Forasteira

9 No caminho para a prisão


Notas iniciais
Queria tantos outros leitores mais... Gente, deixem por favor suas críticas, assim posso melhorar a fic, tá? beijos enormes, Amora. Capítulo dedicado a Thai Mendes que me deixou um review lindo de viver! E Andressa, obrigada por acompanhar, amore!!!! Adoro ter sua companhia ♥

Mais beijos

Com muita dificuldade Daryl, Merle, Yanka e Luna chegaram à estrada de terra. Alguns walkers andavam sem rumo. Daryl atirou em todos, recolheu as flechas e decidiu sentar Luna na beira do asfalto. Ele precisava ver como aquele ferimento estava. Mas nem precisou de muito tempo para compreender que a coisa ia de mal a pior. O sangue agora escorria pelo braço de Luna, encharcando a parte da frente do vestido azul. Yanka se sentou ao lado da tia. Suas lágrimas caiam sem parar, mas a menina não fazia barulho.



– Olha, vou ter que abrir um pouco mais o seu vestido aqui, Luna...



– Nem pensar. Vou ficar completamente nua.



– Eu não vou achar ruim! – Merle disse, rindo.



Daryl o ignorou.



– Eu juro pra você que não vou abrir um centímetro a mais do que eu preciso. Sua ferida tá muito ruim. Desse jeito, você não vai aguentar andar.



– Isso não está certo! Não está... – Luna abaixou a cabeça, dando as costas à Daryl. Ele entendeu que aquilo era uma permissão. Retirou uma faca limpa do bolso e começou a rasgar o tecido com cuidado. Aos poucos a pele da cigana ia aparecendo por debaixo do tecido. Daryl avistava o contorno de sua cintura, banhada em sangue. A cigana estava arfante e deixou escapar um soluço quando sentiu os dedos de Daryl fazerem contato com suas costas. Ele a viu tapar o rosto com as duas mãos. Os longos cabelos cobriam toda a sua face. Luna estava envergonhada. O rapaz se sentiu mal. Parecia que a estava violentando e não queria que ela se sentisse assim, por Deus.



– Ei, ei! – Daryl se moveu, ficando frente a frente com Luna. Ela ergueu um pouco a cabeça, o rosto estava encharcado de lágrimas. – Não faz isso. Estou tentando salvar sua vida. De novo! E você tá fazendo com que eu pareça um filho da mãe de um estuprador, porra! – ele estava exaltado porque a moça não cessava o choro. Sua paciência fora levada ao limite. Ele se levantou e se virou para tomar um pouco de ar.



– É o que eu tinha te falado, maninho. Estamos aqui parados, como isca de zumbi. Faz o que tem que fazer logo e vamos dar o fora daqui! – Merle praticamente grunhia.



– Ele tem razão. Faça o que você tem de fazer. – Luna disse numa tacada só.



Daryl se aproximou e se agachou de novo, vendo as costas dela. Sentiu a cigana prender a respiração. Ela tentava se conter.



– Merle, você ainda tem aquele uísque ai com você?



– Tenho. Toma aqui! – disse atirando um cantil que Daryl apanhou no ar. Ele desenroscou a tampa e pensou um instante.



– Isso vai arder, Forasteira. Mas preciso fazer! – e começou a despejar o líquido na ferida da garota que agora mordia o braço com força, tentando abafar os urros de dor. Daryl rasgou a barra da camisa xadrez e a usou para limpar a pele em torno da ferida. A carne de Luna estava exposta. Eles precisavam chegar à prisão para que Hershel desse uma olhada naquilo.



– Acabou? – Luna perguntou quase sussurrando.



– Por enquanto, sim. – disse tirando o cadarço de sua bota. O que tinha restado. O primeiro ele havia usado no colar de orelhas de zumbi, meses antes, enquanto tentava achar Sophia.



– O que vai fazer? – Luna perguntou, encafifada.



– Vou fechar seu vestido atrás...



Com a ponta da faca, Daryl fez cinco furos de cada lado do rasgo em seu vestido. Na sequência, foi passando o cadarço por eles. Deu um nó na ponta.



– Pronto. Isso vai ajudar a manter a ferida protegida.



– Obrigada de novo.



– Tudo bem. Vamos ter que andar agora. Você acha que consegue?



– Tenho que conseguir – disse Luna já se levantando. Daryl deu as mãos para ela e a ajudou a se colocar de pé.



Começaram a caminhar. Yanka ia atrás de Merle, aparentemente o irritando.



– Como você perdeu a mão? Como você coça o nariz agora?



– Ciganinha... eu juro que você é muito irritante!



Daryl e Luna iam atrás.



– Obrigada – sussurrou Luna



– Pelo o quê?



– Por ter amarrado meu vestido, salvado minha vida, salvado Yanka... Já tá ficando chato...



– Acho que sua dívida triplicou agora hein, Forasteira?



– Vou pagá-la. Pode ter certeza que vou.



– A primeira parcela a gente dá como quitada se conseguir chegar à prisão comigo.



– Prisão?



–É... Nosso grupo encontrou uma prisão enquanto fugíamos. É um bom lugar. Tem enfermaria, banheiro, lavanderia... E as grades mantêm esses doentes aqui fora.



– É. Neste mundo quem vale alguma coisa é quem fica preso agora... – Luna divagava em voz alta.



Eles andavam num ritmo até que ok agora. Daryl calculava que faltavam apenas mais dois quilômetros até chegarem à ponte. Merle carregava Yanka pendurada no ombro. Nem Daryl estava acreditando que o irmão tinha tanto jeito com crianças. Aquilo era, definitivamente, o fim do mundo mesmo.



– O que você disse pra mim no acampamento? — Daryl quebrou o silêncio.



– Quando? – Luna despistava...



– Quando deu aquela merda toda com seu amigo maluco.



– Ah... Não lembro mais. – mentiu e virou o rosto para o outro lado. Daryl percebeu e não conseguiu disfarçar um meio sorriso.



– Ele era a fim de você, não era?



– Quem?



– O tal Yago.



– Ele tentou se casar comigo algumas vezes. Seu pai ofereceu diversos dotes ao meu. Mas até parece que isso seria possível... Papai nunca quebraria uma promessa à Santa Sara.



– Um dote, você quer dizer, dinheiro...?



– Quero dizer ouro. O dote do casamento é pago em ouro.



– Então, ele meio que compraria você.



– Não é exatamente uma compra...



– Seu dote era alto? – Daryl perguntou e percebeu que Luna corou.



– Era sim. Um dote bastante alto para os nossos padrões. – respondeu ainda corada.



– Por que? – Daryl não aguentou e perguntou – Não que você não valha, mas...



– Eu entendi a sua dúvida, Daryl. Meu dote era alto por uma série de motivos. Por conta da minha história, principalmente. Ela é praticamente uma garantia de pureza. – Luna respondeu torcendo para que ele não perguntasse mais nada. Em vão.



– Porque você é virgem? – ele parou por um segundo olhando para ela.



–É, isso. – disse Luna forçando-os a voltar a caminhar.



Mais um longo período de silêncio que Daryl voltou a quebrar.



– Se você se casasse como seria o casamento?



– Você jura que quer mesmo saber isso?



– Se não quiser responder, tudo bem...



– Não tenho problema em responder, mas não entendo porque você está tão curioso...



– Só curiosidade, cigana. Só isso! Eu vivi muito nessas matas, caçando. Nunca esbarrei em nenhum cigano. Estou aproveitando o apocalipse pra ver se adquiro um pouco de cultura – disse irônico.



– Certo! Neste caso, então, vou responder... – Luna achou graça.



– Tô ouvindo...



– Bem, se eu me casasse... Meus pais escolheriam um noivo de uma boa família cigana e faríamos três dias de festa. No primeiro o pai do noivo viria pagar o dote. Ele se reuniria numa mesa junto com os homens da minha família e quando o negócio fosse acertado, ai sim a festa poderia continuar. Então seguiríamos em cortejo para a igreja. O padre nos casaria e voltaríamos para o acampamento. Ali uma festança nos esperaria. No meio da noite, os noivos são convidados a se recolher para a noite de núpcias...



– Tipo no meio da festa?



– É! As ciganas mais velhas preparam o quarto e a noiva. Os lençóis devem ser brancos. Depois que os noivos consumam o casamento, sabe como...



– Sei bem – Daryl não conseguiu deixar de rir com a timidez de Luna.



– Então, depois disso, as ciganas entram para verificar a mancha de sangue no lençol. Ela é a prova de que a noiva era virgem.



– E se a noiva não for?



– Isso é uma desgraça... Uma desonra para o pai dela. A noiva acaba sendo devolvida.



– E este lençol aí? O que acontece?



– Este lençol, em alguns acampamentos, fica exposto como prova da virgindade da noiva. Mas no nosso, ele é guardado de presente para os pais da noiva. Uma bandeira cigana é hasteada em homenagem a nova mulher do acampamento. Os dois dias seguidos são de mais e mais festa. É um ritual bonito! Mas minhas amigas me disseram que foi tufo muito dolorido... – ela abaixou a cabeça, tímida.



– É. Deve ter sido mesmo. Homens que não sabem fazer direito machucam mesmo... – Ele percebeu que aquela conversa estava deixando Luna incomodada.



– É o preço que se paga por ser mulher. Se você não sangrar, é pior. Bem pior! Pelo menos as coisas não ocorrem sem sentido.



– Como assim sem sentido?



– Não fazemos, você sabe, “isso” sem estarmos casados. Quer dizer, você divide esta intimidade com a pessoa que tem obrigação de te respeitar.



– Olha, a julgar pelo casamento dos meus pais, posso te dizer que nem sempre isso é uma garantia de respeito.



Luna ficou com dó de Daryl. Ele devia ter uma família bagunçada. Não precisava ir muito longe para entender, bastava conhecer Merle. Será que seus pais tinham sido ainda piores para ele? Mais um período de silêncio.



– Sabe de uma coisa? Eu não te machucaria para provar porra nenhuma a ninguém. Fodam-se os costumes! – Daryl disse aquilo meio sem entender o porquê de ter dito. Ele apenas vomitou as palavras. Precisava dizer que não era como aquele babaca do Yago. E agora Luna o olhava um pouco pálida. Estava surpresa com o que ele acabara de dizer.



– Isso é doce da sua parte. – disse abaixando a cabeça.



Céus como ela era bonita. Estava suja, ensanguentada, pálida e era maravilhosa desse jeito mesmo. Daryl ficou imaginando aquele porco do Yago em cima dela, desabotoando seu vestido, abrindo suas pernas e penetrando-a sem cuidado algum. Ele imaginou Luna gritando de dor, se agarrando aos lençóis e deixando as lágrimas caírem enquanto o babaca fazia o favor de lhe arrancar sangue. Como alguém podia querer tirar sangue de uma criatura dessas? Daryl não conseguiu deixar de se colocar no lugar de Yago. Como ele faria com aquela cigana de anos, virgem? Ele não sabia o que era se deitar com uma garota virgem há pelo menos uns 15 anos. A maior parte das vezes, ele acabava trepando com alguma prostituta barata. Ou com frequentadoras de clubes de snooker. Merle tinha pago a mulher que tirou sua virgindade, aos 13 anos, montando em seu colo, cavalgando-o como uma louca. Daryl convulsionava. Fechava os olhos para se concentrar no que seu corpo sentia, porque a imagem daquela puta de cabelos muito platinados montada nele era bizarra.

Como teria sido perder a virgindade com alguém que se importava com ele? Bom, talvez seja disso que Luna estava falando. Entregar-se para alguém que se daria ao trabalho de cuidar de você. Ele se desdobraria em mil para cuidar daquela cigana. Daryl sabia que este era um caminho sem voltas para um Dixon acostumado a tanta solidão. Deveria sentir medo. Mas tudo o que ele sentia agora era uma enorme vontade de cravar suas unhas roídas em Luna e nunca mais deixá-la se soltar dele.