Nossa, não entendi nada do que você falou. Que língua é essa? — Daryl perguntou.

– É uma expressão antiga do meu povo. Quer dizer “Meu Deus que está nas alturas, olhe por mim aqui embaixo”. – respondeu um pouco envergonhada. Estava torcendo para que o caçador não a questionasse o porquê dela ter se lembrado dessa frase. Só de pensar em ter que explicar toda a história do seu nascimento [Vide sinopse] já fazia com que seu estômago se revirasse. Ela era muito grata ao que o pai havia feito por ela. Mas os gadjês tinham o detestável costume de questionar com quem direito seu progenitor a condenara a uma vida de solidão, sem marido ou filhos. Eles não podiam entender. E Luna estava sem energia ou paciência para explicar.

– Ah, bom. Achei que estivesse me xingando na sua língua nativa, cigana.... Aliás, como eu vou saber se você não tá me sacaneando em, em...

– Em romaní? Não tem como você saber, caçador. Terá de confiar. Simples assim. – deu um sorriso de canto de lábios e fez Daryl parar instintivamente. – Que foi? Por que parou?- perguntou Luna.

O rapaz sacudiu de leve a cabeça, como que fazendo esforço para voltar ao foco no tranco, e disparou:

– Como se diz obrigado em romaní? – perguntou.

– Se diz ‘nais tuke’. – respondeu a moça.

– E como eu falo “Meu nome é Daryl”? – continuou ele.

– “Me som Daryl’’ – disse, tentando deixar a pronúncia bem nítida para que ele pudesse treinar e se divertiu quando o caçador tentou praticar a conversação romaní.

– Como se diz ‘linda’? – seguiu, Daryl. Ele não jogava conversa fora desse jeito há quase um ano. E Luna tinha se mostrado aberta a acompanha-lo. Isso deixou a longa caminhada mais leve. Exceto para Merle que continuava blasfemando toda sorte de pragas contra a cigana. E até contra Daryl.

– Se diz “shukar”. Pretende arrumar uma namorada no acampamento, por acaso? – Luna perguntou divertida.

– Quem sabe? – Daryl rebateu.

– Gadjê gadjensa, rom romensa, caçador!

– Quê?

– “Não ciganos com não-ciganas, ciganos com ciganas”. Nada de mistura no nosso bando!

– Certo. – Daryl entendeu o recado muito bem. Ele fixou os olhos no solo. Viu os pés descalços de Luna se movimentando rápido. A lama a obrigava a erguer a saia uns dois palmos acima do chão. Suas pernas, ou o pouco do que conseguia ver delas, eram tão bonitas e misteriosas quanto todo o resto naquela mulher. Ele sentiu sede de desvendá-los. Sentia que ela escondia alguma coisa ainda... Mas resolveu dar tempo ao tempo.

– Estamos quase chegando, senhores. – Avisou Luna já avistando os trailers e uma fogueira acesa do outro lado de uma pequena estrada de terra.

Assim que pisou em solo legitimamente cigano, foi recebida por todo o bando. Estavam claramente felizes em vê-la de volta, mas não entendiam quem eram os homens que a seguiam.

– Magdala, minha prima... Este aqui é Daryl Dixon e seu irmão Merle – apresentou sem conseguir disfarçar uma breve careta – eles me salvaram de um ataque na floresta e precisam de teto, banho e comida quente. Pode ajudá-los a se acomodar?

Enquanto Magdala, uma cópia vinte anos mais velha de Luna, saiu para providenciar tudo, Daryl deu uma geral no acampamento. Eram 8 mulheres, 7 crianças e 4 homens, todos já de certa idade. Pensou que aquilo fora tudo o que devia ter sobrado de uma grande comunidade cigana. Engoliu em seco. As crianças comemoraram quando Luna mostrou o esquilo e as folhas para o chá. Eles se alegravam com tão pouco. Era de partir qualquer coração mesmo...

Magdala voltou pedindo que os irmãos trouxessem suas coisas para dentro de um trailer. Ofereceu duas redes e toalhas limpas, dizendo que voltaria para avisá-los quando a água estivesse quente o suficiente. Ah, um banho quente... Era como uma chuva de ouro em pó em tempos miseráveis. No trailer, Merle se encostou, enquanto outras duas ciganas chegaram com um tipo de unguento para tratar seu braço ferido. A coisa devia arder e muito. Daryl viu Merle sussurrar vários palavrões enquanto recebia compressas daquele medicamento na ferida causada pelo punha de Luna.

Daryl desceu e foi para perto da fogueira. Nunca gostou de ver as pessoas fazendo as coisas por ele. Talvez fosse total falta de costume, mas se sentia inútil daquela maneira. Quem sabe não poderia ajudar em algo...? Tinha que haver algo. Seus pensamentos foram interrompidos por uma revoada de pássaros. Olhou para o céu e, em poucos minutos, sabia como ocuparia seu tempo livre. Preparou a besta e adentrou alguns metros mata adentro, logo atrás do acampamento de Luna. O caçador mirou em um galho alto e assim que disparou o gatilho de sua arma, viu a flecha derrubar a primeira rolinha. Deu uma olhada. Talvez se conseguisse mais umas cinco, aquelas crianças poderiam se alimentar melhor. E assim foi. Quando empilhou seis rolinhas, pegou o caminho de volta ao acampamento.

Chegando ali, entregou o jantar nas mãos de uma das ciganas que havia cuidado de Merle mais cedo. Ela agradeceu com os olhos marejados e disse que iria preparar com mais alguns vegetais.

– Seu banho está pronto. Luna pediu para entregar-lhe isto – disse Magdala estendendo uma jarra com líquido esverdeado. Daryl instintivamente cheirou. Era maravilhoso. Um mix de folhas e parecia ter também canela e outra especiaria que ele não conseguiu identificar, mas sabia que tinha um aroma quente, aconchegante.

– O que é isso? – perguntou, intrigado.

– É uma receita de infusão para um banho cigano. Luna pensa que você carrega uma grande dor interior. Cremos que esta infusão pode ajudá-lo a se sentir em paz, afastar um pouco a dor, sabe? Despeje pelo corpo durante o banho. – Daryl tentava absorver toda aquela informação e que papo era aquele de dor interior? Não que fosse alguma mentira, mas detestava descobrir que estava sendo avaliado sem sua permissão. Sentiu-se invadido, isso, sim. Porém aquilo não era hora, nem o local para fazer desfeita. Pegou a jarra e agradeceu. Dirigiu-se ao trailer, apanhou a toalha e caminhou em direção a uma espécie de guarita, cercada por bambus e tapumes de madeira no chão. Era ali onde os ciganos se banhavam. Ok. Ele tinha tomado banho em locais muito piores que esses. Além disso, tudo estava impecavelmente limpo.

Chegando mais perto, pode ouvir um cantarolar baixinho. Bem afinado, mas tão baixo, que chegava a ser um sussurro. Aproximou-se pé ante pé e pode ver Luna sentada em um banco de madeira talhado, penteando os longos cabelos molhados. Ela vestia outra roupa agora: um vestido de mangas longas azul turquesa, o decote era bastante discreto, não mostrava quase nada, mas contornava o colo com uma delicada renda preta. A mesma renda desenhava a barra da saia. E, claro, o mesmo cinto de couro estava amarrado em várias voltas na cintura. As mãos, sempre adornadas pelos seus anéis, traziam as mechas escondidas atrás da nuca para frente para serem desembaraçadas com ajuda de um pente de madeira. Uma toalha usada pousava ao seu lado, no banco. Tudo indicava que ela acabara de sair do banho.

Sua pele agora tinha vigor que antes Daryl não percebera. Talvez pelo fato de não estar suja de terra. As maças do rosto tinham até um corado diferente, bem como os lábios carnudos. Engraçado: era a mesma figura exótica de antes, numa versão deslumbrante. Sim, ele estava sem mulher há um ano e, claro, não precisaria de nenhuma top model para se sentir imediatamente excitado... Mas aquilo era um outro nível de encantamento e estava especialmente difícil entender de que maneira ele resolveria isso na sua cabeça. Transar, ele sentiu vontade de transar com Carol. Se tivesse passado mais uma semana naquele presídio provavelmente teriam fabricado uma nova Sophia, tamanha era a tensão sexual entre eles. Estava por um fio. Ele só teria precisado de uma alça de blusa caída ou um pequenino pedaço de pele da barriga à mostra... Nada mais que isso. Teria simplesmente baixado a guarda e se entregado em noites e mais noites de amor com Carol. Isso era atração carnal. O que Luna fazia com ele era diferente.

Óbvio que existia o componente atração. Estaria mentindo se negasse. Mas havia uma aura diferente naquela história toda. Ele tinha um enorme respeito por aquela mulher. Não só pelo o que a havia presenciado fazer com os zumbis, ou maneira como corria como um fantasma mata adentro ou sua lealdade que havia sido testada por Daryl de todas as maneiras naquela noite de vigia. Daryl não tinha esquecido que havia autorizado Luna a recolher seus punhais quando deixou com que ela se sentasse lado a lado com ele durante a vigília. Rápida como era, poderia ter rasgado seu pescoço antes que ele mesmo pudesse se dar conta do que acontecia. Mas ela não fez. Também não se deixou proteger, não bancou o papel de mulherzinha. Nem quando achou que havia caído direto no colo de um walker. Ele a resgatara do comedor de carne e pôde ver bem a reação da cigana. Ela fechou os olhos, serena. Aceitou a morte da maneira mais digna que ele já havia visto alguém fazer. Então, era isso: Daryl Dixon estava absolutamente enebriado pelas qualidades daquela criatura. Se acreditasse em Deus, pensou, seria assim que se provavelmente se sentiria diante da imagem de uma santa? Talvez... Por isso, apesar da figura de Luna encher seus olhos de brilho e seu peito de desejos, Daryl relutava em se aproximar. Ela era algo como sagrada para o caçador, agora. Só restava saber, como tocar o resto dos seus dias em meio ao apocalipse zumbi, sem deixa-la para trás.